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A parte da mulher

Geraldo, voando em céu de brigadeiro em sua nova tentativa de se tornar o burgomestre paulistano, deixou para sua mulher Lu e para a filha Sophia a tarefa de substituí-lo nos dias em que não puder fazer campanha.

Como recentemente, quando foi a Bogotá ver como funciona o sistema de ônibus de lá. É certo que economizaria bastante se tivesse ido a Curitiba, ou mesmo se prestasse atenção aos corredores urbanos inaugurados na própria São Paulo no tempo em que sua adversária Marta Suplicy era a alcaide. Mas Bogotá deve render imagens melhores para os clipes televisivos.

Assim como devem ser bem aproveitados na telinha os sorrisos de dona Lu e da filhinha Sophia aos moradores da Zona Sul, região das mais pobres da capital, e onde a porção feminina do clã Alckmin se encarregou de um desconfortável "corpo-a-corpo".

Geraldo deve mesmo ser um chefe de família especial. Não são todos os que delegam tarefas tão duras à esposa e à filha. Talvez seja uma dificuldade momentânea de uma campanha eleitoral desnecessária - afinal, todos já sabem que ele estará no segundo turno, tentando convencer os eleitores a votarem nele e não em Marta Suplicy, pois governar uma metrópole é tarefa para homem - e a mulher tem mesmo é de ser coadjuvante.

Não é mesmo, dona Lu?

Nome aos bois

O senador Heráclito Fortes (DEM-PI), tido como líder da bancada dantesca, decidiu entrar com representação contra a Polícia Federal e o delegado Protógenes Queiroz, responsável pela Operação Satiagraha, que resultou no indiciamento do dono (de fato) do Opportunity por, entre outras coisas, corrupção ativa. O parlamentar alega que houve vazamento de informações envolvendo o seu nome.

Os advogados de Heráclito farão representação no Ministério Público, Corregedoria da Polícia Federal e Ministério da Justiça. O nome do congressista é citado em grampos da PF.

Segundo Heráclito, a representação terá como objetivo "acabar com a esquizofrenia e com as ilações" feitas a partir de conversas que ele teve com pessoas investigadas na Operação Satiagraha.

Heráclito foi um dos parlamentares que se insurgiram de imediato contra a primeira prisão de Daniel Dantas. Na tribuna, num discurso confuso, admitiu pertencer à turma do banqueiro, afirmando que "pelo menos, sou da bancada de um bandido que produz, que gera emprego".

Depois, achou melhor desfazer a intimidade, e confessou ter amizade mesmo é com Verônica Dantas, irmã de Daniel e sócia dele em muitos negócios.

O senador tenta, desesperadamente, levar o caso para a alçada do Supremo Tribunal Federal, onde, se comenta, Daniel Dantas e sua turma teriam "facilidades" .

Mesmo que não consiga, sua atuação em todo o episódio tem sido no sentido de tumultuar o quanto puder as investigações e o inquérito.

Heráclito Fortes. Este é um nome para não ser esquecido.

O silêncio que diz tudo

Há pessoas que falam demais, outras, de menos. Há os boquirrotos e os caladões. Há quem sempre abre a boca no momento errado. Ou aqueles que parecem não estar nem aí com nada e, de repente, ditam a sentença definitiva.

Nada de errado com nenhum desses tipos. São eles que fazem da diversidade um dos temperos da vida.

Mas o que se pode dizer de um sujeito que, acusado de todos os crimes, é chamado pelas autoridades para se explicar e simplesmente não abre a boca?

Pois não foi isso o que ocorreu com o indigitado banqueiro Daniel Dantas, que, nos três depoimentos em que se fez presente, nada declarou?

Foram, segundo os jornais noticiaram, no total, 12 horas, ou 720 minutos, ou 43.200 segundos de um profundo, definitivo e angustiante silêncio.

Tática genial dos bem pagos advogados ou um profundo tédio e desprezo do investigado - agora réu?

Tanto faz. Às vezes o silêncio é mais eloquente do que todas as palavras do mundo.

Um estranho país

Estranho país o nosso. De repente, como num passe de mágica, calaram-se as vozes estridentes dos moralistas, silenciaram-se os gritos histéricos dos pregadores da ética e bons costumes públicos, fizeram-se mudos os brados coléricos dos modernos Cíceros com suas catilinárias desenfreadas e sem sentido.

De repente, o vilão abjeto, cérebro por trás das ações mais torpes dos últimos tempos, se transforma num pobre cidadão injustamente perseguido por um Estado policial conduzido por mentes doentias e capazes de tudo para se manter no poder, este ser absoluto que a todos encanta e corrompe.

De repente não há mais certezas. Nem pecados. Tudo é relativo nestes tempos de perplexidade.

O amigo pode ser o inimigo de amanhã e de sempre.

O inimigo foi um leal e franco companheiro de toda a vida.

E os profissionais apenas cumprem ordens.

Nos jornais, nas televisões, nas rádios, na internet, discute-se agora, neste momento, uma notícia já velha, ultrapassada, sem valor. E outra virá, e mais outra, e outra mais, numa sucessão interminável de surpresas.

Surpresas? As chagas estão escandalosamente expostas para todos. O cheiro da podridão torna-se doce, embriagador, envolvente. Nada mais repugna ou ofende.

Somos apenas cúmplices da banalização da deplorável Lei de Gerson, aquela que nos manda levar vantagem em tudo - certo?

É um estranho país este nosso que tem vergonha de ser honesto.

Alguns objetos úteis

Como o capitalismo é um sistema dinâmico e no qual perder tempo é perder dinheiro - e o dinheiro é tudo! -, os assim chamados empreendedores estão à toda depois dos acontecimentos dantescos que chocaram o país.

Mãos à obra, disseram, vendo o mercado se expandir com surgimento de uma nova classe de consumidores. Primeiro foram os miseráveis da E que ascenderam à D, que, por sua vez deixaram de ser pobres para virarem simplesmente médios - movimentos provocados por um governo que criou programas sociais, reajustou o salário mínimo e domou a inflação, entre outras medidas.

Na mesma proporção, aumentou o número de ricos, gente que soube surfar nessa onda gigantesca de reacomodação das classes. Foram espertos, palmas para eles.

Mais tolos foram os que se deixaram pegar com a boca na botija alheia, para escândalo de autoridades dos mais variados setores, que os tinham em elevada estima e consideração. Pois numa atividade sem precedentes, os policiais resolveram trabalhar com a cabeça e não só com os músculos. Assim, tiveram êxito em missões consideradas impossíveis pelos personagens envolvidos e os crimes cometidos.

Se as prisões ainda não estão cheias dessa nova classe de criminosos é porque eles ainda gozam de regalias só proporcionadas pelos valores amealhados por suas lucrativas e subterrâneas atividades. O dinheiro compra tudo, diz o senso popular.

Mesmo assim, alguns desses novos larápios têm passado por maus momentos, vítimas do que se convencionou chamar de "espetacularização". São assim submetidos à suprema humilhação de serem algemados - isso mesmo, algemados! Ou então, despertados em plena madrugada. Ou até jogados em celas medievais, sem o conforto do papel higiênico de folha dupla.

Atentos, nossos empreendedores viram que esses episódios abrem uma excelente oportunidade para ampliar seus negócios. É a lei do mercado, que ordena suprir os desejos de consumo de quem pode pagar por eles.

Portanto, não se espantem se logo, logo, campanhas com atores globais anunciarem, com a sutileza e a eficiência que só os nossos publicitários têm, novos produtos para essa emergente e promissora classe.

Coisinhas como algemas forradas para não machucar a pele, óculos escuros que cobrem o rosto todo, camisas de colarinhos coloridos (o branco está tão comum!), luvas que podem ser usadas também em clima tropical (acabe de uma vez com as impressões digitais), alarmes que detectam policiais a vários quilômetros de distância, telefones mudos para evitar grampos, paredes e cofres falsos de diferentes cores e texturas.

Nossos empreendedores saberão, certamente, ampliar essa, por enquanto, pequena lista de objetos úteis.

A altura de um homem

Certa feita, ao recepcionar a premiada ginasta Daiane dos Santos no Palácio do Planalto, o presidente Lula disse, em tom de brincadeira, que estava feliz em conhecer uma pessoa menor que ele.

O presidente voltou recentemente de mais uma viagem aos confins do mundo. Encontrou o país mergulhado numa profunda crise institucional devido a uma ocorrência absolutamente comum em nações de democracia mais consolidada que a nossa, ou seja, a prisão de suspeitos de crimes variados.

Só que, desta vez, o principal acusado é figura de proa na elite do país, umbilicalmente ligado aos poderosos, com desafetos de variados calibres e nacionalidades. Sua organização, mostram as primeiras informações do processo aberto contra ele, é poderosissima e dona de um repertório incrível de truques.

O terremoto causado pela sua prisão sacudiu fortemente todos os salões bem freqüentados. A ponto de, em poucos dias, os mocinhos da história acabarem se transformando em pérfidos vilões, executores de crimes infinitamente maiores que os tão duramente investigados.

Em meio a tudo isso, o presidente Lula permaneceu calado. Escondeu-se por detrás de auxiliares que tentaram explicar à nação o inexplicável.

Dizem que o presidente é homem que dificilmente toma decisões precipitadas. Mas se desta vez agiu assim, corre o sério risco de ser atropelado pelos fatos.

O Brasil, mostra este episódio dantesco, luta desesperadamente para curar as feridas causadas pelo atraso, pelas injustiças seculares, pela ação criminosa de elites corruptas e corruptoras, que têm como único propósito acumular mais riqueza e deter mais poder.

O presidente Lula deu a esperança de que poderia levar o país a cruzar essa ponte que liga o passado e o futuro.

Ainda há tempo. Quem sabe se, olhando para trás, não se recorde do encontro que teve com Daiane dos Santos, que, com seu metro e meio de altura, foi capaz de dar saltos tão perfeitos que a levaram à glória.

Pois o presidente Lula é um desses raros homens que pode escolher entre ter a estatura de um simples político ou a de um grande estadista.

Papéis trocados

As manifestações a favor do juiz De Sanctis, que mandou prender a turma de Dantas, e contra o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, que tirou o pessoal da cadeia, crescem em todo o país.

Vão desde abaixos-assinados na internet a atos de procuradores e juízes. Páginas no Orkut reprovando a presteza de Mendes se multiplicam.

Esses são sinais claros de que o brasileiro comum quer ver seu país andando direito. É o que chamam de cidadania. Mostram uma maturidade democrática que outros setores, como a imprensa, por exemplo, não têm.

É o caso da Folha de S. Paulo. Publicou em destaque matéria em que busca desqualificar o delegado Protógenes Queiróz, pintando-o como um ingênuo que divide o mundo entre bons e maus, e, supremo pecado, mau escriba.

Como se o jornal em questão fosse um produto isento dos mais grosseiros erros de português - e um ladrão deixasse de ser um ladrão porque seu nome foi grafado com um S ou um N a mais ou a menos.

Por trás de tudo o que se vê é mais uma tentativa dos jornalões de colocar os holofotes no acessório e deixar o principal na escuridão. Por isso a insistência no debate sobre o uso de algemas na detenção dos meliantes ricos - nos pobres, claro que pode -, sobre o papel do advogado e ex-deputado Luís Eduardo Greenhalg e do chefe de Gabinete do presidente Lula, Gilberto Carvalho, em toda a história, e, suprema ironia, sobre os principais responsáveis pelo desbaratamento da quadrilha, o delegado Queiróz e os policiais federais a ele subordinados.

Com isso, Daniel Dantas e sua turma vão ficando em segundo plano. Logo mais, se os planos correrem bem, ficarão esquecidos.

E, no banco dos réus estarão aqueles que ousaram mexer com gente tão poderosa.

Tempos difíceis

O jornalista Paulo Henrique Amorim antecipou, em seu blog, todos os lances do jogo preferido do banqueiro Daniel Dantas. Teve, ao seu lado, nessa empreitada, outro jornalista, Mino Carta, que, por meio de sua revista, Carta Capital, também expôs os movimentos que levaram o dono do Opportunity a consolidar uma, aparentemente, formidável e quase inexpugnável rede de influência que abrange os três Poderes, os meios de comunicação e vários outras instituições.

Os dois foram exceções que honraram uma profissão decadente de valores e de ética.

Os últimos acontecimentos mancharam irremediavelmente a imagem do Judiciário.
Mas serviram para mostrar que, em meio a esse imenso mar subterrâneo de substâncias pútridas, existem, felizmente, algumas ilhas de sanidade que têm, com seu viço, pelo menos impedido a proliferação da imundície.

São esses - os jornalistas que empreendem uma luta de aparência quixotesca, policiais, juízes, promotores, procuradores do Ministério Público e outros servidores anônimos de uma causa justa - que, neste momento dantesco da história do país, podem não só resistir ao assédio do banditismo, mas despertar a consciência para uma luta que, se vitoriosa, consolidará, definitivamente, os valores republicanos nesta sofrida nação.

Nessas pessoas, que não se acovardaram nem se
venderam, e souberam compreender a magnitude de sua missão, estão depositadas as nossas últimas esperanças.

A elas, toda a nossa gratidão.

Justiça seja feita

Então é assim no Brasil. A Polícia Federal faz o que deve fazer, investiga e prende para, depois, a justiça soltar.

Não existe, até hoje, episódio mais exemplar de como as coisas funcionam no Judiciário deste país do que este da soltura relâmpago de Daniel Dantas e auxiliares.

O Supremo Tribunal Federal, na figura de seu presidente, Gilmar Mendes, que assinou a ordem, conseguiu a façanha de desmoralizar, de uma só e definitiva vez, não só a instituição que preside, como todo o Judiciário.

Não é pouco.

Anos atrás, o mesmo tribunal deu liberdade para outro "banqueiro", chamado Salvatore Cacciola. Solto, a primeira coisa que vez foi fugir do Brasil para gargalhar, durante vários anos, dos tolos que o haviam prendido.

No decorrer das investigações que culminaram com a prisão da turma do Opportunity, alertado por uma reportagem da Folha de S. Paulo, Dantas tentou subornar os policiais. Para o STF, que o libertou, isso não significa absolutamente nada. Talvez Dantas tenha dado a Mendes a garantia de que, solto, vai ajudar as investigações, como bom cidadão que é.

Talvez Mendes tenha acreditado na palavra desse brasileiro que orgulha a pátria.

Como disse o senador Heráclito Fortes, do DEM do Piauí, tido e havido como um dos integrantes mais ativos da "bancada do Dantas", na vergonhosa sessão do Senado que se seguiu à prisão da turma, "pelo menos, sou da bancada de um bandido que produz, que gera emprego".

Foi nessa mesma sessão que outro notável expoente das liberdades democráticas, o senador Tasso Jereissati, tucaníssimo do Ceará, expôs sua preocupação com os destinos da pátria num discurso marcado pela emoção: “Corremos o risco de parecermos estar defendendo tubarões, criminosos de colarinho branco, milionários responsáveis por fraudes. Mas, quando está em jogo a dignidade do cidadão, o Estado de Direito brasileiro não podemos nos acovardar diante da probabilidade dessas falsas interpretações", disse.

Mesma ênfase teve o sempre progressista senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) na defesa dessas pessoas que trabalham e produzem pelo bem do país e são expostas dessa maneira aos arbítrios de um Estado policial. Para o ex-governador pernambucano, a Polícia Federal deve ser severamente criticada por algemar pessoas "que não oferecem perigo''.

Horas antes de assinar a soltura de Daniel Dantas, o presidente do STF já havia antecipado o que faria, ao dizer, bastante irritado, que a "espetacularização das prisões é evidente e dificilmente compatível com o Estado de Direito''.

Agora, alcançado o objetivo de tirar Dantas e auxiliares das celas, todos esses notáveis e doutos cavalheiros passam a ser, de certo modo, responsáveis pelas ações futuras do bando.

Com avalistas de tal quilate, porém, é quase certo que a justiça seguirá seu curso e tudo se ajeitará do melhor modo.

Afinal, sempre foi assim no Brasil.

A vingança do homem comum

O homem comum levanta cedo para trabalhar muito o dia todo. É uma vida difícil essa do homem comum. Ele já pensou em largá-la, mas para isso teria de, ou ganhar na loteria, ou receber uma herança, ou, hipótese talvez mais difícil que as anteriores, ser contemplado por um milagre daqueles bem grandes e irrefutáveis.

Como nenhuma das três alternativas anteriores tem chance de se concretizar, o homem comum continua a ver televisão, a torcer para seu time não ser rebaixado, a dar broncas nos filhos, a comer frango de televisão no domingo, a ir de vez em quando ao Ibirapuera, a prometer fazer exercícios e a economizar para passar férias no Nordeste pela CVC.

E assim o homem comum passa seu tempo, nesse desfile de banalidades, coisas sem graça, pequenas injustiças e grandes desilusões.

Algumas vezes, poucas, é bem verdade, o homem comum se sente realmente feliz. São momentos inexplicáveis. Podem ocorrer a qualquer hora, sem que o homem comum faça algum esforço extraordinário. Isso acontece quando, por exemplo, o goleiro de seu time pega um pênalti num jogo decisivo, ou quando quita o financiamento interminável da geladeira comprada na Casas Bahia.

Como se vê, o homem comum se contenta com pouco. Tão pouco que ele explode de alegria ao ver certas coisas funcionarem como deveriam, tais quais o banco não ter fila, o ônibus passar no horário, a caixa do supermercado ser gentil, ou os ladrões irem presos.

Por isso esse nosso homenzinho comum ficou com a alma lavada ao ver no noticiário da televisão as imagens de alguns larápios que se disfarçavam de cidadãos acima de qualquer suspeita serem, como se diz popularmente, levados para tocar piano na delegacia.

Esse foi um momento de suprema satisfação para o homem comum: fez com que acreditasse, pelo menos por um instante, que estava vivendo num mundo mais justo, mais igualitário, melhor, enfim.

Cego em tiroteio

O que mais impressiona no apagão da internet paulista patrocinado pela Telefônica não é a vulnerabilidade do sistema. Essa é a parte mais visível do problema e talvez o de solução mais imediata.

O que realmente deixa qualquer um atônito é a completa ignorância que a empresa tem do produto que vende. A ficha ainda não caiu para a Telefônica: a internet é hoje um serviço essencial, sem o qual dezenas de milhões de pessoas deixam de fazer as coisas mais triviais e necessárias para o dia-a-dia.

Talvez para os executivos da Telefônica a internet residencial não tenha muito importância. Provavelmente eles pensem que os assinantes do serviço Speedy sejam pessoas que percam seu tempo trocando e-mails tolos e mal-escritos ou acessando sites de jogos e pornografia.

No começo era mesmo assim: a internet não passava de um gigantesco parque de diversões, um entretenimento sem compromisso e que trazia novidades cativantes a todo instante.

Mas esse tempo acabou e, parece, a Telefônica não se deu conta de que a internet se transformou numa das mais importantes ferramentas de que dispõe o ser humano para desenvolver seu trabalho, sua educação, sua cultura, seu lazer.

Já se incorporou à vida e, como a energia elétrica, o telefone, a água, as notícias, o trânsito congestionado, o futebol, a televisão, faz parte inseparável do cotidiano. Ou será que os engravatados da Telefônica vivem sem essas coisas?

A proposta da empresa de abater na conta dos assinantes o dobro das horas que ficaram sem o serviço soa quase como uma afronta. É como se a Telefônica dissesse aos seus clientes algo do tipo "olha, vamos dar um descontinho e com isso estamos quites". Como se ela fornecesse gelo para esquimós: ninguém dará mesmo pela falta do produto, tal a sua inutilidade.

Os órgãos de defesa do consumidor e a agência reguladora do setor de telecomunicações deveriam, ao tomar as providências que o caso requer, ficar atentos a esse aspecto da questão: tão importante quanto apurar se a Telefônica tem capacidade técnica para prestar o serviço - e as evidências mostram que ela realmente é incapaz de fazê-lo - é saber se a empresa sabe que tipo de serviço está prestando.

O apagão, as evasivas explicações subseqüentes de sua causa e as ofertas de ressarcimento dos prejuízos indicam que a internet da Telefônica é como um enorme transatlântico pilotado por um mal pago e cansado motorista de ônibus urbano.

É a certeza do naufrágio.

As conjunções adversativas

As conjunções coordenativas adversativas ligam dois termos ou duas orações de igual função, acrescentando-lhes, porém, uma idéia de contraste. São elas mas, porém, todavia, contudo, no entanto, entretanto.

Dois exemplos, da Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra:

Apetece cantar, mas ninguém canta.
(M. Torga, CH, 44)

Não havia muitas casas - nenhum edifício de apartamento, porém sobravam grandes, extensos terrenos baldios.
(A.F. Schimdt, AP, 20)

As conjunções adversativas têm aparecido, ultimamente, com muita freqüência seja em títulos de notícias dos jornalões, seja nas considerações dos inúmeros analistas que freqüentam as páginas desses mesmos órgãos de imprensa.

Os editores que titulam as matérias e os próprios entrevistados preferem usar o mas. É simples e eficiente para o propósito de introduzir "um argumento que restringe o que foi dito" ou "um argumento que funciona como ressalva ao que foi dito", conforme a definição da palavra pelo dicionário Aulete.

Assim, frases como "o crescimento da indústria foi recorde" ou "o Bolsa Família reduziu a desigualdade no país" ou "superpoços podem transformar o país em potência energética", que poderiam soar extremamente positivas, acabam perdendo a força e virando orações banais com o uso do mas.

Que ninguém culpe, porém, a conjunção adversativa por vulgarizar de tal modo a imprensa nativa. Afinal, ela cumpre apenas o seu papel. Assim como aqueles que a têm usado indiscriminadamente, por uma questão de estilo - antes de vida do que gramatical.

Dois mundos

O número de pessoas satisfeitas e muito satisfeitas com o Brasil caiu, em um ano, de 75% para 67%. Já o das insatisfeitas cresceu de 24% para 32%. A constatação é de uma pesquisa da Vox Populi, cuja íntegra pode ser acessada no site do PT. Já a avaliação do desempenho do presidente Lula teve trajetória inversa: foi de 44% para 59% (ótimo/bom), enquanto os que a definiram como regular negativa caíram de 13% para 8% e os que a vêem como ruim/péssima foram de 17% para 7%.

A pesquisa mostra que a implantação de programas sociais foi a melhor coisa feita pelo governo Lula (34%), seguida de perto pelo programa Bolsa Família (27%). Também merece destaque a política econômica (20%), o controle da inflação, a geração de empregos e os investimentos em educação (6%), o aumento do índice de reajuste salarial (5%) e o pagamento da dívida externa (4%). O Programa de Aceleração do Crescimento, o Bolsa Escola e o combate à corrupção foram lembrados por 3% dos entrevistados como aspectos positivos do governo Lula.

Já 13% dos ouvidos pelo Vox Populi lembraram o não combate à corrupção como a pior coisa que Lula fez em seu governo. Em seguida, como pontos negativos, estão a política econômica (6%), os programas sociais (5%) e o Bolsa Família (4%).

Com seu governo aprovado pela maioria, se Lula pudesse ser candidato em 2010, 43% dos entrevistados votariam nele novamente e 19% disseram que poderiam votar nele. Cerca de um terço (32%) respondeu que não votaria em Lula e 7% estão ainda indecisos.

Um dos aspectos mais interessantes da pesquisa é sobre o recall dos partidos políticos. O PT, com 36% de respostas, foi o partido mais lembrado pelos entrevistados, seguido pelo PMDB, com 22%, e pelo PSDB, com 15%. O DEM teve apenas 4% das menções, mesma porcentagem do PDT. PSB, PTB e PV foram lembrados só por 2% dos entrevistados.

Disseram que têm muita simpatia e alguma simpatia pelo PT 42% dos pesquisados. São indiferentes à legenda, 41%, e mostraram alguma antipatia e muita antipatia, 12% das pessoas. Na percepção dos entrevistados, o PMDB (18%) é o partido que tem idéias mais próximas às do PT e o PSDB (12%) é o que se encontra mais distante. Cinquenta e sete por cento das pessoas acham positiva a atuação do PT na política brasileira, 12% consideram-na negativa e 25% disseram que ela é regular.

Em relação à fidelidade partidária, 47% dos entrevistados são da opinião que os parlamentares devem ser fiéis ao partido que escolheram para se filiar e devem votar seguindo a orientação de seu partido, enquanto 43% disseram que os parlamentares devem ter autonomia para decidir conforme sua própria vontade e votar individualmente, mesmo contra a orientação partidária. Na mesma lógica, 49% acharam que o mandato do parlamentar pertence ao partido e se ele quiser mudar de legenda, deve perder o mandato, enquanto 41% são de opinião oposta.

No geral, as respostas contrariam a percepção que é expressa diuturnamente sobre o Brasil e os atores da cena política pela quase totalidade da mídia. Em alguns casos, a distância entre o país real e o imaginado pelas mentes dessa douta casta não dá nem para ser medida. É, para resumir, uma coisa de louco.

Vida em comum


A chiadeira de entidades ligadas ao transporte de cargas e comerciantes, que se sentem prejudicados com a proibição do tráfego de caminhões de dia em grande parte de São Paulo, pode ou não ser justa. Mas é reveladora de que, ainda, muitos não sabem como é a vida numa democracia.

Não é de hoje que a capital paulista está sofrendo com os efeitos econômicos e sociais de seu trânsito caótico. O problema não afeta apenas quem tem carro - se estende a todos, indistintamente, que são obrigados a se locomover diariamente.

Alguma coisa precisava ser feita, urgentemente. A incompetência de governos passados levou o atual a tomar uma atitude. Depois de vários desencontros, chegou-se à conclusão de que uma das medidas imediatas que poderiam ajudar a melhorar a circulação seria tirar os caminhões do horário mais crítico.

A toda ação corresponde uma reação, diz a lógica, parodiando a terceira lei de Newton. Ora, já se esperava que os atingidos pela proibição fossem se manifestar. Mas que fizessem isso com argumento sólidos, em vez de partir, como fizeram, para o simples confronto - ou a mais pura chantagem, ao ameaçar aumentar os preços dos produtos vendidos no comércio.

A atitude foi típica de quem ignora como se convive numa democracia. Nela, deve-se pensar primeiro no bem coletivo. Se todos os que se sentirem afetados negativamente por uma determinada lei resolverem afrontá-la ou boicotá-la, a vida em sociedade perderá todo o sentido.

Os transportadores de cargas e comerciantes, antes de fazerem ameaças, deveriam pensar como podem ajudar a transformar São Paulo numa cidade que ofereça condições mínimas de vida aos seus habitantes.

Trem bom

Um dos projetos mais ambiciosos do governo Lula é o do trem de alta velocidade (TAV) ou simplesmente trem-bala, que ligará Campinas ao Rio de Janeiro, passando pelos aeroportos de Viracopos, Guarulhos e Galeão. Ainda neste ano o BNDES deverá divulgar os estudos referentes ao traçado do projeto, de cerca de 550 quilômetros, para que, no início de 2009, seja feita a licitação.

O trem-bala brasileiro já desperta o interesse das empresas que detêm a tecnologia desse meio de transporte - franceses, alemães, japoneses e coreanos. O investimento é alto, de mais de US$ 8 bilhões, mas quem se dispuser a bancar a obra não estará simplesmente construindo um meio de transporte moderno, eficiente e seguro: vai passar à história por ter feito a ponte que irá marcar a ruptura entre o Brasil Terceiro-Mundo, o Brasil atrasado e medroso, e o Brasil moderno, um país entre as maiores potências mundiais.

A construção de um trem-bala entre São Paulo e Rio vem sendo cogitada há pelo menos 30 anos. Desde o tempo da ditadura militar se fala nisso. Até FHC resvalou - de leve - no tema. Mas foi somente no governo Lula que a obra começou a ser levada a sério.

Não há nenhum grande problema de engenharia envolvendo a construção. Ainda hoje restam resquícios da linha férrea que ligava os Estados de São Paulo e do Rio. Um trem de alta velocidade exige apenas um traçado mais plano e reto, nada que alguns túneis não possam resolver.

O que então impediu, nesses anos todos, a adoção desse meio de transporte absolutamente necessário para o desenvolvimento do corredor Rio-São Paulo? Claro que foram muitos fatores, mas o mais determinante foi mesmo a vontade de fazer a obra - e, para isso, o necessário desprendimento do complexo de vira-lata que acomete grande parte da classe política-administrativa do país.

São essas pessoas, que vivem permanentemente com os olhos voltados para o Norte e a repetir a ladainha de que o Brasil nunca dará certo, que impediram até hoje não só a construção de um trem-bala, mas, principalmente, a construção de um país mais digno, justo, rico, igualitário - e feliz.

Liberdade à vista

Algumas (boas) notícias são praticamente ignoradas pela imprensa. Como a que mostra o excepcional crescimento do público que acessa a internet no país.

Segundo pesquisa do Ibope/Net Ratings, o número de pessoas com acesso à internet no Brasil ultrapassou a barreira de 40 milhões de pessoas. Os dados relativos ao primeiro trimestre de 2008 revelam que 41,565 milhões de pessoas com 16 anos ou mais declararam ter acesso à internet em qualquer ambiente (casa, trabalho, escola, cybercafés, bibliotecas, entre outras possibilidades). Esse é o maior nível já atingido no país desde setembro de 2000, quando iniciaram-se as medições do Ibope.
Em maio, 23,1 milhões de pessoas usaram a internet residencial, segundo o Ibope, maior número já atingido pela pesquisa e que significa 29% mais que os 17,9 milhões de maio de 2007. O número de pessoas com acesso residencial à internet também é o maior desde setembro de 2000 e chegou a 35,5 milhões em maio.


“São dados muito positivos”, disse Alexandre Sanches Magalhães, gerente de análise do Ibope. “E refletem as políticas públicas de abertura de pontos de acesso à internet em escolas, bibliotecas, telecentros e muitos outros locais, além da avalanche de facilidades para adquirir computadores novos, como financiamentos em muitas prestações e equipamentos mais baratos por causa da concorrência entre os fabricantes de computador.”

Entre outras coisas, mais pessoas acessando a internet significa menos pessoas dependentes do noticiário viciado que nos dão os principais jornais e emissoras de rádio e televisão.

E isso não é bom para quem tem (ainda) o monopólio da informação.

O desafio de Marta

O chamado Bloquinho, que reúne o PSB, PDT e PCdoB, finalmente ouviu a razão e resolveu se aliar a Marta Suplicy para a eleição municipal de São Paulo. Assim, a ex-prefeita passa a ter um bom tempo de propaganda na televisão, algo de extrema importância numa campanha eleitoral. Seu vice, o deputado federal Aldo Rebelo, do PCdoB, é político experiente e deve contribuir bastante para a empreitada.

A vitória de Marta Suplicy dará ânimo novo não só à sua carreira, mas às pretensões do presidente Lula eleger seu sucessor em 2010. Pela sua dimensão social, econômica e política, São Paulo é peça chave do xadrez eleitoral. Por isso o governador José Serra fez a arriscada jogada de tentar a reeleição do afilhado Gilberto Kassab, contra a vontade de boa parcela dos tucanos.

Porém, para que Marta Suplicy tenha reais chances de vitória, não bastará apenas o empenho do PT e seus aliados. Será preciso, antes de mais nada, que a própria candidata adote um comportamento que a torne mais palatável aos eleitores da classe média. É esse o principal obstáculo da ex-prefeita, rejeitada por muitos não só por ser mulher, mas por ser uma mulher de opiniões fortes.

A administração Marta Suplicy deixou muitas marcas na cidade, principalmente nas áreas de educação e transporte público. O que ela fez nesses setores realmente beneficiou os mais pobres. Ela sabe que pode contar novamente com os votos dessas pessoas. Mas para que vença um segundo turno precisará ampliar o espectro social de seus apoiadores.

Resta saber como ela vai superar esse desafio sem fazer concessões que a desqualifiquem perante seu eleitorado mais fiel.

Cardápio indigesto

Dados do Ibope mostram que a audiência da Rede Globo cai de modo lento, porém consistente, desde 2006, quando, em todo o país, a toda poderosa conseguiu média de 23,3% do total. No ano seguinte, a fatia já tinha encolhido para 21,2% e neste ano, até o dia 23 de junho, estava em 19,5%. De 2004 até agora, a perda de audiência foi de 20%. Pela primeira vez na história a média fica abaixo dos 20%.

Já a concorrente (adversária, inimiga?) Record ganhou, no mesmo período, 127% de audiência, passando a ocupar a vice-liderança, deixando o SBT de Sílvio Santos para trás. Mesmo assim, a média atual da rede da Igreja Universal é de menos da metade da Globo, 7,5%, apenas um ponto percentual e meio acima do SBT.

Os números, divulgados pela Folha de S. Paulo, indicam que a estratégia da Record de clonar a programação da líder está dando certo. Apesar disso, parece ser algo arriscado. Ou, pelo menos, algo a ser evitado.

Quem tem tanto dinheiro como a Record deveria oferecer ao telespectador um cardápio menos insípido e sem imaginação do que o atual.

A televisão brasileira é um deserto de idéias. Os programas se repetem ad infinitum desde tempos imemoriáveis, apresentando a diversão mais tola e infantil, sob a justificativa de que é isso mesmo que o público quer.

Mesmo as novelas da Globo, exaltadas como exemplos de grande competência da TV brasileira, não passam de simples folhetins vitaminados por uma produção mais rica.

Nesse triste panorama, tanto a líder como a emergente nova rica poderiam se lembrar que, como concessões públicas, têm a obrigação de prestar um serviço ao país.

Não precisariam abandonar a linha "popular" que adotam. Mas produzir alguns programas para ajudar a elevar o nível de educação do povo seria, digamos, um gesto de boa vontade.

O país está mudando. Até mesmo os donos dos meios de comunicação, as figuras mais reacionárias deste país, devem estar percebendo isso.

Vida besta

Em recente programa esportivo da Rádio Eldorado, os apresentadores comentaram a liberação de verba federal para custear o lobby pelas olimpíadas de 2016 no Rio. Acharam um absurdo a destinação do dinheiro que, segundo eles, iria apenas patrocinar um "trem da alegria" por volta da Terra de uns poucos e felizes cartolas. Pois, de acordo com os radialistas, o Rio não tem a menor chance de ser sede dos jogos olímpicos.

Esse tipo de visão distorcida e desonesta é típica de uma grande parte da imprensa nativa, na qual os chavões e preconceitos são servidos a todo o momento como se fossem parte integrante de uma análise objetiva dos fatos.

Mesmo profissionais de certo renome usam e abusam do expediente. E nada escapa dessas "críticas" que se justificam como a expressão de um sentimento médio da população. Nada mais equivocado, pois pressupõe uma padronização de pensamento impossível de ocorrer.

Na realidade, o que tais "jornalistas" fazem é pura disseminação de uma ideologia tacanha, colonial, de quem se sente eternamente inferior a padrões e comportamentos de um hemisfério norte civilizado, limpo, educado, progressista e sempre dono da razão de todas as coisas.

Para esses, nós, os da parte de baixo do mundo, com algumas exceções que falam o inglês - mesmo o abastardado - somos incapazes até de promover um mero evento esportivo. E, se somos de tal forma incompetentes, é melhor aceitarmos o nosso destino fatal e nos acocorarmos pelo resto de nossas vidas, tal qual o Jeca Tatu lobatiano.

Êta vidinha besta!

Apenas entretenimento

Os rapazes do programa CQC, da Rede Bandeirantes, movem campanha feroz contra os parlamentares por terem barrado seu trabalho nas dependências do Congresso.

Alegam que tiveram tolhida a liberdade de imprensa.

Deveriam usar outra justificativa: o show que conduzem não tem nada de jornalístico, embora pretenda passar essa impressão.

O CQC (Custe o que Custar) brasileiro replica o original Caiga Quien Caiga argentino e amplifica o personagem Ernesto Varela, criado há duas décadas por Marcelo Tas, um repórter que fazia perguntas embaraçosas aos políticos. Tas foi quem trouxe o CQC ao Brasil.

O show nada mais é que o abominável Pânico com roupagem "intelectual".

Claro que os nobres parlamentares fazem besteira das grossas ao impedir o trabalho dos rapazes. São desinformados. Manejar uma câmera e empunhar um microfone não dá a ninguém o status de jornalista. Nossos deputados e senadores deveriam saber disso. E entrar no clima de brincadeira do programa.

Já os órgãos de representação dos jornalistas profissionais poderiam esclarecer o público em geral sobre a diferença entre repórteres, radialistas, apresentadores de televisão e variados tipos de profissionais dos meios de comunicação eletrônicos.

Essa espécie de confusão beneficia apenas alguns poucos.

Conversa fiada

"O Pelé calado é um poeta."
Romário

A epígrafe acima poderia ter outro personagem. FHC tem sido muito procurado, nos últimos dias, para dar sua opinião sobre a política e os destinos do país. É impressionante que uma pessoa que foi duas vezes presidente da República, conviveu com os melhores quadros da intelectualidade brasileira, viajou por tantos países e conversou com tantas personalidades, fale tal número de asneiras.

A última entrevista que deu à Folha de S. Paulo é notável. FHC diz absurdos como se estivesse contando fatos absolutamente triviais. Parece estar completanente alheio à realidade. Ou convicto do que diz - como se fosse um mentiroso patológico.

Os trechos em negrito definem o FHC de hoje:

FOLHA - O programa atual do PSDB diz: "Nenhum partido vive dos feitos passados, vive do que realiza no presente e da visão de futuro que oferece". O PSDB controla hoje cinco Estados. O que o partido pode dizer que realiza no presente?

FHC- No caso de São Paulo e de Minas, que são os que eu conheço melhor, acho que o impulso dado na educação é muito grande. Também na segurança, no caso de SP, é bastante notório que houve uma queda imensa na taxa de homicídio. Por outro lado, são partidos que, ao fazer isso, não se esquecem de, como há condições agora, investimentos grandes. O que está sendo feito em São Paulo em investimento no sistema de transporte é enorme.

FOLHA - Nos últimos dias, enquanto o comando nacional do PSDB divulgava uma nota reduzindo a crise no governo Yeda a uma conspiração política, em SP a bancada tucana na Assembléia barrava investigação no caso Alstom. O partido não se enfraquece ao agir assim?

FHC - Não barrava investigação nenhuma. Não houve nada que pudesse dar razão para fazer uma CPI sobre o caso Alstom. O caso Alstom é a divulgação, na Europa, de que essa empresa teria dado alguma propina a alguns políticos. E pára por aí. Ninguém tem informação concreta. O resto é especulação. Você não pode fazer uma CPI na base da especulação. Não tem um elemento. Não sei se é o caso de CPI. O próprio governo deve ser o primeiro a se manifestar contra e punir.

FOLHA - E o governo Yeda?

FHC - Eu não acompanhei o caso da Yeda. O que eu vi foi o vice-governador tendo gravado uma conversa com alguém do governo Yeda que dizia que empresas estatais haviam financiado. Não se referia ao PSDB nem ao governo dela. Ela demitiu todo mundo. Então é uma atitude diferente.

E pensar que ainda exista quem o leve a sério.

Homens e homens

No dia 18, uma quarta-feira, o Príncipe completou mais um ano de vida. Não há notícia de como ele comemorou seu aniversário em família. Apenas que, no dia seguinte, os tucanos renderam-lhe uma homenagem no programa televisivo do partido, atribuindo ao seu reinado - ou governo, como queiram - a gênese de tudo de bom que se vê hoje no país.

Foram minutos de glória e êxtase. O Príncipe apareceu perante milhões de súditos da maneira como mais gosta, exibindo sabedoria, com uma ponta, apenas uma pontinha, de humildade. Afinal, mesmo iluminados como ele precisam afagar, de vez em quando, esse povo todo que compõe a enorme nação brasileira.

E, enquanto ele fazia essa rara aparição eletrônica para mostrar quão grandiosa foi sua estada no Palácio do Planalto, se encontrava, em carne e osso, na Sala São Paulo, onde recebeu, verdadeiramente, seu presente de aniversário.

Ali, pôde apreciar um concerto da Orquestra Sinfônica de São Paulo ao lado, nada menos, de outro membro da nobreza mundial, o príncipe Naruhito, o herdeiro do Japão, que visita o país.

Os jornais destacam que os dois príncipes conversaram - em inglês, of course - e que Naruhito aplaudiu com entusiasmo o desempenho dos músicos. Não podia ser de outro modo. Afinal, a Fundação Osesp, que mantém a orquestra, está sob a batuta inspiradora e segura de nosso Príncipe.

Uma prova de que existem homens e existe FHC.

A lei, ora a lei...

O moderno cruzado Paulo Skaf, líder dos barões da indústria paulista e dos oprimidos pelo peso da carga fiscal, tem muita experiência em lutas contra tais monstros devoradores do lucro máximo. Não é de hoje que dá estocadas mortais em CPMFs e CSSs e que tais. Tem vasta experiência no assunto.

No dia 19 de setembro de 2004, nem bem assumia as novas responsabilidades de guia do baronato bandeirante, o insuspeito Josias de Souza escrevia na também insuspeita Folha de S. Paulo uma matéria com o chamativo título Novo presidente da Fiesp é um "sem-indústria". Nela, revelava, entre outras coisas que no dia 2 de janeiro de 2001 deu-se a demissão de Janete Alves dos Santos. "Era a última empregada que a Skaf Indústria Têxtil mantinha registrada no cadastro da Rais (Relação Anual de Informações Sociais). Janete recebia R$ 1.577,21 por mês quando foi para o olho da rua", diz o texto.

O relato que se segue merece ser transcrito na íntegra. Vamos a ele:

"Mergulhando mais fundo nos anais do INSS, descobre-se que, ao tempo em que mantinha quadro regular de funcionários, a Skaf têxtil acumulou dívidas com a Previdência. Em abril de 1999, quando o débito somava R$ 918,6 mil, o governo, então sob FHC, decidiu bater à porta dos tribunais.Em agosto de 2000, a Justiça expediu mandado de penhora dos bens da indústria Skaf. Era tarde. Cinco meses antes, a empresa aderira ao Refis, o programa de parcelamento de débitos fiscais. Além da dívida com o INSS, Paulo Skaf reconheceu um passivo com a Receita. Tudo somado, o total parcelado foi a R$ 1,074 milhão.

"Sancionada por FHC em abril de 2000, a lei do Refis abriu uma janela de oportunidades. O pagamento dos tributos em atraso foi atrelado a um percentual do faturamento (1,5% no caso da indústria Skaf). Sem prazo para a quitação.

"Entre março e dezembro de 2000, a Skaf têxtil recolheu ao fisco R$ 360 mensais. A partir de janeiro de 2001, passou a pagar R$ 12 por mês.

"Adocicado pelo Refis, o passivo da firma de Paulo Skaf foi excluído do rol de pendências sujeitas a ajuizamento. Folheando o processo de cobrança movido pelo INSS (2ª Vara de Execuções Fiscais de São Paulo), o repórter descobriu que o governo tentou levar adiante a execução.

"A procuradoria do INSS alegou que, apesar do parcelamento das pendências pretéritas, a indústria Skaf deixara de efetuar o pagamento de débitos correntes de 2001. Mencionaram-se contribuições sociais incidentes sobre o 13º salário dos empregados.

"Em resposta, os advogados de Paulo Skaf levaram aos autos um documento que corrobora a atmosfera de ruína que corroeu a empresa. A peça de defesa está datada de 24 de setembro de 2002. Anota à página cinco: "Com relação ao 13º salário de 2001, cumpre ressaltar que a empresa não dispõe de funcionários, razão pela qual não houve obrigação de recolher contribuição social".

"Em julho de 2003, já de olho na Fiesp, Paulo Skaf agiu como se desejasse suavizar a imagem de sua indústria. Migrou do Refis para outro programa de parcelamento, baixado sob Lula. Chama-se Paes.

"A despeito de ter sido apelidado no Ministério da Fazenda de "Mães", o Paes tem regras menos concessivas que as do Refis. Um exemplo: fixa o prazo de 180 meses para liquidação dos débitos. A primeira parcela amortizada pela Skaf têxtil foi de R$ 2.000. Súbito, a dívida tributária da empresa minguou. Nos computadores da Receita, caiu da casa do milhão para R$ 398.189,98 (valor de maio de 2004).

"Aproveitamos créditos decorrentes de processos administrativos e judiciais", informa Helcio Honda, advogado do presidente eleito da Fiesp. O diabo é que, por ora, o INSS desconhece a compensação de créditos. Nos arquivos eletrônicos do instituto, que não dialogam com os congêneres da Receita, o débito previdenciário da firma somava na última segunda-feira R$ 977,2 mil."

Mais recentemente, a mesma insuspeita Folha trouxe uma nota da colunista Monica Bérgamo que descrevia um embate entre o ex-ministro da Saúde Adib Jatene, que teve a idéia de criar a CPMF, e o moderno cruzado Skaf:

"Dedo em riste, falando alto, o cardiologista Adib Jatene, “pai” da CPMF e um dos maiores defensores da contribuição, diz a Paulo Skaf, presidente da Fiesp e que defende o fim do imposto: “No dia em que a riqueza e a herança forem taxadas, nós concordamos com o fim da CPMF. Enquanto vocês não toparem, não concordamos. Os ricos não pagam imposto e por isso o Brasil é tão desigual. Têm que pagar! Os ricos têm que pagar para distribuir renda”.
"Numa das rodas formadas no jantar beneficente para arrecadar fundos para o Incor, no restaurante A Figueira Rubaiyat, Skaf, cercado por médicos e políticos do PT que apóiam o imposto do cheque, tenta rebater: “Mas, doutor Jatene, a carga no Brasil é muito alta!”. E Jatene: “Não é, não! É baixa. Têm que pagar mais”. Skaf continua: “A CPMF foi criada para financiar a saúde e o governo tirou o dinheiro da saúde. O senhor não se sente enganado?” E Jatene: “Eu, não! Por que vocês não combatem a Cofins (contribuição para financiamento da seguridade social), que tem alíquota de 9% e arrecada R$ 100 bilhões? A CPMF tem alíquiota de 0,38% e arrecada só R$ 30 bilhões”. Skaf diz: “A Cofins não está em pauta. O que está em discussão é a CPMF”. “É que a CPMF não dá para sonegar!”, diz Jatene.


Como se vê, Skaf é um cumpridor da lei. Desde que ela seja em seu benefício, como o Refis e o Paes. Quando não é boa, na sua opinião, merece uma cruzada para derrubá-la. E vamos à luta!

A lei do mais forte

O presidente americano, George W. Bush, aproveita seus últimos momentos de poder para conclamar os europeus a endurecerem mais suas posições contra o Irã. Suas ordens são entusiasticamente seguidas pela Grã-Bretanha. O primeiro-ministro, Gordon Brown, agora faz o papel anteriormente desempenhado por Tony Blair, colocando-se como ajudante-de-ordens de Bush no continente.

A perseguição americana contra o Irã lembra o longo insolamento imposto pela superpotência a Cuba. Parece ser mais um caso de vingança do que a defesa de supostos valores democráticos. Em ambos os casos, os Estados Unidos acabaram perdendo aliados íntimos e dóceis aos seus interesses econômicos e geopolíticos. Em ambos os casos, a nação mais poderosa do mundo foi humilhada. E isso não poderia ficar impune.

Negar ao Irã o direito de desenvolver a tecnologia nuclear sob a alegação de que o país mascara intenções bélicas é uma atitude no mínimo cínica. Países aliados aos Estados Unidos fizeram a mesma coisa. Israel não só desenvolveu armas nucleares em quantidade suficiente para exterminar todo o Oriente Médio, mas se recusa a admitir a sua existência à comunidade mundial.

Mas a política global é assim mesmo. Prevalece a vontade do mais forte. Como se viu na campanha do Iraque, qualquer justificativa é suficiente para desencadear a hecatombe. Grande impérios se formaram e foram destruídos pelo uso da força. Os Estados Unidos apenas seguem à risca tal preceito. Não há ilusões. O próximo presidente americano deverá apenas continuar o que George W. Bush, com seus modos toscos, vem fazendo de mal ao planeta Terra.

O coração dos homens

É triste assistir a um Estado da tradição política, cívica e cultural como o Rio Grande do Sul ser achincalhado dessa maneira que se vê.

As revelações do que se passa nas entranhas do poder local chocam principalmente porque comprovam que a corrupção, o assalto despudorado aos cofres públicos, o domínio da máquina estatal apenas para dela se servir, não são privilégios de uma espécie política que se supõe anacrônica ou incrustada em grotões carentes do verniz civilizatório que brilha sobre a superfície desta recém-nascida República.

Os protagonistas desse grotesco espetáculo são pessoas educadas, cultas, bem postas na sociedade em que se criaram. Representam a elite, não vieram dos extratos mais baixos e necessitados da população, não são novos ricos que ainda buscam seu lugar entre os mais influentes, nem sindicalistas emergentes que se deslumbraram com as tentações do poder recém-obtido.

Por isso não há justificativas para o que fazem. Não há como explicar seus atos, senão como resultado de uma disseminada crença de que no Brasil tudo é lícito desde que todos fiquem satisfeitos. A lei, neste caso, é apenas um obstáculo a ser superado, nunca um impedimento.

De certa forma, porém, o episódio pode ser benéfico para as esperanças de consolidação democrática no país. Mesmo que o destino dos personagens dessa tragédia fiquem impunes, restará o consolo de saber que no jogo político não existe, como faz supor amplo espectro do pensamento dominante, apenas mocinhos de um lado e bandidos do outro.

Como dizia aquele velho herói dos quadrinhos, "só o Sombra sabe o mal que há no coração dos homens".

Aves trocadas


- Eu trago uma saudação do governador José Serra ao companheiro Geraldo Kassab.

Não, o vice-governador paulista Alberto Goldman não cometeu uma enorme gafe na convenção do PFL (Dem?) que sacramentou a candidatura do prefeito Gilberto Kassab. Ele apenas expressou a confusão que reina entre os tucanos em relação à sucessão na prefeitura paulistana.

Se Goldman, que na hierarquia do PSDB está mais para pavão do que para qualquer outra ave, foi capaz de misturar os nomes - antes ele havia chamado Kassab de Geraldo Alckmin -, imagine o que se passa na cabeça do tucano comum, aquele que está só começando a dar as suas bicadas.

Que ninguém se engane: nesse terreiro muita pena ainda vai voar.

A guerra já começou

A campanha eleitoral para a prefeitura de São Paulo já começou. Kassab, Geraldo e Marta, os candidatos que realmente contam, já saem às ruas, dão entrevistas a jornais, rádios e TV. Por enquanto, apenas Marta definiu o tema da campanha - o caos do trânsito urbano. Kassab tem ficado na defensiva, procurando mostrar que seu governo fez mais que o da petista, e Geraldo... Bem, Geraldo nunca tem nada de importante a declarar. É como uma dessas agendas de fim de ano, de folhas sempre imaculadamente brancas.

Difícil para os candidatos será convencer o eleitor que São Paulo tem jeito, seja em que área for. Dos transportes, nem há mais o que falar - os especialistas calculam que, no máximo em cinco anos, a cidade viverá imersa num congestionamento de 24 horas, ininterrupto, sem fim.

Do pobre metrô, que tantas esperanças deu aos paulistanos quando foi criado, hoje só se têm notícias trágicas. Os corredores de ônibus, solução barata e eficaz, inexplicavelmente foram abandonados. A CET e seus equipamentos se encontram sucateados. As ruas representam a própria contradição capitalista: esburacadas, imundas, suportam desde enferrujadas e arquejantes kombis a reluzentes e velozes modelos da mais sofisticada - e cara - tecnologia.

E esse é o mais simples dos problemas que os nossos valentes candidatos terão de enfrentar. Há coisas do arco da velha nas áreas da saúde, da educação, da habitação, da segurança pública, do urbanismo, da cultura... São questões que se avolumam a cada dia, desde há muito tempo, numa cidade que foi crescendo inteiramente abandonada pelos que tinham a obrigação de cuidar dela.

São Paulo não tem mais jeito. Seu próprio gigantismo decretou seu fim. Nem que milhares de Morumbis e Pacaembus fosse enchidos com as boas intenções dos seus políticos e dos seus bons cidadãos ela poderia se salvar. É um paciente terminal que sobrevive à custa de aparelhos de última geração e modernas drogas estupefacientes.

As promessas de campanha devem ser entendidas apenas como isso - meras promessas.

Claro que há opções: existe um modelo, como o atual, que privilegia o superficial (vide algo chamado "cidade limpa"), o efêmero, o fingimento, a ilusão de que os Jardins são o coração e a alma da metrópole, que os personagens branquinhos e limpinhos queilustram as páginas da Vejinha, do Estadão e da Folha são os os habitantes de carne e osso da cidade; e existe quem acredite que governar é enfrentar a sordidez da realidade do dia-a-dia de milhões de excluídos.

É, esta vai ser uma campanha eleitoral bem interessante.

Cruzados modernos

O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, quer liderar uma "cruzada" contra a CSS, o imposto em vias de ser criado para substituir a CPMF. Os argumentos são os que os empresários sempre usam nesses casos. A chantagem de ameaçar com aumento de preços faz parte do pacote.

Ninguém gosta de pagar imposto. No Brasil e no resto do mundo. Mas nenhuma sociedade civilizada prescinde deles. É recorrente o argumento de que os impostos no país são muitos e elevados. Volta e meia aparece alguém dizendo que a carga tributária brasileira é uma das mais altas do planeta.

É verdade que o Brasil está perdido em um cipoal de tributos. É lógico que não precisava ser assim. Há impostos de todos os tipos e para todos os gostos. Porém, mesmo assim, na soma, o que arrecadam os governos municipais, estaduais e federais mal e mal dá para suprir as necessidades básicas do cidadão.

Alguns argumentam que isso ocorre porque os governantes atuais não sabem gastar. Na verdade, dizem isso porque querem substituí-los. Mas foi nas mãos de tais infalíveis que o país quebrou mais de uma vez. Não passam de demagogos que se recusam a discutir uma reforma tributária séria.

A "cruzada" de Paulo Skaf e seus pares fiespianos tem tudo para comover am