domingo, 6 de dezembro de 2009

Vozes juvenis

Se eu tinha alguma dúvida sobre a queda dos padrões de qualidade da imprensa nativa, elas foram inteiramente dissipadas nesses últimos dias. Não, não estou me referindo à cobertura política dos jornalões: a respeito disso, acho que a contaminação partidária do noticiário é irreversível, e são poucos os capazes de defender, sem nenhum traço de cinismo, essa fórmula, apresentada como se fosse a derradeira guardiã de nossa jovem democracia.
Estou falando mesmo é do despreparo dos jornais para exercer aquilo que um dia foi chamado no Brasil de jornalismo.
Poderia ficar aqui citando tantos exemplos dessa ruindade que não pouparia não só a minha, mas a paciência de todos que porventura ousem ler esta croniqueta.
Por isso, vou me ater a um só fato, verificado, com extremo pesar, no decorrer de toda a semana passada, em variados veículos de comunicação, cada um mais importante que o outro: a crítica do novo CD de uma moça chamada Mallu Magalhães, que, todos sabem melhor do que eu, ganhou a fama como cantora/compositora aos 16 anos, depois de que o YouTube espalhou alguns vídeos de suas interpretações pela rede.
Hoje, dizem os críticos de publicações como Folha e Estadão, entre outras, Mallu está mais "amadurecida", compõe com mais liberdade (antes só o fazia com letras em inglês e usando melodias que eles classificam como "folk", sejá lá o que for isso), canta melhor e, por ter deixado de ser uma artista "independente", seu trabalho está mais bem produzido. E haja louvação.
Talvez por ter crescido escutando compositores e cantores de verdade, ter acompanhado o trabalho de críticos de verdade, ter lido jornais e revistas de verdade, confesso que o pouco que me resta de cabelo se arrepiou quando fui constatar, por meio de uma improvisada audição, se o trabalho da garota merecia tantos rapapés.
O que ouvi...bem, vamos deixar para lá.
O fato é que, depois da sessão pseudomusical a que me submeti, baixou em mim uma melancolia que há muito não experimentava, um misto de desalento e rendição a esses novos tempos, que confundem arte com hobby, profissionalismo com pedantismo, trabalho com distração.
Desejo a melhor sorte do mundo a essa nova estrela da música popular brasileira. Que seja feliz, que continue a distrair os adolescentes com a sua inquietação juvenil.
Quanto aos críticos que manejam os adjetivos laudatórios com a facilidade e velocidade da internet, só dou um conselho, se é que este meio século e pouco de experiência vale alguma coisa: nunca é tarde para estudar, nunca é tarde demais para aprender.
Ah, e antes que me esqueça: sejam um pouco menos dependente dos releases.

sábado, 5 de dezembro de 2009

A lição do mestre



"O nosso mundo é sombrio. É só olhar mendigos debaixo de uma ponte qualquer para ver Goeldi lá. Uns vêem em minhas obras o horrível, outros acham o monstruoso, já outros observam o heróico. Isso fica a critério do público."
Marcello Grassmann

Um dos mais importantes artistas brasileiros, o desenhista e gravador Marcello Grassmann, tomou a iniciativa de, aos 84 anos, reunir toda a sua magnífica obra de gravura em metal, 189 trabalhos, numa edição especial, que está colocando à venda.
O aperitivo da coleção está num blog especialmente criado, pelo qual as pessoas ou instituições interessadas podem entrar em contato com o artista - ou comprar os seus trabalhos.
O preço, em se tratando de alguém da dimensão de Grassmann, é uma pechincha: R$ 150 mil, ou R$ 793,65 por gravura.
A iniciativa chama atenção não apenas pela sua importância cultural, mas pelo ineditismo. Marcello Grassmann nunca foi um criador atraído pelo marketing fácil: a consistência e a coerência de sua obra atemporal e além dos modismos, já são garantia de que ela prescinde dos artifícios publicitários muito usados por outros artistas menores.
Seja lá por que motivos Grassmann desta vez tenha se exposto tanto, sua atitude demonstra quão escassos são ainda os meios de acesso do público às artes plásticas no Brasil.
Ao utilizar a internet, essa maravilha contemporânea que revoluciona o mundo de várias maneiras, para "vender" o trabalho de sua vida, Marcello Grassmann demonstra que a sabedoria dos verdadeiros mestres vai além das verdades insofismáveis que porventura eles apregoem: antes disso, ela se constrói com a humildade que só os homens sinceros carregam.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Campo de sonhos


A presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), Kátia Abreu, senadora pelo DEM de Tocantins, se emocionou durante discurso da tribuna do Senado, ao comentar as críticas que o ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananais, teria feito ao agronegócio. Segundo ela, Patrus classificou os produtores de escravocratas. A assessoria de Patrus nega e diz que as críticas da senadora não procedem.
Kátia Abreu lembrou os episódios em que os ministros do Meio Ambiente, Carlos Minc, e do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, classificaram os agricultores de “vigaristas” e de “senhores feudais”, respectivamente. No entanto, segundo ela, as palavras de Patrus na Conferência Nacional da Assistência Social, foram as que mais chocaram.
“O ministro Patrus Ananias, diante de 2 mil pessoas ligadas à assistência social, pessoas que têm um trabalho extraordinário pelo país, disse que o trabalhador rural enfrenta a gravidade do trabalho escravo. Afirmou que o Bolsa Família ajudou o trabalhador a enfrentar o patrão para não se submeter ao trabalho escravo. Disse que sem o Bolsa Família os trabalhadores estariam totalmente à mercê do trabalho escravo, que os produtores rurais do país são escravocratas”, discursou, mal contendo as lágrimas.
A senadora lamentou as supostas palavras do ministro e ressaltou que o agronegócio tem sido responsável pelo equilíbrio das contas do país. “Se eles não têm compaixão, admiração, não têm reconhecimento, não importância, nós significamos um terço do PIB, um terço do emprego, um terço das exportações, da economia do país. Em um ano, três ministros. Vigaristas, senhores feudais, escravocratas. Não é mais possível permitir que isso aconteça”, afirmou ela.
Kátia Abreu, no entanto, reconheceu que os agricultores podem ter cometido erros no passado. “Reconheço que todos os setores da economia cometem erros. Todas as pessoas, em todos os lugares, às vezes erram, se equivocam, mas estamos tentando melhorar, estamos buscando consenso. Temos debatido sem descanso. Não temos evitado nem os maiores adversários no diálogo, quer seja na área ambiental, quer seja na área fundiária, quer seja em todos os setores.”
Segundo a assessoria de Patrus, o termo escravocrata estaria ligado às críticas que são feitas ao Bolsa Família, pelas quais os beneficiários do programa ficariam acomodados e não buscariam emprego. O que ele teria dito é que com a renda obtida com o programa, as famílias não precisam se sujeitar a qualquer trabalho. A assessoria acrescentou que o ministro vem de família de agricultores e jamais faria uma crítica nesses termos.
A emotividade à flor da pele da senadora Kátia Abreu se justifica. Pois até os chamados "produtores rurais" estão percebendo que as coisas estão mudando no país. E assim, vale tudo para retardar o que parece inexorável. Derramar umas lágrimas de crocodilo é um pequeno sacrifício que justifica a causa maior: manter todos os privilégios indefinidamente.
Com informações da Agência Brasil

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Missão impossível

A chamada "grande imprensa" faz agora um esforço danado para mostrar equivalência entre o esquema de corrupção do governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, e o que ela chama de "mensalão", que envolveu PT e outros partidos da base aliada.
Se o truque pegar, o estrago para o lado tucano-pefelista será menor que o imaginado. A lógica é incutir na cabeça das pessoas a ideia - totalmente errada - que todos os políticos são corruptos, que a própria política é suja, que dela só se ocupam pessoas que estão atrás de lucros fáceis - a começar, claro, pelo presidente da República.
Nessa concepção perversa, Arruda e asseclas seriam apenas uns peões a mais desse xadrez do mal que a classe política está acostumada a jogar.
A solução para a "turma do bem" passa por defenestrar o governador do seu partido, que, assim, mostraria aos brasileiros e brasileiras que não compactua com as suas práticas. É a piada pronta.
Os tucanos-pefelistas jogam ainda com o fato de que a Justiça brasileira é lenta e, muitas vezes, parcial. O caso pode demorar alguns anos para ser julgado. Até a sua conclusão, muita coisa pode acontecer. Como o poder federal mudar de mãos.
Seja como for, está difícil para os jornalões ignorarem as traquinagens do governador que até outro dia era mostrado como um raro exemplo de homem público competente, administrador moderno, merecedor de páginas e páginas de textos laudatórios.
Fazer jornalismo nunca foi fácil. Fazer jornalismo partidário sob a aparência de sério é difícil, às vezes impossível.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Os homens do governador

A Agência Brasil publicou ontem importante matéria do repórter Alex Rodrigues sobre o caso José Roberto Arruda, o governador do Distrito Federal acusado de comandar um enorme esquema de corrupção. Nela, estão os nomes dos principais envolvidos e os papéis que desempenhavam no esquema.
Pelo seu didatismo, vale a reprodução na íntegra:

Nos depoimentos que prestou aos promotores de Justiça Sérgio Bruno Cabral Fernandes e Clayton da Silva Germano, do Ministério Público do Distrito Federal (MPDFT) e Territórios, o ex-secretário de Relações Institucionais, Durval Barbosa, acusa mais de 30 pessoas e várias empresas de participarem do esquema de desvio e distribuição de recursos públicos à base aliada do governador José Roberto Arruda (DEM).
Alegando temer ser apontado como chefe do esquema criminoso comandado, segundo ele, pelo próprio governador, Barbosa entregou aos promotores 30 fitas de vídeo que gravou enquanto negociava ou distribuía aos destinatários, supostamente indicados por Arruda, parte da propina paga por empresas que prestavam serviços ao governo do Distrito Federal. Entre as empresas citadas, estão a Combral, do secretário de governo José Humberto, a Info Educacional, a Vertax, a Adler, a Linknet, o Grupo TBA, entre outras.
Além disso, Barbosa entregou aos investigadores uma quantidade de documentos que reforçariam suas acusações contra o governador, seu vice, Paulo Octávio (DEM), secretários de governo, deputados distritais, integrantes da equipe de governo, um conselheiro do Tribunal de Contas do Distrito Federal e várias outras pessoas, entre elas o filho de Arruda, Marcos Sant'anna Arruda, apontado como um dos sócios de uma empresa contratada pela Codeplan na época em que esta era presidida por Barbosa, já então um aliado político de Arruda.
Abaixo, a Agência Brasil elenca alguns dos nomes apontados por Barbosa, que, pela gravidade das acusações, teve que ser colocado no Programa de Proteção à Testemunha. Por meio de sua assessoria, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) destacou que todos os citados estão sendo investigados, mas que, até o momento, ninguém foi indiciado e que ainda não há elementos conclusivos sobre a eventual participação de qualquer um deles no suposto esquema. Arruda não está na lista, porque já é o principal acusado por Barbosa.
Adalberto Monteiro – presidente do Partido Republicano Progressista (PRP) no Distrito Federal, teria, segundo Barbosa, recebido R$ 200 mil para que seu partido aderisse à coligação de Arruda. O dinheiro, segundo Barbosa, teria vindo dos recursos desviados de contratos de prestação de serviço na área de informática.
Alcir Collaço - dono do jornal Tribuna do Brasil, foi gravado guardando dinheiro na cueca. A reportagem não localizou nos depoimentos de Barbosa ao MPDFT mais informações sobre a participação do empresário no esquema.
Benedito Domingos – deputado distrital e presidente regional do Partido Progressista (PP), é acusado de ter recebido cerca de R$ 6 milhões para aderir à coligação de Arruda
Cristina Boner – empresária do ramo de informática é dona do grupo TBA, que, conforme o inquérito, conseguiu um contrato de prestação de serviços com o GDF por ter doado R$ 1 milhão à campanha de Arruda. O contrato, classificado como emergencial, previa a prestação de serviços ao programa Na Hora e era gerenciado pelo subsecretário de Justiça e Cidadania, Luiz França, gravado recebendo dinheiro de Barbosa.
Divino Omar Nascimento – presidente do Partido Trabalhista Cristão (PTC) no Distrito Federal, é acusado de ter recebido R$ 100 mil para aderir à coligação de Arruda quando este disputava o governo local, em 2006.
Domingos Lamóglia - ex-chefe de gabinete de Arruda na Câmara dos Deputados, atualmente ocupa o cargo de conselheiro de Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF), para o qual foi indicado pelo próprio governador. Junto com Omézio, assessor de imprensa do governo, era, segundo Barbosa, o representante de Arruda durante a campanha de 2006, ou seja, quem dizia o quanto era necessário levantar em dinheiro. Barbosa também acusa Lamóglia e o secretário de Governo, José Humberto, de serem os destinatários do dinheiro por ele coletado em nome de Arruda. Barbosa garante, no depoimento ao MPDFT, ter entregue “lotes de R$ 1 nilhão” a Lamóglia várias vezes.
Eurides Brito – líder do governo na Câmera Legislativa, a deputada distrital (PMDB) é acusada de receber R$ 30 mil mensais em troca do apoio político-partidário ao governo Arruda. Foi um dos alvos dos mandados de busca e apreensão expedidos pelo STJ e aparece em vídeo enchendo sua bolsa com dinheiro entregue por Barbosa.
Fábio Simão – ex-chefe de gabinete da Governadoria, é apontado por Barbosa como o responsável por “gerenciar os contratos de terceirização de serviços do GDF”, cabendo-lhe “arrecadar dinheiro de propina dessas empresas e repassá-lo a quem Arruda determinasse. Foi um dos alvos dos mandados de busca e apreensão expedidos pelo STJ e afastado do cargo no último dia 27.
Fernando Antunes – presidente regional do PPS e secretário-adjunto da Secretaria de Saúde, seria, segundo Barbosa, a pessoa autorizada pelo secretário de Saúde, Augusto Carvalho, a negociar o pagamentos de propinas em troca da assinatura de contratos com empresas privadas.
Gilberto Lucena – dono da Linknet, empresa que tem contrato com o GDF, aparece em vídeo reclamando do valor de dinheiro exigido por integrantes do governo, do qual, segundo ele, não estariam sendo deduzidos as quantias pagas a título de adiantamento para o vice-governador, Paulo Octávio; o secretário de Ordem Pública, Roberto Giffoni e o secretário de Planejamento, Ricardo Pena.
João Luiz – médico e atual subsecretário de Recursos Humanos da Secretaria de Saúde do DF, aparece em um vídeo recebendo cerca de R$ 20 mil relativos a um contrato assinado entre a secretaria e a empresa Unirepro, para serviços de impressão, reprografia e gráfica.
José Celso Gontijo – Ou “Zé Pequeno”, como o chama Barbosa no vídeo em que o dono da construtora JC Gontijo Engenharia aparece entregando ao ex-secretários dois pacotes contendo, supostamente, dinheiro. A empresa de Gontijo foi a responsável pela construção da Ponte JK, concluída durante o governo de Joaquim Roriz (então no PMDB, hoje no PSC), obra que o Ministério Público acusou de ter sido superfaturada. Atualmente, a empresa toca a construção da nova rodoviária, inicialmente orçada em R$ 47 milhões.
José Geraldo Maciel – ex-chefe da Casa Civil, teria sido encarregado de, entre outras coisas, pagar aproximadamente R$ 400 mil mensais a alguns deputados distritais da base aliada pelo apoio ao governo Arruda. Um dos alvos dos mandados de busca e apreensão expedidos pelo STJ. Foi afastado do cargo no último dia 27.
José Humberto – homem de confiança de Arruda, o secretário de governo seria um dos responsáveis por receber o dinheiro recolhido por Barbosa, que garante ter entregue pessoalmente a Humberto “lotes de R$ 1 milhão” em pelo menos duas ocasiões, além de ter deixado iguais montantes na empresa do secretário, a Combral, em pelo menos outras duas ocasiões. A Combral foi alvo dos mandados de busca e apreensão expedidos pelo STJ.
José Luiz Valente – ex-secretário de Educação, é acusado de ter recebido R$ 60 mil da Info Educacional, empresa contratada para prestar serviços ao GDF. Foi afastado do cargo no último dia 27.
José Luiz Vieira Naves – secretário de Planejamento na gestão de Maria Abadia e hoje presidente da Companhia Habitacional do Distrito Federal, aparece em dois vídeos recebendo valores não declarados “por facilitar a liberação de recursos orçamentários de interesse de Arruda quando este ainda era candidato ao governo do DF.
Júnior Brunelli – deputado distrital (PSC) e atual corregedor da Câmara Legislativa, é acusado de receber R$ 30 mil mensais em troca de apoio político ao governo Arruda. Aparece em vídeos recebendo dinheiro e rezando junto ao também deputado Leonardo Prudente (DEM) e Durval Barbosa.
Leonardo Prudente – deputado distrital (DEM), atual presidente da Câmara Legislativa do Distrito Federal, aparece em dois diferentes vídeos recebendo dinheiro. Em um deles, de 2006, é flagrado guardando “cerca de R$ 25 mil” em bolsos do paletó, da camisa e até na meia. De acordo com Barbosa, recebia R$ 50 mil mensais do esquema e mantinha parentes e pessoas próximas em cargos estratégicos que lhes permitiam desviar dinheiro de órgãos como o Detran-DF, extorquindo empresários que disputavam licitações. Foi um dos alvos dos mandados de busca e apreensão expedidos pelo STJ e, no último dia 30, admitiu ter recebido dinheiro para sua campanha e não tê-lo declarado à Justiça Eleitoral.
Luiz França – subsecretário de Justiça e Cidadania, aparece em vídeo recebendo dinheiro de Barbosa. França seria responsável pelos contratos de gestão Na Hora Fixo e Na Hora Móvel
Márcio Machado – Atual secretário de Obras, é presidente do PSDB no Distrito Federal. Barbosa afirma que ele esteve em sua sala e até mesmo em sua casa a fim de negociar a liberação de “dinheiro para saldar compromissos assumidos com os políticos coligados”. Ao MPDFT, Barbosa diz que Machado teria negociado o pagamento de R$ 6 milhões para o deputado Benedito Domingos (PP), além de R$ 200 mil para Adalberto Monteiro, presidente local do PRP e de R$ 100 mil para Omar Nascimento, que comanda o diretório regional do PTC.
Marcelo Carvalho – diretor do grupo empresarial Paulo Octávio. Segundo Barbosa, Carvalho foi diversas vezes ao seu escritório a fim de recolher o dinheiro arrecadado das empresas de informática, cujo percentual da equipe de Paulo Octávio era de 30%. “Marcelo foi um dos responsáveis pela distribuição dos valores arrecadados para pagamento dos deputados distritais da base do governo por conta da aprovação do Plano Diretor de Ordenamento Territorial do DF, arrecadado entre empresas que se beneficiaram da aprovação do plano”, afirma Barbosa em depoimento ao MPDFT.
Nerci Soares Bussamra – diretora comercial da Uni Repro Serviços Tecnológicos, foi gravada quando entregava a Barbosa uma sacola com dinheiro. No vídeo, Nerci acusa o PPS de chantageá-la e cobrar propina para manter um contrato da Secretaria de Saúde, comandada pelo deputado Augusto Carvalho, filiado ao partido. Ainda segundo o diálogo gravado, parte do dinheiro teria sido destinada ao presidente da legenda, o ex-deputado Roberto Freire (SP), que já anunciou a intenção de processar Nerci.
Odilon Aires – Ex-deputado distrital pelo PMDB e atual presidente do Instituto de Atendimento à Saúde do Servidor do Distrito Federal (DF), aparece em um vídeo recebendo dinheiro de Durval Barbosa, que o acusa de receber R$ 30 mil mensais do esquema.
Omézio Pontes – assessor de comunicação e “homem de confiança” de Arruda, afastado do cargo na última sexta-feira. Junto com Domingos Lamóglia, representante de Arruda durante a campanha de 2006. Aparece em pelo menos dois vídeos recebendo, segundo o depoimento de Barbosa, “mais de R$ 100 mil” da primeira vez e R$ 100 mil da segunda, esta junto com Domingos Lamóglia. Um dos alvos dos mandados de busca e apreensão expedidos pelo STJ. Foi afastado do cargo no último dia 27.
Orlando José Pontes – Ao lado de seu irmão, Omézio Pontes, e do filho do governador José Roberto Arruda, Marcos Sant´anna Arruda, era dono da empresa de comunicação e marketing Notabilis quando esta passou a prestar serviços à Codeplan, então presidida por Durval Barbosa. Em dezembro de 2005, próximo a posse de Arruda, Omézio e Marcos deixam a sociedade da empresa, que passa as mãos de Orlando e do novo sócio, Milton Dias Guimarães.
Paulo Octávio – vice-governador do Distrito Federal e presidente regional do Democrata, é citado por Barbosa como beneficiário da partilha das propinas pagas por empresas que prestam serviços ao GDF. Empresário do ramo da construção civil, é um dos homens mais ricos do Distrito Federal.
Paulo Pestana – assessor da secretaria de Comunicação Social do GDF, aparece em um vídeo recebendo R$ 10 mil. Segundo ele, o dinheiro era o pagamento por ter "assessorado Arruda”.
Paulo Roberto – diretor do DFTrans, aparece em vídeo recebendo supostos R$ 20 mil de propina, obtidos graças aos contratos para prestação de serviços de informática no departamento.
Paulo Roxo – apontado como outro dos captadores de recursos para Arruda, exigindo propina das empresas interessadas em contratos de prestação de serviços ao GDF. Um irmão seu chegou a ocupar um cargo na diretoria do Banco de Brasília (BRB) – “um dos setores do governo mais cooptados pela corrupção”, mas foi afastado “porque estava extrapolando nas negociatas”.
Pedro Marcos Dias (Pedro do Ovo) – suplente de deputado distrital (PRP), é outro dos acusados a receber propina em troca de apoio político ao governo Arruda. Foi um dos alvos dos mandados de busca e apreensão expedidos pelo STJ.
René Abujalski – citado como dono da empresa Nova Fase. Barbosa diz que Arruda o apresentou a Abujalski antes mesmo de ter sido eleito governador, com a recomendação de que a Nova Fase fosse contratada para prestar serviços à Secretaria de Previdência Social. Dois contratos teriam sido assinados, totalizando a soma de R$ 27 milhões. Em seu depoimento, Barbosa diz suspeitar que Arruda seja o verdadeiro dono da Nova Fase.
Roberto Giffoni – secretário de Ordem Pública, é mencionado pelo empresário Gilberto Lucena, dono da Linknet, como tendo recebido “pedágio” de R$ 280 mil para que o GDF reconhecesse e saldasse dívidas com a empresa.
Rogério Ulisses – deputado distrital (PSB), presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Legislativa, é acusado de receber dinheiro do esquema ilegal. Foi um dos alvos dos mandados de busca e apreensão expedidos pelo STJ.
Ricardo Pena – Secretário de Planejamento, seria dono da empresa Soma, contratada para prestar serviços de pesquisa de opinião para o governo.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Briga na família

A revelação de que o governador do Distrito Federal José Roberto Arruda, acusado de liderar um grande esquema de corrupção, ameaçou os próceres de seu partido, o DEM, de "radicalizar" se radicalizarem com ele (ou seja, se ele for expulso sumariamente da legenda), mostra uma nova face desse político singular, que já foi, quando era líder do governo FHC no Senado, pego violando o painel eletrônico de votação: a de chantagista.
Claro que Arruda, experiente nas lides administrativas, conhece todos os podres de seus correligionários demistas. Claro que eles se surpreenderam com o contra-ataque, pois não julgaram que o governador sequer pensasse em abrir a caixa de Pandora, essa que guarda segredos compartilhados apenas por alguns poucos escolhidos.
Mas ele sabe que a sua única arma, no momento, é a chantagem. E, por isso, a usa sem rodeios, sem meias palavras. Radicalizem para ver o que acontece, ameaça.
Diante de tal situação, restará ao DEM um recuo para uma posição intermediária, sob a alegação de que Arruda merece o benefício da dúvida.
Enquanto isso, o partido tentará articular uma saída menos vexatória dessa situação. Sem base popular, vivendo apenas dos votos de alguns currais eleitorais criados há décadas, ou de acasos como o da prefeitura paulistana, o DEM pode perder até mesmo a sua única razão de existência, a de ser linha auxiliar dos tucanos, se, como é bem possível, o PSDB resolver se livrar do fardo pesado que essa direita anacrônica e truculenta encarnada no ex-PFL representa.
Seja como for, os problemas de Arruda têm a capacidade de causar enormes estragos na oposição, que há pouco tempo colecionava pedras para jogar nas vidraças do Palácio do Planalto.
Nada como um dia depois do outro.