sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Almofadinhas

É absolutamente inexplicável a inação da prefeitura paulistana em relação ao Jardim Pantanal, bairro que está, há dez dias, literalmente afogado na merda - as chuvas da semana passada deixaram inoperante uma estação de tratamento de esgotos que serve a região e os efluentes acabaram se misturando com a água do rio Tietê que inundou a área.
O prefeito Gilberto Kassab, a bem da verdade, já foi até o local, mas afirmou que, de acordo com os técnicos, não há nada a fazer, a não ser remover as famílias de lá. Bombear a água imunda, como se cogitou, não adiantaria, pois, segundo explicou o alcaide, uma nova chuva viria e alagaria tudo novamente. Ele aproveitou para dizer que, depois da remoção das pessoas, o Jardim Pantanal integrará um novo parque que o governo do Estado pretende inaugurar ao longo do Tietê, em sua extensa área de várzea.
Todos os especialistas já explicaram que o problema das enchentes do principal rio paulistano se deve à ocupação de suas margens. Um exemplo claro disso foram as marginais, que impermeabilizaram o solo. A responsabilidade do poder público é, portanto, imensa nessa tragédia interminável que se abate sobre a metrópole.
Nos últimos dez ano, pelo menos, o leito do rio foi aprofundado, milhares de toneladas de lodo foram retiradas de lá, bilhões de dólares foram gastos para deixar o Tietê mais fundo e com isso evitar que a sua água transbordasse. Como se viu, foi trabalho perdido, dinheiro jogado fora - menos para as empresas contratadas para a obra.
O trabalho de remoção dos moradores do Jardim Pantanal começou a ser feito, de maneira muito lenta - é possível que a água seque antes que todas as famílias sejam retiradas de lá. O prefeito e seus auxiliares, nesses dias todos, parecem absolutamente perdidos em meio a uma situação que, se não é corriqueira, é perfeitamente plausível numa cidade com as carências de São Paulo.
O alheamento e a falta de solidariedade com o sofrimento dessas pobres pessoas que arranjaram um lugar para viver apenas na periferia da periferia, desnudam a face de um homem que chegou ao poder de forma artificial, sem ter construído uma relação orgânica com a população, sem passar pelos vários estágios que necessariamente transformam simples políticos em estadistas.
Certa vez, o governador Leonel Brizola, em meio a uma de suas inúmeras campanhas eleitorais, foi provocado por um jornalista a responder as bravatas de um adversário, um representante típico da burguesia, que pretendia alçar voos altos na vida pública sem nunca antes ter vivido a experiência de participar de uma eleição.
Brizola foi curto e grosso na resposta:
- Ele não passa de um merdinha, de um almofadinha.
Merdinha todo mundo sabe o que significa. Almofadinha, na definição do dicionário Aulette, é um "homem que se veste com excessivo apuro; casquilho; dândi; janota".

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