domingo, 17 de julho de 2011

O humor do Billy


Billy Blanco, um dos maiores compositores brasileiros, morreu na semana passada, aos 87 anos. Paraense, veio cedo para São Paulo, onde estudou arquitetura, e foi para o Rio de Janeiro amadurecer a sua vocação artística. Cantou a capital paulista na memorável "Sinfonia Paulistana", mas se fez carioca de coração, versos e músicas num sem número de canções.
O melhor de Billy, porém, está na sua fina ironia, na sua tremenda capacidade de registrar o cotidiano, na melhor tradição dos clássicos Noel Rosa, Wilson Batista e Geraldo Pereira - entre tantos outros bambas -, que fizeram parte da época de ouro da MPB.
São dele os antológicos "A Banca do Distinto", "Piston de Gafieira", "Estatuto da Gafieira", "Estatuto da Boite" e "Mocinho Bonito", verdadeiras aulas de como se pode falar de coisas sérias sem perder o humor.
Tem muita gente que conhece o trabalho de Billy - afinal, teve mais de 500 músicas gravadas. Mas a maioria, infelizmente, nunca ouviu o seu nome. Coisa que só acontece num país dominado por meia dúzia de empresas de comunicação que primam por espalhar ininterruptamente o mais infecto lixo que a chamada "indústria cultural" produz.
Mas chega de blá-blá-blá e vamos ao que interessa - uma pequena seleção dos versos do grande Billy Blanco:
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Não fala com pobre, não dá mão a preto
Não carrega embrulho
Pra que tanta pose, doutor
Pra que esse orgulho
A bruxa que é cega esbarra na gente
E a vida estanca
O enfarte lhe pega, doutor
E acaba essa banca
A vaidade é assim, põe o bobo no alto
E retira a escada
Mas fica por perto esperando sentada
Mais cedo ou mais tarde ele acaba no chão
Mais alto o coqueiro, maior é o tombo do coco afinal
Todo mundo é igual quando a vida termina
Com terra em cima e na horizontal
(A Banca do Distinto)
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Moço
Olha o vexame
O ambiente exige respeito
Pelos estatutos
Da nossa gafieira
Dance a noite inteira
Mas dance direito
Aliás
Pelo artigo 120
O distinto que fizer o seguinte:
Subir na parede
Dançar de pé pro ar
Debruçar-se na bebida sem querer pagar
Abusar da umbigada
De maneira folgazã
Prejudicando hoje
O bom crioulo de amanhã
Será distintamente censurado
Se balançar o corpo
Vai pra mão do delegado
Ta bem, moço?
Olha o vexame, moço!
(Estatuto de Gafieira)
.
Gafieira de gente bem
É boite
Onde a noite esconde a bobagem
Que acontece
Onde o uísque lava qualquer
Disparate
Amanhã um sal de fruta
E a gente esquece
Vamos com calma
Olha o respeito
Trate do corpo
Que a alma
Não tem mais jeito
O estatuto não prevê
Mas eu lhe digo
Traga a sua mulher de casa
E deixe em paz a do amigo
Gafieira de gente bem
É boite
(Estatuto de Boite)
.
Mocinho bonito
Perfeito improviso do falso grã-fino
No corpo é atleta
Mas no crânio é menino
Que além do ABC
Nada mais aprendeu
Queimado de sol
Cabelo assanhado
Com muito cuidado
Na pinta de conde
Se esconde um coitado
Um pobre farsante que a sorte esqueceu
Contando vantagem
Que vive de renda
E mora em palácio
Procura esquecer um barraco no Estácio
Lugar de origem que há pouco deixou
Mocinho bonito
Que é falso malandro de Copacabana
O mais que consegue é um vintão por semana
A mana do peito jamais lhe negou
(Mocinho Bonito)
.
Na gafieira
Segue o baile calmamente
Com muita gente dando volta no salão
Tudo vai bem
Mas, eis, porém que de repente
Um pé subiu
E alguém de cara foi ao chão
Não é que o Doca
Um crioulo comportado
Ficou tarado quando viu a Dagmar
Toda soltinha
Dentro de um vestido-saco
Tendo ao lado um cara fraco
E foi tira-la pra dançar?
O moço era faixa preta, simplesmente
E fez o Doca rebolar sem bambolê
A porta fecha enquanto dura o vai-não-vai
Quem está fora não entra
Quem está dentro não sai
Mas a orquestra sempre toma providência
Tocando alto pra polícia não manjar
E nessa altura
Como parte da rotina
O piston tira a surdina
E põe as coisas no lugar
(Piston de Gafieira)
.
O cliente perguntou se o marmanjo era;
o psicanalista respondeu, então:
- Vamos conferir de forma bem sincera,
com uma arguição.
- Diga um número meu filho.
- Onze.
- Animal de preferência.
- Jacaré.
- Profissão de competência.
- Juiz de direito.
- Legume que nasce no pé.
- Chuchu.
- O moço é -
respondeu o doutor. -
Sabe por quê?
Vou contar pra você:
- Chuchu dá o ano inteiro,
diferente do nabo;
jacaré, bicho matreiro,
se defende com o rabo;
onze é um atrás do outro,
juiz trabalha em vara.
Meu amigo, tá na cara:
o moço é!
(O Moço É)
.
São Paulo
Que amanheceu trabalhando
São Paulo, que não sabe adormecer
Porque durante a noite, paulista vai pensando
Nas coisas que de dia vai fazer
.
Na capital do tempo, tempo é ouro e hora
Quem vive de espera, é juros de mora
Não tem mais-mais nem menos, ou é sim ou não
No máximo se espera pela condução
.
Olha o Sol, olha o Sol, cadê o Sol? Onde o Sol?
Sumiu, sumiu, sumiu
Quando amanhece, o Sol comparece por obrigação
Nublado, cansado, um Sol de rotina
Se bem ilumina, nem dão atenção
É que o bandeirante não perde o seu tempo
Olhando pro alto, o Sol verdadeiro está no asfalto
Na terra, no homem e na produção
.
O que vale é a versão, pouco interessa o fato
Porque a sensação maior é a do boato
Em coisa de um segundo, noite é madrugada
Notícia ganha o mundo, e a gente não é nada
(Excertos da Sinfonia Paulistana)
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Ainda hei de ser bacana
Ainda hei de andar de carro
Com a plaquinha do CD
Motocicletas na frente
Assustando toda a gente
Pondo banca com você
Já pensou papai eleito
Vereador ou prefeito
Dessa grande capital?
Aí vai haver disse-me-disse
Uma nega vai ser vice
Com faixa, coroa
Com tudo legal
Quero ver
Lá no morro o alvoroço
As nega brigando por causa do moço
Nessa altura um bom rapaz
Até você, Risoleta
Que não me dá bola
Me enxergando de cartola
Vai cair dura pra trás
( Se Papai Fosse Eleito )

2 comentários:

  1. Guilherme Marssena(UM CARIÔNIDA)17 de julho de 2011 12:37

    Não custaria nada,se tu tivesse escrito a terra natal do GRANDIOSO PARAENSE BILLY BLANCO.Mas meus parabéns pelo postagem.

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  2. Mas tá lá: "Paraense, veio cedo para São Paulo, onde estudou arquitetura, e foi para o Rio de Janeiro amadurecer a sua vocação artística."
    Grato pela leitura.

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