domingo, 20 de dezembro de 2009

Vai ser dada a largada

Dois fatos apimentaram a disputa presidencial nesses últimos dias: a "desistência" do governador Aécio Neves de pleitear a vaga tucana, e a pesquisa Datafolha, que apontou o estreitamento da distância entre José Serra e Dilma Rousseff.
As duas notícias são ruins para Serra.
O recuo de Aécio obriga o governador paulista a assumir a candidatura, algo que evitava fazer, por temer uma polarização precoce com a candidata de Lula, e o fato de ele ter agora de se dedicar mais ao desgastante trabalho de composições políticas, o que pode afastá-lo do dia a dia de suas funções no Palácio dos Bandeirantes, deixando-o mais exposto a eventuais críticas - como se sabe, 90% de sua imagem de bom administrador é fruto de um misto de propaganda enganosa e cumplicidade midiática.
A outra má notícia foi o Datafolha, que reduziu drasticamente a distância entre os dois principais competidores - antes oscilava entre 19 e 25 pontos, agora está em 14. O PT deve acelerar, já no início do ano, a campanha da ministra-chefe da Casa Civil e, assim, torná-la mais conhecida dos eleitores.
Toda a estratégia do partido, nesse momento, vai ser de colar a imagem de Dilma Rousseff no presidente Lula, que, segundo a pesquisa, aumentou ainda mais a sua popularidade.
O Datafolha mostrou que Serra é o candidato mais conhecido: 93% dizem saber quem ele é. Desses, 30% afirmam conhecê-lo muito bem. Já Dilma é conhecida por 80% dos brasileiros, mas só 13% desses dizem conhecê-la muito bem. Outros 41% só sabem quem ela é de ouvir falar.
Outra preocupação dos petistas, que era sobre a rejeição da sua candidata, foi reduzida com a pesquisa: os índices de Dilma (21%) e Serra (19%) são praticamente iguais.
De tudo isso fica a certeza de que a corrida presidencial, em que pesem análises que procuram mostrar um amplo favoritismo do tucano, tendo em vista a sua liderança nas pesquisas, está ainda por começar. E que o trabalho do presidente Lula nesse processo é de enorme importância: afinal, ele transformou, em um ano, uma ministra praticamente desconhecida da população em uma candidata que começa a disputa com mais de 20% dos votos

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Almofadinhas

É absolutamente inexplicável a inação da prefeitura paulistana em relação ao Jardim Pantanal, bairro que está, há dez dias, literalmente afogado na merda - as chuvas da semana passada deixaram inoperante uma estação de tratamento de esgotos que serve a região e os efluentes acabaram se misturando com a água do rio Tietê que inundou a área.
O prefeito Gilberto Kassab, a bem da verdade, já foi até o local, mas afirmou que, de acordo com os técnicos, não há nada a fazer, a não ser remover as famílias de lá. Bombear a água imunda, como se cogitou, não adiantaria, pois, segundo explicou o alcaide, uma nova chuva viria e alagaria tudo novamente. Ele aproveitou para dizer que, depois da remoção das pessoas, o Jardim Pantanal integrará um novo parque que o governo do Estado pretende inaugurar ao longo do Tietê, em sua extensa área de várzea.
Todos os especialistas já explicaram que o problema das enchentes do principal rio paulistano se deve à ocupação de suas margens. Um exemplo claro disso foram as marginais, que impermeabilizaram o solo. A responsabilidade do poder público é, portanto, imensa nessa tragédia interminável que se abate sobre a metrópole.
Nos últimos dez ano, pelo menos, o leito do rio foi aprofundado, milhares de toneladas de lodo foram retiradas de lá, bilhões de dólares foram gastos para deixar o Tietê mais fundo e com isso evitar que a sua água transbordasse. Como se viu, foi trabalho perdido, dinheiro jogado fora - menos para as empresas contratadas para a obra.
O trabalho de remoção dos moradores do Jardim Pantanal começou a ser feito, de maneira muito lenta - é possível que a água seque antes que todas as famílias sejam retiradas de lá. O prefeito e seus auxiliares, nesses dias todos, parecem absolutamente perdidos em meio a uma situação que, se não é corriqueira, é perfeitamente plausível numa cidade com as carências de São Paulo.
O alheamento e a falta de solidariedade com o sofrimento dessas pobres pessoas que arranjaram um lugar para viver apenas na periferia da periferia, desnudam a face de um homem que chegou ao poder de forma artificial, sem ter construído uma relação orgânica com a população, sem passar pelos vários estágios que necessariamente transformam simples políticos em estadistas.
Certa vez, o governador Leonel Brizola, em meio a uma de suas inúmeras campanhas eleitorais, foi provocado por um jornalista a responder as bravatas de um adversário, um representante típico da burguesia, que pretendia alçar voos altos na vida pública sem nunca antes ter vivido a experiência de participar de uma eleição.
Brizola foi curto e grosso na resposta:
- Ele não passa de um merdinha, de um almofadinha.
Merdinha todo mundo sabe o que significa. Almofadinha, na definição do dicionário Aulette, é um "homem que se veste com excessivo apuro; casquilho; dândi; janota".

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Palavras ao vento


A Cop-15 está terminando e muitos já dizem que a conferência do clima será marcada pelo fracasso. Quem pensa assim parece desconhecer como se desenvolve um processo de negociação, seja lá qual for. Quase sempre ele é longo e doloroso. Todos os participantes querem que prevaleça a sua posição. O simples fato de a conferência ter reunido tanta gente de todo o mundo já mostra que as lideranças mundiais estão em busca da melhor solução para o problema. O mundo não vai acabar antes que isso aconteça.
E entre as pessoas que foram a Copenhague para debater sobre o que fazer para deter a deterioração climática do planeta estava o onipresente governador paulista, José Serra, que conseguiu, no melhor estilo papagaio de pirata, emplacar nos jornalões brasileiros fotos suas ao lado do colega californiano, o ator Arnold Schwarzenegger.
A imprensa nativa, aliás, tratou Serra como se ele fosse uma das figuras-chaves da Cop-15, personagem sem o qual o futuro do mundo está irremediavelmente comprometido.
Mas poucos se dispuseram a informar aos prezados leitores o real teor do que o nosso simpático governador falou na Dinamarca.
Suas palavras foram tão profundas que ouví-las não demorou mais do que uns inesquecíveis três minutos.
E, por serem breves, mas fundas; concisas, mas precisas; simples, mas definitivas, elas estão reproduzidas abaixo na íntegra.
A eleição se aproxima e Serra está cada vez mais Serra.

Senhoras e Senhores, bom dia.
É um prazer estar aqui nesse fórum de líderes climáticos regionais e apresentar os nossos compromissos de redução de emissões.
Em São Paulo nós aprovamos recentemente a Lei de Mudanças Climáticas, a qual nós esperamos que sirva como um marco efetivo para que se alcance os objetivos da Convenção do Clima.
Nosso Estado é localizado no Sudeste do Brasil, e é a mais industrializada região do país. Tem uma área comparável à do Reino Unido, e a população à da Argentina.
Nossa matriz energética é consideravelmente limpa, com baixas emissões de gases estufa e alta participação de energias renováveis. Se considerado como um país, seria o terceiro maior produtor de etanol, logo após os EUA e o Brasil.
O território de São Paulo é parcialmente coberto por Mata Atlântica, e essas áreas vem crescendo, como resultado de ações de fiscalização e recuperação. Temos políticas avançadas de biocombustíveis, de pesquisas relacionadas a mudanças climáticas, facilitamos recursos financeiros para as cidades verdes e estão em andamento grandes investimentos em transportes públicos.
Nossa lei de Mudanças climáticas tem uma meta ambiciosa de redução de emissões de gases de efeito estufa: 20% em 2020. Consideramos 2005 como nosso ano de base, não uma tendência de crescimento futuro de emissões.
Essa meta é agora uma exigência legal. Além da meta de emissão, a Lei Estadual prevê um zoneamento econômico-ecologico, um fundo de adaptação, o mapeamento das vulnerabilidades territoriais, um programa de recuperação florestal, um plano de transportes sustentáveis e a criação de mecanismos de financiamento para encorajar expansão de processos econômicos de baixo carbono.
Nos esperamos que outras regiões e países juntem-se a nossos esforços na direção de uma economia verde e pela integridade do clima global.
Governos subnacionais têm um papel crescente nas negociações sobre o clima e estamos firmemente decididos a colaborar nesse sentido.
Muito obrigado

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Vade retro

O Senado finalmente aprovou a entrada da Venezuela no Mercosul. Agora, para que o país seja membro pleno do bloco, falta apenas a aprovação do Legislativo do Paraguai.
A Venezuela é um dos mais importantes parceiros comerciais do Brasil, que mantém balança superávitária com o vizinho. O empresariado brasileiro espera ampliar os negócios com o país, que importa grande parte dos produtos que consome, além de necessitar de várias obras de infraestrutura.
Como previsto, a oposição jogou pesado contra a ampliação do Mercosul. O principal argumento usado é bem manjado: o presidente Hugo Chávez não passa de um ditador, que não respeitará os princípios democráticos do bloco.
Algumas frases pinçadas dos discursos dos senadores tucano-pefelistas dão uma clara ideia do mundo em que eles vivem, assombrado por velhos demônios que as pessoas com um mínimo de bom-senso já haviam exorcizado desde o fim da guerra fria:
"Por um mercado momentâneo, vamos entregar toda a nossa luta pela democracia", criticou a senadora Marisa Serrano (PSDB-MS).
"O bolivarianismo pregado por Chávez é um retrocesso diante da luta de homens que, durante duas décadas, trabalharam incessantemente para o fortalecimento das linhas democráticas do Mercosul", disse o líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM).
"Tanto o Itamaraty quanto o presidente Lula vivem ambos prisioneiros do que Chávez determina", criticou Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), completando: "O coronel Hugo Chávez é um autoritário, um inimigo da liberdade. Aqueles com quem ele não pretende trabalhar são afastados e perseguidos."
"Na Venezuela, jornalistas estão na prisão, os servidores públicos são obrigados a filiarem-se ao partido oficial, há presos políticos. Estamos abrindo precedente perigosíssimo. Além disso, em todas as disputas políticas a Venezuela atuou contra o Brasil", afirmou Tasso Jereissati (PSDB-CE), relator do processo de adesão do país ao bloco comercial.
“Trata-se de um tiro, não no pé, mas no coração do Mercosul”, disse Papaléo Paes (PSDB-AP). “Antes, Chávez falava do socialismo de maneira vaga. Agora está falando de comunismo na Venezuela. Ele considera o livre comércio uma exploração dos povos. Ele propõe o escambo, como o que ele hoje faz com Cuba, mandando petróleo para lá e recebendo médicos. Logo agora que há uma retomada do Mercosul em negociações com a União Europeia. O Mercosul negociou um acordo, embora limitado,com Israel, país com que Chávez não admite ligações.”
“Chávez não aposta em acordo. Ele aposta nas rupturas. Por respeitar direitos humanos, voto contra a entrada desse país no Mercosul”, disse Marconi Perillo (PSDB-GO).
Há quem diga que a oposição não tem um projeto alternativo para o Brasil. É a mais pura verdade. Mas o pior de tudo para ela é que seus mais ativos membros são incapazes de expressar o mais remoto sinal de inteligência.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Um mundo à parte

Na abertura da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), o presidente Lula abordou, em seu discurso, uma questão prioritária para o país neste momento, algo que ajudará o Brasil a se colocar entre as maiores nações do mundo. “Demos um salto espetacular (no número de pessoas que acessam a internet). É muito bom, mas não podemos nos dar por satisfeitos. No mundo atual, a internet não é um luxo, mas um artigo essencial para população e para o exercício da cidadania”, disse, acrescentando que é preciso massificar o acesso à internet.
“A inclusão digital, da mesma forma como a inclusão social, deve ser encarada como uma prioridade nacional”, afirmou Lula. Ele cobrou dos futuros candidatos à Presidência da República que incluam no debate eleitoral questões relacionadas à convergência de tecnologias. “É preciso incluir o tema da comunicação social na agenda do país.”
O presidente aproveitou para dar uma cutucada nas entidades patronais que representam os jornais, a ANJ, e as emissoras de rádio e televisão, a Abert, que boicotaram a Confecom: “Lamento que alguns atores da área de comunicação tenham preferido se ausentar dessa conferência temendo sei lá o quê. Perderam a oportunidade de derrubar muros. Lamento, mas cada um é dono de suas decisões e sabe onde apertam os calos.”
Num trecho do discurso, Lula expressou de maneira taxativa seu apego à liberdade de imprensa, dando uma resposta a críticos que insistem em ver nele uma pessoa arredia aos jornalistas em geral: “A imprensa é livre, apura o que quer apurar, e deixa de apurar o que quer. Meu compromisso com a liberdade de imprensa é sagrado e é essencial para a democracia. Às vezes, há jornais que se excedem, desprezam os fatos e emplacam em campanha, disseminam calúnias, infâmias. Aprendi a conviver tranquilamente com isso. Havendo a liberdade, a verdade um dia acaba aparecendo.”
A Confecom, como se sabe, está sofrendo um boicote da chamada grande imprensa, a mídia corporativa, que não aceita discutir nem seu papel numa moderna sociedade democrática, nem qualquer intenção de atualizar a legislação da área.
Hoje sem Lei de Imprensa, sem ter sequer a profissão de jornalista regulamentada, o Brasil retrocedeu ao estágio pré-capitalista na área de comunicação de massa. É algo assustador que se tenha chegado a esse ponto exatamente num momento em que o país exibe avanços sociais e econômicos significativos.
A tentativa de se isolar do mundo, de viver numa espécie de enclave regido por regras próprias e especialíssimas, é, sem meias palavras, patética.

Com informações da Agência Brasil

sábado, 12 de dezembro de 2009

Os desafinados


A atendente do telemarketing pede para quem ligou esperar. Nesse momento surge uma melodia e a seguir uma voz diz que é preciso que a música erudita volte a ocupar o seu lugar.
Em resumo, é esse o comercial de rádio com que a Sociedade de Cultura Artística, que teve o seu teatro em São Paulo destruído por um incêndio há pouco mais de um ano, pretende angariar simpatizantes à sua causa, de levantar fundos para reconstruir o local.
Se a gente for pensar bem, o comercial é de um elitismo, de um preconceito, à toda a prova. Música erudita, segundo entendi, não deve ser tocada fora da sala de concerto. Levar Mozart, Beethoven, Bach, Wagner, Villa Lobos, à sociedade de massa é, para quem concebeu a peça publicitária, um pecado mortal.
Há não sei quantos anos ouço, de gente a mais variada, que é preciso popularizar a música erudita. Lembro de uma entrevista que fiz, lá pelo fim dos anos 70 ou começo dos 80, com o maestro Benito Juarez, que, naquela época, fazia uma revolução com a orquestra que então dirigia, a Sinfônica de Campinas. O conjunto, dizia o entusiasmado regente, não se contentava em tocar nos teatros locais, e levava, toda a semana, o melhor do repertório erudito para as praças, os ginásios, as escolas, enfim, para o público que habitualmente não tinha contato com esse tipo de música. Para multiplicar a atuação da orquestra ela se dividia em pequenos conjuntos: quartetos, quintetos, seções de cordas.
Não sei quem são os regentes das poucas orquestras sinfônicas brasileiras que estão na ativa. Mas acompanhei o noticiário sobre a efetivação do francês Yan Pascal Tortelier à frente da Sinfônica do Estado de São Paulo. Li também que ele teve um piti outro dia, quando chegava ao Brasil de Londres, onde mora: parece que quis dar uma carteirada e não enfrentar a fila da alfândega no aeroporto de Guarulhos e quase foi autuado pelos agentes da Polícia Federal por desacato à autoridade.
O maestro pode ter tido as suas razões para não querer gastar tanto tempo numa burocracia tediosa como aquela. Talvez ele tenha mesmo pressa para ensinar os pobres músicos tupiniquins como tocar um Brahms com todo o romantismo possível, ou extrair deles o máximo da sutileza na interpretação de um Debussy. Afinal, ele é muito bem pago para isso.
O que não compreendo é porque em vez de um Tortelier qualquer morando lá na Europa, que vive num vai e vem desgastante para ele e os músicos, a orquestra não possa ser regida por algum competente maestro daqui mesmo - ou será que eles não existem?
Acho que, no fundo, isso tem a ver com a propaganda de rádio da Sociedade de Cultura Artística. Para algumas pessoas, certos tipos de manifestação cultural, como a música erudita, as artes plásticas ou mesmo a literatura, devem ser encaradas como propriedade de uma determinada classe social - nesse caso, as mais abastadas, aquela que se convencionou chamar de elite, essa mesma que hoje se desespera ao ver o país atravessar por tantas mudanças.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O pior cego

Às vezes acho que a imprensa sofre de autismo.
É impressionante que, com tanta coisa acontecendo no país, ela fique circunscrita a uma meia dúzia de pautas, sempre as mesmas, sempre olhando o mundo com os olhos de alguém que se recusa a ver o que se passa além dos muros de seu castelo.
É o caso, por exemplo, da cobertura que se faz das viagens presidenciais. Os repórteres vão cobrir não aquilo que o presidente vai fazer - inaugurar uma obra, participar de uma reunião, quase sempre -, mas observar se ele comete alguma gafe, ou se aceita falar sobre algum tema que esteja no noticiário, para estimular uma polêmica com alguém da oposição.
O tom de fofoca domina essas entrevistas. "Presidente, o que o senhor achou do PIB?", "Presidente, o que o sr. achou das imagens do governador Arruda que a TV mostrou?" - são esses os tipos das perguntas que se fazem, invariavelmente.
Não estou, de modo algum, defendendo algum tipo de jornalismo chapa branca, que dê destaque apenas ao pronunciamento oficial. Gostaria simplesmente que ele fosse contextualizado. Lula esteve no Maranhão, uma das regiões mais miseráveis do país, falou que ninguém investiu tanto quanto o atual governo no Nordeste, prometeu levar mais saneamento básico e moradias para lá - e nenhum repórter foi ver como são as condições de vida do povo de lá, foi checar se esses investimentos são mesmo para valer, foi conversar com as pessoas para saber por que elas veem em Lula um novo "Padim Ciço".
Acho que o jornalismo verdadeiro é isso: levar para os leitores as diferentes visões sobre um assunto, mostrar o que está por trás do que a gente normalmente vê, procurar retratar de modo o mais fiel possível a realidade, sem preconceitos, mas com a convicção de que, acima de tudo, esse é um trabalho que deve ser feito para dignificar a condição humana, e não rebaixá-la.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Voo de cruzeiro


Mais uma ducha fria nas expectativas dos pessimistas: a economia brasileira cresceu 1,3% no terceiro trimestre do ano na comparação com o trimestre anterior. O Produto Interno Bruto (PIB), soma de todas as riquezas produzidas no país, chegou a R$ 797 bilhões no período, segundo dados divulgados pelo IBGE.
A maior elevação foi registrada no setor industrial, cuja alta na produção chegou a 2,9%, seguida pelo setor de serviços, que apresentou expansão de 1,6%. Já a atividade agropecuária teve queda de 2,5%.
Os números mostram que a recuperação da indústria é consistente e que a previsão do governo de que o PIB de 2010 vai crescer 5% é perfeitamente factível - ainda mais com a ajuda do pacote de desonerações fiscais para áreas estratégicas, como a de bens de capital, baixado na quarta-feira.
Em relação ao mesmo período de 2008, o PIB teve queda de 1,2%. Nessa comparação, os serviços registraram o melhor desempenho, com alta de 2,1%, enquanto a agropecuária teve queda de 9,0% e a indústria, de 6,9%.
Vale lembrar que a comparação é prejudicada pelo fato de que, até o terceiro trimestre do ano passado, período que antecedeu a crise econômica global, a economia brasileira vivia seu maior ciclo de expansão da história.
O IBGE apurou que, na comparação com o mesmo trimestre de 2008, o consumo das famílias aumentou 3,9%, o 24º período de crescimento consecutivo. Um dos fatores que contribuíram para o resultado foi o comportamento da massa salarial real, que cresceu 2,5% no terceiro trimestre de 2009, com aumento da ocupação e do rendimento médio do trabalho - prova mais que evidente do acerto do governo Lula em dar prioridade ao mercado interno, fortalecendo os salários e dando condições para o aumento do nível de emprego.
A despesa de consumo da administração pública variou 1,6% na comparação com o terceiro trimestre de 2008 e os investimentos (formação bruta de capital fixo) caíram 12,5%. No acumulado do ano, a soma das riquezas produzidas no país registrou queda de 1,7% em relação a igual período do ano passado.
O IBGE também divulgou dados revisados relativos ao segundo trimestre do ano. Na nova leitura, a economia teve, naquele período, expansão de 1,1% em relação aos três meses anteriores (inicialmente, a elevação apontada foi de 1,9%), depois de ter caído 0,9% de janeiro a março (antes, o dado apresentado foi de queda de 0,8%). Em relação ao segundo trimestre de 2008, a nova leitura revela retração de 1,6%, mais intensa do que a de 1,2% calculada anteriormente.
Em resumo: bye, bye crise.

Com informações da Agência Brasil

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Diário de um governador


Vai abaixo trecho do "twitter" do governador José Serra relativo ao dia em que São Paulo parou - mais uma vez - por causa de chuvas que provocaram mortes, alagamentos, deslizamentos, congestionamentos, interrupções em linhas de trem e ônibus, prejuízos no comércio e na indústria - e quanto mais de ruim pode ocorrer em ocasiões assim.
Serra passou a manhã de terça-feira em seu gabinete e à tarde foi à Brasília, onde, às 17 horas, foi condecorado com a medalha da Ordem do Mérito da Defesa, no grau de grã-cruz, em solenidade no Clube dos Fuzileiros Navais. Recebeu a medalha do ministro da Defesa, Nelson Jobim, amigo de longa data.
Como se nota, ele é um governante muito preocupado com as coisas de seu reino.
(A ordem das sábias observações de Serra estão invertidas, pois foram copiadas exatamente como estão no seu querido diário e, portanto, devem ser lidas de baixo para cima)

Esses são os principais dados que consolidamos ao longo do dia. Felizmente, parou de chover.

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Em 2006, concluiu o aprofundamento da calha do Tietê. Desde então, esta é a segunda vez que o rio transborda.
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Em 11 anos, o governo de SP fez 45 piscinões, com capacidade para reter 8 milhões de m3 de água.
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Nos oito primeiros dias de dezembro, choveu 143,1 mm, o que equivale a dois terços do previsto para todo o mês.
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Foi a chuva + intensa em um dia na Capital, desde março de 2006. Em 15 horas, choveu quase 40% do volume previsto p/ todo o mês de dezembro.
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Ainda estava acordado, na madrugada passada, quando começou a chover em São Paulo. Acionei a Defesa Civil, que fica aqui no palácio.
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Boa noite a todos.
1:24 AM Dec 8th from web

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

As falsas aparências


O caso de corrupção que a Polícia Federal levantou no Distrito Federal e que apropriadamente denominou "Operação Caixa de Pandora", além de chocar pela quantidade de pessoas envolvidas, chama a atenção por revelar alguns personagens que atuavam discretamente instalados na administração pública, como simples membros de uma burocracia preguiçosa.
Caso, por exemplo, do ex-secretário adjunto de Saúde Fernando Antunes. Presidente regional do Partido Popular Socialista (PPS), Antunes é acusado de, junto com o ex-secretário de Saúde e deputado federal Augusto Carvalho (PPS), cobrar propina da empresa Uni Repro Soluções Tecnológicas, detentora de um contrato de prestação de serviços que em apenas dois anos elevou os gastos da secretaria com serviços gráficos de R$ 235 mil (2006) para mais de R$ 14,8 milhões (2008).
Assim como o próprio contrato com a empresa paulista, que, apesar de condenado pela Procuradoria-Geral do Distrito Federal (PGDF), está em vigor desde 2007, só depois que a PF deflagrou a operação fatos controversos sobre Antunes começaram a vir à tona.
Servidor da Controladoria-Geral da União (CGU) cedido ao GDF, membro fundador da ONG Transparência Brasil e presidente licenciado da União Nacional dos Analistas e Técnicos de Finanças e Controle (Unacon), Antunes foi condenado em primeira instância pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal a devolver R$ 200 mil ao condomínio no qual foi síndico por quatro anos (1998-2002).
Durante o processo, o juiz Fabrício Fontoura Bezerra se convenceu de que, segundo as provas periciais, “as contas apresentadas por Antunes contêm várias irregularidades que, juntas, somam a quantia de R$ 200.384,70”. Ainda de acordo com o juiz, a perícia realizada nos balancetes, documentos e na prestação de contas apresentados pelo ex-secretário comprovam “o efetivo desvio de valores, pagamentos sem comprovação, duplicidade de recibos para justificar falsos pagamentos, entre outros fatos”. Antunes recorreu da decisão e aguarda o julgamento do recurso.
Sobre a ligação de Antunes com a Transparência Brasil, o seu diretor-executivo, Cládio Abramo, afirmou que Antunes e a Unacon deixaram de ser sócios da entidade assim que o ex-secretário passou a integrar o governo do Distrito Federal, em 2007.
No inquérito da PF, Antunes é citado durante uma conversa entre Durval Barbosa, autor das denúncias e ex-secretário de Relações Institucionais do Distrito Federal, e o ex-secretário de Saúde e ex-chefe da Casa Civil José Geraldo Maciel, outro alvo da Operação Caixa de Pandora. Durante o diálogo gravado por Barbosa com autorização judicial, os dois mencionam que parte do dinheiro arrecadado por Antunes e pelo deputado Augusto Carvalho servia para “ajudar” o presidente nacional do PPS, o ex-deputado federal Roberto Freire.
Os deputados Augusto Carvalho e Roberto Freire negam ter participado ou se beneficiado do esquema denunciado por Durval Barbosa e prometem buscar reparação judicial.
A história toda é cabeluda, sob qualquer ponto de vista. E, embora se saiba que corrupção e administração pública são irmãs siamesas aqui no Brasil, a profundidade dessa Caixa de Pandora dá o que pensar.
Faz a gente desconfiar de tudo. Por exemplo, daquele vizinho que mora num sobradinho e aparece com um carrão novo a cada dois meses, enquanto a gente mal e mal equilibra as contas a pagar. Ou daquele outro, funcionário público de uma repartição esquecida, moralista empedernido, que alterna os fins de semana entre o apartamento no litoral e a chácara no interior, "pechinchas" que comprou com a poupança suada de seu magro salário.
E, como é impossível, pelo menos num curto prazo, mesmo com todo o esforço da polícia, acabar com a praga da corrupção, que a Caixa de Pandora sirva como exemplo capaz de assustar - um pouco que seja - esses bandidos travestidos de gente séria.
Porque eles são apenas isso - criminosos comuns.

Com informações da Agência Brasil