sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Os inconformados

A imprensa nativa sofre de vários males, mas ninguém pode se queixar de que ela não proporciona momentos de pura diversão - apesar de anunciar, diária e enfadonhamente, o fim do mundo.
O riso é garantido por várias fontes, como, por exemplo, alguns articulistas da Folha que se pretendem sérios, ou os editoriais do Estadão. Mas nada supera o Forum dos Leitores, do mesmo antigo, conservador e renomado jornal.
Para provar que ali se encontra ouro puro, transcrevo algumas das opiniões do prezado leitor do Estadão, recolhidas numa mesma edição desta semana:
 
PESQUISA
Por que será que a Confederação Nacional dos Transportes (CNT), cujos estatutos rezam que a missão da entidade é "promover e desenvolver o setor de transportes", tanto gasta em pesquisas, sempre feitas pelo Instituto Sensus, para avaliação do governo Lula? Muito estranho também que na relação de clientes do Sensus o primeiro da lista seja a "Presidência da República do Brasil". Desconfio que nos formulários de pesquisa venha a seguinte questão: "O que o senhor acha do presidente Lula? 1) Ótimo 2) Divino 3) Maravilhoso.

Pelo perfil do presidente da CNT/Sensus publicado no Estadão em 21/6/2005 (A12), tenho dúvidas quanto à credibilidade da última pesquisa versando sobre a aprovação do governo Lula.

Pesquisa é a fórmula de mentir com números! Estou errado?

Os 84% de aprovação de Lula logo vão igualar-se aos 99,9% de Hitler e aos 100% de Stalin.

Pelo andar da carruagem, em poucos meses a aprovação de Lula chegará a 110%... Acredite, se quiser!

SONHANDO COM A DITADURA
Em São Bernardo do Campo, várias faixas ilegalmente colocadas por uma pessoa que assina como "Francisca Vitória" alardeiam o apoio ao terceiro mandato de Lula. São os petistas, por trás de mais um "fake"(bem malfeito), atropelando a Constituição deste país em algo que - por enquanto - é ilegal. Vou plagiar o discurso de Barack Obama: "So help me God."

500 MIL CASAS POPULARES
Espero que não sejam mais um devaneio do PAC e que o presidente Lula, engalanado, de terno e gravata, possa efetivá-las, dentro de alguns dias, em rede nacional.

A nova do "Pinóquio": construir 500 mil casas populares. "Me engana que eu gosto", será essa a filosofia do brasileiro?

Não é um exemplo maravilhoso do que pensa uma certa fatia (zinha) do povo brasileiro?

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Cabo de guerra

Os carros que faltam hoje nas concessionárias provam o que muitos - inclusive este cronista - têm afirmado: as demissões que ocorrem em vários setores são, em grande parte, absolutamente desnecessárias. Assim como os tais acordos para redução de salários e jornada de trabalho.
Só não vê quem não quer: os nossos queridos empresários estão forçando a barra para conseguir mais vantagens do governo, algo que fizeram a vida toda - e não ia ser desta vez, com toda a ajuda da mídia, que deixariam de chorar perdas passadas, presentes e futuras, verdadeiras ou imaginárias.
O que ocorreu principalmente em dezembro foi a suspensão preventiva da produção, já que os estoques estavam altos, resultado de meses de economia aquecida. Sem saber avaliar o que se passava, pois houve realmente uma parada no fornecimento de crédito, interromperam o trabalho e surfaram na onda do "quanto pior, melhor" propagada por todos os que querem ver o ex-metalúrgico fora de Brasília.
O resultado da última pesquisa CNT/Sensus, que fortalece ainda mais a popularidade do presidente Lula, apesar de todo o esforço feito para derrubá-la, pode tanto ajudar a esfriar os ânimos dessa turma que vive para jogar gasolina na fogueira, quanto para deixar esse pessoal ainda mais raivoso.
Até agora, o governo vem se desviando com alguma habilidade das cascas de banana que encontra no caminho. Resta saber qual o tamanho do arsenal de truques que tem permitido sobreviver em terreno minado.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

O que fazer nesta crise?

O professor Stephen Kanitz é figura carimbada na mídia. Durante anos esteve à frente da publicação - e prêmio - Melhores e Maiores, da revista Exame. É colaborador da Veja. Trabalha como consultor de empresas e como palestrante. Em seu site, informa que já deu mais de 500 palestras nos últimos dez anos. É dele o artigo abaixo. Circula na internet e está no seu site, na seção de inéditos. Esclarece alguns pontos desta crise econômica. É uma boa leitura.

O Que Fazer Nesta Crise?

Toda crise tem sete fases.
Fase 1. Não há problema na economia, diz a autoridade econômica, é tudo boato. Fase 2. Sim, temos um problema mas tudo está sob controle.Fase 3. O problema é grave mas medidas corretivas já foram tomadas.Fase 4. O problema é muito grave mas as medidas emergenciais surtirão efeito. Fase 5. Pânico geral e salve-se quem puder.Fase 6. Comissões de inquérito e caça aos culpados.Fase 7. Identificação e prisão dos inocentes.
Os Estados Unidos e a Europa estão na fase 5. Brasil, China e Índia estão na Fase 3. Precisamos nos proteger contra a possibilidade de chegarmos na Fase 5, quando basta um entrevistado na televisão afirmar “que esta crise é igual ou pior que a de 1929”, como vários já falaram, ou escrever no jornal “as conseqüências da crise chegaram definitivamente no Brasil”, como já foi publicado, e gerar pânico por aqui.
Não, a crise ainda não chegou no Brasil, ainda estamos na Fase 3 e mesmo se crescermos 0% este ano, o que ninguém prevê, toda empresa irá vender a mesma coisa no ano que vem. Sua promoção pode estar em risco mas não o seu emprego.
Ademais esta crise nada tem a ver, nem terá, com a severidade da crise de 1929, quando 25% dos trabalhadores perderam seus empregos e que durou até 1940 com 14%. Na pior das hipóteses, o desemprego nos Estados Unidos aumentará 3%, mesmo assim só por 24 meses.
Se tivessem líderes administrativos socialmente responsáveis, eles já teriam ido a público garantir que manteriam o nível de emprego de suas empresas nos próximos 12 meses. Hoje custa mais para se treinar um novo funcionário do que para mantê-lo fazendo algo por 12 meses.
Depois que Alan Greenspan e Nouriel Roubini saíram dizendo que a crise era igual à de 1929, todos os americanos pararam de gastar, aumentando sua poupança e prevendo o pior. Ninguém sabe quem serão os 25% de desempregados. Quando 100% dos consumidores param de gastar por um único mês, cria-se uma espiral recessiva imprevisível. Outra alternativa seria alertar os 3% que talvez sejam demitidos para economizar, para que os 97% possam manter normalmente suas compras evitando a espiral recessiva.
Na crise de 1929, 4.000 bancos quebraram, e a mera referência a 1929 como fizeram Greenspan e Roubini, leva pessoas leigas a correr para os bancos, o que aconteceu agora na Europa.
A imprensa perdeu a capacidade de filtrar e processar informação premida pelo tempo exíguo para colocar tudo na internet. Publicam o que vier, especialmente se for notícia ruim.
Nenhum banco comercial irá quebrar, nenhum ainda quebrou nos EEUU, e mesmo se forem um ou dois, nada se compara com 4.000. Bancos sempre quebram mas ninguém percebe. Mesmo se quebrarem, o seu dinheiro, ao contrário de 1929, está no fundo DI e não no Banco. O Fundo DI está no SEU NOME e dos demais cotistas, e se um banco brasileiro quebrar, o que não vai acontecer, seu dinheiro está salvo. No máximo você terá de esperar uma semana para a troca de administrador do seu fundo. O dinheiro está aplicado em títulos do tesouro em SEU NOME, não do Banco.
Deixar o dinheiro onde está é o mais seguro. Se você resgatar o seu fundo DI, o dinheiro cai na sua conta, e se o banco quebrar justo neste dia, você vira um credor do banco. Nossos bancos estão recebendo depósitos dos apavorados estrangeiros. Muita gente em pânico está saldando suas cotas em fundos de ações e o seu gestor é OBRIGADO a vender uma ação mesmo com ela caindo 20% no dia, algo que você jamais faria.
Acionistas majoritários não estão em pânico, nem podem nem querem vender suas ações. Só os minoritários se sentem uns idiotas porque não venderam na “alta”.
Não temos bancos de investimento no Brasil. De fato, Roberto Campos implantou neste país este mesmo modelo americano que está ruindo, mas felizmente foi uma lei que “não pegou”. Problema a menos.
Só temos bancos comerciais, e estes são muito bem controlados pelo Banco Central. Além do mais, nossos bancos têm dono, e por isto estão pouco alavancados, 4 a 5 vezes, contra 20 a 25 vezes dos bancos de investimentos americanos.
O Brasil não está alavancado. Nossos créditos diretos ao consumidor não passam de 36% do PIB, e devem crescer para 40% no ano que vem. Os Estados Unidos estão alavancados em 160% do PIB e é esta desalavancagem súbita que está causando problemas.
Nosso Banco Central, adotou o que venho alertando há anos a países e famílias - a política de ter reservas para os dias de crise e hoje temos US$ 200 bilhões. Pela primeira vez o Brasil tem reservas para sustentar uma crise duradoura, sem ter que se endividar para cobrir furos de caixa.
Temos um sistema financeiro dos mais modernos e rápidos do mundo implantado devido à inflação galopante dos anos 90. Nos Estados Unidos demora-se duas semanas para se descontar um cheque entre bancos, por isto o sistema travou. Nenhum banco confia em outro banco numa crise destas.
Esta é a hora para disseminar a nossa força, as nossas reservas, a competência de Henrique Meirelles, primeiro administrador financeiro (Coppead) a comandar o nosso Banco Central, e já se nota a diferença. Está na hora de mostrarmos ao mundo que como a China e Índia, nós vamos crescer via mercado interno, com produtos populares, tese que há anos venho defendendo.
Esta é a hora de mostrar o que DÁ CERTO no Brasil em vez de conseguir fama no rádio e na televisão mostrando o que poderia dar errado.
Lembre-se que os verdadeiros culpados já estão se movimentando para culpar os inocentes, e assim saírem incólumes e mais poderosos.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Maluco beleza

Outro dia li uma argumentação sui generis para o sucesso do governo Lula, de um jornalista de posições bastante conservadoras. 
Segundo ele, o ex-metalúrgico só conseguiu ter exito graças à inação: em seu raciocínio, por não fazer nada, a não ser viajar e falar besteiras que o público adora ouvir - ao contrário dos antecessores Collor, Itamar e FHC, esses sim, virtuosos trabalhadores -, Lula não atrapalhou o desenvolvimento do país.
O dito cujo ainda explica que em tal missão o presidente teve o auxílio inestimável de Henrique Meirelles, o manda-chuva do Banco Central, extremoso zelador da política econômica que conduziu a nação brasileira à bonança.
Passado o choque inicial provocado pelo febeapá vomitado pelo autor da tese, gastei uns minutinhos para pensar em quão arraigada está no ideário de certas pessoas o preconceito. E, por extensão, a ignorância, num círculo infernal de ódio de classe.
A fábula desenvolvida para sustentar uma tese absurda é quase inacreditável: Lula, que veio lá de onde Judas bateu as botas e chegou ao cargo mais ambicionado do país, tem sucesso apenas porque, como o Jeca Tatu lobatiano, passa seus dias inerte, a coçar o pé e a ruminar monosssílabos incongruentes. Ah, não se esqueçam, ele tem um companheiro esperto, sujeito letrado, rico, bem nascido, que lhe dá, sem nada pedir, todo o suporte para que não fracasse. Haja altruísmo.
Definitivamente, a estupidez humana não tem limites.