quinta-feira, 20 de março de 2008

Inesquecível

Esta crônica foi publicada neste espaço há exatamente um ano. Seu protagonista é tão importante que resolvi colocá-la novamente no topo.

Graciliano Ramos morreu no dia 20 de março de 1953. Tinha 61 anos. Foi um dos maiores escritores brasileiros, um dos maiores brasileiros de todos os tempos.
Sua biografia é inspiradora: escreveu o primeiro livro - Caetés - aos 34 anos, foi prefeito da cidade em que morava, Palmeiras dos Índios, interior de Alagoas, esteve nas prisões da ditadura Vargas, militou no venerando Partido Comunista Brasileiro e é autor de clássicos da literatura nacional - São Bernardo, Angústia, Insônia, Vidas Secas, Memórias do Cárcere.
A data de sua morte é apenas um pretexto bobo para falar dele. O velho Graça não deveria ser lembrado apenas nos dias de seu nascimento e morte. Quem leu seus livros sabe disso. Quem leu seus livros certamente foi tocado pela extraordinária dimensão humana dos personagens, pelo rigor do estilo e pela beleza da narrativa. Graciliano Ramos não pode ser esquecido, nunca.
Abaixo, o auto-retrato que fez aos 56 anos. Uma obra-prima de concisão e ironia, na terceira pessoa:
"Nasceu em 1892, em Quebrangulo (paroxítono), Alagoas. Casado duas vezes, tem sete filhos. Altura, 1,75. Sapato n.º 41. Colarinho n.º 39. Prefere não andar. Não gosta de vizinhos. Detesta rádio, telefone e campainhas. Tem horror às pessoas que falam alto. Usa óculos. Meio calvo. Não tem preferência por nenhuma comida. Indiferente à música. Não gosta de frutas nem de doces. Sua leitura predileta: a Bíblia. Escreve Caetés com 34 anos de idade. Não dá preferência a nenhum dos seus livros publicados. Gosta de beber aguardente. É ateu. Indiferente à Academia. Odeia a burguesia. Adora crianças. Romancistas brasileiros que mais lhe agradam: Manoel António de Almeida, Machado de Assis, Jorge Amado, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz. Gosta de palavrões escritos e falados. Deseja a morte do capitalismo. Escreve seus livros pela manhã. Fuma cigarros Selma (três maços por dia). É inspetor de ensino, trabalha no Correio da Manhã. Apesar de o acharem pessimista, discorda de tudo. Só tem cinco ternos de roupa, estragados. Refaz seus romances várias vezes. Esteve preso duas vezes. É-lhe indiferente estar preso ou solto. Escreve à mão. Seus maiores amigos: Capitão Lobo, Cubano, José Lins do Rego e José Olympio. Tem poucas dívidas. Quando prefeito de uma cidade do interior, soltava os presos para construírem estradas. Espera morrer com 57 anos."
Capitão Lobo era o comandante do quartel em que Graciliano esteve preso no Recife, em 1936; Cubano foi um ladrão que ele conheceu na cadeia.
Quem quiser detalhes da vida e da maravilhosa obra de Graciliano Ramos deve visitar seu site oficial: www.graciliano.com.br

Em atividade

Um bom truque para saber a quantas anda a atividade econômica do país é observar o movimento nas estradas. Muitos caminhões, indústria e agricultura em alta. Poucos, em baixa. Muitos carros, renda em alta. Poucos, em baixa.
A Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias e a Tendências Consultoria preparam todo mês o Índice ABR de Atividade, que mede justamente o volume de tráfego nas estradas. E, adivinhem o resultado do mês de fevereiro, o último a sair? Alta de 0,6% em relação a janeiro, já considerando ajustes sazonais (o movimento de veículos leves cresceu 0,5%, e o de pesados, 0,4%); elevação de 7,9% em relação a fevereiro do ano passado (veículos leves com alta de 6,9%, e o de pesados, 10,5%); e alta de 6,8 nos últimos 12 meses (veículos leves, mais 7,0%, e pesados, mais 6,3%).
O economista Juan Jensen, da Tendências, explica que os dados mostram que continua a tendência de crescimento da atividade econômica e mesmo nos Estados onde foi verificada queda, "percebe-se que o resultado negativo é apenas uma acomodação natural depois do crescimento verificado em meses anteriores e, portanto, não significa reversão da tendência de alta".
Assim, que ninguém se assuste com o caos viário que este feriado promete.

Vergonha

De nada adianta a troca de petardos entre o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, e o prefeito do Rio, César Maia, sobre de quem é a culpa pela epidemia de dengue na cidade, que matou, neste ano, cerca de 50 pessoas, muitas delas crianças.
Em vez de achar um culpado por isso, os dois deveriam estar trabalhando para que essa coisa vergonhosa que é a saúde pública no Brasil melhorasse.
O partido de César Maia, o DEM, ex-PFL, foi articulador, junto com os tucanos, da feroz campanha que levou à extinção da CPMF, o imposto da saúde.
O ministro Temporão tomou conhecimento tarde demais da calamidade no Rio.
Portanto, de certa forma, ambos têm culpa no cartório.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Pequenos grandes homens

A prefeitura de São Paulo decidiu finalmente atacar o mais grave problema enfrentado hoje pelo paulistano, o caos viário, que rouba horas de vida, paralisa a cidade e agride a saúde - entre outros vários inconvenientes. Ainda agora em março, vai dar início a uma série de medidas para diminuir os enormes congestionamentos que vêm sufocando a metrópole.
São medidas da dimensão dos homens que atualmente dirigem a cidade, muitos deles de olho nas eleições deste ano, inclusive o prefeito-revelação, Gilberto Kassab. Aí vão as principais: 19 obras em pontos de estrangulamento de tráfego, proibição de estacionamento e carga e descarga de caminhões em 17 vias, recuperação asfáltica em sete corredores de ônibus, divulgação de 175 rotas alternativas e a retirada de 167 lombadas e valetas.
O secretário municipal de Transportes, Alexandre de Morais, deu declarações entusiasmadas sobre o que espera daqui em diante: "Não quero fazer aqui um exercício de futurologia. Posso garantir que o trânsito vai melhorar com essas medidas, mas não dá para quantificar isso em quilômetros ou estipular um prazo para isso acontecer. Todas essas obras estarão prontas até junho e as melhoras serão percebidas nesse período", disse.

É isso aí. O trabalhador povo paulistano pode finalmente respirar aliviado. O fim do mundo não virá tão cedo. A esperança volta renascida sob a competente, firme e ousada administração tucano-democrática.
São Paulo não vai parar.

Rede de solidariedade

O banimento do site Conversa Afiada, de Paulo Henrique Amorim, do portal IG, continua a repercutir. Mino Carta, que mantinha um blog no mesmo portal, postou sua última nota por volta de meio-dia de hoje, quarta-feira, 19 de março de 2008:
"Meu blog no iG acaba com este post. Solidarizo-me com Paulo Henrique Amorim por razões que transcendem a nossa amizade de 41 anos. O abrupto rompimento do contrato que ligava o jornalista ao portal ecoa situações inaceitáveis que tanto Paulo Henrique quanto eu conhecemos de sobejo, de sorte a lhes entender os motivos em um piscar de olhos. Não me permitirei conjecturas em relação ao poder mais alto que se alevanta e exige o afastamento. O leque das possibilidades não é, porém, muito amplo. Basta averiguar quais foram os alvos das críticas negativas de Paulo Henrique neste tempo de Conversa Afiada."
Já Paulo Henrique Amorim, em seu novo endereço, explicou assim o ocorrido:
"O Conversa Afiada ficou fora do ar por 08 horas e 58 minutos.
Breve, escreverei um Máximas e Mínimas para tentar explicar o que aconteceu.
O iG se limitou a enviar uma notificação assinada por Caio Túlio Costa, para avisar que o contrato se rescindia de acordo com clausula que previa um aviso prévio.
Não é a primeira vez que me mandam embora de uma empresa jornalística. Só o Daniel Dantas me “tirou do ar” duas vezes: na TV Cultura e no Uol.
E ele sabe que não vai me tirar, nunca ... Com isso, se encerrou a vida deste blog num portal da internet.
Nenhum blog de relevância política nos Estados Unidos, por exemplo, está pendurado num portal.
Clique aqui para ver: http://www.huffingtonpost.com ou http://www.talkingpointsmemo.com, para ficar em dois dos melhores exemplos.
Essa é a virtude a internet: último reduto do jornalismo independente.
Assim, se você acha que o Farol de Alexandria e o presidente eleito são dois impostores; se você gosta do Festival do Tartufo Nativo; se acha que o PIG, além de ilegível, não tem salvação; que os portais da internet brasileira são uma versão – para pior – do PIG; que a Veja é a última flor do Fascio; que o Ministro (?) Marco Aurélio de Mello deveria ser impeached; que Daniel Dantas deveria estar na cadeia;que Carlos Jereissati e Sergio Andrade vão ficar com a “BrOi” sem botar um tusta; que a “BrOi” significa que o Governo Lula vai tirar Dantas da cadeia; que chega de São Paulo, porque está na hora de um presidente não-paulista etc etc etc ... se você acha tudo isso, continue a visitar o Conversa Afiada neste novo e renovado espaço."
Um passeio pelos principais sites independentes mostra a dimensão da estupidez que o IG fez ao demitir Paulo Henrique Amorim. E confirma que a internet está com tudo.

terça-feira, 18 de março de 2008

Novo endereço

Crítico mordaz de figuras como FHC, Daniel Dantas e José Serra, o jornalista Paulo Henrique Amorim foi mais uma vítima da entidade por ele alcunhada de PIG - Partido da Imprensa Golpista. Sob o pretexto de "baixa audiência", o IG, empresa que mantém um portal do mesmo nome e que abrigava o site Conversa Afiada, de Amorim, despediu-o via fax.
Claro que a desculpa é esfarrapada. O site, por sua própria natureza polêmica, tinha grande audiência entre os internautas em geral e no próprio PIG.
Talvez tenha sido essa a razão para o ocorrido. Tem muita gente na imprensa oficial que não suporta ser contrariada ou contestada. Paulo Henrique Amorim, na boa tradição dos grandes jornalistas, estava, em seu site, pouco se lixando para essas pessoas.
Agora, em novo endereço, deve continuar a pelejar a boa peleja.

O cliente em primeiro lugar

De maneira geral, as empresas no Brasil só seguem as leis quando elas lhes são convenientes. Arranjam sempre um jeito de driblar o que não é do seu agrado. A prática é disseminada. Os exemplos são inúmeros.
Tente, como ilustração, fechar uma conta bancária. O Banco Central normatizou o assunto no ano passado. A conta pode ser fechada em qualquer agência.
Mas experimente fazer isso: vá na agência mais próxima de sua casa e peça o encerramento da conta. O funcionário, bem instruído, vai lhe dizer, educadamente, que no momento isso será impossível, porque:
1) O sistema (seja lá o que for isso) caiu e não tem hora para voltar, ou;
2) Não consegue transferir o saldo da conta corrente para outro banco.
Por fim, ele pedirá, novamente de maneira muito educada, que você vá à agência em que tem conta para fechá-la. Não importa que você esteja em São Paulo e a agência esteja situada no outro extremo da cidade.
Afinal, você é apenas mais um cliente.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Santo padroeiro

Está no UOL, com chamada de capa:
"A celebração do dia de Saint Patrick, tradicional festa irlandesa regada a muita cerveja, acontece nesta segunda-feira (17), e pubs de todo o país abrirão suas portas para reunir os entusiastas no Brasil. A data, em homenagem ao santo padroeiro da igreja católica na Irlanda, é marcada por festas com fortes referências ao país europeu: cor verde, música, comidas e bebidas típicas. O UOL Estilo fez uma seleção de casas em algumas das principais cidades brasileiras em que a cerveja - importada ou nacional - não faltará."
É um exemplo mais que acabado de uma mentalidade inteiramente colonizada.
Seria cômico se não fosse trágico.

sábado, 15 de março de 2008

Direita já

A versátil Soninha, que se reveza nas funções de vereadora, comentarista de futebol e participante de programas de televisão, tem dado muitas entrevistas nesses dias em que se ajustam as peças para as eleições municipais.
Como se sabe, Soninha foi eleita vereadora pelo PT, mas trocou o partido para concorrer à prefeitura paulistana pelo PPS. Dizem que a decisão teve o incentivo do governador tucano José Serra, que tenta emplacar na disputa seu afilhado, o atual prefeito Gilberto Kassab, do antigo PFL, hoje DEM. Para Serra, Soninha seria capaz de tirar votos do eleitorado jovem que iriam para Marta Suplicy.
Mas há quem veja a presença de Soninha na corrida à prefeitura apenas como uma tentativa de valorizar seu passe. Ou seja, com o tempo, ela acabaria aceitando sair como vice de Kassab.
Nas entrevistas que tem dado, ela jura que não. Diz que está no PPS justamente porque o partido lhe dá a oportunidade de exercer a política que sempre sonhou. Fala que foi horrível permanecer no PT e que não pode se aproximar do PSDB e do DEM porque é de esquerda: "Deixei o PT para ir para um partido de esquerda."
Talvez por ter se envolvido em inúmeras atividades nesses últimos anos, dos quais se destaca a sua atividade política - é bom lembrar que ela é autora do projeto que instituiu em São Paulo o Dia da Música Eletrônica - Soninha não tenha notado que o PPS não é um partido de esquerda
Desde que rompeu com o governo Lula por não ter conseguido os cargos que pleiteava, tem sistematicamente se alinhado com o que de mais atrasado existe no Brasil em matéria política. Como é insignificante, suas ações passam desapercebidas. São tão obscuras que nem os políticos profissionais têm notícias delas.
Passado o ardor da refrega, quem sabe sobre mais tempo para Soninha se informar, estudar um pouco e finalmente se tornar apta a distinguir o que é esquerda e o que é direita neste país.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Caos viário

Autoridades de São Paulo dizem que preparam uma série de ações para o trânsito da capital.
O tão propalado caos aéreo fez fumaça. O apagão energético, idem. Mas os atentos analistas da cena brasileira ignoraram a falência viária da capital, a agonia acelerada do transporte urbano no correr dos últimos anos, turbinada pela recuperação econômica do país e descaso absoluto dos governantes municipais com o setor.
A situação já é tão critica que qualquer medida no momento será apenas paliativa. A única anunciada fala sobre proibir estacionamento em vias mais movimentadas - e onde ficarão os veículos desalojados?
A última iniciativa de impacto no trânsito paulistano foi a criação do rodízio, em 1997. Os técnicos da área tiveram uma década inteira para pensar em outras soluções. O debate inexistiu. Até em época de eleição o tema é marginal. Parece que todos os envolvidos na tragédia se conformaram com a sua inevitabilidade.
Não deveria ser assim. Pois é dever do Estado livrar o trabalhador do sacrifício de perder pelo menos 4 horas do dia se locomovendo de sua casa para o emprego, nas piores condições de conforto e segurança possíveis.
Se esse dever elementar fosse cumprido, naturalmente estaria sendo dada uma alternativa às milhões de pessoas que hoje usam seus veículos tanto para trabalhar como para as tarefas mais triviais.
O caos viário paulistano de hoje e a falência do sistema num futuro muito próximo demonstram não somente a incapacidade administrativa, mas também a insignificância política das pessoas que governaram São Paulo nas últimas décadas. Foram atores de província atuando num palco monumental.