quarta-feira, 7 de julho de 2010

Radical?

Os jornalões se referem à primeira versão do programa de governo do PT que foi entregue pelo comitê de campanha de Dilma Rousseff ao Tribunal Superior Eleitoral como "radical".
Isso porque pregava a redução da carga semanal de trabalho de 44 para 40 horas, sem diminuição do salário; a taxação de grandes fortunas; e o combate ao monopólio dos meios eletrônicos de comunicação.
Os jornalões têm gente alfabetizada em seus quadros funcionais, que sabem muito bem o que significa "radical" num contexto político.
Se um programa de governo que prega essas três coisas é "radical", então o mundo civilizado está cheio de radicais.

terça-feira, 6 de julho de 2010

O patrimônio de cada um

A campanha presidencial, segundo os ritos da Justiça eleitoral, começa apenas hoje. Claro que isso é um mero detalhe: ela move a ação dos políticos há muitos meses. Ontem, os partidos registram as candidaturas no Tribunal Superior Eleitoral, anexando os programas de governo, as previsões de gastos e o patrimônio dos candidatos.
O mais rico é o empresário Guilherme Leal, vice de Marina Silva, um dos donos da Natura, que declarou possuir R$ 1,2 bilhão - é muito dinheiro. Marina, ao contrário, disse que tem apenas R$ 150 mil em bens.
Dilma afirmou possuir um patrimônio de R$ 1 milhão; Serra, de R$ 1,4 milhão. O vice de Dilma, Michel Temer, declarou bens de R$ 6 milhões, e o vice de Serra, o tal Índio da Costa, de R$ 1,4 milhão - pouco para um mauricinho parente de banqueiros.
Mal das pernas mesmo está José Maria de Almeida, o eterno líder do PSTU, que tem apenas um carro que vale R$ 16 mil. E entre os nanicos, quem se deu bem na vida foi José Maria "um democrata-cristão" Eymael, que registrou na Justiça bens no valor de R$ 3,1 milhões.
Já quanto à previsão dos gastos de campanha, a pole position é da coligação tucano-pefelista, que diz que pretende gastar R$ 180 milhões. Os governistas acham que com a bagatela de R$ 157 milhões a fatura estará liquidada, enquanto os verdes, definitivamente, querem movimentar a economia: os gastos previstos atingem os R$ 90 milhões.
De todos os candidatos, salta à vista o valor do patrimônio que Serra declarou à Justiça. Num país que oferece tantas facilidades aos homens públicos, há somente duas hipóteses para ele ter amealhado um patrimônio tão modesto em décadas. A primeira é que ele é realmente um sujeito tão consciente de sua missão patriótica que se esqueceu completamente dos bens materiais. A segunda é que ele é simplesmente um cara de pau.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

País calmoso e hereditário...

Meu interesse pela política veio, certamente, de meu pai, o capitão Accioly. Foi por meio dele que conheci, ainda garoto, personagens como o Marechal Lott, Jango, Brizola, Prestes e tantos outros. Claro que a sua influência foi determinante para que, na minha cabeça, as coisas ficassem claras e definitivas: no mundo sempre existiram os explorados e os exploradores, essa é uma verdade que aprendi cedo, guardo até hoje e vai morrer comigo.
Sabendo disso, tudo fica mais simples, a vida se torna menos estressante quando você sabe que um emprego é apenas um meio de subsistência, não um fim em si mesmo, e que as horas intermináveis que você passa no trabalho se chamam simplesmente "mais valia".
Com tão poucas dúvidas sobre como funciona esta engrenagem em que estamos metidos, fico até meio constrangido quando acompanho o noticiário político brasileiro, às vésperas de mais uma eleição (quase) geral.
Realmente me impressiona a quantidade de bobagens que são ditas por esses canastrões que se dizem políticos experientes - e pela reprodução fiel, linear, sem contextualização, sem nenhum nuance, de tais despautérios, por uma imprensa rasa, despreparada, ruim mesmo.
É o caso, por exemplo, dessa escolha do vice de Serra, um deputado sem nenhuma expressão, que o candidato oposicionista mal conhecia. Será que nenhum dos tais analistas, cientistas políticos e assemelhados é incapaz de fazer uma análise séria do episódio? Será pedir demais que algum jornalista forneça ao público a informação verdadeira de como o sujeito foi escolhido?
Ah, deixa para lá. Já estou velho demais para acreditar em contos de fadas...
Uma das histórias mais interessantes que o capitão Accioly me contava era exatamente sobre as besteiras faladas pelos políticos. É um "causo" antigo, que ele recolheu no tempo em que esteve no Espírito Santo, provavelmente em Cachoeiro de Itapemirim, onde ele serviu logo depois que se casou - e onde eu nasci.
É sobre um discurso de um político com pretensões intelectuais, literárias até, que se revela uma monumental bobagem. Como me lembrava dele, mesmo décadas depois de ouví-lo de meu pai, achei que era a hora de procurar mais detalhes sobre tal peça de oratória. A parte que conhecia era essa: "Guarapari, país calmoso e hereditário, onde se respira o ar por conseqüência. De um lado, o oceano marital, de outro, o oceano matagal!"
O Google se encarregou de contar o resto da história, que tirei de um site da cidade:

"Discurso proferido a Guarapari em 1916, por ocasião de uma visita oficial do presidente do Estado, cel. Marcondes de Alves de Souza, por um vereador, mulato escuro, pernóstico e rábula da comarca, o sr. Belarmino Sant'Ana, na cerimônia de inauguração do cemitério da cidade:
- Exm°. sr. presidente do Estado.
- Exm°. sr. padre Frois, digno representante do senhor bispo.
- Exm°. autoridades civis e militares .
- Minhas senhoras e meus senhores .
Guarapari é e sempre será o país da saúde e das maravilhas. Aqui nunca ninguém morre e nem se entristece, mesmo que queira. Tanto isso é uma verdade verdadeira que, para que fosse inaugurado este cemitério no dia de hoje, já feito e construído há mais de dez anos não se sabe para que e nem porque , foi preciso que arrastasse as pressas um defunto emprestado em Benevente, aliás um defunto morto da pior espécie, pois não passa de um molambo, como todos podem ver.
O mundo todo sabe que Guarapari é um país calmoso e hereditário onde se respira o ar por conseqüência, pois de um lado (o orador esticou o braço em direção ao mar) tem o oceano marital e do outro lado (o orador esticou o outro braço e indicou a floresta ao longe) tem o oceano matagal.
(Ouviu-se uma voz na multidão: "Cala a boca negro burro.")
- Sou burro, sim, porém artista como uma locomotiva que gera no azul do firmamento.
Sou negro, sim, mas porém a cor do meu epiderme não inflói, nem contribói, como diria o grande marechal Hermes. Negro sim eu sou e repito, mas, todavia, honesto como um corno. Esse aparte que acabamos de ouvir, senhor presidente do Estado, é a prova provada, das razões porque esta merda de cidade não vai adiante e eu me recuso a continuar falando para ignorantes e analfabetos . Tenho dito.
E desceu do palanque dando bananas para a multidão."

Não posso atestar a veracidade da "causo". De qualquer modo, como ele persiste no tempo, é bem capaz de ser verdadeiro.
É algo para se pensar: se um simples vereador de uma cidadezinha perdida no Brasil, lá no tempo do Onça, foi capaz de passar para a história por ter feito um discurso tão disparatado, o que dizer das notáveis figuras públicas de hoje, que têm à sua disposição os mais modernos meios de comunicação?
As bobagens que eles repetem, pelo menos nesta campanha eleitoral, seriam capazes de fazer inveja a um Odorico Paraguaçu.
Só para ficar no exemplo mais óbvio, temos este incrível José Serra, autor de pérolas raras:
"Para não pegar a gripe suína, é só não ficar perto dos porquinhos"; "Já nasci preparado"; "Pode ter amante, mas precisa ser discreto", são as mais recentes de uma vasta coleção.
Serra, é lógico, não é o único, mas representa como ninguém esse tipo de pessoa pública que amealhou um conhecimento de almanaque e passa a exibi-lo em qualquer ocasião que pode, ofendendo a pobre audiência com frases feitas, citações inúteis e, pior de tudo, mentiras deslavadas.
PS: A peça "O Bem Amado", de Dias Gomes, que se transformou na célebre novela da Globo, hoje filme, foi inspirada nesse cemitério de Guarapari, que nunca era inaugurado, por falta de mortos. E Odorico, com seu fraseológico absurdo, nasceu com o mesmo gene do rábula Belarmino Sant'Ana - raiz profícua que criou tantos e tão conhecidos personagens que desfilam sua monumental ignorância por aí.

sábado, 3 de julho de 2010

O inferno na Terra

A situação do trânsito paulistano, um inferno que atinge democraticamente todas as classes sociais, é mais um legado maldito do bando tucano que faz de São Paulo seu ninho há décadas. Segundo relata a BBC Brasil, a cidade de São Paulo ficou em 6º lugar, atrás apenas de outras cinco – Pequim, Cidade do México, Joanesburgo, Moscou e Nova Déli – na pesquisa IBM Commuter Pain (Sofrimento dos Usuários do Transporte), feita em 20 locais do mundo.
Em São Paulo, 61% dos entrevistados disseram que o trânsito está “ um tanto” ou “muito” pior nos últimos três anos, tornando a cidade uma das mais problemáticas do mundo, segundo a IBM. Os resultados da pesquisa serão usados na busca de soluções para a administração do tráfego, como pedágios automáticos, previsões de congestionamento em tempo real e planejamento inteligente de rotas.
A pesquisa mostrou ainda que as cidades com as melhores condições de trânsito são Estocolmo, na Suécia, depois Melbourne, na Austrália. No estudo foram considerados o tempo gasto no transporte e em congestionamentos, se o trânsito piorou, se dirigir causa estresse, e se os problemas no tráfego afetam o trabalho.
Dos 8.192 motoristas ouvidos na pesquisa, 31% já passaram pela situação de simplesmente desistir de ir ao trabalho e voltar para casa por causa do trânsito.
Em Moscou, motoristas relataram congestionamentos de cerca de 2 horas e meia como os piores que enfrentaram nos últimos três anos.
Para os moradores de Pequim, problemas de trânsito afetam a saúde. Com uma classe média em rápido crescimento, o número de novos carros registrados nos primeiros quatro meses de 2010 em Pequim subiu 23,8%. Mas 48% dos entrevistados da cidade afirmam que o trânsito melhorou nos últimos três anos, o que reflete importantes iniciativas para melhorar o sistema de transporte da cidade de acordo com a pesquisa - algo que chegou a ser feito na administração petista de Marta Suplicy, com a criação de vários corredores de ônibus e da reformulação total do sistema de transporte coletivo, e que foi, convenientemente, ignorado pelos seus sucessores Serra e Kassab.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Apenas um Mauricinho

O repto lançado, via twitter, pelo tal Índio da Costa, o vice descoberto pela genialidade oposicionista para compor a chapa de José Serra, a Dilma Rousseff e ao presidente Lula, deve ser visto como apenas um arroubo juvenil de alguém que pretende gozar seus 15 minutos de fama.
O desafio não mereceu sequer uma resposta. Compôs mais uma das tantas frases inúteis ditas por figuras absolutamente medíocres.
Se fosse em outros tempos, porém, seria bem provável que o tal Índio da Costa fosse pelo menos ouvido. A política brasileira já teve personagens bem mais interessantes que os atuais - e muito mais divertidos.
Lembro que, certa vez, o governador Leonel Brizola, em meio a uma de suas inúmeras campanhas eleitorais, foi provocado por um jornalista a responder as bravatas de um adversário, um representante típico da burguesia, que pretendia alçar voos altos na vida pública sem nunca antes ter vivido a experiência de participar de uma eleição.
Brizola foi curto e grosso na resposta:
- Ele não passa de um merdinha, de um almofadinha.
Merdinha todo mundo sabe o que significa. Almofadinha, na definição do dicionário Aulette, é um "homem que se veste com excessivo apuro; casquilho; dândi; janota".
O tal Índio da Costa, qualquer um sabe, é apenas um mauricinho. Com Brizola vivo, certamente isso seria lembrado a todos, a toda hora. E ninguém mais se importaria com a figura.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Uma cartilha inútil

A poderosa Associação Nacional dos Jornais, a ANJ, entidade patronal que se encarrega de fazer o lobbby das empresas da mídia impressa, soltou uma "cartilha" em que orienta seus associados sobre como proceder nestas eleições.
É interessante o capítulo denominado "Tratamento isonômico". Merece ser transcrito na íntegra (o grifo é meu):
"Não existe qualquer limitação de espaço para noticiário sobre eleições, nem de texto ou de foto, mas deve-se respeitar a proporcionalidade entre candidatos. Embora os jornais não estejam submetidos às mesmas regras de isonomia aplicadas às emissoras de rádio e TV, a ANJ recomenda aos veículos que busquem dar tratamento equânime às candidaturas. Isso não significa espaços de divulgação idênticos. Esse tratamento equânime, evidentemente, ocorrerá entre candidaturas com a mesma expressão eleitoral. É permitido ao jornal manifestar opinião favorável a um determinado candidato, partido ou coligação, em editorial, sem que isso se configure abuso do poder econômico, mas os abusos serão apurados e punidos nos termos do art. 22 da Lei Complementar n.º 64/90."
Não sei se entendi direito: a ANJ sugere aos jornais que deem tratamento equânime aos candidatos, mas, ao mesmo tempo, diz que eles podem privilegiar, concedendo mais espaço, a candidatura que quiserem.
A menos que a lógica, neste caso, esteja totalmente subvertida, isso quer dizer que os jornais podem fazer o que bem entenderem - algo que, aliás, já fazem há bastante tempo.