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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Questão de respeito


Quando voltei ontem do trabalho, encontrei na garagem do prédio o porteiro da noite, que foi logo avisando:
- Seu Carlos, já temos água!
É, o condomínio também sofreu com a falta d'água provocada pela quebra de uma adutora na região da Berrini e cujo conserto, inexplicavelmente, demorou quase três dias.
A Sabesp, empresa que cuida do tratamento e distribuição de água na capital e em inúmeras cidades do Estado de São Paulo, e cujo acionista majoritário é o governo paulista, tem como slogan a frase "A Vida Tratada com Respeito".
A julgar pela demora que levou para consertar o cano furado e pelo descaso com que tratou o assunto - no domingo, a notícia mais atualizada em seu site era do mês de dezembro -, respeito é um valor que anda em falta - como a própria água canalizada - por lá.
O que estranho mesmo, porém, é o fato de a Sabesp estar, no momento, tão preocupada com a sua imagem, gastando, creio, uma fortuna em publicidade - no rádio existe até um tal de "Jornal da Sabesp", de intermináveis minutos de duração - e, quando surge uma oportunidade de ela provar a sua eficiência, o seu compromisso com o público, a sua excelência tão cantada em prosa e verso, ela falhe de maneira tão vergonhosa.
Acabei de escutar no rádio que o imenso buraco na Berrini ainda está lá, atormentando o trânsito. Dá para desconfiar: será que o cano foi mesmo consertado? Vou ficar atento para ver se a água está mesmo chegando ao prédio. Minha mulher não vê a hora de começar a botar para lavar a pilha de roupa suja acumulada desde sábado. Por via das dúvidas, as jarras com água potável vão continuar em cima da pia, prontas para qualquer eventualidade.
Ainda bem que o governador José Serra ficou bravo com a repórter da TV Brasil que lhe perguntou sobre os transtornos causados para 800 mil paulistanos por um buraco na tubulação. Isso mostra que ele também não deve estar satisfeito com o trabalho da sua empresa de saneamento.
O problema é que talvez ele ache que a melhor solução seja aumentar a sua verba publicitária.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Adeus, mano véio!


O espetáculo musical mais bonito que assisti não teve a participação de nenhuma orquestra com mil violinos regida por um maestro de cabelos esvoaçantes, nem a distorção de uma guitarra Fender Stratocaster cuspida por alto falantes de dez mil watts de potência a enlouquecer a multidão.
Longe disso. Foi num teatro tranquilo, com poltronas confortáveis, palco com uma discreta cenografia - e nele, músicos para lá de competentes que davam o melhor apoio do mundo aos irmãos José Ramiro Sobrinho, o Pena Branca, e Ranulfo Ramiro da Silva, o Xavantinho, craques sem igual em descrever em sons um mundo idílico que não existe mais.
Naquele show, Xavantinho já se apresentava sentado, pois sofria as sequelas de um acidente automobilístico que não o impedia, porém, de compor lindas canções, cantar e tocar violão com uma sensibilidade muito além do normal.
De pé, com sua inseparável viola, Pena Branca completava a dupla que revitalizou na música popular brasileira o gênero caipira, tão desprezado por parte do público urbano, que o confunde com o sertanejo abastardado - e tão importante para a nossa cultura.
Pena Branca e Xavantinho cantaram modas, cateretês, catiras e pagodes da mais pura tradição rural com a mesma desenvoltura que gravaram Caetano Veloso e Milton Nascimento. Conseguiram sucesso, fama, mas nunca deixaram de ser fiéis às suas origens interioranas, do campo, do mato, da vida simples na periferia da capital.
Xavantinho morreu em 1999. A dupla acabou, mas Pena Branca continuou a trabalhar com mesmo espírito que orientava a obra marcante que construiu com o irmão. Gravou vários CDs sozinhos, um deles com músicas inéditas do mano, fez inúmeros shows e continuou, de sua maneira absolutamente discreta, a ser um dos mais importantes artistas populares do país.
Nesta manhã, a internet avisa, de modo burocrático, que Pena Branca também se foi, levado por um enfarte fulminante, aos 70 anos. Morava em Jaçanã, o bairro paulistano imortalizado por Adoniran Barbosa. Passei uma vez por lá - parecia que não estava nesta São Paulo dura, insensível, massificada, pasteurizada de sentimentos e razões.
No seu último CD, "Cantar Caipira", entre outras preciosidades, está "Nuvem de Cambraia", composição sua:

"Eu saí de minha terra
Sem despedir de ninguém
Acontece que a saudade
Partiu comigo também
Aquele estradão deserto
Que longe bem longe vai
Alguém veio dizer
Volte logo para trás"

Faça uma boa viagem, mano véio!

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Jogo de palavras

Como o governador José Serra está numa fase de praticamente só se comunicar com o público por meio do twitter, escapando, sempre que pode, de opinar sobre qualquer coisa que não seja a sua "especialidade", que é falar mal, principalmente, da política do governo federal de juros e do câmbio, vale a pena recordar algumas frases que disse ao longo de sua carreira.
Claro que elas não têm a profundidade ou originalidade que se espera de um pensador genial, pois, enfim, ele é apenas o José Serra - um político provinciano que se adaptou ao figurino de uma oligarquia igualmente rasa de ideias e ideais.
De todo modo, este é o homem que pretende governar o Brasil:

"Minha mãe me considera simpático. Os outros, eu não sei. Eu só tenho certeza a respeito de minha mãe."

"O salário mínimo só poderá ter aumento significativo quando reduzirmos a informalidade no mercado de trabalho. "

"
Se Juscelino Kubitschek fosse vivo ele seria tucano, olhando para frente, reformador, um homem bem disposto."

"Se Lula fosse eleito, estaríamos diante de duas possibilidades: ou ele cumpriria seus compromissos assumidos com os empresários e estaríamos diante do maior estelionato eleitoral, depois da eleição de Collor; ou, se tentasse cumprir suas promessas mágicas com a população, levaria o Brasil à ruína."

"Sou insuficientemente simpático."

"O sistema político brasileiro tem distorções e fragilidades que levam à edição de medidas provisórias sob pena de o país tornar-se ingovernável."

"Se eu for eleito, a vaca não vai para o brejo."

"Sou de pegar o osso e não largar, como um buldogue."

"Como é que vou ser ministro da Saúde se desmaio quando vejo sangue?"

"Imagine se vou esquentar a cabeça com baixaria de blogs e twitter, @camilorocha! Se tem quem faça "militância" política assim, paciência." (no seu twitter)

"As mortes são uma fatalidade, uma tragédia. Você tem milhares de moradias, em geral em loteamentos clandestinos, lugares inseguros. É difícil as famílias concordarem em mudar de lá quando está tudo bem." (sobre as enchentes em São Paulo)

"Mandei tirar fotos do Alto Tietê. Na Grande São Paulo, é impressionante a impermeabilização, o que anuncia enchentes no futuro."

"É preciso manter a estabilidade. Manter o equilíbrio econômico é essencial"

"O presidente FHC é meu amigo, sim. Ele me apóia. Nós temos uma relação de lealdade. Mas lealdade não é igualdade"

"No meu governo, a cultura será tratada como uma prioridade do desenvolvimento social. Não será privilégio de elites nem objeto de luxo."

''Hoje são mais 8 audiências, reuniões, entrevistas e, à noite, programa da Luciana Gimenez.'' (no seu twitter)

"Na vida pública, aprendemos que se pode ouvir tanto as palavras como o silêncio."

“Tudo que se faz na vida pública que dá certo, conta a seu favor, mas você não faz por causa de eleição.”

"O PT está propondo criar 10 milhões de empregos. Se eu quisesse fazer demagogia, proporia 11 milhões. Mas aí seria um concurso de Papai Noel."

"
Eu costumo dizer que o mais inocente deles (dos donos de laboratórios) matou a mãe para ir a um baile de órfãos."

"Data de pagamento não é uma questão de direitos humanos, mas de disponibilidade de caixa."

"Não me importo de me atribuírem todos os pecados do mundo, mas, por favor, não digam que eu seria capaz de comer pizza de soja."

"Sempre disse que treino é treino, e jogo é jogo."

"Eu acho que a coisa mais importante no Brasil para o enfrentamento da crise não está sendo feita, que é a redução dos juros."

"Ela (a gripe suína) é transmitida dos porquinhos para as pessoas só quando eles espirram. Portanto, a providência elementar é não ficar perto de porquinho nenhum."

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Voos ambiciosos

Como o futebol, o noticiário político brasileiro vive da polêmica. É incrível a capacidade que os jornalões têm para descobrir um escândalo, seja lá de que tipo for. Vale tudo: desde a compra de uma tapioca até uma audiência ministerial estranhamente sem nenhum registro - ou um grampo sem áudio.
Alguns vão dizer que esse é o preço que se paga pela liberdade de imprensa. Eu já acho que, infelizmente, age-se assim por incompetência, partidarismo ou simples interesse econômico, tudo junto ou separado. Mas talvez esteja errado.
Um exemplo de como funcionam as coisas é este caso da compra dos caças para a FAB. É incrível como alguns jornalistas se esforçam para colocar sob suspeita o processo, distorcendo as informações de maneira tosca, para que ele receba o carimbo de suspeito, no mínimo.
A onda de desinformação começou quando o presidente Lula, no Sete de Setembro do ano passado, recepcionou o colega francês Nicolas Sarkozy e o governo soltou uma nota anunciando que Brasil e França iniciavam um processo de cooperação na área aeronáutica e militar - não havia nenhuma palavra sobre a compra dos 36 Rafale.
Mas foi o que bastou para que a turminha interessada em tumultuar o ambiente começasse a espalhar a conversa que Lula já havia se decidido pelos aviões franceses, com o evidente propósito de intrigá-lo com a Força Aérea - e com as outras Forças, em consequência.
Daí em diante foi uma sucessão de petardos contra a tal escolha, com vazamento de análises técnicas da FAB defasadas, opiniões e achismos de especialistas de toda espécie, numa clara intenção de melar o processo ou então de deixar o presidente Lula numa posição incômoda em relação aos militares, aos Estados Unidos, aos suecos, aos brasileiros de modo geral - afinal, que presidente é esse que ignora laudos técnicos acurados e simplesmente faz o que lhe passa pela cabeça?
O Projeto FX-2, que é como se chama o programa de reequipamento da FAB, porém, para desespero dos arautos do caos, deverá ser concluído ainda este ano. E se Lula optar, como tudo indica mesmo, pelos Rafale, é porque tomou a decisão com base numa gama de aspectos que vai além dos lobbies escancarados que fazem os concorrentes, com o beneplácito "desinteressado" de muitos jornalistas de renome.
E entre os parâmetros para a escolha está a continuidade de uma política diplomática independente e soberana, que tem feito o Brasil se tornar um dos mais importantes protagonistas do jogo de poder mundial.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

E a culpa é de quem?

Lembro dois exemplos de como é o modo tucano (e pefelista) de governar.
Na massacrada e alagada São Paulo, o prefeito Gilberto Kassab demorou dois meses para baixar um decreto declarando em estado de calamidade pública os bairros da região do Jardim Romano, afundados na água, na lama e no esgoto.
Já o governador José Serra, cuja administração vê os índices de criminalidade disparar, mandou à Assembleia Legislativa Proposta de Emenda Constitucional que muda o nome da Polícia Militar para Força Pública. Antes, ele já havia baixado lei para proibir as pessoas fumarem em áreas fechadas, ignorando legislação federal sobre o mesmo assunto, e fez com que as bananas passassem a ser vendidas por peso e não por dúzia.
Este pequeno lembrete de como funcionam as coisas nos cérebros de tais governantes não poderia omitir outras bizarrices, como fechar albergues para moradores de rua na capital, interromper a limpeza (desassoreamento) da calha do rio Tietê, cortar gastos destinados à coleta de lixo, varrição e asfaltamento de vias públicas, permitir o aumento desenfreado dos postos de pedágios das rodovias, recusar o diálogo com professores e policiais, entre outras categorias profissionais - e culpar os céus por todas as mazelas paulistas e paulistanas.
Digno de nota é ainda o fato de que São Paulo, "locomotiva" do Brasil, foi o Estado mais afetado pela crise econômica mundial, o que registrou mais desemprego e queda da produção industrial. As medidas anticíclicas elaboradas pelo "competente" economista José Serra, tão pródigo em criticar as iniciativas do governo federal, foram pífias, quase inexistentes.
Assim é a decantada maneira tucana (e pefelista) de administrar os negócios públicos. São Paulo está nas mãos dessa turma há quase duas décadas. Alguém tem ainda alguma dúvida da responsabilidade de Serra e companhia nisso tudo?

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Serra no Planalto

Envolvido em dúvidas existenciais do tipo "ser ou não ser" (candidato à presidência), o governador José Serra deve estar sem tempo para fazer seu programa de governo, aquele desfilar de promessas que raramente se concretizam.
Certa vez, cobrado por um jornalista sobre a falta de algo do tipo, o ex-governador Leonel Brizola saiu-se com essa pérola, uma frase que, se não expressa inteiramente a verdade, não está longe dela:
- Programa de governo eu compro na banca da esquina.
De qualquer modo, quem quiser saber o que Serra faria na hipótese de vir a ocupar o Palácio do Planalto basta atentar para a sua obra à frente dos negócios paulistas e paulistanos. Ou escutar o pouco que diz sobre qualquer tema relevante. Afinal, ele não é nenhuma Esfinge, aquela figura mitológica que devorava quem não acertava a charada que oferecia aos viajantes: é apenas um sujeito raso de ideias, mas largo de ambição.
Portanto, há algumas certezas sobre os pontos principais de um governo Serra. Listo abaixo dez deles, que julgo os mais evidentes. E, como toda lista, ela é falha e incompleta.

1) Para baixar os juros, como invariavelmente afirma que vai fazer, o Banco Central terá de perder a independência informal que tem tem hoje.
2) O câmbio não será mais flutuante, se ele cumprir a sua promessa de desvalorizar o real para ajudar os exportadores.
3) Paralisar as obras do PAC, como prometeu o presidente do seu partido, o senador Sérgio Guerra, é uma tarefa difícil, mas não impossível. Para isso terá de quebrar os contratos com fornecedores. Mas ele é bom nisso: fez quando assumiu a prefeitura paulistana e o governo paulista.
4) Outra característica tucana é dar pouca, quase nenhuma, importância aos programas sociais. Assim, com Serra, adeus Bolsa Família, entre outros.
5) Também forte componente do DNA da direita brasileira é, mais que ignorar, criminalizar os movimentos sociais, principalmente os mais combativos.
6) Como boa mente colonizada, Serra vai restabelecer o modelo diplomático que marcou os governos FHC: servilismo total à grande potência do Norte.
7) A aplicação da política externa que atrela os interesses do país aos dos Estados Unidos da América implica recuar completamente no processo de integração da América do Sul, que está sendo liderado pelo Brasil.
8) Serra gosta de uma guerra fiscal. Talvez estimule os Estados a promovê-la, em nome de uma competitividade suicida.
9) A privatização sempre foi e sempre será a marca registrada dos governos tucanos-pefelistas. Portanto...
10) E, por último, uma violenta e brutal "caça às bruxas". Ou se preferirem, a "noite de São Bartolomeu" em plena luz do dia, com a demissão de milhares de servidores para entregar o aparelho burocrático estatal aos apadrinhados de todos os tipos, com o fim dos concursos, terceirização de serviços, criação de cargos de confiança, loteamento de estatais etc etc.

A lista termina por aí, mas como é apenas um exercício criativo, embora embasado na triste realidade do jeito tucano de governar, pode ser ampliada à vontade.
Alguém se habilita?

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Problemas com o passado

Uma entrevista do repórter Gilberto Costa, da Agência Brasil, com Vladimir Safatle, professor da Faculdade de Filosofia da USP, esclarece vários pontos sobre a polêmica em torno do 3º Programa Nacional de Direitos Humanos e a necessidade de o país encarar o seu passado, por mais negro que tenha sido, se quiser, de fato, se transformar numa democracia.
Safatle também explica o que significa uma ditadura e porque ela não pode ser relativizada.
A entrevista é longa, mas merece ser lida:

Agência Brasil: O Brasil tem alguma dificuldade com o seu passado?
Vladimir Safatle: Existe um esforço de vários setores da sociedade em apagar a ditadura, quase como se ela não tivesse existido. Há leituras que tentam reduzir o período à vigência do AI-5 [Ato Institucional nº 5], de 1968 a 1979. E o resto seria uma espécie de democracia imperfeita, que não se poderia tecnicamente chamar de ditadura. Ou seja, existe mesmo no Brasil um esforço muito diferente de outros países da América Latina, que passaram por situações semelhantes, que era a confrontação com os crimes do passado. É a ideia de anular simplesmente o caráter criminoso de um certo passado da nossa história.
ABr: Há quem diga que o Brasil não teve de fato uma ditadura clássica depois de 1964, mas sim uma "ditabranda" se comparada à da Argentina e a do Uruguai, por exemplo.
Safatle: Essa leitura é do mais clássico cinismo. É inadmissível para qualquer pessoa que respeite um pouco a história nacional. Afirmar que uma ditadura se conta pela quantidade de mortes que consegue empilhar numa montanha é desconhecer de uma maneira fundamental o que significa uma ditadura para a vida nacional. A princípio, a quantidade de mortes no Brasil é muito menor do que na Argentina. Mas é preciso notar como a ditadura brasileira se perpetuou. O Brasil é o único país da América Latina onde os casos de tortura aumentaram após o regime militar. Tortura-se mais hoje do que durante aquele regime. Isso demostra uma perenidade dos hábitos herdados da ditadura militar, que é muito mais nociva do que a simples contagem de mortes.
ABr: Qual o reflexo disso?
Safatle: Significa um bloqueio fundamental do desenvolvimento social e político do país. Por outro lado, existe um dado relevante: a ditadura de certa maneira é uma exceção. Ela inaugurou um regime extremamente perverso que consiste em utilizar a aparência da legalidade para encobrir o mais claro arbítrio. Tudo era feito de forma a dar a aparência de legalidade. Quando o regime queria de fato assassinar alguém, suspender a lei, embaralhava a distinção entre estar dentro e fora da lei. Fazia isso sem o menor problema. Todos viviam sob um arbítrio implacável que minava e corroía completamente a ideia de legalidade. É um dos defeitos mais perversos e nocivos que uma ditadura pode ter. Isso, de uma maneira muito peculiar, continua.
ABr: Então, a semente da violência atual do aparato policial foi plantada na ditadura?
Safatle: Não é difícil fazer essa associação, pois nunca houve uma depuração da estrutura policial brasileira. É muito fácil encontrar delegados que tiveram participação ativa na ditadura militar, ainda em atividade. No estado de São Paulo, o ex-governador Geraldo Alckmin indicou um delegado que era alguém que fez parte do DOI-Codi. Teve toda uma discussão, mas esse debate não serviu sequer para ele voltasse atrás na nomeação. Se você levar em conta esse tipo de perenidade dos próprios agentes que atuaram no processo repressivo, não é difícil entender por que as práticas não mudaram.
ABr: Estamos atrás de outros países, como Argentina e África do Sul, na investigação e julgamento de crimes cometidos pelo Estado?
Safatle: Estamos aquém de todos os países da América Latina. Nosso problema não é só não ter constituído uma comissão de verdade e justiça, mas é o de que ninguém do regime militar foi preso. Não há nenhum processo. O único processo aceito foi o da família Teles contra o coronel [Carlos Alberto Brilhante] Ustra, que foi uma declaração simplesmente de crime. Ninguém está pedindo um julgamento e sim uma declaração de que houve um crime. Legalmente, sequer existiram casos de tortura, já que não há nenhum processo legal. E levando em conta o fato de que o Brasil tinha assinado na mesma época tratados internacionais, condenando a tortura, nossa situação é uma aberração não só em relação à Argentina e à África do Sul, mas em relação ao Chile, ao Paraguai e ao Uruguai.
ABr: Que expectativa o senhor tem quanto ao funcionamento da Comissão Nacional da Verdade, prevista no Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH 3), para apurar crimes da ditadura?
Safatle: Uma atitude como essa é a mais louvável que poderia ter acontecido e merece ser defendida custe o que custar. O trabalho feito pelo ministro Paulo Vannuchi [secretário dos Direitos Humanos, da Presidência da República] e pela Comissão de Direitos Humanos é da mais alta relevância nacional. Acho que é muito difícil falar o que vai acontecer. A gente está entrando numa dimensão onde a memória nacional, a política atual e o destino do nosso futuro se entrelaçam.
ABr: Antes mesmo da criação da Comissão da Verdade os debates já estão muito acalorados.
Safatle: O melhor que poderia acontecer é que se acirrassem de fato as posições e cada um dissesse muito claramente de que lado está. O país está dividido desde o início. Veja a questão da Lei da Anistia. O programa do governo [PNDH 3] em momento algum sugeriu uma forma de revisão ou suspensão da lei. O que ele sugeriu foi que se abrisse espaço para a discussão sobre a interpretação da letra da lei. Porque a anistia não vale para crimes de sequestro e atentados pessoais. A confusão que se criou demonstra muito claramente como a sociedade brasileira precisa de um debate dessa natureza, o mais rápido possível. Não dá para suportar que certos segmentos da sociedade chamem pessoas foram ligadas a esses tipos de atividades de “terroristas”. É sempre bom lembrar que no interior da noção liberal de democracia, desde John Locke [filósofo inglês do século 17], se aceita que o cidadão tem um direito a se contrapor de forma violenta contra um Estado ilegal. Alguns estados nos Estados Unidos também preveem essa situação.
ABr: O termo “terrorista” é usado por historiadores que não têm nenhuma ligação com os militares e até mesmo por pessoas que participaram da luta armada. Usar a palavra é errado?
Safatle: Completamente. É inaceitável esse uso que visa a criminalizar profundamente esse tipo de atividade que aconteceu na época. A ditadura foi um estado ilegal que se impôs através da institucionalização de uma situação ilegal. Foi resultado de um golpe que suspendeu eleições, criou eleições de fachada com múltiplos casuísmos. Podemos contar as vezes que o Congresso Nacional foi fechado porque o Executivo não admitia certas leis. O fato de ter aparência de democracia porque tinham algumas eleições pontuais, marcadas por milhões de casuísmos, não significa nada. No Leste Europeu também existiam eleições que eram marcadas desta mesma maneira. Um Estado que entra numa posição ilegal não tem direito, em hipótese alguma, de criminalizar aqueles que lutam contra a ilegalidade. Por trás dessa discussão, existe a tentativa de desqualificar a distinção clara entre direito e Justiça. Em certas situações, as exigências de Justiça não encontram lugar nas estruturas do Direito tal como ele aparecia na ditadura militar. Agora, existem certos setores que tentam aproximar o que aconteceu no Brasil do que houve na mesma época na Europa, com os grupos armados na Itália e na Alemanha. As situações são totalmente diferentes porque nenhum desses países era um Estado ilegal. E não há casos no Brasil de atentado contra a população civil. Todos os alvos foram ligados ao governo.
ABr: Os assaltos a banco não seriam atentados às pessoas comuns que estavam nas agências?
Safatle: Todos os que participaram a atentados a bancos não foram contemplados pela Lei da Anistia e continuaram presos depois de 1979. Pagaram pelo crime. Isso não pode ser utilizado para bloquear a discussão. Dentro de um processo de legalidade, de maneira alguma o Estado pode tentar esconder aquilo que foi feito por cidadãos contra eles, como se fossem todos crimes ordinários. Se um assalto a banco é um crime ordinário, eu diria que a luta armada, a luta contra o aparato do Estado ilegal, não é. Isso faz parte da nossa noção liberal de democracia.
ABr: Que democracia é a nossa que tem dificuldades de olhar o passado?
Safatle: É uma democracia imperfeita ou, se quisermos, uma semidemocracia. O Brasil não pode ser considerado um país de democracia plena. Existe uma certa teoria política que consiste em pensar de maneira binária, como se existissem só duas categorias: ditadura ou democracia. É uma análise incorreta. Seria necessário acrescentar pelo menos uma terceira categoria: as democracias imperfeitas.
ABr: O que isso significa?
Safatle: Consiste em dizer basicamente o seguinte: não há uma situação totalitária de estrutura, mas há bloqueios no processo de aperfeiçoamento democrático, bloqueios brutais e muito visíveis. Existe uma versão relativamente difundida de que a Nova República é um período de consolidação da democracia brasileira. Diria que não é verdade. É um período muito evidente que demonstra como a democracia brasileira repete os seus impasses a todo momento. O primeiro presidente eleito recebeu um impeachment, o segundo subornou o Congresso para poder passar um emenda de reeleição e seu procurador-geral da República era conhecido por todos como “engavetador-geral”, que levou a uma série de casos de corrupção que nunca foram relativizados. O terceiro presidente eleito muito provavelmente continuou processos de negociação com o Legislativo mais ou menos nas mesmas bases. Chamar isso de consolidação da estrutura democrática nacional é um absurdo. Os poderes mantêm uma relação problemática, uma interferência do poder econômico privado nas decisões de governo. Um sistema de financiamento de campanhas eleitorais que todos sabem que é totalmente ilegal e é utilizado por todos os partidos sem exceção.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Tesouros (quase) perdidos

Casquinha, Zeca Pagodinho, Monarco e Mauro Diniz, em cena do filme

Assisti neste fim de semana ao documentário "O Mistério do Samba", dirigido por Carolina Jabor e Lula Buarque de Hollanda. Achei que, com tantos personagens de extrema riqueza humana, com tanta música boa sobrando, o filme poderia ser melhor. Falta a ele, a meu ver, um roteiro que torne mais compreensível o que os autores quiseram mostrar - a Velha Guarda da Portela, a própria Portela, seus sambistas?
De qualquer modo, o longa-metragem é muito importante como registro desses artistas maravilhosos que fazem a autêntica música popular brasileira. Vê-lo no dia em que fiquei preso no trânsito, a poucos metros de onde moro, por causa do show do grupo americano de heavy metal Metallica, foi ainda mais enriquecedor - solidifica a crença que sempre tive de que a arte mais universal e profunda é aquela feita com o propósito de satisfazer não o grande público, mas a grande alma.
Por coincidência, acabei achando, também neste fim de semana, um CD com a "sinfonia" popular que Billy Blanco lançou, em 1974, em homenagem a São Paulo, da qual até hoje se ouvem excertos no rádio, principalmente na Jovem Pan, que transformou uma de suas músicas, "O Tempo e a Hora", numa espécie de marca registrada da emissora:

"Vombora, vombora
olha a hora, vombora
vombora, vombora
olha a hora, vombora
vombora!
que o tempo não espera
a vida é derradeira
quem é, vai ser, já era
de qualquer maneira
o mundo é do que eu quero
- o quem me dera é triste -
tristeza basta a guerra
e o adeus no amor".

A obra é uma beleza, atual mesmo depois de quase 40 anos. E está aí, perdida no meio de tanta porcaria que vem de fora, em meio a milhares de toneladas de lixo. Mas o próprio Billy Blanco tem uma explicação para que tais coisas ocorram. Os versos são da música "O Dinheiro", faixa 6 da sua "Paulistana - Retrato de uma Cidade":

"Dinheiro, mola do mundo
que põe a gente na tona
que leva a gente ao fundo
....
Dinheiro, jura e juros
que ergue todos os muros
pra ele próprio depois
derrubar, derrubar, derrubar
é a voz que fala mais forte
razão da vida e da morte
também só compra o que
pode comprar"

Heavy metal

Minto se disser que já escutei alguma música do grupo Metallica. Ou que tenha algum interesse em ouvir o que esses roqueiros americanos tocam. Meus ouvidos foram treinados para rejeitar instantaneamente tal cacofonia.
Mas, mesmo sendo um completo ignorante sobre os assuntos dessa banda, fora o fato de que, como tantas similares o baterista deve ser um sujeito absolutamente impiedoso com seu instrumento, o guitarrista um huno destruidor de cordas e palhetas, e o cantor, uma mistura do Pato Donald com Agnaldo Rayol, fui obrigado, por uma distração imperdoável, a vivenciar o quão inconveniente pode ser o heavy metal para a vida de quem não é mais adolescente.
Explico. Moro mais ou menos perto do estádio do Morumbi, onde a tal banda se apresentou ontem e se apresenta hoje, e, totalmente ignorante do calendário musical, resolvi, com minha mulher, fazer compras no supermercado.
Quando me dei conta, estava perdido entre uma multidão de rapazes e moças com camisetas pretas, grande parte deles (os rapazes, fique bem claro) com cavanhaques, como se fossem fabricados em série, centenas de carros se arrastando em congestionamentos, ruas bloqueadas, e dezenas de ônibus estacionados em locais onde, supostamente, deveriam passar os veículos.
Passado o susto, já refeito da péssima experiência metaleira - para que os nervos voltassem ao lugar eu e minha mulher tivemos de escutar uma seleção de sambas imortais cantados pela Velha Guarda da Portela - e conformado em ficar com a geladeira quase vazia, atentei para um fato que havia passado desapercebido quando estava no meio da confusão: o estádio do Morumbi não tem estacionamento e, por isso, tantos ônibus e carros estavam entupindo as suas imediações.
Ora, um estádio que não tem estacionamento para seu público, pensei, é um estádio incompleto. O Morumbi existe há mais de 30 anos e até hoje não foi terminado. Mesmo assim seus proprietários desejam, ansiosamente, que ele seja palco de algum jogo importante da Copa do Mundo de futebol de 2014.
A pretensão, tudo indica, vai virar realidade. Já li que o BNDES pretende despejar uns R$ 300 milhões na construção das tão necessárias garagens. O detalhe é que o Morumbi não tem espaço para tais obras e elas precisarão ser feitas em terreno...público.
É, existem certas coisas que nem o mais estridente acorde do Metallica pode encobrir.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Tiro no pé

Incapaz de esconder a tragédia paulista trazida pelas chuvas de verão, a grande imprensa tenta se redimir omitindo os dados da última pesquisa Vox Populi, que mostra a candidatura José Serra caindo na mesma proporção das águas de janeiro.
É uma tola providência, contudo. O poder que os jornais têm, hoje, de influenciar corações e mentes é muito reduzido. Na verdade, isoladamente, sem poder usar a tática de um ficar repercutindo o "furo" do outro, eles são como os "house organs" que algumas empresas fazem, com notícias para serem lidas por um público interno, mas que, na verdade, interessam apenas aos seus diretores.
Somada, a tiragem dos principais jornais do país - Folha, Globo, Estadão - não chega a 1 milhão de exemplares. Na teoria, cada um deles é lido por 4 pessoas, o que significa que têm cerca de 4 milhões de leitores. A internet no Brasil já é acessada por 40 milhões de pessoas. Muitas delas já desistiram das formas convencionais de mídia e julgam que é a web que tem as informações mais confiáveis.
De certa forma, é por isso que o cidadão paulistano hoje se sente ludibriado pela propaganda com a que é bombardeado diariamente. Por mais crédulo que seja esse infeliz morador da metrópole, não dá para ele acreditar nas histórias da carochinha contadas por um prefeito e um governador que deixaram o dia a dia de milhões se transformar num inferno.
Como consequência inevitável disso, mitos como a excelência da gestão tucana estão indo, com o perdão do trocadilho, por água abaixo. Pois só aqueles que têm um parafuso solto podem defender uma administração municipal que assiste, há dois meses, impávida, a um bairro inteiro viver na imundície - e nada faz para resolver o problema.
E o que dizer então de um governador que passa as madrugadas postando mensagens no twitter e inicia a sua jornada de trabalho perto do meio-dia?
Certo é que, de agora em diante, com a campanha presidencial tomando corpo, mais a mídia tradicional vai procurar esconder os defeitos e a incompetência de seu candidato preferido. Dessa forma, abdicando de sua função histórica e assumindo o papel de auxiliar de uma força política-partidária minoritária, abrevia ainda mais o pouco que lhe resta de vida. Será um triste fim.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Recaída

Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/ABr
Serra: imprensa boa é imprensa a favor

É notória a ligação do governador José Serra com a chamada grande imprensa. Folha e Estadão não se envergonham de estender tapetes vermelhos para ele. Também é sabido o desprezo que Serra nutre pelo trabalho dos jornalistas - e por eles próprios.
Na campanha presidencial de 2002, na redação do Estadão, as queixas dos coitados dos repórteres encarregados de cobrir o as andanças do tucano eram constantes. Diziam que não passava um dia sequer sem que Serra pedisse a cabeça de alguém, por não gostar ou do título da matéria, ou da foto escolhida, ou de alguma frase mal colocada.
Não sei se foi piada, mas disseram que ele, num estado de mau humor além do normal, chegou a exigir que o motorista de um carro de reportagem fosse demitido...
Nos últimos tempos até que Serra tem estado bem comedido - trocou as broncas que dava pessoalmente pelo trabalho de assessores, que se encarregam de mandar cartas agressivas aos jornais quando não gosta - e isso é frequente - de alguma matéria.
Nesta semana, porém, Serra teve uma recaída, talvez ocasionada pelo estresse da campanha presidencial meio emperrada, talvez pelo excesso de chuva que atrapalha seus planos publicitários de mostrar como é bonito o vale em que reina.
A dura que ele aplicou nos jornalistas foi no meio de uma coletiva, na capital. Ele não gostou de uma pergunta sobre a construção de piscinões na cidade como alternativa para combater as enchentes e foi rápido no gatilho: "Outro dia eu inaugurei um com 500 metros cúbicos, o segundo piscinão do Brasil. A imprensa não deu a menor bola. Porque dá-se bola para o problema, mas para a solução, não."
A insuspeita Folha acabou dando razão a quem fez a pergunta, ao informar que "pelo plano antienchente da bacia do Tamanduateí, feito em 1998, deveriam ser construídos na região do rio 37 piscinões e passados quase 12 anos, apenas 41% destes projetos, segundo o Daee (Departamento de Águas e Energia Elétrica), estão em funcionamento". O jornal explica ainda que "o Tamanduateí é o principal afluente do rio Tietê, que transbordou três vezes desde a inauguração da obra de rebaixamento de sua calha em 2006. Na época da inauguração, o governo do PSDB, então sob o comando de Geraldo Alckmin, dizia que as cheias no local iriam acabar".
Calma, Serra. Tem muito chão ainda até a sua posse no Palácio do Planalto.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

"Ninguém mordeu o dedo de ninguém"


Antes de ir para o Fórum Econômico Mundial, que reúne a elite econômica do planeta na minúscula Davos, na Suíça, o presidente Lula passou por Porto Alegre, que sedia a 10ª edição do Fórum Social Mundial. Lá, para uma plateia de 7 mil pessoas, criticou duramente o empresariado do setor de comunicação, que fugiu das discussões da Conferência Nacional de Comunicação, a Confecom, realizada em dezembro, em Brasília.
Ele defendeu a reunião, afirmando que as políticas para o setor devem ser discutidas também pela sociedade: “Vocês sabem que metade dos empresários da comunicação não participou. Todos participaram, praticamente todos os movimentos sociais. É engraçado que ninguém mordeu o dedo de ninguém, as pessoas não iam lá para xingar, para ofender, as pessoas iam lá para dizer: você têm um olhar diferente de mim. Vamos juntar esses dois olhares e ver qual é o olhar que podemos dar para a política de comunicação, que não pode ficar apenas sendo discutida por alguns empresários, mas pela sociedade."
A Confecom aprovou 665 propostas em defesa de um marco regulatório para o setor, de maior participação da sociedade na difusão dos direitos humanos pelas veículos de comunicação, de um conselho de classe para os jornalistas e da regulamentação de artigos constitucionais que tratam da produção de conteúdos regionais, educativos e culturais, por exemplo.
No discurso, Lula citou a contribuição dessas conferências para as políticas sociais brasileiras. Lembrou que mais de 60 reuniões sobre diversos temas foram realizadas nos últimos sete anos e disse que pretende legalizar o modelo desses encontros, juntamente com as políticas sociais, para que outros setores também tenham um espaço democrático de diálogo com a sociedade.
Ao fazer um balanço dos 10 anos do Fórum Social Mundial, o presidente citou a contribuição da sociedade e avaliou que o espaço está “calejado, mais maduro e mais sabido”. Segundo Lula, após a crise financeira internacional, que levantou incertezas sobre o modelo neoliberal, o FSM tem um espaço para crescer como contraponto às políticas capitalistas.
Sobre o encontro de Davos, no qual vai receber o prêmio de "estadista global", Lula disse que o Fórum Econômico Mundial não tem mais o mesmo glamour que tinha em 2003: "Tenho a consciência de que Davos já não tem mais o glamour que eles pensavam que tinham em 2003. O sistema financeiro já não pode desfilar como sendo o modelo exemplar de gerenciamento porque acabou de provocar a maior crise mundial dos últimos anos.” Segundo Lula, desta vez ele vai a Davos com outra missão. “Quero mostrar que se o mundo desenvolvido tivesse feito a lição de casa em economia, a gente não teria tido a crise”, afirmou, ao criticar o que chamou de irresponsabilidade na condução do sistema financeiro.
Com informações da Agência Brasil

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Chama o ladrão

Sabe aquela sensação de medo e insegurança que só quem mora em São Paulo permanentemente tem? Pois é, a se acreditar na Folha, a explicação é bem simples: segundo o jornalão, dos 3.313 delegados da Polícia Civil do Estado, 800, ou cerca de 24% estão atualmente sob investigação da Corregedoria Geral da Polícia, sob a suspeita de vários crimes - extorsão, enriquecimento, violência, prevaricação, mau uso de dinheiro público etc.
E, para completar o quadro, até um ex-corregedor, Ruy Estanislau Silveira Mello, diretor do Detran até outubro de 2009, integra a lista dos delegados investigados no Estado.
A denúncia da Folha ganhou, sabe-se lá porque, repercussão anêmica nos outros órgãos de imprensa, tão céleres em levar às manchetes acusações contra políticos de partidos aliados ao governo federal - e, especialmente, contra integrantes do governo.
O caso da corrupção praticamente generalizada na polícia paulista é de deixar qualquer um de cabelo em pé, principalmente por se tratar de uma entidade incrustada no Estado mais rico da federação, há cerca de duas décadas sob o comando da mesma agremiação política - que agora pretende voltar ao poder central.
Não dá para isentar o governador atual e os passados de culpa por esse estado de coisas. Afinal, a estrutura policial está subordinada a eles e bastaria uma conversa com qualquer infeliz cidadão que, algum dia, precisou contar com os "serviços" dos nossos bravos policiais, para perceber que algo muito, mas muito errado mesmo, ocorria naquela área.
A situação chegou a um ponto tão grave que consertá-la é praticamente impossível. O melhor, se São Paulo fosse governado por alguém realmente preocupado com o bem-estar da população, seria começar tudo do zero: anunciar a falência do sistema policial atual e instituir um inteiramente novo. Mas para fazer isso é preciso coragem e disposição, é preciso ser um estadista e não apenas um político provinciano.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Sem parar


O Estado de São Paulo tem 139 praças de pedágio em suas rodovias, segundo informação colhida no site da Artesp, a "Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados de Transporte do Estado de São Paulo".
As tarifas variam de R$ 1,30, no Rodoanel, a R$ 17,80, na Via Anchieta e Imigrantes.
O esclarecedor site da Artesp informa, na seção Princípios Institucionais, que a missão da agência é "promover e garantir a prestação de serviços de transporte de excelência, seguro e sustentável, compatível com as necessidades coletivas", e os valores que guiam o seu trabalho são "Ética, Transparência, Autonomia, Inovação e Responsabilidade Social".
As suas atribuições são "implementar a política estadual de transportes; exercer poder regulador; elaborar modelos de concessões, permissões e autorizações; garantir a prestação de serviços adequados; zelar pela preservação do equilíbrio econômico-financeiro dos contratos e estimular a melhoria da prestação dos serviços públicos de transporte".
Os pedágios paulistas, apesar das bonitas palavras para justificá-los, são o exemplo mais visível da incrível capacidade que certos governantes têm para distorcer suas funções, criar benefícios para os amigos e burlar as leis fundamentais do país.

Simples assim


Caetano Veloso ataca novamente. Extraído do Estadão:

“Tenho pouquíssimas relações com o presidente Lula, exceto as que você tem, porque vivo no país de que ele é presidente. Votei nele pra se eleger, não votei nem pra se reeleger, mas acho que é admirável o que vem acontecendo com o Brasil, desde que Collor abriu o mercado. E aí Fernando Henrique, com um governo espetacular, a criação do real. O plano real está dando certo até hoje, porque Lula também foi esperto. Acho que se fosse Serra poderia mudar. Lula foi esperto, chamou Meirelles, botou no Banco Central, ficou uma política mais parecida com a do Chile, que foi Pinochet que implantou.”
“...Então a nossa história é complexa, não pode ficar simplificando ‘eu sou de esquerda, eu sou direita, odeio você, você me apetece’. É muito pobre, entendeu? Eu não sou pobre. Acho o seguinte: Lula é uma figura histórica, com grandeza épica, pra entrar na lista de Fernando Pessoa de ‘Mensagem’. Foi o que eu disse em Lisboa, repeti aqui, nem o embaixador de Portugal entendeu, o imbecil.”

Entendeu?

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Ponto de virada

Kassab toma um cafezinho antes de ir à luta: prefeito sofre...
Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/ABr

As declarações do prefeito Gilberto Kassab de que a população paulistana deve ficar tranquila, apesar do caos vivido pela capital a cada chuva mais forte, pois "os investimentos estão ocorrendo", mostram o tipo de político que dirige a maior cidade da América do Sul: incompetente administrativamente, insensível socialmente e inteiramente despreparado sob qualquer análise.
Kassab teve, a vida inteira, atuação política medíocre, e antes de ganhar a cadeira de prefeito de José Serra, era um completo desconhecido da população - que agora passa a conhecê-lo melhor. A continuar nessa toada, ele deverá bater o recorde de impopularidade no cargo, galardão ostentado por outro "poste", Celso Pita, uma invenção de Paulo Maluf que causou prejuízos incomensuráveis a São Paulo.
Kassab não tem vida própria, é um simples fantoche nas mãos do governador José Serra, que, neste instante, deve estar arrependido de tê-lo feito seu sucessor - hoje, a sua presença na prefeitura representa um fardo pesadíssimo a atrapalhar as pretensões eleitorais do tucano. Antes algo impensável, um rompimento ostensivo da parceria PSDB-DEM na direção da metrópole, é agora uma opção política a ser considerada, revivendo o episódio Maluf-Pita.
E enquanto esse impasse não se resolve, a cidade vai se desintegrando, afundando nas chuvas, na lama e no esgoto, sendo estrangulada por centenas de quilômetros de vias congestionadas, sem capacidade de oferecer aos seus moradores condições mínimas de habitalidade, com os seus serviços sucateados, o lixo se acumulando nas ruas, os buracos nas ruas e calçadas como exemplo mais visível do abandono e do descaso administrativo.
O que acontece em São Paulo não é só uma tragédia - é o episódio que demarca claramente as diferenças entre as duas maneiras de fazer política que se digladiam hoje no Brasil.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Bom dia, caos!


Escuto no meu radinho de pilha - sim, porque meu apartamento está sem eletricidade já há mais de uma hora e escrevo graças à bateria do laptop - que a cidade, mais uma vez, amanheceu no caos.
Mortes, inundações, congestionamentos imensos, trens parados, assaltos... um quadro devastador, mais uma vez causado, dizem, "pelas fortes chuvas que caíram sobre a capital durante a madrugada", como atesta o locutor de uma categorizada estação paulistana de AM.
"A prefeitura de São Paulo está fazendo de tudo para melhorar o dia a dia das pessoas", afirma a voz de veludo do comercial que se segue à informação sobre o colapso metropolitano desta quinta-feira.
Ela soa como uma provocação grosseira, mas pelo menos serve para uma reflexão: será que as nossas autoridades - o prefeito, o governador - acham mesmo que os moradores desta infeliz cidade acreditam nessa bobagem?
Outro locutor diz que São Paulo vive um dia atípico - uma meia verdade. São Paulo passa, isso sim, por um ensaio do que será seu cotidiano em um futuro próximo. Qualquer pessoa com um mínimo de bom-senso tem claro que, a continuar esse quadro de inação administrativa, em poucos anos será praticamente impossível para o cidadão comum realizar, sem um custo físico e emocional altíssimo, as funções corriqueiras, como estudar ou trabalhar.
Outro comercial entra no ar: "Nunca antes a Prefeitura de São Paulo gastou tanto em obras contra enchentes."
A sensação que a mensagem nos deixa, desta vez, é de completo desalento: parece que não é só a metrópole que se desmancha, mas a própria dignidade de uma importante categoria social, a dos políticos, esses homems que têm a difícil missão de liderar outros homens, mas que se comportam como simples mistificadores de quinta categoria.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Água abaixo

A popularidade do governo Kassab afunda na proporção em que aumentam as chuvas em São Paulo. Pesquisa do Ibope encomendada pela ONG Nossa São Paulo mostra que o número de pessoas que consideram ótima ou boa a gestão do demista caiu de 46% para 28% e que subiu de 12% para 26% a quantidade de pessoas que avaliam a administração como ruim ou péssima. A pesquisa foi feita em dezembro.
Os números coincidem com a queda nos índices de outros indicadores de bem-estar na cidade. Por exemplo, aumentou de 6% para 28% a quantidade de pessoas que afirma temer alagamentos. Também apresentaram altas o receio em relação ao trânsito (16% para 18%), atropelamentos (7% para 13%), assaltos ou roubos (57% para 65%) e torcidas de futebol (6% para 11%).
A avaliação foi feita com base nos Indicadores de Referência de Bem-Estar no Município, que compreende aspectos como saúde, transporte, habitação, meio ambiente, trabalho, espiritualidade, sexualidade, transparência e participação política, entre outros. A nota média de São Paulo foi de 4,8 pontos numa escala de 1 a 10. A nota 1 significa estar totalmente insatisfeito; a nota 10, totalmente satisfeito.
Um dado a ser destacado: um ano atrás, 53% dos entrevistados afirmavam que não sairiam de São Paulo; em dezembro de 2009 houve uma inversão, com 57% afirmando que gostariam de morar em outra cidade e só 41% dizendo que preferem ficar.
O item mais bem avaliado foi o das relações humanas, que ficou com nota 6,5, seguido de religião e espiritualidade (com 6,3). O item trabalho também obteve nota acima da média, com 6,2. Saúde e educação ficaram com uma média de 5,1 e 5,0, respectivamente. Mais de 60% acreditam que não há democracia na educação e 71% acham que o serviço para agendar consultas, exames e resultados nos sistemas de saúde é ruim ou péssimo. Os menores índices, por sua vez, ficaram com segurança (4,3), transporte (4,0) e desigualdade social (3,9).
A nota mais baixa ficou com transparência e participação política (nota 3,3). A honestidade dos governantes foi avaliada por 92% dos entrevistados como ruim ou péssima e a punição à corrupção e a transparência dos investimentos públicos foram mal avaliados por 88%. A nota para honestidade dos políticos foi de apenas 2,3.
Os números são péssimos para Kassab e principalmente para o governador José Serra, que esperava contar com a ajuda do prefeito em sua campanha presidencial. Em vista do resultado negativo da gestão dos aliados demistas, Serra terá agora de extrair da cartola uma nova estratégia que faça com que os eleitores acreditem na eficiência do modelo de gestão da coalização PSDB-PFL.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Dor de barriga

Quase pouco se tem lido na imprensa sobre o surto de diarreia no Estado de São Paulo. As informações são ainda bastante vagas, mas os relatos indicam forte incidência da doença no litoral, principalmente no Guarujá, que, nesta época do ano, recebe dezenas de milhares de turistas, em algumas cidades do interior e na própria capital.
O secretário de Saúde do Guarujá, Marco Antonio Barbosa, acredita que a epidemia é um fenômeno único e há boas chances de ela ter sido causada pelo norovírus, detectado em Olímpia, município a 447 quilômetros da capital. A Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) está fazendo análises para descobrir se praias de Santos e Guarujá possuem, em suas águas, um outro tipo de vírus que causa diarreia, o enterovírus.
Em Olímpia, exames realizados pelo Instituto Adolfo Lutz mostraram que o surto de diarreia foi causado pelo norovírus, mesmo vírus que, no ano passado, provocou diarreia em cerca de 350 turistas que viajavam em um cruzeiro entre o Rio e o Nordeste. Na cidade paulista foram registrados, entre 30 de dezembro e o dia 12 deste mês, 367 casos de diarreia, muitos deles em turistas que frequentaram um parque aquático que recebe centenas de visitantes por dia.
Segundo a Secretaria da Saúde de Olímpia, é provável que os casos da doença tenham sido provocados pelo norovírus. Os sintomas são náusea, vômito, diarreia e dores abdominais, além de fortes dores de cabeça e febre.
O secretário de Estado da Saúde, Luiz Roberto Barradas Barata, admitiu na semana passada que "tecnicamente" já é possível afirmar que a Baixada Santista enfrenta um surto de diarreia.
A declaração foi dada com base em informações repassadas pelas autoridades de saúde da região, a respeito do número de casos da doença registrados desde o Natal. Ele disse que não há uma definição exata sobre o que vem motivando o aumento desses diagnósticos:
- Até o momento, não conseguimos descobrir a causa exata do problema. Os municípios estão trabalhando nisso.
Barradas Barata lembrou que há indícios do crescimento da doença em outras regiões do Estado, ainda que em escala menor.
Há a suspeita que o surto de diarreia esteja sendo causada pela ingestão da água distribuída pela Sabesp. A Secretaria de Saneamento afirma que o líquido é próprio para o consumo. Mas a própria empresa admitiu que, no ano passado, a água de alguns municípios litorâneos continha quantidade acima da normal de coliformes e estava, portanto, contaminada.
Espera-se que a grande imprensa, tão diligente nos casos das recentes epidemias imaginárias de febre tifóide e gripe suína, aja, neste caso, com a mesma rapidez, firmeza e profissionalismo das vezes anteriores.
Ou isso é pedir muito?

sábado, 16 de janeiro de 2010

Espelho, espelho meu (2)

Sem querer ser chato, mas já sendo: nem no velório da doutora Zilda Arns o governador José Serra conseguiu deixar de falar dele mesmo.
O trecho abaixo é de matéria da insuspeita (no caso do governador paulista) Agência Estado:
Por diversos momentos, Serra embargou a voz ao falar de Zilda Arns. Ele disse que o que mais o emocionou foi conhecer os netos da médica. "Todos os netos e netas dela queriam me conhecer porque tinham ouvido falar de mim pela avó", contou.
Serra destacou que tinha uma relação pessoal com Zilda Arns e que eles chegavam a trocar ideias e conselhos na área política. "Ela não assumia posições políticas de forma públicas, mas, pessoalmente, sempre me incentivou em todas as campanhas e disputas de que participei", revelou.

Traduzindo: Serra é o ídolo até da nova geração da família Arns, e a falecida Zilda Arns - que não pode contestá-lo - era sua fã e eleitora de carteirinha.
Haja modéstia!

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Espelho, espelho meu


Na quarta-feira, ainda sob o impacto causado pela morte de dezenas de milhares de haitianos, de mais de uma dezena de militares brasileiros, e da fundadora da Pastoral da Criança, Zilda Arns, diversas autoridades do país foram a público lamentar o ocorrido e ressaltar o trabalho humanitário desenvolvido pela médica catarinense radicada no Paraná.
Entre eles, destaco uma das manifestações, a nota oficial emitida pelo governador de São Paulo, José Serra, transcrita na íntegra a seguir. Os grifos são meus:
"Zilda Arns era uma mulher extraordinária. Movida pela fé cristã, conhecedora do espírito de solidariedade do nosso povo, simbolizava como ninguém o trabalho da Pastoral da Criança, com mais de 150 mil voluntários espalhados em mais de 3,4 mil municípios do Brasil, nas regiões mais pobres, atuando junto às famílias, às gestantes e às criancinhas. Quando ministro da Saúde, a Pastoral da Criança, e dona Zilda, foram nossos principais parceiros no combate à mortalidade infantil. Logo no início da minha gestão de quatro anos duplicamos os investimentos no trabalho por eles desenvolvido. A forte queda dessa mortalidade deve-se muito à ação da Pastoral. Por isso mesmo, em 2001 coordenei a proposta de outorga do Prêmio Nobel da Paz à dona Zilda, proposta essa que obteve grande apoio em todo o Brasil e no exterior. Como indivíduo, ninguém fez tanto em nosso país pela vida das crianças quanto Zilda Arns. Sua perda é dolorosa para todos nós. Para mim, foi-se uma amiga, muito querida".
Serra até que falou pouco de si próprio.
Faltou dizer certas coisas que repete ad nauseum, tais como ter sido eleito (?) o melhor ministro da Saúde do mundo, ter instituído o melhor programa de prevenção à aids do universo e a venda dos genéricos no país (sic).
A cada dia que passa Serra mostra que a modéstia, definitivamente, não é o seu forte, e que a descortesia já se transformou em marca registrada.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Verde que te quero verde








Em vez de uma crônica escrita, uma crônica visual, um pequeno passeio bucólico pelas ruas de meu bairro - tradicional, de classe média, nem tão longe nem tão perto dos paraísos frequentados pela sorridente elite paulistana.
Obrigado, Kassab, obrigado, José Serra!

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Vale tudo

Enganou-se quem esperava que a cota das insanidades deste início de ano já tivesse se esgotado com o barulho todo que se faz em torno do 3º Plano Nacional de Direitos Humanos, uma simples carta de intenções que virou, para os arautos do caos, lei transitada e julgada.
O ministro do Trabalho, Carlos Lupi, contrariando promessa feita à Federação Nacional dos Jornalistas e aos sindicatos da categoria, resolveu editar, no fim do ano passado, norma interna orientando as Secretarias Regionais do Trabalho no processo de registros de jornalistas.
E a orientação é para aceitar o registro, como jornalista, de qualquer pessoa, seguindo o acórdão do Supremo Tribunal Federal, que no ano passado, julgou que o diploma de curso específico não é necessário para o exercício da profissão, cedendo a lobby de anos e anos das entidades patronais.
"A norma do Ministério do Trabalho cria a situação absurda e inaceitável de registros de menores, analfabetos e, até mesmo, criminosos", critica o presidente da Federação Nacional dos Jornalistas, Sérgio Murillo de Andrade, acentuando que a emissão de registros para não diplomados segue o critério zero. "O ministro do Trabalho seguiu literalmente as posições estapafúrdias do ministro Gilmar Mendes que acha que para ser jornalista, basta estar vivo."
A decisão não afeta apenas os jornalistas profissionais diplomados, que se encontram agora inteiramente à mercê da chamada "lei do mercado", segundo a qual sobrevivem apenas os mais afinados com o pensamento do patronato - todo ele concebido em torno de ideias conservadoras, reacionárias, neoliberais, algumas vezes com indisfarçável simpatia pelo fascimo puro e simples.
Perde também, com tamanha imbecilidade, o conjunto da sociedade brasileira, que tem agora motivos ainda mais fortes para desconfiar da qualidade da informação que é transmitida.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Das trevas

A morte, segunda-feira, da principal protetora da menina judia-alemã Anne Frank e sua família, Miep Gies, aos 100 anos, na Holanda, nos relembra os horrores do nazismo e tudo o ele representa.
Miep Gies era a única sobrevivente do pequeno grupo de pessoas que conheciam o esconderijo onde os Frank viveram por dois anos, em Amsterdã, durante a Segunda Guerra Mundial. Era secretária do pai de Anne Frank, Otto, e ajudou sua família e outras quatro pessoas a se esconderem dos nazistas, de 1942 a 1944. Depois que uma denúncia anônima levou os alemães à descoberta do esconderijo e à prisão dos Frank e seus companheiros, Miep encontrou no local o diário e outras anotações de Anne, cujo conteúdo virou um dos livros mais lidos do mundo e uma obra fundamental para compreender o que era a vida sob um regime totalitário.
No Brasil, sob os anos de chumbo da ditadura militar, tal e qual sob Alemanha de Hitler, as pessoas viviam sem nenhuma garantia de respeito aos seus direitos fundamentais. Como no caso dos Frank, uma denúncia, feita sabe-se lá com que propósito, poderia levar qualquer um à prisão, à tortura ou à morte. Eram os tempos do "Ameo-o ou deixe-o".
No Brasil atual as pessoas falam o que querem, têm toda a liberdade para criticar o governo, a oposição usa sem nenhuma cerimônia os palanques generosamente oferecidos pela mídia. O país é uma democracia, jovem ainda, com imperfeições visíveis, mas onde as instituições se respeitam e procuram trabalhar.
Essa polêmica que a imprensa vem alimentando sobre o 3º Plano Nacional de Direitos Humanos faz parte do jogo democrático. As instituições que se sentiram prejudicadas por algumas das diretrizes do documento estão aí chiando. São os ruralistas, que toda a vida viveram da exploração da mão de obra; a Igreja, com suas práticas medievais; os militares, ainda apegados à velha doutrina da Guerra Fria; os políticos oposicionistas, por razões óbvias; a própria imprensa, com seu monopólio da verdade.
E eis que agora aparecem os advogados paulistas como os mais novos críticos do plano. Segundo nota divulgada pela seção de São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a criação da Comissão da Verdade, prevista no documento para investigar torturas e desaparecimentos durante o regime militar, precisa ser mais bem detalhada "para afastar o que vem sendo compreendido como revanchismo pelos militares".
O entendimento dos advogados paulistas diverge da análise da OAB nacional, que apoia a criação da comissão. Para o presidente do Conselho Federal da Ordem, Cezar Britto, os militares que cometeram crimes de lesa-humanidade no período do regime militar (1964-1985) devem ser punidos legalmente.
O presidente da OAB-RJ, Wadih Damous, também se manifestou a favor da comissão e sugeriu a demissão do ministro da Defesa, Nelson Jobim, e dos comandantes militares contrários à punição de crimes cometidos na ditadura.
Já para a OAB-SP, "as reações contrárias de inúmeros setores da sociedade organizada às propostas formuladas pelo plano demonstram que as soluções apontadas não foram suficientemente debatidas e não passaram pela devida reflexão do povo brasileiro, embora possam agradar a alguns grupos pelo seu viés ideológico". A OAB paulista afirma que o objetivo da comissão deve ser o de esclarecer o que aconteceu com os ainda 140 desaparecidos durante o regime militar.
A nota é assinada pelo presidente da seção paulista, Luiz Flávio Borges D'Urso, e pelo coordenador da comissão de Direitos Humanos da OAB-SP, Martim de Almeida Sampaio. A entidade critica ainda a proposta de criação de uma comissão que monitore o tratamento dado pelos meios de comunicação aos direitos humanos. Para ela, a ideia é uma nova tentativa de censura à imprensa. "Da forma como está [o plano], não pode permanecer", afirma a nota.
Vale lembrar que Luiz Flávio Borges D'Urso foi um dos idealizadores do fracassado movimento Cansei, que reunia setores do empresariado, representantes da alta burguesia e artistas da Globo que pretendiam convencer a população brasileira que este era um país governado por um analfabeto e corrupto que merecia ser defenestrado para dar lugar a alguém mais próximo a eles. De preferência algum medalhão tucano, desses que dizem que vão mudar tudo para tudo ficar exatamente como era antes.
Borges D'Urso também trabalhou intensamente na campanha eleitoral de Gilberto Kassab e, na Folha, na ocasião, deu um depoimento sincero e apaixonado sobre as razões de sua escolha: "Ele está sendo um excelente prefeito para São Paulo. E meu filho integra o Democratas, foi candidato a vereador por esse partido. Por esses motivos, voto em Kassab."
Como já disse, o Brasil é hoje uma democracia e todo mundo tem o direito de falar o que quiser - e de ouvir, também. É o caso do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, sob cujo governo foram concluídos os dois planos nacionais de direitos humanos anteriores, que, na essência são iguais a este que provoca tanta discussão.
Em entrevista à BBC, na semana passada, FHC disse que a maneira como o governo Lula apresentou a proposta para a criação da Comissão da Verdade criou “um obstáculo” para se saber o que ocorreu no período, ao causar “intranquilidade” entre os militares.“Eu penso que a situação do Brasil não pode ser comparada com a situação da Argentina ou com o Chile (que criaram comissões para apurar abusos durante seus regimes militares)”, disse. “Este não é um assunto político no Brasil, mas uma questão de direitos humanos, o que para mim é importante, mas o perigo é transformar isso em um assunto político”.
Está certo ele. É muito perigoso mesmo politizar um tema tão precioso a todos nós.
Por isso mesmo é que tanta gente que está dando agora seus pitacos com o propósito de tumultuar o debate, provocar confusão, desinformar o público, constranger autoridades, promover a intriga, de semear o caos, enfim, deveria se lembrar do que foi este país num passado recente e o que ele é agora.
Talvez assim eles cheguem à conclusão de que o melhor neste momento é calar a boca.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Meu encontro com o Eduzinho

Esses últimos dias foram repletos de acontecimentos que nos fazem refletir sobre a passagem do homem pela Terra.
Os desastres naturais que se sucedem no país mostram, por exemplo, o quanto somos frágeis e insignificantes, apesar de toda a nossa soberba e arrogância.
A fúria da natureza se impôs sobre a vaidade inerente à condição humana e se não fosse um Boris Casoy a achar vergonhoso que trabalhadores braçais desejem feliz ano ano a todos nós, estaríamos ainda mais temerosos sobre o destino do planeta neste início de 2010.
Mas se o veterano jornalista pagou pelo que disse, há outros que dizem o que dizem porque são bem pagos para isso - se não, como explicar todo o ódio exarado por alguns ilustres personagens da República a respeito de um programa nacional que pretende defender os direitos humanos? Quem, em sã consciência, pode ser contra algo que foi formulado a favor da dignidade do homem?
Aqui, neste ponto em que ferve a minha indignação, por perceber que a espécie humana, além de frágil é estúpida e venal, lembro do encontro inesperado que tive, na sexta-feira, com o Eduzinho, contínuo dos meus tempos de Estadão, de quem já falei nestas "Crônicas" ("O feliz Natal do Eduzinho").
O local não podia ser mais improvável: uma agência bancária no bairro de Santana, onde tive de ir e à qual cheguei depois de uma viagem de mais de uma hora de táxi e metrô.
Pois bem, estava lá na fila, absorto em meus pensamentos sobre como é linda e prazerosa esta metrópole, quando tive a impressão que me chamavam. Olhei para trás e, para grande surpresa, vejo, numa outra fila que serpenteava a agência, o Eduzinho, mais envelhecido, e a quem não encontrava havia bem uns quatro anos:
- Achei que era você mesmo e arrisquei chamar - disse ele.
Resolvidos nossos problemas bancários, nos pusemos a conversar e a pôr as novidades em dia. Fiquei sabendo que o Eduzinho tinha se aposentado por invalidez - me mostrou o braço direito, com uma espécie de curativo: "Faço hemodiálise três vezes por semana" -, que havia enviuvado e estava cuidando sozinho de seu filho deficiente mental.
Nem por isso se mostrava amargurado ou com qualquer traço de tristeza. Rimos um bocado ao lembrar de algumas figuras carimbadas que conhecemos no jornal e de algumas situações lá vividas.
E foi perto da estação de metrô, antes das despedidas, que ele me contou que o maior orgulho de sua vida não foram os 35 anos que trabalhou no Estadão, nem a casa que comprou na Cantareira, nem os passarinhos que, ao lado de seu filho, preenchem seu dia a dia de aposentado.
- Nossa - me disse, com olhos exibindo o brilho antigo do bom sarrista que era - você nem sabe quantos amigos eu fiz naquele jornal. E olha que alguns ficaram importantes.
- Eu sei, Edu - respondi. Vários deles...
- O Turcão foi mais longe que todos. O barbudo puxou ele rapidinho para o governo. E ele mereceu, porque é um sujeito humilde, que sempre tratou bem a gente. Agora, tem uns que nem na sua cara olham...
O Turcão, esclareço, é o ex-diretor de redação e atual ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge. O barbudo prescinde de apresentação.
Na volta para casa, naquele vagão abafado do metrô, senti inveja do Eduzinho por ele ser capaz de experimentar uma felicidade que parece estar reservada apenas a alguns poucos escolhidos. Com isso, pensei, ele está acima dos homens comuns.
Mas confesso que também estava me sentindo alegre. Afinal, não é todo dia que a gente recebe uma carga tão poderosa de vida como aquela que tomou conta de mim no meu encontro com o Eduzinho.
São coisas assim que nos fazem achar que nem tudo está perdido e vale a pena acreditar no amanhã.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Tró-ló-ló

O governador paulista José Serra quebrou, nesses últimos dias, o hábito de se ausentar das situações que podem lhe ser, de algum modo, incômodas.
Serra não apareceu na cena de nenhuma das grandes tragédias paulistas recentes - o buraco do metrô, a enchente do Jardim Pantanal, o desabamento do viaduto do Rodoanel - , mas já esteve duas vezes em São Luiz do Paraitinga, cidade histórica que foi quase toda destruída por uma inundação e que, pela extensão do drama, foi visitada por inúmeras equipes de reportagem.
Da primeira vez, logo depois do desastre, sugeriu que o tradicional Carnaval luizense fosse mantido. A prefeita, ao seu lado, disse que isso era impossível, pois antes precisava ter uma cidade.
Da segunda vez foi mais prático. Anunciou algumas medidas, tímidas, é verdade, para que São Luiz do Paraitinga retome sua vida normal.
Disse estar preocupado com a recuperação do patrimônio histórico. Foi então que mostrou porque é considerado por alguns dos seus seguidores não só um gestor competente, mas um verdadeiro gênio da raça, a única pessoa do mundo capaz de resolver qualquer problema, desde a epidemia da dengue até as contas externas do país, passando, é claro, pelo incômodo causado pela fumaça do cigarro e pela compra das bananas por dúzia.
Segundo Serra, a prioridade do esforço do governo será a reconstrução da igreja matriz de São Luiz do Paraitinga, que ficou inteiramente destruída na inundação.
"O pessoal ligado ao patrimônio histórico gosta de discutir muito, mas não há tempo para muita discussão", disse Serra. "A prioridade é reerguer a igreja, construir do jeito que ela era, com materiais mais modernos, até porque, não ficou nada. Desde que se respeite a arquitetura histórica."
E ninguém tinha pensado nisso antes: uma igreja toda nova, com materiais modernos (concreto, kevlar, alumínio?), mas do jeito que ela era antigamente.
Uma igreja falsa, dissimulada, um templo construído para lembrar de certos políticos ambiciosos e vazios que vivem apenas de factóides.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Brincar com fogo


Como esperado, a notícia dada pela Folha de que a FAB concluiu, em seu relatório técnico, que comprar os caças da sueca Saab e não os da francesa Dassault, é o melhor para o Brasil, criou a confusão diária desejada pela imprensa.
Num momento em que o governo Lula vive o auge de sua popularidade é justo que a oposição contra-ataque com as armas que tem. Afinal, o prazo para a largada para a corrida rumo ao Palácio do Planalto se estreita e é normal que os competidores reforcem seus preparativos.
Mas existem limites para tudo, precisam entender esses arautos do caos. Usar certos temas para criar a impressão de que o atual governo é composto por um bando de trapalhões, de populistas irresponsáveis e falastrões, de mistificadores e arrivistas, é, como se diz popularmente, brincar com fogo.
Todos sabem o que as Forças Armadas fizeram no Brasil num passado recente. Não é preciso explicar que o militar, por formação, trata-se de um sujeito conservador, metódico, preso à disciplina e à hierarquia, que ainda divide o mundo entre "nós", os bons e certos, e "eles", os maus e errados - nem é preciso dizer, também, quem são "eles".
O governo Lula tem procurado reparar um erro dos governos anteriores, especialmente os dos tucanos, que simplesmente esqueceram que os militares existiam, deixando seus equipamentos apodrecerem e, principalmente, seus salários congelarem em níveis baixíssimos. Essa mesma compra de caças para a FAB deveria ter sido feita por FHC, que, com medo de desagradar uns e outros, passou o abacaxi para seu sucessor.
Os militares podem fazer todas as ressalvas do mundo a Lula, mas, por uma questão de Justiça, são obrigados a reconhecer que recebem deste governo um tratamento infinitamente melhor do que o dado pelos outros presidentes civis do período pós-ditatorial. De uma forma ou de outra, a recomposição salarial está sendo promovida e o orçamento federal, ano a ano, tem permitido reequipar as três Forças.
Os comentários de vários jornalistas sobre as notícias da compra dos caças são feitos num tom evidente de intriga, da pura fofoca.
Por acaso, ouvi um debate entre alguns desses comentaristas hoje de manhã num programa "noticioso" da rádio Bandeirantes AM. Os erros factuais se sucediam: um deles promoveu o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito, a "ministro da Aeronáutica"; o outro se referiu às vantagens que a Embraer poderia obter se os suecos ganhassem a "licitação", se esquecendo que também a Dassault se comprometeu a firmar parceria com a empresa brasileira.
Um festival de bobagens e desinformação, promovido com a intenção clara de dar ao ouvinte a impressão de que este realmente é um governo formado por completos imbecis.
Pode ser que essa propaganda influencie algumas pessoas na hora do voto - afinal, ela existe para isso.
O problema todo é que ela também pode ajudar a fazer crescer a barba de alguns radicais que ainda existem nas Forças Armadas - e não estou falando dos generais de pijama que passam os dias no Clube Militar a lembrar os bons tempos que se foram.
O risco é mínimo, mas não devemos esquecer que a Lei de Murphy, assim como a da gravidade, ainda não foi revogada.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

A dor da saudade

O tesouro chamado São Luiz do Paraitinga deixou de existir de uma hora para outra.
No lugar das casas coloridas, montes de entulho e sujeira.
Em vez do povo simpático e alegre, medo e desespero.
Num país onde se cultua tão pouco o passado, a destruição de São Luiz do Paraitinga é uma enorme tragédia.
Vai-se embora junto com as grossas, porém frágeis paredes das construções centenárias, um sentimento único de que a vida pode, sim, ser mais simples, mais calma, mais intensa.
Antes de uma evocação, esta crônica é um agradecimento sincero aos momentos mágicos desfrutados em meio a montanhas verdes, casario multicor, panos de chita, pessoas sorridentes, e um rio que nos faz refletir sobre o quanto somos pequeninos.

Este vídeo foi feito em janeiro de 2008. A trilha sonora é A Dor da Saudade, do luizense Elpídio dos Santos, compositor favorito de Mazzaropi.

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Aqui, Tonho Prado canta a música Olhos Profundos, de Lu Baleiro e Puru, no festival de marchinhas de Carnaval daquele ano.

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sábado, 2 de janeiro de 2010

Esnobes e medíocres

O comentário do jornalista Boris Casoy sobre os votos de feliz ano novo dos dois garis revelou não apenas todo o preconceito de classe existente em certos meios da nossa sociedade, mas também um dos piores traços da personalidade humana.
Nos meus quase 40 anos de vida profissional cruzei com os mais variados tipos de pessoas. E nenhum deles causou em mim tanta aversão quanto aqueles que, exercendo algum poder, faziam questão de pisar nos subordinados.
Teve um sujeito que gritava com os contínuos da redação, dava ordens como se fosse o imperador de uma corte medieval.
Outro sentia prazer em apontar publicamente os erros dos chefiados, como se ele próprio não os cometesse com uma frequência maior que o normal.
Invariavelmente, tais tipos exibiam toda a sua empáfia quando lidavam com os chefiados e uma notável subserviência quando se reportavam aos superiores.
Um deles, cuja carreira descambou para a prática do mais sórdido jornalismo marrom, era chamado pelos acólitos de "senador" - e ele fazia questão de agir como tal, exibindo os piores traços que deram o sentido pejorativo ao cargo legislativo.
Outra coisa que unia essas pessoas era o fato de que, profissionalmente, elas eram, com muita boa vontade, medíocres. Não conheci um sequer que fosse competente ao ponto de justificar suas atitudes - se bem que ache elas não têm mesmo nenhuma justificativa.
O caso que marcará a vida profissional de Boris Casoy, portanto, não é único. O que o distinguiu dos outros que diariamente ocorrem nas redações é que, pela primeira vez, foi levado a público.
Felizmente, pela reação que se observou na internet, há muito mais gente que condena o preconceito do que aqueles que o praticam.
O veterano jornalista e seus esnobes coleguinhas estão, cada vez mais, isolados em seu clubinho particular.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

A voz da elite

Extraído do site da TV Bandeirantes:

Boris Casoy é considerado o primeiro âncora da televisão brasileira. De 1988 a 1997 ancorou o Telejornal Brasil, do SBT. Em seguida, transferiu-se para a Rede Record, dirigindo e apresentado (sic) Jornal da Record, de 1997 a 2005.
Anteriormente, havia participado do Mosaico na TV, um programa semanal da comunidade israelita.
Casoy dirigiu a redação da Folha de S.Paulo (1974 a 1976 e 1977 a 1984). No mesmo jornal foi editor de Política e da sessão (sic) Painel.
Iniciou sua carreira como jornalista aos 15 anos , como plantão esportivo na Rádio Piratininga de S.Paulo. A seguir trabalhou nas rádios Santo Amaro, Panamericana e, finalmente, na Rádio Eldorado
Foi secretário de Imprensa do prefeito paulistano Figueiredo Ferraz; dos secretários de Agricultura Herbert Levy e Antonio Rodrigues Filho, e do ministro da Agricultura Cirne Lima.

Ele ficou conhecido pelo bordão "Isso é uma vergonha!".
Mas passará à história por ter revelado o sentimento de uma pequena parcela da população brasileira, da qual ele é porta-voz oficioso, ao comentar, em off, no telejornal que apresenta, os votos de feliz ano novo dados por dois garis:
"Que merda: dois lixeiros desejando felicidades do alto da suas vassouras. O mais baixo na escala do trabalho."
Mais tarde ele mostrou um arrependimento tão pouco convicente quanto a costumeira expressão sisuda que exibe em seus acacianos comentários: "Ontem durante o programa eu disse uma frase infeliz que ofendeu os garis. Peço profundas desculpas aos garis e a todos os telespectadores."