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Domingo, 5 de Julho de 2009

Passaralho à vista

Com a mesma desculpa usada por outras categorias profissionais, que aproveitaram a crise econômica global para demitir e depois recontratar trabalhadores por salários mais baixos, os empresários de comunicação de São Paulo apresentaram uma contraproposta ridícula aos jornalistas do Estado, na primeira rodada de negociações, cuja data-base é 1 de junho: reajuste em duas parcelas – 3% em junho para quem ganha até R$ 4.000,00 por mês e mais 2,38% em dezembro para quem ganha até R$ 4 mil e duas parcelas fixas, uma em junho, de R$ 120,00 e outra de R$ 98,06, em dezembro para quem ganha acima disso.
Com os índices apresentados, o piso da jornada de cinco horas passaria para R$ 1.790,40, com data base em junho, e para R$ 1.833,01 em dezembro.
Só para ter uma ideia do ridículo da proposta patronal: o sindicato dos jornalistas reivindica reajuste de 12,83%, sem parcelamento, que daria um piso de R$ 1.962,00 para jornada de cinco horas e R$ 3.139,20 para sete horas.
A realidade das empresas, apesar do que dizem os patrões, não é de crise. Houve aumento médio do faturamento em publicidade de 12,83% no período em negociação. Fora isso, são os próprios jornais que noticiam que o Brasil está entre os países menos afetados pelas turbulências da economia mundial.
O endurecimento das negociações já era esperado por grande parte da categoria depois que o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubou a obrigatoriedade do diploma de jornalismo para o exercício da profissão.
A iniciativa coroou anos e anos de intenso lobby patronal, iniciado pela Folha de S. Paulo e seguido por todos os outros órgãos de imprensa do país, com as bençãos da Associação Nacional dos Jornais, que representa o interesse patronal.
A análise de jornalistas experientes é que, se vingar a intenção do presidente do STF, Gilmar Mendes, de desregulamentar o execício do jornalismo - e, na esteira, de outras profissões -, estará aberto o caminho para a barbárie - fim das negociações salariais, extinção dos sindicatos de trabalhadores, vigência absoluta da lei da selva, pela qual os mais fortes mandam e os mais fracos se calam e simplesmente obedecem.
O interessante da história é que aqueles que, por ideologia, por oportunismo, ou apenas por ingenuidade, têm defendido a absurda decisão do STF, estão no mesmo barco dos jornalistas diplomados.
Isso porque o passaralho é uma ave de rapina, e como todo predador prefere atacar quem está mais perto, quem é mais vulnerável, aquele mais fraco.

Bola de couro, bola de ouro

Notas de colunistas especializados dão conta que o técnico Muricy Ramalho recebeu proposta de cerca de R$ 400 mil mensais para dirigir o Palmeiras no lugar de Wanderley Luxemburgo, que, segundo as mesmas fontes, tinha salário entre R$ 500 mil e R$ 600 mil por mês.
Desde o início deste ano o Palmeiras é presidido por Luiz Gonzaga Belluzzo, que, entre outras coisas, é assessor informal de economia do presidente Lula. Um dos objetivos de sua administração é modernizar o clube e equilibrar as suas finanças, conforme ele mesmo afirmou em inúmeras entrevistas.
Porém, a se dar crédito às informações dos tais cronistas esportivos, o que Belluzzo pensa em fazer no Palmeiras, contratando um profissional que custa R$ 4,8 milhões por ano, contraria toda a sua brilhante carreira acadêmica e de eminente economista.
Está certo que o futebol é algo único, principalmente no Brasil. Mexe com a mais profunda emoção de dezenas de milhões de pessoas, iguala intelectuais a operários, patrões a empregados na desmedida paixão que provoca.
Mesmo assim, caberia aos dirigentes baixar a adrenalina que os jogos proporcionam e, em vez de agir como torcedores, procurar injetar um mínimo de racionalidade em seus negócios.
Daqui a cinco anos, se tudo der certo, o Brasil será a sede do evento esportivo mais visto no planeta, a Copa do Mundo de futebol.
A expectativa de que consiga organizar a competição como os países do Primeiro Mundo, em edições recentes, é enorme.
Para isso, todavia, é necessário que essa nova geração de cartolas, com o próprio professor Belluzzo à frente, mude os paradigmas, transforme os conceitos e revolucione as práticas.
A bola está com eles - e tem de ser aquela tradicional, de couro, e não qualquer imitação mais cara de ouro.

Sábado, 4 de Julho de 2009

O poder de uma boa edição

O achincalhe cada vez aumenta mais.
Depois de serem nivelados a cozinheiros pelo presidente da mais alta corte judiciária do país, os jornalistas agora são humilhados em plena praça pública. Na bela Ouro Preto, dia desses, um rábula de porta de cadeia brigou com alguns repórteres, aos quais se referiu, no calor da refrega, como "vagabundos" e "despreparados", para, num xingamento final e definitivo, proclamar em alto e bom som: "Vocês sequer têm diploma."
Está certo que a imprensa brasileira faz o possível para merecer, de qualquer pessoa com médio senso de observação, grandes reparos. Este último caso de linchamento moral a que submete o presidente do Senado, José Sarney, por exemplo, é apenas mais um episódio na longa série de desvios em sua trajetória, iniciados especialmente no governo Lula.
É fato notório que Sarney representa tudo o que de pior exibe a política tupiniquim. Mas atribuir a ele todos os males de uma instituição viciada desde há muito é demais. Ou melhor: mostra cabalmente que a imprensa pode ser tanto um instrumento essencial para o aperfeiçoamento democrático como o oposto - um reles mecanismo de manipulação ideológica.
Nestes últimos tempos tem sido assim: nossa mídia, infelizmente, está a serviço de uma oligarquia que odeia o atual ocupante do Palácio do Planalto e tudo faz para tirá-lo de lá. Nem que para isso tenha de usar todos os mais sujo truques de seu repertório.
Muito se criticou o diretor de redação do Estadão quando ele afirmou, a propósito da transparência do blog da Petrobras, que a edição é necessária e vital no bom jornalismo. Mas ele está certo. Faltou apenas dizer a quem serve esse bom jornalismo a que se referiu. No seu próprio caso, não há nada a acrescentar: o Estadão seria incapaz de não editar numa notícia, pois seu público exige que ela saia com todos os elementos que a fazem sempre uma obra de louvor aos bons princípios neoliberais, de amor extremado ao mercado e a tudo o que ele representa.
E tem sido com esse tipo de jornalismo editado, enviezado - errado, enfim -, que a sociedade brasileira tem se relacionado nos últimos tempos.
Talvez por estar tão acostumado com tais procedimentos é que o presidente do Supremo tenha opinião tão pouco lisonjeiro dos jornalistas. Ele certamente deve pensar, ao ler os jornais e revistas, assistir à televisão, ouvir rádio e passear pela internet, que jornalismo é isso mesmo: reflexo de um mundo com vilões e heróis perfeitamente definidos, bons e maus sempre de lado opostos, o branco nunca se misturando com o preto.
É que ele não sabe o poder que tem uma boa edição.

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Divagações em um dia chuvoso

Mais evidências de que o pior da crise passou e que, no Brasil, se não foi a marolinha prevista pelo presidente Lula, tampouco se afigurou o tsunami que a oposição inteira desejava e muitos dos tais analistas - aqueles que dizem exatamente o que seus patrões querem ouvir - profetizavam: a produção industrial cresceu 1,3% em maio na comparação com abril segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Foi a quinta alta mensal consecutiva do indicador, que acumula expansão de 7,8% nesse período.
A indústria tem sido o calcanhar de aquiles da recuperação econômica no Brasil. Setores como o automobilístico, de eletrodomésticos e de materiais de construção, por exemplo, têm respondido bem às medidas de incentivo da União, mas os exportadores vêm sendo castigados pela recessão mundial. Para eles, a luz no fim do túnel vai demorar ainda para chegar.
Quando uma boa notícia como essa aparece, a oposição perde mais um pouco a esperança fazer o sucessor de Lula. Isso porque as coisas estão umbilicalmente ligadas: sucesso na economia significa um presidente quase imbatível, capaz de transferir ao seu candidato - seja lá qual for - grande parte dos votos que seriam destinados a ele.
Por outro lado, um país arrasado, com desemprego em massa, salários em queda, significa mais votos para tucanos-pefelistas, para os quais, hoje, resta apenas a produção - com inteira cumplicidade de uma mídia partidarizada - de "escândalos" que sejam capazes de imobilizar o trabalho do Legislativo e do Executivo - o outro poder, o Judiciário, já está, há muitos anos, completamente desmoralizado e incapaz de responder aos desafios da jovem democracia brasileira.
O governador José Serra, tido como o candidato da oligarquia, afirmou, recentemente, que ainda aguarda a definição do quadro eleitoral para, só no próximo ano, decidir seu destino político. Claro que falou da boca para fora. Sua obsessão é ser presidente - e só não competirá se algo extraordinário ocorrer.
Entre essas variáveis encontra-se a sua posição nas pesquisas eleitorais. Hoje, ele é o primeiro, disparado até porque a campanha não começou explicitamente. Mas já há quem o compare aos famosos cavalos paraguaios, aqueles que perdem o fôlego no meio da corrida e, invariavelmente, terminam o páreo entre os últimos.
Para quem só se lembra do Serra vitorioso, é preciso não esquecer que, mais de uma vez, ele foi reprovado nas urnas - e isso aconteceu em seus próprios domínios. E, como se sabe, uma campanha presidencial abrange territórios distantes, rincões perdidos, cidadãos esquecidos - para os quais São Paulo é apenas uma utopia e os seus políticos não passam de miragens.

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

A realidade de FHC

Quem ouviu o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em entrevista que deu à rádio Bandeirantes ficou com a impressão que o seu foi o governo mais bem sucedido de toda a história brasileira.
FHC, sem pudor, disse ter feito de tudo. Do real - idealizado por Itamar Franco - aos programas sociais, passando pela reforma agrária.
FHC é um caso típico da pessoa obcecada em apagar o seu passado - ou em reescrevê-lo. Existem muitos casos similares.
O problema com FHC é que ainda há gente que leva a sério as bobagens e os disparates que diz, com a maior cara de pau.
Jornalistas, por exemplo, que insistem em fazer a ele perguntas sobre temas completamente fora de sua competência - como a situação atual do país.
Os coleguinhas deveriam saber que a realidade vivida por FHC é outra - bem diferente da nossa.

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

O mais novo socialista

O Partido Popular Socialista, o PPS, auto-denominado herdeiro do Partidão, pretende fazer dia 6 de julho uma grande festa para comemorar o ingresso, em seus quadros, do ex-presidente Itamar Franco. Além dele, também se filiarão à legenda os ex-ministros Henrique Hargreaves (Casa Civil) e Djalma Morais (Comunicações), o ex-deputado Marcelo Siqueira e a ex-secretária estadual de Justiça de Minas Gerais Ângela Pace.
Itamar vai se juntar a figuras como Roberto Freire, Raul Jungmann, Arnaldo Jardim, Fernando Coruja, Soninha e outros esquerdistas notórios que ajudam tucanos e pefelistas no exercício cotidiano de tentar derrubar o governo Lula.
Na sua longa vida política Itamar já foi do PTB, MDB, PMDB, PL, PRN - ou seja, qualquer partido que lhe sirva às conveniências do momento.
Há quem diga que agora a sua pretensão é ser vice da chapa de José Serra. Mas, volúvel como ele só, Itamar pode estar apenas querendo voltar aos holofotes que dele se afastaram já há alguns anos - o tempo, bem sabe Fernando Henrique Cardoso, que o sucedeu no Palácio do Alvorada, é muito cruel para certas pessoas.
Às vésperas dessa nova aventura, Itamar deve estar bastante ocupado. E talvez não tenha ainda se familiarizado com o vasto material ideológico que a legenda do PPS inspira. Afinal, são anos e anos de lutas contra a exploração capitalista.
Para ajudá-lo a, assim dizer, entrar no clima, reproduzo abaixo um dos símbolos máximos de todos os socialistas, comunistas e outros tipos de "istas" que não se conformam em ver o mundo cada vez mais dividido entre ricos e pobres - para Itamar Franco e seus companheiros de PPS, a letra da eterna "Internacional". Que ela os emocione, conforte e, quem sabe, os inspire a realizar obras notáveis.

De pé, ó vitimas da fome!
De pé, famélicos da terra!
Da idéia a chama já consome
A crosta bruta que a soterra.
Cortai o mal bem pelo fundo!
De pé, de pé, não mais senhores!
Se nada somos neste mundo,
Sejamos nós produtores!
Bem unido façamos,
Nesta luta final,
Uma terra sem amos
A Internacional
Senhores, patrões, chefes supremos,
Nada esperamos de nenhum!
Sejamos nós que conquistemos
A terra mãe livre e comum!
Para não ter protestos vãos,
Para sair desse antro estreito,
Façamos nós por nossas mãos
Tudo o que a nós diz respeito!
O crime de rico, a lei o cobre,
O Estado esmaga o oprimido.
Não há direitos para o pobre,
Ao rico tudo é permitido.
À opressão não mais sujeitos!
Somos iguais todos os seres.
Não mais deveres sem direitos,
Não mais direitos sem deveres!
Abomináveis na grandeza,
Os reis da mina e da fornalha
Edificaram a riqueza
Sobre o suor de quem trabalha!
Todo o produto de quem sua
A corja rica o recolheu.
Querendo que ela o restitua,
O povo só quer o que é seu!
Nós fomos de fumo embriagados,
Paz entre nós, guerra aos senhores!
Façamos greve de soldados!
Somos irmãos, trabalhadores!
Se a raça vil, cheia de galas,
Nos quer à força canibais,
Logo verá que as nossas balas
São para os nossos generais!
Pois somos do povo os ativos
Trabalhador forte e fecundo.
Pertence a Terra aos produtivos;
Ó parasitas deixai o mundo
Ó parasitas que te nutres
Do nosso sangue a gotejar,
Se nos faltarem os abutres
Não deixa o sol de fulgurar!

Domingo, 28 de Junho de 2009

Uma farda no meio do caminho

Quando parecia que as coisas caminhavam mais tranquilas nesta América Latina de tantas ignomínias, eis que surgem mais alguns homens fardados para envergonhar os homens de bem que habitam este canto da terra.
Agora, é esperar que o líder mundial Barack Obama tome o lugar do presidente dos Estados Unidos e ponha nos seus devidos lugares os pequenos ditadores hondurenhos.
Se fizer tudo bem feito, Obama ganhará o respeito de seus irmãos latinos - algo que tem faltado para os seus antecessores.
E a América Latina respirará dignidade.

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

Benesses demais

O presidente Lula, dias desses, falou que preferia dar dinheiro diretamente aos pobres do que fazer mais desonerações fiscais. Para justificar, disse que não vê os empresários beneficiados baixarem os preços dos produtos que fabricam.
Claro que o presidente exagerou. Em alguns casos, a desoneração tem ajudado o país a passar pela crise econômica global sem sentir efeitos muito profundos. Os exemplos mais evidentes são os setores automobilístico e o da chamada linha branca (fogões, geladeiras, máquinas de lavar roupa etc).
Mas Lula estava se referindo mesmo ao caso da CPMF, o tributo que a Fiesp, com a ajuda da oposição golpista derrubou.
Como se sabe, a CPMF foi criada no governo FHC para dar mais recursos a serem investidos na saúde. Com o tempo, sua arrecadação foi repassada para outras áreas e o tributo, que era para ser provisório, acabou permanente. Foi preciso que o Congresso, depois de intenso lobby dos empresários, o derrubasse.
Sem ele, claro que os empresários se sentiram aliviados. Aumentaram os lucros - a ideia de repassar para os preços o benefício sequer foi cogitada - e viram a fiscalização da Receita Federal afrouxar, pois a CPMF era também importante instrumento para o combate de crimes fiscais.
Lula, ao criticar essa onda de benesses tributárias, talvez tenha sido injusto no varejo, mas acertou na mosca no atacado.
O empresário brasileiro, este que aproveitou o terrorismo midiático sobre a crise para demitir quem ganhava mais para contratar por menos, é, antes de tudo, um chorão.
Exatamente como aquelas crianças mimadas que só ficam quietas depois de conseguirem tudo o que queriam.

Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

Marta detona Serra e Kassab

Opinião da ex-prefeita paulistana Marta Suplicy sobre o governo de José Serra:

"Se formos ver o transporte, não evoluiu do jeito que poderia. Na habitação, com o poderio econômico do Estado não houve avanço. Em menos de dois anos o Serra teve três secretários de Educação. No desenvolvimento da indústria, não houve nenhuma ação contundente para incentivar a permanência o setor produtivo no Estado. O Rodoanel, uma bela proposta, só saiu do papel quando o governo federal entrou com recursos. Em São Paulo tem de fazer as melhorias.
"O Serra contingenciou (reteve os recursos) todos os projetos sociais. Em relação aos carros, só agora reduziu o ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviço). Demorou! Só deu resposta por causa da pressão. Fico perguntando: onde estão os investimentos da Nossa Caixa, os investimentos do governo de São Paulo? São Paulo é o Estado mais rico do Brasil. O que poderia estar fazendo? Na Educação você só vê esse vexame que nós paulistas temos de enfrentar, de estarmos em uma posição horrorosa no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). Na Saúde, só vemos escândalos, de falta de atendimento. O Ttansporte, não vou nem falar. São 16 anos de tucanato em São Paulo. O metrô começou, no final dos anos 1960, junto com o da Cidade do México, que hoje tem uma rede com 240 quilômetros, enquanto o de São Paulo tem apenas 60. E isso foi construído antes de os tucanos entrarem."

E sobre o governo Gilberto Kassab:

"Na primeira gestão Serra-Kassab (prefeito e vice da Capital, 2007- 2008), poderia ter organizado muita coisa, principalmente na área de transporte. E quando vejo o nada que foi feito e o trânsito que o cidadão enfrenta, fico muito triste. Fizemos corredor de ônibus, chegamos ao bilhete único e agora regredimos. Não há gestão, o trânsito não flui, a CET não conversa com a SP Trans e não há controle. É uma incompetência muito grande, porque há recurso. É um governo que não faz enfrentamento. Quando se faz corredor de ônibus, existe dificuldade. O comércio reclama, causa transtorno. E aí, para eles, é melhor não fazer."

Acho que não preciso dizer mais nada.

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

O distante e estranho Irã

É difícil ter alguma simpatia pelo regime do Irã. Essa história de um Estado liderado por fanáticos religiosos não faz o meu gênero. Sou inteiramente a favor de regimes laicos, que separam totalmente a religião do Estado. Cá entre nós, acho que a religião já fez mais mal do que bem para o mundo e, portanto, deve ter seu alcance restrito apenas a essas coisas do outro mundo que tanto preza.
Mas voltando ao Irã: apesar de todas as ressalvas ao regime dos aiatolás, não posso negar que se eles estão mandando no país é porque o povo iraniano assim deseja. Não assumiram o poder do nada, mas foram se consolidando como uma força aglutinadora ao longo dos anos, resistindo à corrupção, à tirania e aos desmandos do xá imposto pelos americanos. Portanto, vamos esquecer qualquer maluquice de querer tirá-los do comando da nação. O que o mundo deve fazer é simplesmente aturá-los: isso sim é uma atitude civilizada.
Quanto aos desdobramentos da eleição presidencial do Irã, vale o que escrevi acima: é, única e exclusivamente, problema deles. Os países ocidentais, notadamente os Estados Unidos e alguns europeus, gostam de dar palpite sobre o que os outros deveriam fazer, mas, na maioria das vezes, jogam suas mazelas para debaixo do tapete. Levante a mão quem nunca foi acusado de fraudar eleição, ou de respeitar inteiramente os direitos humanos.
Li, em algum lugar da internet, um relato de um empresário brasileiro que esteve no Irã no período eleitoral e constatou o quanto milionária foi a campanha do oposicionista que denunciou as tais fraudes do processo eleitoral e o prestígio do presidente Mahmoud Ahmadinejad entre os eleitores mais pobres - a maioria da população do país. Segundo esse empresário, o oposicionista contava somente com votos entre a classe média e estudantes, insuficientes para ganhar a eleição.
Em outro artigo, fiquei sabendo que o tal Moussavi não é flor que se cheire: quando esteve no governo, foi mais duro que o mais duro dos aiatolás, e se ressurgiu como um moderado, foi graças a um árduo trabalho de marketing eleitoral.
O fato é que vai demorar ainda muito tempo para que as mudanças pretendidas pelos ocidentais ocorram no Irã. Enquanto o país estiver isolado, enquanto tiver o dinheiro proporcionado pelo petróleo e enquanto for alvo preferencial do ódio israelense, o Irã, tenho certeza, será essa estranha nação, tão distante da nossa cultura. E que, apesar de tudo, somos obrigados a respeitar.

Sábado, 20 de Junho de 2009

O STF atrelado às elites

Transcrevo abaixo nota da Federação Nacional dos Jornalistas Profissionais (Fenaj), sobre a decisão do Supremo Tribunal Federal de desregulamentar a profissão.
Tem o meu apoio integral. Tudo o que pudesse escrever a mais sobre o tema seria redundância, pois está no texto, que aí vai:
"Perplexos e indignados os jornalistas brasileiros enfrentam neste momento uma das piores situações da história da profissão no Brasil. Contrariando todas as expectativas da categoria e a opinião de grande parte da sociedade, o Supremo Tribunal Federal (STF), por maioria, acatou, nesta quarta-feira (17/6), o voto do ministro Gilmar Mendes considerando inconstitucional o inciso V do art. 4º do Decreto-Lei 972 de 1969 que fixava a exigência do diploma de curso superior para o exercício da profissão de jornalista. Outros sete ministros acompanharam o voto do relator. Perde a categoria dos jornalistas e perdem também os 180 milhões de brasileiros, que não podem prescindir da informação de qualidade para o exercício de sua cidadania.
A decisão é um retrocesso institucional e acentua um vergonhoso atrelamento das recentes posições do STF aos interesses da elite brasileira e, neste caso em especial, ao baronato que controla os meios de comunicação do país. A sanha desregulamentadora que tem pontuado as manifestações dos ministros da mais alta corte do país consolida o cenário dos sonhos das empresas de mídia e ameaça as bases da própria democracia brasileira. Ao contrário do que querem fazer crer, a desregulamentação total das atividades de imprensa no Brasil não atende aos princípios da liberdade de expressão e de imprensa consignados na Constituição brasileira nem aos interesses da sociedade. A desregulamentação da profissão de jornalista é, na verdade, uma ameaça a esses princípios e, inequivocamente, uma ameaça a outras profissões regulamentadas que poderão passar pelo mesmo ataque, agora perpetrado contra os jornalistas.
O voto do STF humilha a memória de gerações de jornalistas profissionais e, irresponsavelmente, revoga uma conquista social de mais de 40 anos. Em sua lamentável manifestação, Gilmar Mendes defende transferir exclusivamente aos patrões a condição de definir critérios de acesso à profissão. Desrespeitosamente, joga por terra a tradição ocidental que consolidou a formação de profissionais que prestam relevantes serviços sociais por meio de um curso superior.
O presidente-relator e os demais magistrados, de modo geral, demonstraram não ter conhecimento suficiente para tomar decisão de tamanha repercussão social. Sem saber o que é o jornalismo, mais uma vez – como fizeram no julgamento da Lei de Imprensa – confundiram liberdade de expressão e de imprensa e direito de opinião com o exercício de uma atividade profissional especializada, que exige sólidos conhecimentos teóricos e técnicos, além de formação humana e ética.
A Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), como entidade de representação máxima dos jornalistas brasileiros, esclarece que a decisão do STF eliminou a exigência do diploma para o acesso à profissão, mas que permanecem inalterados os demais dispositivos da regulamentação da profissão. Dessa forma, o registro profissional continua sendo condição de acesso à profissão e o Ministério do Trabalho e Emprego deve seguir registrando os jornalistas, diplomados ou não.
Igualmente, a FENAJ esclarece que a profissão de jornalista está consolidada não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. No caso brasileiro, a categoria mantém suas conquistas históricas, como os pisos salariais, a jornada diferenciada de cinco horas e a criação dos cursos superiores de jornalismo. Em que pese o duro golpe na educação superior, os cursos de jornalismo vão seguir capacitando os futuros profissionais e, certamente, continuarão a ser a porta de entrada na profissão para a grande maioria dos jovens brasileiros que sonham em se tornar jornalistas.
A FENAJ assume o compromisso público de seguir lutando em defesa da regulamentação da profissão e da qualificação do jornalismo. Assegura a todos os jornalistas em atuação no Brasil que tomará todas as medidas possíveis para rechaçar os ataques e iniciativas de desqualificar a profissão, impor a precarização das relações de trabalho e ampliar o arrocho salarial existente.
Neste momento crítico, a FENAJ conclama toda a categoria a mobilizar-se em torno dos Sindicatos. Somente a nossa organização coletiva, dentro das entidades sindicais, pode fazer frente a ofensiva do patronato e seus aliados contra o jornalismo e os jornalistas. Também conclama os demais segmentos profissionais e toda a sociedade, em especial os estudantes de jornalismo, que intensifiquem o apoio e a participação na luta pela valorização da profissão de jornalista.
Somos 80 mil jornalistas brasileiros. Milhares de profissionais que, somente através da formação, da regulamentação, da valorização do seu trabalho, conseguirão garantir dignidade para sua profissão e qualidade, interesse público, responsabilidade e ética para o jornalismo.
Para o bem do jornalismo e da democracia, vamos reagir a mais este golpe!"
Brasília, 18 de junho de 2009.
Diretoria da Federação Nacional dos Jornalistas - FENAJ

Lenda futebolística

A demissão do técnico Muricy Ramalho manda para o espaço uma tese exposta ad nauseam pela imprensa: a de que o São Paulo é um clube diferenciado dos outros porque, ao contrário dos adversários, usa o planejamento como sua principal arma.
Muricy foi dispensado depois de o time que dirige ter sido humilhado pelo Cruzeiro e eliminado da taça Libertadores da América.
Os cartolas sãopaulinos fizeram exatamente o que seus colegas de clubes que a imprensa classifica como menos profissionais fazem: se o time ganha, o técnico é bom; se perde, não presta.
Nada se fala sobre se o alardeado planejamento funcionou ou sequer existiu. O fato é que as contratações do clube para esta temporada renderam muito menos que o esperado.
Culpa dos jogadores? Culpa do técnico? Culpa do planejamento?
Frente a essas questões, os badalados cronistas esportivos se calam.
É mais fácil divulgar os press releases do clube.

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Malagueta demais

Um dos momentos altos do indigesto cozido preparado pelo douto relator do processo que desregulamentou a profissão de jornalista, ministro Gilmar Mendes, também presidente do Supremo Tribunal Federal, é a seguinte sentença: "Está claro que a exigência de diploma de curso superior em jornalismo para o exercício da profissão tinha uma finalidade de simples entendimento: afastar dos meios de comunicação intelectuais, políticos e artistas que se opunham ao regime militar."
Já são inúmeros os pronunciamentos de cidadãos os mais diversos sobre a peça jurídica que baseou a decisão do STF. Entre eles está a do presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil, que foi taxativo:
- A decisão do STF, na minha compreensão, não observou corretamente qual é o papel do jornalista e a sua função na defesa da liberdade de expressão - disse Cezar Britto, presidente da entidade, para quem a independência e a qualidade necessárias ao correto trabalho jornalístico são “obtidas somente com diploma e com o registro no Ministério do Trabalho: o primeiro garante a qualidade técnica e o segundo a qualidade ética.”
Há ainda quem observe no mal preparado prato oferecido à nação pelo ministro Mendes inconsistências de ordem lógica, como a sua argumentação de que o uso equivocado do jornalismo não oferece riscos à sociedade.
Mas é quando o douto mestre se refere às intenções dos militares em regulamentar a profissão que ele comete não um erro de lógica, ou mesmo de desconhecimento cabal da causa julgada, mas um erro facutal, portanto inadmissível em sua argumentação.
O Decreto-Lei n° 972/1969 foi, todo jornalista "da antiga" sabe muito bem, resultado de anos e anos de justas reivindicações da categoria - se é que, até então, havia tal categoria no Brasil. Certo é dizer que havia, ao lado de jornalistas que levavam seu trabalho a sério, inúmeros picaretas que ostentavam o título apenas para achacar quem estivesse mais próximo ou, não podendo fazer isso, conseguir um jabazinho que o sustentassem até a próxima facada.
Mas essas são considerações subjetivas, podem dizer os defensores da tese mendesiana. Para derrubá-la é preciso mais.
É necessário dizer, por exemplo, que o decreto 972 permitiu que TODOS os profissionais que, no momento de sua edição, estavam trabalhando, pudessem se regularizar, ou seja, virar JORNALISTAS PROFISSIONAIS, independentemente ou não de possuir diploma de curso específico, de estar cursando faculdade, de ter curso superior ou não.
Foi dado um prazo de 90 dias para que todas as pessoas que trabalhavam nos jornais, rádios, revistas, emissoras de televisão, e que exerciam funções jornalísticas, obtivessem os seus registros profissionais. Muitos deixaram esse prazo passar, mas mesmo assim conseguiram o registro posteriormente, pois tanto o Ministério do Trabalho quanto os sindicatos da categoria davam um jeitinho para que isso fosse feito.
Portanto, que história é essa do ministro Mendes de que os militares queriam calar seus opositores com a regulamentação da profissão de jornalista?
Só para não dizer que ele agiu de má-fé vou escrever que ele, em vez da suave pimenta de cheiro, carregou na malagueta o seu intragável cozidão.

Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

A noite em que deixei de ser jornalista

Minutos depois de a profissão de jornalista ter sido extinta, um editor, fechamento quase no fim, levanta-se para festejar o fato:
- Esperei 20 anos por isso. Finalmente saí da clandestinidade.
Foi ele mesmo quem tentou convencer um colega do acerto da decisão do Supremo Tribunal Federal de derrubar a exigência de diploma de curso superior específico para o exercício profissional do jornalismo - o que, na prática, desregulamenta a profissão:
- Veja, na Europa não se exige diploma. Basta o profissional ter feito outro curso superior e passado por um cursinho específico e ele está habilitado...
Ao que o colega retrucou:
- Então lá existe uma regulamentação. Aqui, agora, não há nenhuma. Até a coitada da faxineira que estava limpando os móveis aqui de manhã, que nem sabia que existiam outros jornais além deste, pode ser jornalista.
Uma experiente (ex) jornalista que estava próxima entrou na conversa:
- Então, como é que fica? Qualquer um pode ser contratado?
Um redator, sem levantar de sua mesa, informa que sim, que hoje, não há lei que especifique o grau de escolaridade que o "jornalista" deve ter e que uma nova regulamentação para a profissão está para ser discutida no Congresso e no próprio governo.
Com medo de participar da discussão, mas de ouvido bem atento, uma jovem repórter recém-formada cochicha para o colega ao lado:
- E eu que gastei dinheiro em faculdade...
Um editor levanta de sua mesa, chega perto da roda, e brinca com outra repórter, solteira, que mora sozinha, longe da família:
- Antes seus pais diziam para quem perguntava que você era jornalista em São Paulo. Agora eles podem dizer que você é cozinheira.
E ri alto.
Pegando o tema, outro redator, sujeito de pouca fala, arremata:
- Se o Gilmar Mendes nos comparou a cozinheiros, nós vamos compará-lo a quê, então?
Ninguém respondeu.
O assunto havia se esgotado.
No outro lado da redação, de frente a um aparelho de televisão, um grupo de uns cinco fazia barulho.
Eram os corintianos alegres com a desclassificação do Palmeiras na Copa Libertadores da América.

Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

O fim do jornalismo (2)

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) enviou carta ao presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e ao procurador-geral da República com suas considerações sobre a necessidade de o jornalismo ser exercido por profissionais que tenham concluído curso superior específico. O STF deve julgar a matéria ainda hoje. Seu presidente, Gilmar Dantas, é o relator. Ele e mais cinco ministros já indicaram que vão votar contra a obrigatoriedade. É tudo o que querem os patrões.
A seguir, a íntegra da carta. É grande, mas vale a pena ser lida:

“Brasília, 15 de junho de 2009.
Senhor Ministro,
Senhor Procurador-Geral da República,
Na próxima quarta-feira, dia 17, Vossa Excelência estará apreciando o RE 511961, sob a relatoria do Ministro Gilmar Mendes.
Para Vossa Excelência pode ser somente mais um RE, mas para os 80 mil jornalistas brasileiros graduados, para as 400 faculdades de comunicação social existentes em nossas universidades e para os seus 2.500 professores de jornalismo, e, porque não dizer, para a sociedade brasileira, é o Recurso Extraordinário.
O recurso do MPF pretende reformar o Acórdão do Tribunal Regional Federal da 3ª Região, que cassou a sentença da Juíza Substituta da 16ª Vara Federal daquele Estado, julgando procedente a Ação Civil Pública (2001.61.00.025946-3) ajuizada pelo Ministério Público Federal e considerando não recepcionado pela Constituição Federal o dispositivo do Decreto Lei nº 972/69, que condiciona o registro de Jornalista no Ministério do Trabalho à apresentação de diploma de graduação em jornalismo([1]).
Ajuizada a ACP, inicialmente foi concedida medida liminar, a qual foi suspensa por decisão regional que, logo depois, foi restabelecida também por decisão regional.
A sentença julgou procedente a ação aos fundamentos de que tal exigência afrontaria o disposto no art. 5°, IV (liberdade de manifestação do pensamento), IX (liberdade de comunicação) e no art. 220, § 1º (vedação à lei para opor embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social, bem como censura de natureza política, ideológica e artística, ambos da Constituição da República); bem como afrontaria a Convenção Americana dos Direitos Humanos. (Anexo 1)
Pelo Acórdão nº 922.220, o TRF-3ª Região cassou a sentença (anexo 2);
Houve a interposição de RE pelo MPF, seguido de Medida Cautelar (1.406-9 São Paulo, Rel. Min. Gilmar Mendes) para emprestar efeito suspensivo, na qual foi concedida Medida Liminar.
Ainda que saiba que constitucionalmente é do STF a palavra suprema para declarar a inconstitucionalidade ou a não recepção, em tese, de norma do ordenamento jurídico brasileiro, a requerente oferece em anexo a seguinte coletânea de decisões judiciais e pareceres do MP, de modo a demonstrar que inexiste em vigor, exceto a sentença recorrida, qualquer decisão judicial ou parecer que considere não recepcionado o art. 4º, V do Decreto Lei nº 972/69.
A propósito junta-se o(a): 1. Acórdão do STJ no MS nº 7.149 - DF (200010089053-7) (anexo 3); 2. Parecer nº 1.269/CF, da PGR, no RMS nº 24.213-6/280 – DF, Rel. Min. Celso de Mello, ajuizado contra o acórdão do STJ (anexo 4); 3. Acórdão – APC nº 9860-6 – TRF 4ª Região – 2003 (anexo 5); 4. Acórdão nº RR 438.743 – TST – 1998 (anexo 6); 5. Acórdão nº RO 1.062 – TRT – 10ª Região – 2002 (anexo 7); 6. Acórdão nº RO 2.541 - TRT – 10ª Região - 2002 (anexo 8); 7. Acórdão nº RO 1.135 - TRT - 10ª Região - 2002 (anexo 9); 8. Acórdão nº 3587 - RO Nº 10.151 – TRT 9ª Região - 2000 (anexo 10); 9. Acórdão nº 59.850 – do TRT-13ª Região - 2000 (anexo 11); 8. Parecer e deliberação da Coordenadoria da Defesa dos Interesses Difusos e Coletivos do MPT – 1996 (anexo 12); 9. Parecer do MPF no MS nº 009860-6 –SC - 2002 (anexo 13); 11. Manifestação da Ordem dos Jornalistas Italianos (anexo 14).
Por outro lado, mesmo ciente de que não se trata de matéria constitucional, a qual está delineada em suas contra-razões ao RE, a requerente, às vésperas do julgamento, pede licença para destacar os seguintes aspectos:
a) a sentença recorrida permitiu a produção junto ao Ministério do Trabalho cerca de 14 mil registros de jornalistas sem formação superior nos cursos de comunicação social/jornalismo – são os denominados de ‘registros precários’.
Em alguns casos, os novos ‘jornalistas’ sequer possuem formação escolar. A exemplo cita-se o caso de uma faxineira (sem qualquer preconceito) que hoje detém o registro profissional (anexo 15); bem como – e pasme, o caso de um desses jornalistas que requereu a expedição de Carteira Profissional de Jornalista (em face da Lei nº 7.084/2002) e fez juntar cópia de sua Carteira de Identidade onde em consta, no espaço destinado à assinatura, a expressão “não sabe assinar” (anexo 16) (dados identificadores apagados de propósito);

b) Este quadro certamente se agrava neste momento pela ausência de Lei de Imprensa, em razão do julgamento da ADPF nº 131, rel. Min. Ayres Britto.
São milhares de “profissionais”, sem formação técnica adequada ([2]), a coletar informações e a transmiti-las ao público, expondo e vulnerando a cidadania. E, agora, sem regras (exceto a singeleza da Constituição) para o exercício do Direito de Resposta, por exemplo, fica à mercê das decisões judiciais de primeira instância exaradas sabe se lá a partir de quê parâmetros, e não raro, contaminadas por injunções políticas, ideológicas e sociais espraiadas por este imenso País;
c) Com todo o respeito, não será a ausência de diploma que irá garantir ao cidadão acesso às emissoras de rádio e TV, aos sites da internet, ou às colunas de “cartas do leitor” existentes nos enésimos cadernos de nossos diários impressos.
Tampouco será a inexistência de diploma que permitirá aos cidadãos e autoridades, acusados em manchetes espalhafatosas de primeira página, verem suas respostas ou suas razões publicadas, quando muito, em minúsculas notas de rodapé de páginas perdidas no interior dos cadernos;
d) É certo que o diploma, por si só, não evita a ocorrência de abusos. Contudo, mais certo é que a ausência de formação técnica e noções de ética profissionais potencializam enormemente a possibilidade de os abusos ocorrerem.
Efetivamente não é o diploma que impede o cidadão de exercer a liberdade de manifestação do pensamento e de imprensa nos veículos de comunicação social no País. Verdadeiramente não é.
O que impede o exercício desses direitos fundamentais é a concentração da mídia em poucos grupos; é a orientação editorial dos veículos de comunicação; é a ditadura dos anunciantes ou a ditadura do mercado que privilegia a venda de jornais ou a obtenção de “pontos no ‘ibope’”, em vez da verdade, da informação isenta, ou do respeito às pessoas e autoridades;
e) Por outro lado, as figuras dos registros de “colaborador” (art. 5º do Decreto n.º 83.284, de 13 de março de 1979), que permite a qualquer pessoa escrever ou a manifestar suas opiniões, inclusive mediante pagamento, sobre sua especialidade; e de “provisionado” (arts. 5º e 8º do mesmo decreto), que possibilita a qualquer pessoa de qualquer município brasileiro que não possua faculdade de comunicação, a obter registro e exercer a profissão; convencem a mais não poder quanto à improcedência e impertinência da conclusão de que a exigência do diploma impediria o exercício da liberdade de pensamento e de imprensa.
f) Com o afastamento da Lei de Imprensa do ordenamento jurídico pela recente decisão na ADPF nº 131 e, com ela, as regras de criação e manutenção de meios de comunicação impressos, em muito se relativisa, caso fosse procedente, o argumento de que a exigência de diploma tolheria o exercício da liberdade de manifestação do pensamento e de imprensa;
g) E, do mesmo modo, com a existência da internet, a possibilitar a qualquer cidadão expressar seu pensamento por intermédio dos infindáveis meios (páginas pessoais, blogs, orkuts, e-mails, e tantos outros), sem qualquer controle, também se torna absoltamente relativo, sem razoabilidade e desprovido de qualquer força o argumento de que a exigência de diploma para a obtenção do registro profissional impede a livre expressão do pensamento ou de imprensa;
h) Por derradeiro, considera pertinente lembrar que também não se pode admitir o argumento de que a exigência não teria sido recepcionada pela nova Ordem Constitucional (1988) em face de o Decreto-Lei nº 972/69 ter sido editado pelo regime de exceção instaurado no País em 1964. Por certo, se tal argumento fosse procedente, teria que ter sido afastado todo o decreto como incompatível com a ordem constitucional e não só o seu art. 4º, V (o que também não mais pode ser feito nesta instância, sob pena de julgamento extra-petita). Ademais, também se pudesse emprestar força e credibilidade, por consequência, todos os demais Decretos-Leis editados no mesmo período e que se encontram em vigor, alguns inclusive por decisões dessa Corte ([3]), teriam que ser declarados não recepcionados pela Constituição, fazendo ruir boa parte do ordenamento legal e jurídico do País.
Por estas razões, requer-se a Vossa Excelência que, além dos elementos técnicos já constantes dos autos, leve em consideração também estas considerações e precedentes e, sobretudo a necessidade de proteção ao cidadão no julgamento do RE 511961. Afinal, o art. 1º da mesma Constituição solenemente assegura que “A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: I - a soberania; II - a cidadania; III - a dignidade da pessoa humana; IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; e V - o pluralismo político.”
Atenciosamente,
Sérgio Murillo de Andrade
Presidente da Federação Nacional dos Jornalistas – FENAJ”

Terça-feira, 16 de Junho de 2009

O fim do jornalismo

Se o julgamento não for novamente adiado, amanhã, quarta-feira, o Supremo Tribunal Federal deverá derrubar a exigência de diploma de curso superior específico para os jornalistas. Seis ministros já teriam indicado que vão votar contra a exigência.
O julgamento se arrasta há anos, desde que uma juíza paulista resolveu contestar a orbigatoriedade. Desde então o patronato tem feito lobby intenso pela abertura total do mercado, alegando que a Constituição garante a liberdade de informação para todos. Do outro lado, entidades sindicais se movimentaram para manter o status quo.
No Congresso, já prevendo o inevitável, deputados elaboraram projetos sobre o tema.
O assunto pode parecer irrevelante para muitas pessoas, mas é de extrema importância para quem deseja ver no país, de fato, uma imprensa responsável, profissional e, principalmente, ética.
Ao permitir que qualquer pessoa exerça a profissão de jornalista, com as suas inúmeras nuances, o STF deixa o patronato no melhor dos mundos - pode contratar quem quiser, pelo preço que quiser, segundo a implacável "lei" de mercado - afinal, qualquer pessoa será um jornalista em potencial.
Além disso, essa imensa mão de obra poderá ser treinada da maneira que os patrões acharem mais conveniente. Ou seja, para seguir estritamente a lógica que manda obedecer sem contestar as ordens superiores.
Se há hoje quem reclame da qualidade da imprensa brasileira, da dificuldade que é para conseguir um direito de resposta, do viés partidário do noticiário, da sujeição absoluta do interesse público aos negócios privados, é porque não sabe o que está por vir.
Os cursos de jornalismo do país são fracos, deixam muito a desejar para a formação profissional, mas por si só são um filtro que permite fazer uma seleção para a escolha dos profissionais mais aptos. Como em qualquer outra profissão, a formação acadêmica é apenas um primeiro passo - o trabalho cotidiano, com suas dificuldades e constante aprendizado, é a sequência natural.
Os ministros do STF deveriam saber dessas coisas. Mas, infelizmente, para os pobres mortais, eles são supremos. Até mesmo nas besteiras que fazem.

Domingo, 14 de Junho de 2009

Ataque e defesa

Em tempos normais, essa perseguição que a "grande" imprensa promove contra a Petrobras, procurando escândalos na empresa a todo momento, soaria como algo doentio. Nas circunstâncias em que o país está, porém, em que a oposição - a maioria da mídia incluída - busca desesperadamente qualquer tipo de arma para disparar contra o governo, tudo parece ser absolutamente normal.
Portanto, é de se compreender que a empresa busque se defender da melhor maneira possível. A Petrobras, como se sabe, é uma companhia aberta, com papéis negociados - e muito bem - na Bolsa de Valores, com milhares de acionistas espalhados por todo o país. Tem, portanto, como qualquer outra empresa, obrigações claras com quem detém suas ações. Entre essas, é óbvio, está a de responder a ataques, insinuações, suspeitas, denúncias, ou o que seja, contra seus procedimentos, seus dirigentes ou funcionários. Se não fizesse isso, estaria sendo omissa - e o pior, faltando com seu dever para com seus acionistas, podendo até mesmo ser responsabilizada judicialmente.
Nessa linha de raciocínio, soam no mínimo impertinentes esses esperneios contra o lançamento do Blog da Petrobras, no qual a empresa responde a todas as matérias que a atacam, inclusive publicando na íntegra as perguntas e respostas que lhes foram feitas, e, mais recentemente, contra a contratação de uma empresa de comunicação, a Companhia de Notícias, para reforçar internamente esse setor, mais que nunca estratégico neste momento.
Com esses procedimentos a Petrobras mais uma vez mostra que não foi à toa que conseguiu chegar à posição de liderança que ocupa no mundo. Talvez seja por isso mesmo que sofra tantos ataques: atingí-la equivale a ganhar o grande prêmio - mesmo que isso prejudique, direta e indiretamente, o próprio país.

Sábado, 13 de Junho de 2009

Meias palavras

Todos sabem que a rádio Jovem Pan é um dos bastiões mais sólidos do pensamento (sic) neo-liberal. A emissora defende com extremado zelo os valores mais caros ao estrato pertencente ao topo da pirâmide social: tradição, família e propriedade são para ela palavras sagradas.
Volta e meia, com aquela voz grave que as ocasiões solenes exigem, um locutor da rádio propaga um texto denominado de "editorial", no qual variam os temas, mas o conteúdo é sempre o mesmo.
O último deles foi para mostrar que as isenções tributárias feitas pelo governo federal são insuficientes para livrar o brasileiro da sua insuportável carga fiscal. Segundo o locutor, o pobre cidadão deste país, apesar de toda a desoneração já feita, ainda tem de trabalhar 147 dias por ano apenas para pagar os impostos que este governo mau lhe impõe.
E, para tornar mais didática sua exposição, o locutor faz um paralelo: nos Estados Unidos, diz, trabalha-se somente 103 dias por ano para pagar os tributos.
O que o soturno locutor não fala, pois isso, é lógico, faz parte do manual desse jornalismo partidário praticado pela Jovem Pan e tantos outros veículos de comunicação deste país, é que essa pesada carga tributária brasileira, apesar de tudo sustenta um sistema público de saúde, que por pior que funcione, garante atendimento a todos os cidadãos, um sistema de previdência que assiste todos os trabalhadores formais, e o maior programa social do mundo, o Bolsa Família.
Nesse ponto, pelo menos, os Estados Unidos perdem de goleada para nós.

Sexta-feira, 12 de Junho de 2009

Otimismo inglês

Em sua última edição, a revista inglesa The Economist afirma que o presidente Lula tem bom motivos para usar o bordão "nunca antes na história deste país¨. É que, segundo a publicação, o Brasil foi um dos últimos países a entrar em recessão, devido à crise econômica global, e será um dos primeiros a sair dela.
A revista lembra que a taxa de juros encontra-se hoje no nível mais baixo de todos os tempos e lista uma série de marcos que indicam a recuperação da economia brasileira, como o valor de mercado da Bolsa de Valores, que voltou aos números anteriores à quebra do Lehman Brothers, em setembro do ano passado, e o recuo de 0,8% do PIB no primeiro trimestre, abaixo da aposta da maioria dos analistas. Citando economistas, como o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga, a revista atribui a recuperação a políticas monetária e fiscal mais flexíveis adotadas este ano.
Otimismo inglês à parte, é mesmo praticamente certo que o pior já passou. O ministro do Trabalho, Carlos Lupi, adiantou que em maio foram criados mais de 100 mil postos de trabalho com carteira assinada, revertendo de vez a série negativa do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, o Caged.
Outro indicador de que a economia voltou a se aquecer é dado pelo índice da Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias, que mostra que em maio o fluxo de veículos pedagiados registrou crescimento de 0,4% em relação a abril e de 0,5% em relação a maio do ano passado. O movimento de veículos pesados apresentou alta pelo quarto mês consecutivo, alcançando crescimento de 2,7% em maio em relação ao mês anterior. "Este já é um número forte, que confirma a retomada mais assertiva da atividade industrial", diz Ariadne Vitoriano, analista da Tendências, empresa responsável pela elaboração do índice.
Analistas que duvidavam da previsão do ministro da Fazenda, Guido Mantega, de que o PIB deste ano vai se expandir cerca de 2% já revêem suas previsões pessimistas e dizem que ele pode mesmo estar com a razão.
E, se isso se confirmar, diminuem ainda mais as chances de José Serra vencer a eleição presidencial de 2010. Afinal, todos sabem que a possibilidade de o Brasil sucumbir à crise econômica ainda é uma das principais bandeiras dessa oposição que aposta no "quanto pior, melhor" para ter êxito em sua tentativa de voltar ao poder.

Quinta-feira, 11 de Junho de 2009

O horror

Na noite de quarta-feira, véspera do feriado de Corpus Christi, cerca de 40% dos 800 quilômetros das ruas paulistanas monitoradas pela Companhia de Engenharia de Trânsito (CET) estavam congestinadas. Aproximadamente 300 quilômetros de vias apresentavam problemas. Foi o maior congestionamento da história de São Paulo.
E, como as vendas de veículos continuam altas e não se vê nenhuma tentativa de solução para o problema, é possível dizer, sem ajuda dos búzios ou qualquer outro instrumento de predição do futuro, que o fim está próximo.
Os otimistas poderão argumentar que a prefeitura e o governo do Estado investem em obras para ampliação do metrô e do rodoanel, mas a verdade é que quando elas estiverem prontas - e algum dia isso fatalmente ocorrerá! - a situação do trânsito paulistano será ainda pior do que hoje. Ou seja, essas obras apenas ajudarão a diminuir o problema, mas não a resolvê-lo.
O caos vivido hoje em São Paulo é resultado de anos e anos de descuido total do poder público em relação ao transporte coletivo. As administrações gastaram fortunas em obras que privilegiam somente os carros. O resultado é isso que está aí.
São Paulo é, sob muitos aspectos, uma cidade cruel com seus habitantes. O que mais dói, porém, é saber que quase nada se faz para livrá-la de sua desumanidade.
Nenhum governante, por exemplo, poderia ficar indiferente às condições em que vivem os trabalhadores, submetidos à humilhação de passar horas e horas em desconfortáveis ônibus ou vagões de trens e metrôs - ou mesmo, no caso dos mais "privilegiados", sentados nos bancos de seus veículos, sob um estresse quase insuportável.
A inação do prefeito e do governador em relação ao que se vê na cidade amedronta qualquer cidadão.
É o horror cada vez mais próximo, tangível, que chega inexorável.

Terça-feira, 9 de Junho de 2009

O ovo de Colombo

Demorou, mas aconteceu. O primeiro contra-ataque à campanha incessante da "grande imprensa" contra o governo Lula ocorre da maneira mais simples e direta possível, por meio do chamado Blog da Petrobras.
É o chamado Ovo de Colombo: a Petrobras coloca na internet as perguntas e respostas que lhe fazem, sem edição. Bingo!
Claro que a medida - que deveria se estender a todas as companhias que se pretendem sérias, pois garante total transparência à relação com a comunidade - provocou um tsunami (os jornalões adoram essa palavra) na mídia corporativa.
Até a esquecida Associação Nacional dos Jornais acordou do sono costumeiro para soltar uma patética nota de repúdio contra o lançamento do blog - nota que foi devidamente respondida.
Espera-se agora que outros setores ligados, de uma forma ou outra, ao governo federal, imitem a Petrobras e comecem a tratar a imprensa como ela merece: de igual para igual, sem nenhum temor de usar todos os meios legais para preservar seus direitos.
O Brasil já é grande o suficiente para ficar refém de meia dúzia de empresas de comunicação cujo único objetivo é aumentar seus lucros e preservar o status quo econômico e social do país.

Sábado, 6 de Junho de 2009

A última do Mellão

Volta e meia ele brinda os leitores do Estadão com verdadeiras jóias, artigos para ler e guardar. O deputado estadual João Mellão Neto - nem é preciso dizer seu partido - representa a fina flor do pensamento reacionário brasileiro, aquela direita que pensa, exala e vive eternos chavões eivados de rancor e preconceitos contra pobres e assemelhados.
Mellão, verdade seja dita, tenta ser engraçado. Mas o humor, definitivamente, não combina com a ideologia que ele prega.
Seu último artigo no Estadão, "Trabalhe Pesado!", resume a sua profícua obra em prol do pensamento neoliberal. Em destaque, o trecho final:
O Bolsa-Família é um programa que, uma vez implantado, não há mais como descartá-lo. Os milhões de beneficiários já estão acostumados com o aporte mensal do dinheiro fácil. Como dizer a eles que dali em diante deveriam suar o rosto para obtê-lo?
Tanto para o governo como para a oposição, propor o fim do Bolsa-Família seria eleitoralmente desastroso. E o programa, assim, se impõe como algo definitivo.
Aqueles que trabalham hão de votar na oposição, já aqueles que não trabalham votarão sempre no governo. Como estes últimos se estão tornando maioria, o continuísmo parece ser um prognóstico evidente.
Como é economicamente impossível pôr a totalidade dos brasileiros sob o guarda-chuva do Bolsa-Família - alguém tem de pagar a conta -, teremos no País, doravante, duas classes de cidadãos: a dos que sustentam e a dos que são sustentados pelo Bolsa-Família.
Quanto a você, que está lendo este artigo, a recomendação do governo é a seguinte: "Trate de trabalhar duro! Além da sua família, há mais 11 milhões de famílias que dependem de você!"
Com uma oposição desse nível é quase impossível Lula não fazer seu sucessor...

Quarta-feira, 3 de Junho de 2009

Abril negro

Os números do Instituto Verificador de Circulação, o IVC, são implacáveis: em abril, a tiragem dos jornais brasileiros caiu 6,7% em relação ao mesmo mês de 2008. Alguns dos principais diários, como Folha e Estadão, apresentaram retração de dois dígitos.
Para os donos dos jornais a queda é sintoma da crise econômica global.
Pode até ser que isso seja verdade. Mas não se trata só disso. O fenômeno tem também causas mais profundas: a mídia escrita, como um todo, passa por um dos piores momentos de sua história - com o fortalecimento da internet, vaga sem rumo, sem capacidade de reação.
O caso é sério. Embora até saibam, na teoria, o que devem fazer - levar ao leitor um material diferenciado, descolado do "hard news" oferecido pela mídia eletrônica - os diários brasileiros preferem rechear suas páginas com a informação mais rala possível - quando não, com conteúdo político partidário que pode ser tudo, menos jornalismo.
O que fazem é tão somente um suicídio.

Segunda-feira, 1 de Junho de 2009

Mudança de foco

A semana promete. Mais uma tragédia na aviação para que os "especialistas" de plantão arranjem os bodes expiatórios de sempre: problemas insolúveis no sistema de controle aéreo do país e, por consequência, culpa do governo Lula, que não consegue pôr fim ao "caosaéreo".
Por culpa do acidente com o Airbus da Air France, ficam congeladas, por enquanto, todas as manifestações sobre a trepidante CPI da Petrobras, aquela que a oposição criou para escandalizar a opinião pública a respeito de uma "caixa preta" na maior empresa brasileira - e modelo para milhares de outras em todo o mundo.
Haja paciência!

Domingo, 31 de Maio de 2009

Escolhas

A Folha publica reportagem em que denuncia prática da prefeitura paulistana de fazer rodízio dos moradores de rua nos albergues municipais. Segundo a matéria, faltam cerca de 3 mil leitos. A secretária da Assistência Social, Alda Marco Antônio, também vice-prefeita, tergiversa sobre o assunto.
A história levantada pela Folha choca menos pelo que mostra do que pelo que deixa de mostrar.
O déficit apresentado é de 3 mil vagas - 3 mil, não 30 mil, nem 300 mil. Meros 3 mil leitos. Assim, como é possível que uma prefeitura do porte da paulistana não consiga resolver um probleminha desses?
A resposta é simples. A administração pública se faz pela escolha de prioridades. No caso de São Paulo a prioridade certamente não é a questão social.
Portanto, vamos dar privilégio ao que aparece no noticiário, ao que rende votos, àquilo em que é possível cobrar pedágio, seja de que tipo for.
Pobre até que passa. Miserável, nem pensar.

Sexta-feira, 29 de Maio de 2009

Sucessão de patacoadas

A Secretaria de Educação do Estado de São Paulo excluiu mais cinco livros que eram usados pelos alunos em atividades de apoio nas salas de aula.
Os livros excluídos são os seguintes:
"Um Campeonato de Piadas", de Laerte Sarrumor e Guca Domenico, da editora Nova Alexandria, por conteúdo preconceituoso;
"Poesia do Dia - Poetas de Hoje para Leitores de Agora", de Alberto Pucheu, André Dick, Bruna Beber, Danilo Monteiro, Diego Vinhas, Elisa Andrade Buzzo, Fabrício Carpinejar, Fabrício Corsaletti, Joca Reiners Terron, Marcelo Camelo, Mário Bortolotto, Paulo Scott, Paulo Seben e Rodrigo Petronio, da editora Ática, por inadequação para a faixa etária;
"O Triste Fim do Menino Ostra e Outras Histórias", de Tim Burton, da editora Girafinha, por inadequação para a faixa etária;
"Memórias Inventadas - A Infância", de Manoel de Barros, da editora Planeta, das salas do Programa de Recuperação Intensiva da quarta série, por inadequação para a faixa etária;
"Manual de Desculpas Esfarrapadas: casos de humor", de Leo Cunha, editora FTD, das salas do Programa de Recuperação Intensiva da quarta série, por inadequação para a faixa etária.
Anteriormente, a Secretaria de Educação já havia tirado das escolas um livro que trazia um mapa da América do Sul com dois Paraguais e nenhum Equador e outro recheado de palavrões.
Os desta última leva são de nível bem mais elevado.
Manoel de Barros, por exemplo, é poeta renomado. Assim como Tim Burton é um cineasta de obra importante. Sobre os livros de piadas, pode haver alguma controvérsia, mas piadas, por definição, devem ser engraçadas, e 99% delas são mesmo politicamente incorretas.
Já o que a Secretaria de Educação paulista faz pelas crianças do Estado não tem graça nenhuma. O que começou com um lamentável erro parece agora se transformar numa sucessão de patacoadas.
Dá para levar a sério?

Fim de linha

"Em complemento ao 'Comunicado' de 25 de maio do presente, e pelos motivos nele expostos, a EDITORA JB S.A. informa que a edição de hoje do jornal 'GAZETA MERCANTIL' é a última publicada sob sua responsabilidade, nos termos do 'Contrato de Licenciamento de Uso de Marcas e Usufruto Oneroso' celebrado por escritura pública de 16/12/2003 junto à Gazeta Mercantil S.A., proprietária das marcas nominais objeto dos registros 817.972.242.972.250 e 817.972.269 (Classes 11, 38 e 41) do Instituto Nacional da Propriedade Industrial - INPI.
A EDITORA JB S.A. reitera convicção de haver fortalecido e modernizado o jornal 'GAZETA MERCANTIL', bem como agradece ao público em geral e aos seus leitores e anunciantes a confiança nela depositada durante o exercício do direito de uso da marca 'GAZETA MERCANTIL'.
A partir de 1º de junho próximo, a Gazeta Mercantil S. A., controlada pelo Sr. Luiz Fernando Ferreira Levy, é a única e exclusiva responsável pela edição e comercialização do jornal 'GAZETA MERCANTIL' e pela defesa e conservação das marcas, que são de sua propriedade.
A EDITORA JB S.A. continua a manifestar sua disposição em colaborar para a continuidade, sem interrupção, da publicação deste periódico."
E assim chega ao fim uma das mais valorizadas marcas da imprensa brasileira, casa por onde passaram alguns dos mais competentes profissionais do país.
Curto e grosso.
Cerca de 50 jornalistas ficam agora em casa, à espera do que vier, das migalhas que o "mercado" lhes reservará. Afinal, estão desempregados.
Como disse certa vez um jornalista renomado que esteve algum tempo "no desvio" ao ser perguntado sobre os frilas que estava fazendo:
- Estou como o motorista de táxi. Não tenho condição de recusar passageiro.
É a vida. Mas poderia ser diferente.

Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

A turma do Impostômetro

Um simples exercício de imaginação é capaz de mostrar o absurdo que essa turma que criou o tal Impostômetro pretende para o país.
Vamos supor que os impostos sejam reduzidos ao mínimo possível, como querem pefelistas, tucanos e assemelhados, patrocinadores dessa campanha.
As consequencias imediatas dessa insensatez seriam o atendimento ainda mais precário do que o atual nos setores de saúde, educação, segurança pública e previdência social, principalmente.
Sem a presença do Estado para bancar os custos mínimos de manutenção dos serviços nessas áreas, restaria a opção de entregá-los à exploração do setor privado. O Estado ficaria encarregado apenas de fiscalizar o gerenciamento do sistema.
Alguém tem saudades da São Paulo do tempo do finado PAS?
É isso o que esse pessoal deseja para o Brasil inteiro?
O que essa turma não entende, porque não é conveniente entender, é que certas coisas não podem ser feitas com a ótica exclusiva do lucro.
Investir em saúde não é gasto. Como não é gasto investir em educação, segurança pública, moradias, transporte, infra-estrutura.
Esse dinheiro se reverte em benefício geral. A construção de uma escola serve para pobres e ricos - se o rico quiser outra para o seu filho tem os meios para optar pela particular.
O Estado é obrigado a garantir saúde e educação para todos. É sua obrigação também melhorar constantemente a qualidade desses serviços.
E isso só pode ser feito com o aperfeiçoamento da gestão, por meio de profissionais mais qualificados, mais bem pagos, com o dinheiro dos impostos - que, infelizmente, no Brasil atingem com mais força quem está na parte de baixo da pirâmide social.
O problema todo é esse - neste país, os ricos pagam menos impostos que os pobres. E mesmo assim, querem ficar isentos deles.
Essa cruzada permanente que fazem por uma reforma tributária não é algo para ser levado a sério. Eles querem, simplesmente, pagar menos impostos.
Como no caso da CPMF, que conseguiram derrubar.
Alguém sabe o que eles fizeram com o dinheiro que sobrou da taxa que deixaram de pagar? Deram aumentos para os empregados, investiram na produção, baixaram os preços?
Ou apenas engordaram os lucros?

Terça-feira, 26 de Maio de 2009

Impostômetro, impostura

A Associação Comercial de São Paulo tem feito um carnaval danado com o tal "impostômetro", criado por ela e pelo Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário. Claro que a "grande" imprensa vai atrás dessa impostura, que desconsidera uma série de fatores para dar suporte à tese de que o brasileiro, especialmente o de classe média, paga muito imposto, que é preciso desinchar o Estado, e tantas e tão batidas lorotas neo-liberais.
Como a ética jornalística manda ouvir os dois lados de uma questão - algo que só é seguido de acordo com a conveniência editorial - reproduzo abaixo notícia da Agência Brasil, que ouviu alguns especialistas em finanças públicas que não concordam com a simplificação do tema:
"Especialistas em finanças públicas contestam “impostômetro”, a metodologia que a Associação Comercial de São Paulo e o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário usam para criticar a carga tributária no Brasil. Segundo a mensuração tributária, o país atingiu hoje (4 meses e 25 dias após o início do ano) os R$ 400 bilhões de impostos federais, estaduais e municipais pagos pelos brasileiros.
Para Marcio Pochmann, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o cálculo é incorreto pois se baseia na arrecadação bruta e não na arrecadação líquida - naquilo que efetivamente o Estado tributou sem descontar o que restituiu. Segundo o economista, para cada R$ 3 arrecadados, R$ 2 são devolvidos “imediatamente”.
“A afirmativa de que estamos pagando muito imposto, o que compromete uma parcela significativa do tempo do ano, tem pouco consistência. Considera-se a arrecadação de impostos pelo poder público, mas não se leva em conta que uma parte significativa de impostos retorna”, observa Pochmann. “A tributação que eles dizem pagar está embutida no preço, mesmo as contribuições sobre o faturamento essas são transferidas para o preço. Quem paga em última análise é o consumidor.”
O economista Adriano Biava, professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo, assinala que “para deixar de impostura, seria melhor que a gente tivesse uma explicitação da composição da carga tributária e como são usados os recursos arrecadados por tributos”.
Segundo Biava, “a discussão de que se paga muito imposto ou se paga pouco imposto é relativa. O problema da nossa carga tributária não é o seu tamanho, mas sua distribuição: quem que suporta esse imposto?” Na opinião do professor, os impostos recaem sobre os setores mais pobres da sociedade.
O consultor de finanças públicas Amir Kahir concorda: “Na realidade, quem paga imposto no Brasil é da classe média para baixo”. Segundo o especialista, quem ganha até 2 salários mínimos paga até 49% do que ganha em tributos. Mas quem ganha acima de 30 salários mínimos paga apenas 26% dos seus rendimentos em tributos. “Ou seja, há uma grande regressividade. Coisa que não é levantada pelas associações comerciais, pelas empresas de forma geral”, critica.
Para Kahir, “o maior defeito do sistema tributário brasileiro é sua alta regressividade que, junto com a má distribuição de renda, são os grandes freios ao desenvolvimento econômico do país”.
A avaliação é compartilhada por Pochmann e Biava. “Nós temos uma estrutura desigual tanto na arrecadação quanto no gasto. Uma parcela do gasto que é feito não se volta para os mais pobres”, acrescenta o presidente do Ipea.
Segundo Biava, o Estado tira dos mais pobres pelas duas mãos: “O resultado da atividade do setor público é concentradora. A maior parte do sistema tributário é constituída de impostos regressivos que penalizam mais os pobres. Os gastos públicos penalizam também os mais pobres na medida que privilegiam pequenas categorias da sociedade”.

Quando o mais fraco vence

De vez em quando a caixa de entrada do Outlook nos reserva alguma supresa. Como este release com o título "Juiz Condena Folha por Leviandade e Sensacionalismo".
Claro que a decisão não é final, que a Folha deve recorrer etc e tal. De toda forma, é um alento saber que neste país nem sempre o lado mais forte ganha todas. A sentença também é importante para lembrar que nunca é tarde para a imprensa refletir sobre sua conduta ética e sobre o papel que pretende exercer na sociedade.
A íntegra do release é a seguinte:
"A Folha de S.Paulo e a jornalista Renata Lo Prete foram condenadas a pagar R$ 139.500,00 a Milton Zuanazzi, ex-presidente da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), a título de indenização por danos morais. A ação se refere a uma série de notas difamatórias publicadas em 20 de julho de 2007 na coluna Painel, editada por Lo Prete.
O jornal afirmou que a Anac mantinha relações “promíscuas” com as empresas de aviação, sugerindo que, no interior da Agência, Zuanazzi seria a pessoa encarregada de defender os interesses da Gol. Segundo a Folha, essa suposta interferência teria feito a Anac liberar a pista do aeroporto de Congonhas onde, três dias antes da publicação da nota, havia ocorrido o acidente com o avião da TAM.
Na ação, Zuanazzi lembra que não foi a Anac quem liberou a pista, mas a Infraero. E ressaltou que a Folha, buscando eleger um culpado pela crise aérea, produziu contra ele acusações que jamais conseguiu provar.
Após a analisar as razões de Zuanazzi e a defesa do jornal, a juíza Maria Lúcia Boutros Buchain Zoch Rodrigues, da Vara Civil do Fórum de Porto Alegre (RS), concluiu que a Folha foi “irresponsável”, “leviana” e “sensacionalista”, dando ganho de causa ao ex-presidente da Anac."

A seguir, a parte final da sentença:

É de ressaltar-se o fato de que o texto foi publicado apenas três dias após a ocorrência daquele acidente, como parte do conjunto de manifestações que a imprensa nacional produziu na ocasião. E que de alguma forma ele vincula o desastre à atuação da ANAC e a uma suposta ligação escusa, de seus dirigentes com duas empresas aéreas: a GOL e a TAM.
Ora, naquele contexto, a afirmação de que Zuanazzi era GOL é suficiente para que se identifique a clara intenção da jornalista de dizer que ele, corrompido pela companhia aérea a fim de receber vantagens indevidas, funcionalizava seus atos para beneficiar aquela empresa. Posto que subliminarmente, resta claro que o texto induz à crença de que entre as causas do grave acidente estaria a corrupção dos agentes da ANAC - entre eles o autor.
E a irresponsabilidade de uma notícia assim veiculada torna-se ainda mais grave quando dirigida a um leitor tomado pela comoção que aquela tragédia sem precedentes na história da aviação brasileira causou.
Foi como colocar gasolina na fogueira em que se constituía o sentimento dos brasileiros naquela ocasião, especialmente os parentes e amigos das vítimas, já tão destroçados pelo acontecimento.
Foi expor o autor, não só a um abalo de imagem como ao risco de linchamento, evidenciado no relato da testemunha João Elias Bragatto, que transcrevo (fl. 584):
“PA: Se o depoente sabe do constrangimento sofrido pelo autor no aeroporto e se ele sabe a que ele aliaria esse constrangimento? T: Isso foi um fato lamentável que foi presenciado, né? Dele e a esposa serem agredidos no aeroporto em função dessa matéria. Estava ali um grupo de pessoas fazendo um manifesto contra a TAM e esse grupo partiu para... Tal assassino, tal ladrão. Foram essas as palavras que deu para ouvir, porque era muita gente e partiram para cima dele.
“J: Presenciou? T: Presenciei o fato. Eu estava... O meu colega estava lá dentro do aeroporto e eu tinha ido estacionar o carro. Nesse percurso já estava a tal... Aí ele me relatou, 'Ó, é o Milton que está ali e o pessoal...', mas deu para ouvir todas as pessoas, inclusive a mulher dele eu achei que tinha sido agredida. Mas depois disse que não foi, o pessoal... De uma bandeirada que ela levou.
“J: Esse fato foi após a publicação desta matéria? T: Após a publicação. Acho que foi uns cinco ou seis meses depois da publicação, se não me engano. Não vou precisar data porque... É que foram depois outras notícias e essa foi a que me gravou mais”.
E nem se diga, como as rés fizeram, que o autor, por ser homem público, sujeito à vigilância no desempenho de suas funções e à crítica jornalística, pudesse, só por isso, ser submetido a acusações daquela natureza. A imputação de atos de corrupção, feita sem qualquer base concreta, por conta de supostos comentários alegadamente protegidos pelo sigilo da fonte, ultrapassou o âmbito da mera crítica jornalística. Mormente quando feita por um veículo de informação com a importância institucional da Folha de São Paulo - cuja influência em todo o País é consabida.
A leviandade que se revela em uma notícia assim produzida não pode abrigar-se sob o manto da liberdade de imprensa - um valor que, se por um lado deve ser resguardado com efeito, de outro impõe àquele que o exercita que o faça com maturidade e equilíbrio, nem de longe observados pelas rés no trato de uma tragédia daquela proporção.
Forçoso dizer o óbvio: para que pudessem estabelecer conexões como as que fizeram - entre as companhias aéreas, a atuação do demandante e o acidente -, as rés, necessariamente, haveriam de ter provas do afirmado. E não tinham.
Nem lhes adianta invocar, da maneira quase irônica como o fizeram, o surrado argumento do “sigilo da fonte”, contradizendo a proposição de que fariam prova da alegada corrupção.
Aliás, nisso cometeram mais uma leviandade, que agrava sobremaneira o ilícito por elas praticado: reiteraram aqui, em juízo, que as informações que publicaram eram verdadeiras; que “o conteúdo do relatório final da CPI do Apagão Aéreo bem demonstra a promiscuidade das relações entre a ANAC e as empresas privadas do setor aéreo e confirma as informações divulgadas pelas rés, inclusive quanto ao autor” (fls. 50 e 97). Em outras palavras, que o autor, como disseram, era GOL. Contudo, os elementos que trouxeram nada sinalizam a respeito de qualquer irregularidade que este tenha cometido.
É surpreendente que as rés inclusive tenham tentado, com destaques em amarelo e algumas transcrições, indicar passagens do relatório da CPI como provas em seu favor. Só quem não lesse aquele documento poderia acreditar que ali existe algo que possa ser chamado de prova da corrupção atribuída ao autor. Não há nada, absolutamente nada, senão referências à INFRAERO e à submissão de obras e serviços desse órgão a interesses de empreiteiros. A promiscuidade citada pela jornalista foi cogitada, sim, mas como presente na relação entre os administradores da INFRAERO e seus contratados (fl. 361), não entre as empresas aéreas e a ANAC, como ela afoitamente anunciara. A menção a dúvidas sobre a probidade da atuação dos dirigentes da ANAC foi feita apenas na introdução do relatório, como parte do histórico da instauração daquela CPI, não havendo, na seqüência, qualquer conclusão ou asserção naquele sentido. Houve, ainda, referência a voto do autor em um julgamento administrativo (fls. 147 e 157) e várias críticas sobre a atuação da ANAC - mais especificamente ao comportamento de uma diretora daquela agência (fls. 162, 169-170, 172-181, 183 e 187-188). Mas nenhuma atribuição de ato de improbidade a Mílton Zuanazzi; nada que o vinculasse à GOL, como asseverado pela Folha e pela jornalista.
Resta, assim, uma imputação vazia, com sua imensurável capacidade destrutiva, que se tornou tanto maior pela indiscutível respeitabilidade do agente - a Folha de São Paulo - e pelo momento em que foi lançada: três dias após o acidente da TAM.
Obviamente, porque refoge aos limites desta lide - que não versa sobre mera crítica à gestão do autor como Presidente da ANAC -, não me cabe aqui avaliar se houve, ou não, falhas na atuação dele à frente daquele órgão, ou, em tendo havido, ser por conseqüência ele contribuiu, ou não, para a crise que a aviação brasileira enfrentou naqueles tempos.
A questão aqui tratada é do ilícito a ele atribuído e seu link, como causa do acidente ocorrido com o airbus da TAM - afirmação feita sem qualquer substrato, como a prova dos autos, de forma cabal, hoje demonstra.
Não tenho dúvida, pois, de que em vez de apenas narrar fatos verídicos e de interesse público, como alegado pelas rés (fl. 49), a coluna por elas publicada utilizou-se de um sensacionalismo barato, da pior espécie, que causou ao autor um profundo dano moral.
Nem é preciso discorrer sobre a prova desse dano, por cuidar-se de hipótese clássica, já examinada tanto em doutrina como em jurisprudência, de aferição que se faz in re ipsa - compreensível por qualquer um que se coloque na posição do ofendido.
Passo, pois, desde logo, a quantificar a indenização a ele devida, que, dada à alusão feita pelas rés em preliminar, vale sublinhar, não se sujeita à tarifação prevista na Lei de Imprensa (Súmula nº 281 do STJ).
E nessa tarefa, observo que a Folha de São Paulo é periódico de circulação nacional, cuja enorme credibilidade que detém é fator que exacerba o dano por ela provocado - na medida em que empresta ao potencial de convencimento dos leitores a mesma proporção dessa credibilidade.
Por outro lado, o autor, como as próprias rés fazem questão de frisar, é homem público. Teve ampla e tradicional atuação política e administrativa no Estado do Rio Grande do Sul, mercê dos cargos que ocupou como Vereador do Município de Porto Alegre, Secretário Estadual e Presidente de instituições como CEEE e CRT – fatos incontroversos. E na época da publicação exercia importante cargo em nível federal - o que amplia o público alvo da notícia, e, por consequência, o potencial agressivo do ilícito por meio dela cometido.
Examinando, ainda, pela perspectiva de precedentes jurisprudenciais do Tribunal de Justiça deste Estado, cito o caso abordado na Apelação Cível nº 70009617283, em que uma magistrada, que teve inseridas nos autos de processo eleitoral declarações acerca de seu envolvimento amoroso com o filho do Presidente de Diretório Municipal de um partido político, obteve, a título de reparação por dano moral, 250 salários mínimos.
Face a esse referencial, parece óbvio que a imputação e o tamanho da divulgação verificadas no presente caso justificariam, pelo menos, quinhentos salários mínimos a título de reparação.
Isso sem contar a capacidade econômica de pelo menos uma das ora rés - empresa jornalística de grande porte -, em comparação com a que se presume ser a dos demandados naquele precedente – dois profissionais autônomos da advocacia.
Na mesma linha a analogia que se faça com o fato julgado na Apelação Cível nº 70001201532, que versou sobre crítica feita pela imprensa à decisão de um magistrado. O valor arbitrado também foi equivalente a 250 salários mínimos.
Ocorre que, na inicial, o autor sugere valor equivalente a trezentos salários mínimos (fls. 15, in fine, e 16). E assim, ao sequer indicá-lo como quantia mínima, o que fez foi limitar seu pedido a esse patamar.
Diante disso, embora a meu juízo a conduta das rés devesse comportar arbitramento maior, não tenho como procedê-lo.
Por consequência, considerados os aspectos que devem nortear a fixação - a intensidade do sofrimento causado ao autor, as condições econômicas e sociais de ambas as partes e o caráter pedagógico e preventivo da condenação -, arbitro a indenização devida pelas rés em R$ 139.500,00, valor equivalente, nesta data, a trezentos salários mínimos.
ANTE O EXPOSTO, JULGO A AÇÃO PROCEDENTE, para condenar a EMPRESA FOLHA DA MANHÃ e a jornalista RENATA LO PRETE, solidariamente, a pagarem a MÍLTON ZUANAZZI, indenização por dano moral que fixo em R$ 139.500,00 (cento e trinta e nove mil e quinhentos reais), a serem corrigidos pelo IGP-M, quando do pagamento, desde a data desta sentença, e acrescidos de juros de mora de 1% ao mês, estes deste a data do ato ilícito (qual seja a da publicação da matéria, ocorrida em 20 de julho de 2007), nos termos da Súmula 54 do STJ.
Custas pelas rés, que pagarão, ainda, verba honorária que, na forma do § 3º do art. 20 do CPC, fixo em 15% (quinze por cento) sobre o valor da condenação.
Registre-se e intimem-se.
Porto Alegre, 15 de abril de 2009.
MARIA LUCIA BOUTROS BUCHAIN ZOCH RODRIGUES,
JUÍZA DE DIREITO.