domingo, 29 de novembro de 2009

O risco Serra


A vitória do candidato da Frente Ampla, José Mujica, na eleição presidencial do Uruguai, reafirma a trajetória da América do Sul em direção de governos de esquerda, populares, com nítida preocupação social e desejo de mudanças profundas em sociedades amplamente injustas e desiguais.
O Brasil de Lula, com todos os seus defeitos, é a fonte inspiradora dessa onda progressista, muito mais que o temido - pelos conservadores - "chavismo bolivariano", até agora uma carta de excelentes intenções sem grandes resultados práticos.
Porém, para que o continente possa colher, nos próximos anos, os frutos dessas administrações que têm mostrado um novo caminho não só para os povos da região, mas para todo o mundo, é imprescindível que o governo Lula faça o seu sucessor.
Uma vitória, improvável, mas não impossível, de um candidato oposicionista - e é quase certo que ele seja o governador paulista José Serra - custará muito caro não só para o desejo brasileiro de vir a se tornar uma potência econômica e social, mas para todos os países vizinhos, que, como nós, saíram da idade das trevas para a descoberta da luz.
Todos sabem o que é um governo tucano, seus compromissos com o grande capital, sua aversão aos movimentos sociais e sindicais, seu divórcio das causas populares, seu amor ao Estado mínimo e a tudo o que ele representa e, por último, sua submissão ao grande irmão do norte.
Serra presidente será o fim de todos os sonhos.

Imagens devastadoras

Começou a debandada.
Segundo informou a Agência Brasil, o PPS se prepara para deixar a base aliada do governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (DEM). As executivas nacional e no DF devem se reunir na terça-feira em Brasília para definir a questão e recomendar que o secretário de Saúde, Augusto Carvalho, peça exoneração do cargo em decorrência das denúncias de corrupção investigadas pela Polícia Federal na operação Caixa de Pandora.
Arruda e seu vice, Paulo Octávio, ambos do DEM, assessores do governo do Distrito Federal, deputados distritais e empresários estão no centro das denúncias investigadas pela Polícia Federal, que apontam a existência de um suposto e complexo esquema de corrupção.
No esquema haveria superfaturamento de contratos, irregularidades em licitações e pagamentos de propinas. Segundo as apurações, cerca de R$ 600 mil foram repassados por meio de arrecadação de empresas privadas que mantêm contratos com o governo do Distrito Federal. Imagens de vídeo feitas pelos policiais mostram Arruda recebendo dinheiro.
Já o comando nacional do DEM, pressionado internamente, prepara a desfiliação e futuramente a expulsão de Arruda. “Existe um fato e denúncias. Contra fatos e denúncias o combate são fatos e não versões. É assim que funciona. Vamos dar ao governador o espaço que ele precisa para se explicar. Mas o clima de desconforto é grande. Aguardamos a defesa dele, mas grande parte do DEM pensa na desfiliação e até na expulsão”, disse o senador Demóstenes Torres.
Demóstenes contou que Arruda passou o domingo conversando, por telefone, com cada integrante da executiva nacional do DEM. Nas conversas, o governador tentou explicar as imagens em que aparece recebendo dinheiro do então assessor Durval Barbosa.
Para o presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Cezar Britto, "a imagem do governador sentado em uma cadeira recebendo um pacote de dinheiro é devastadora".Britto comparou as denúncias ao caso de corrupção envolvendo o ex-presidente do Peru Alberto Fujimori e o seu ex-chefe de Inteligência Vladimiro Montesinos. Fujimori foi condenado a sete anos e seis meses de prisão por ter pago US$ 15 milhões a Montesinos, em setembro de 2000.
Ele lembrou que esta não é a primeira vez que Arruda é envolvido em escândalo. Em 2001, ele teve que renunciar ao mandato de senador da República no episódio do painel de votação eletrônico. Arruda chegou a chorar na frente às câmeras de televisão na ocasião, dizendo: “Não matei, não roubei e não desviei recursos públicos."
Em 2001, quando foi acusado de violar o painel eletrônico de votação do Senado, Arruda também teve uma estratégia inicial de ficar no cargo. Foi até a tribuna da Casa e jurou pelos próprios filhos que era inocente. Quando as evidências se avolumaram, acabou renunciando.
Arruda já era.
Agora vamos ver no que vai dar o caso dos tucanos paulistas, acusados de receberem dinheiro da construtora Camargo Corrêa.
Apostas na mesa...

No ar...

O Esquerdopata voltou ao ar nesta manhã.
De madrugada, quem o acessava lia um aviso de que ele havia sido removido pelo administrador, no caso o Blogger.
Olho vivo...


Fora do ar

O blog Esquerdopata, do Valdir Fiorini, foi removido de seu endereço, sabe-se lá o motivo. De qualquer forma, é algo preocupante.
Se aconteceu com ele, pode ocorrer com qualquer um - e isso não é bom para ninguém.
Antes, o FBI - Festival de Besteiras na Imprensa, também já havia sido defenestrado do seu endereço.
Por coincidência - ou não - os dois estavam hospedados aqui no Blogger.
De qualquer forma, se esses fatos fazem parte de alguma campanha higienista, que visa "limpar" a internet de algumas vozes mais estridentes à esquerda, ela está fadada ao insucesso completo.
Isso porque apenas imbecis podem supor que um ato tão primário em sua violência tem alguma chance de dar algum resultado no Brasil atual, que vive uma fase inédita de consolidação da democracia.

sábado, 28 de novembro de 2009

Coisa de louco


No meu meio século e um pouco de vida já conheci, trabalhei e convivi com alguns tipos que me assustavam. Faziam coisas entre a irresponsabilidade, a maldade e o exibicionismo, coisas que dificilmente a grande maioria de nós era capaz de fazer.
Dou alguns exemplos.
Um deles era um mentiroso contumaz. Mentia sem perceber que quem o escutava já sabia que ele estava contando uma lorota. Acho que ele até acreditava nas suas invencionices.
Outro era um pai de família respeitável, bem educado com a vizinhança, boa praça mesmo. Só que havia acabado de sair da cadeia por ter chefiado um bando de assaltantes que aterrorizara algumas cidades do interior e chegara mesmo a matar um comerciante.
Um terceiro, que trabalhou comigo, era um sujeito inteligente, também bom chefe de família, conhecido por todos na cidade. Só que vivia enroscado em problemas como passar cheques sem fundos, dar pequenos golpes no comércio e coisas afins.
Havia também o consumista compulsivo, que torrava tudo o que ganhava em bobagens, mas morava em casa alugada. Esse também gostava de contar vantagens, era um garganta que fazia sucesso com as pessoas que não o conheciam.
Recentemente, li um livro que me emprestaram que alertava para a gente tomar cuidado com tipos assim, sedutores, com boa conversa, que vão ganhando no papo os que convivem com ele.
Acontece que, quando menos se espera, eles dão o bote, como um predador caça a vítima, colocam seus amigos, familiares, namorados, amantes, seja quem for, em situações absolutamente constrangedoras - para dizer o mínimo.
Eles passam por cima de tudo para chegar onde querem, para atingir seus objetivos.
A autora, uma psicanalista ou psicóloga brasileira, cujo nome esqueci, é peremptória em afirmar que tais sujeitos na verdade são psicopatas e deles deve-se fugir como o diabo foge da cruz.
Não tenho condições para dizer se o diagnóstico dela é correto, se existem tantos psicopatas soltos por aí e se é fácil, como ela escreveu, identificá-los.
Sei apenas que para certas pessoas, contar uma fofoca sobre alguém poderoso que elas um dia conheceram, pode até ser algo saudável, se isso for feito, digamos, numa mesa de botequim ou numa festa entre amigos.
Agora, quando essa fofoca sai num dos maiores jornais do país, com toda a pompa e circunstância que os personagens envolvidos merecem, é para desconfiar que o seu autor tem não um, mas muitos parafusos soltos.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Candidatíssimo


O Serra não é candidato a presidente.
Mas nesta semana já foi ao programa do Ratinho, da Luciana Gimenez, do Flávio Cavalcanti, do Gugu, do Sílvio Santos, do Chacrinha, ao Esta Noite se Improvisa, ao Show do Dia 7, ao Viva o Gordo, e até ao Circo do Arrelia.
Em todos, disse alto e claro: "Não sou candidato a presidente."
Mas informou ao telespectador que foi ele que criou o Bolsa Família, os genéricos, a aposentadoria, o salário mínimo, o salário desemprego, o Hospital das Clínicas, o auxílio-funeral e o Minha Casa, Minha Vida. Também, modestamente, disse que é o pai do PAC. E que odeia o mosquito da dengue.
Em todos, repetiu várias vezes: "Não sou candidato a presidente."
Mas avisou que vai baixar os juros; acabar com o que resta da inflação; desvalorizar o real para que os exportadores possam exportar mais; valorizar o real para que os importadores possam importar mais; reduzir as emissões de gás carbônico para salvar o planeta; baixar os impostos para que o empresário possa aumentar a produção; elevar os impostos para que o Estado possa funcionar melhor; privatizar a Petrobras para que o petróleo não seja só do Brasil, mas de todo o mundo, especialmente das grandes petrolíferas; e construir mais 200 praças de pedágio para que as estradas sejam mais lisas que a sua careca e brilhem mais que a sua cara de pau.
O Serra não é candidato a presidente, mas se fosse, iria prometer que não faz promessas e que, por ter sido o melhor ministro da Saúde de todo o mundo, o melhor ministro do Planejamento de todas as eras, o melhor engenheiro não formado de toda a USP, o melhor economista sem diploma de todo o Brasil, o melhor prefeito que não terminou o mandato de toda a história de São Paulo e, ufa!, o melhor governador paulista em exercício, faria muito mais pelo Brasil do que esse analfabeto do Lula e sua curriola do PT, que nunca tiveram competência para nada - e só chegaram onde chegaram por pura sorte.
Ainda bem que o Serra não é candidato a presidente, porque se fosse, o mundo não ia ter a menor graça.

O papel de cada um

O comportamento da economia brasileira em geral, que retoma a atividade do período pré-crise econômica global, levanta algumas reflexões sobre o papel do Estado e da iniciativa privada como indutores do desenvolvimento.
E, se de um lado já parece consenso que foram as ações anticíclicas do governo que apressaram a recuperação, por outro ainda está mal explicado o papel que tiveram os empresários no aprofundamento dos problemas pelos quais o país passou neste último ano.
A precipitação com que alguns setores industriais, como o automobilístico, por exemplo, iniciaram demissões em massa, contribuiu sobremaneira para a deterioração do cenário econômico, causando ainda graves problemas sociais.
Todos sabem que a economia é um mecanismo complexo, que só funciona bem quando todas as suas peças estão ajustadas - se uma emperra, várias outras se ressentem do enguiço e o movimento passa a ter sobressaltos.
Agindo da maneira afoita como agiu, a indústria afetou todo o funcionamento da máquina econômica. E prejudicou a si mesma, pois bancou gastos desnecessários com dispensas de pessoal imotivadas - as montadoras de veículos iniciaram as recontratações poucos meses depois de terem demitido seus empregados.
O desemprego no Brasil, felizmente, volta hoje ao nível baixo que exibiu em boa parte do governo Lula. É bem provável que os índices melhorem ainda mais neste fim de ano. Mas poderiam estar ainda mais satisfatórios se os empresários brasileiros finalmente saíssem do período pré-capitalista em que vivem e ingressassem na era contemporânea, que exige atitudes e decisões mais sofisticada e mais responsáveis com a sociedade.
Se esta crise serviu para alguma coisa foi para mostrar a verdadeira face das pessoas e das instituições. Alguns passaram com louvor no teste; outros, se afundaram ainda mais em sua mesquinharia e irrelevância.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O choro dos inocentes


A pesquisa CNT-Sensus que mostrou quanto querido pelo povo brasileiro é o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso provocou reações de vários tipos. A mais inusitada veio de alguns conhecidos jornalistas, que abandonaram todo e qualquer pudor que tiveram um dia e escreveram apaixonados textos nos quais fazem veementes defesas do Príncipe e seu reinado - sem nenhuma preocupação com a veracidade dos fatos narrados, é bom que se diga.
Como Gilberto Dimenstein, da Folha, que intitulou a sua obra-prima de "FHC é o grande padrinho de Lula". Aí vai para a apreciação de todos:

Leio análises falando que um dos pontos vulneráveis de José Serra --e teria aparecido na mais recente pesquisa mostrando a subida de Dilma Roussef-- é Fernando Henrique Cardoso, com alta taxa de rejeição. Por isso, o ex-presidente seria escondido na campanha. A verdade é que, por outros motivos, FHC é o grande padrinho de Lula --qualquer pessoa com um mínimo de equilíbrio terá de concordar com isso.
Em essência, o governo Lula é a continuidade da gestão anterior --e aí está um dos pontos mais inteligentes do presidente. Ele pegou a inflação baixa, um país na rota do crescimento, as bases de seu mais importante programa social em andamento (o Bolsa Família). As finanças públicas tinham passado por medidas importantes como a lei de responsabilidade fiscal.
Lula soube aprimorar o que recebeu. Radicalizou a política social, manteve as bases econômicas. Para completar, além da sorte com a descoberta do pré-sal, passou por uma época de crescimento mundial --com exceção dos últimos 12 meses. Não herdasse o que herdou, teria muito menos condições de angariar um prestígio tão grande.
É tolice não reconhecer a habilidade de Lula e seu extraordinário pragmatismo. Mas é tolo não reconhecer que FHC é seu grande padrinho, cuja alta taxa rejeição faz parte daquelas injustiças --mas será reparada pela história.
Ninguém no PSDB, a começar por José Serra, consegue nem remotamente ter a postura de estadista de FHC.

É um clássico.
Já o rodado Augusto Nunes, que agora presta serviços à Abril, fez uma longa entrevista com o ex-presidente e não se conteve nos elogios ao "padrinho de Lula". Na apresentação da "última etapa do passeio pela história real de um país desmemoriado", como gongoricamente intitulou a última parte de seu trabalho, ele escreve outra pérola deste recente movimento de resgate à dignidade perdida de FHC.
Também merece ir para o trono:

A entrevista com Fernando Henrique Cardoso confirma que, nem faz tanto tempo assim, existiu vida inteligente no centro do poder. Também ensina que é possível fazer política sem revogar o convívio dos contrários e sem recorrer à lei da selva para ganhar a eleição.

Com tantos e tão diligentes defensores, FHC deve estar agora mais tranquilo. Afinal, pior do que enfrentar a solidão do poder é amargar o esquecimento em vida.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Fardo pesado


A última pesquisa da CNT-Sensus, que mostra a queda acentuada das intenções de voto em José Serra, torna ainda mais explícita a principal dificuldade que o tucano terá em sua campanha - se é que vai resolver mesmo ser o candidato. Trata-se da associação de seu nome com o do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
“A pesquisa mostra que 49,3% não votaria em um candidato apoiado pelo ex-presidente, enquanto apenas 16% não votaria no apoiado por Lula”, diz Ricardo Guedes, diretor do Instituto Sensus, para quem o principal motivo da queda de Serra é a sua lugação com FHC, "que não é um bom cabo eleitoral".
Dessa forma, fica fácil perceber qual vai ser a estratégia de Dilma Rousseff: colar o seu nome ao de Lula e procurar vincular o de Serra ao de FHC.
A pesquisa deve ter provocado um princípio de curto circuito nas hostes tucanas. Principalmente nos serristas, que agora têm bons motivos para se preocupar, pois, afinal, não será de uma hora para outra que o governador paulista conseguirá se desvencilhar do cadáver político que FHC se tornou.
Boa parte de sua propaganda é feita usando a sua biografia passada, louvando as ações que realizou quando era justamente ministro de FHC.
Como faltam vários meses ainda para que a campanha pegue fogo, a pesquisa serve apenas para indicar algumas linhas de ação.
E também para reafirmar um fato que certamente merecerá, no futuro, estudos mais aprofundados: a rejeição popular à figura de FHC, que embora tenha sido duas vezes presidente da República, nunca foi capaz de conquistar aquilo que é mais importante para um político, ou seja, o coração do eleitor.

domingo, 22 de novembro de 2009

Jogo obscuro


A confederação européia de futebol, a Uefa, informou outro dia que desbaratou um enorme esquema de fraudes em jogos de importantes torneios continentais. Mais de 200 pessoas estariam envolvidas na marmelada. A polícia e outros órgãos de Justiça de diversos países já estão trabalhando para limpar a reputação do esporte.
No Brasil, em 2005, um escândalo semelhante foi descoberto: o árbitro Edilson Pereira de Carvalho arrumou vários resultados para beneficiar uma quadrilha de apostadores. Como resultado, vários jogos tiveram de ser refeitos, mas o campeonato brasileiro daquele ano ficou indelevelmente manchado.
O caso extrapolou a esfera esportiva e foi parar na área criminal. Este ano, porém, foi encerrado por uma falha processual. Tanto o ex-árbitro como seus cúmplices estão por aí, livres e felizes para aprontar quantas mais quiserem.
Poucos dias atrás, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, atual presidente da Sociedade Esportiva Palmeiras, foi condenado por um tribunal esportivo a nove meses de suspensão por ter declarado que o árbitro Carlos Eugênio Simon, que anulou, ninguém sabe porque, um gol do de seu clube contra o Fluminense, era, entre outras coisas, "vigarista" e estava "na gaveta de alguém". Belluzzo também ameaçou dar uns tapas em Simon caso o encontrasse.
O destempero do professor Belluzzo ganhou merecidas manchetes nas páginas de esportes dos jornalões, mas as suas graves acusações se perderam no ar. Inexplicavelmente, a imprensa se fez de cega e surda. Pior, comparou o intelectual, sério e equilibrado Belluzzo a tantas figuras caricatas que fazem a delícia do mundo futebolístico.
Para os nossos jornalistas, o pacato professor que se transformou em cartola, teve apenas um arroubo de torcedor. Um desses tais cronistas esportivos afirmou que Belluzzo havia dado uma "euricada", referindo-se ao truculento ex-presidente do Vasco da Gama. Outro preferiu lembrar os tempos que passou na faculdade de jornalismo com Simon para jurar que o árbitro gaúcho é um sujeito sério, honesto e trabalhador.
O testemunho de caráter até que é válido nessa história, mas muito mais importante que ele seria se os nossos solertes repórteres esportivos aproveitassem, como se diz nas redações, o "gancho" da explosão verbal de Belluzzo, para fazer o que se espera desse tipo de profissional, ou seja, simplesmente investigar, sem dar a bola a nenhuma teoria conspiratória, mas também sem excluir qualquer hipótese.
O que mais se ouve e lê quando um árbitro comete um erro crasso - como foi o de Simon - é que, por ele ser "humano", tem todo o direito de falhar. O mesmo raciocínio não se aplica aos jogadores: quando um atacante perde um gol fácil, ele é simplesmente um grosso e merece ser punido, ou seja, sair do time titular.
O exemplo mostra como a imprensa brasileira trata o futebol superficialmente, embora seja consenso que o esporte se configure na maior paixão nacional, um dos negócios mais rentáveis que existem, e um bem cultural inestimável.
Em recente entrevista, um ou dois dias depois de ser punido pelo tribunal esportivo, o professor Belluzzo sintetizou a angústia de um homem que tinha a pretensão de contribuir para mudar o status quo do futebol brasileiro. "Antes eu me divertia com o futebol e me aborrecia com a economia, hoje eu me aborreço com o futebol e me divirto com a economia", disse ele.
Belluzzo agora já está consciente que nem as suas acusações serão investigadas por quem quer que seja, nem que nada mudará no futebol brasileiro durante muito tempo.
Um ano e pouco à frente da administração do Palmeiras foi o suficiente para tirar dele a ilusão de que seria capaz de levar um pingo de modernidade à gestão de seu clube - ou uma réstia de luz às trevas profundas em que vivem seus pares.
É uma pena. O povo brasileiro, esse que gasta boa parte de seu ordenado para ir aos estádios sujos e perigosos; esse que passa boas horas do dia realmente se importando com quem o técnico de seu time vai escalar; esse que ri e chora na tarde/noite dos domingos; esse que tem uma bandeira verde, vermelha, azul, branca, preta, nova ou velha, fincada em seu coração, merece mais respeito, mais seriedade.
Esse povo acredita que no campo são 11 contra 11 e que vence o melhor.
Mas será que isso é mesmo verdade?