sexta-feira, 8 de maio de 2015

Os velhos e distantes companheiros

Quase toda vez que leio, nas redes sociais, algum comentário de um amigo de longa data, um daqueles que conheço desde a infância ou com o qual passei junto a adolescência, me dá uma tristeza enorme. 

É que, com raras exceções, percebo que quase nada mais tenho em comum com ele, pelo menos no campo ideológico.

Em outras palavras, descubro que aquele camarada de quem era próximo, agora sessentão não passa do mais completo reacionário, exatamente o tipo que nós, quando jovens, abominávamos.


E pior de tudo: embora tenha praticamente a mesma formação educacional que eu tive, com ótimas notas nas escolas em que estudou, e seja, pela sua condição social, econômica e intelectual, um sujeito com amplo acesso à informação, ele repete, qual papagaio, as maiores besteiras, idiotices e mentiras que, já há algum tempo, invadiram os meios de comunicação do país.

É incrível. 

O sujeito tornou-se o antipetista típico, desses de xingar a presidenta Dilma de "vaca" e outros palavrões ainda mais chulos, de acreditar que o ex-presidente Lula ficou bilionário roubando os cofres públicos, e o seu filho é dono da Friboi. 

O camarada repete hoje o comportamento de seus pais, integrantes da classe média que apoiou ou não se importou com o golpe de 64, e que, por serem produtos da propaganda da guerra fria, eram anticomunistas daqueles que achavam o vermelho a cor do demônio.

O estranho é que esses meus chapas de outrora tiveram muito mais informações que seus pais para chegar à conclusão de que o mundo não se restringe ao bem e ao mal, ao certo e ao errado, ao preto e ao branco, ao Palmeiras e ao Corinthians.

Ele é muito mais amplo que essa dicotomia, muito mais colorido, complexo e interessante.

Sei lá o que aconteceu com essas pessoas para que se tornassem o que são: leitores fieis de Veja, Estadão e Folha, audiência cativa do Jornal Nacional, do Datena e de congêneres, preconceituosos e incapazes de refletir à luz da realidade e dos fatos, desprovidos de senso crítico, meros passageiros da barca consumista.

Sei apenas que para não me deprimir passei a nem ler mais o que os velhos companheiros escrevem.

Prefiro que eles sejam apenas lembranças de um passado distante, em que éramos muito mais felizes em nossa insensatez, insegurança e destemor.

5 comentários:

  1. Bom dia Motta, vou amanhã, dia 9 de maio, num chamado 'reencontro' com antigos amigos de uma antiga agência em que trabalhei na década de 70 (sou sessentão) vasculhei o meio dos 'amigos' na net, rapaz, estou besta com que vi, semana que vem lhe envio o resultado por e-mail do que presenciei! Abracetas amigão!!! (alguns você conhece) oremos!!!

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    1. Adir, só digo uma coisa: que tristeza que dá....

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  2. Bola pra frente. Nada de tristeza. Continue abrindo caminho. Os amigos extenuados ficarão gratos.

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  3. Realmente, esse problema, o qual também enfrento em relação a vários amigos do passado, é um mistério. De repente, gente progressista, de cabeça aberta, vira não só de direita, mas idiota mesmo

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  4. Atribuo isso à incapacidade de governos sucessivos, inclusive os do PT, em todas as esferas, de promover a inclusão cultural e intelectual da população. Tristemente ouvimos todos dias um penca de informações sobre economia e seus penduricalhos inuteis para a população em geral, mas não ouvimos nada sobre cultura, sobre cidadania, sobre as artes todas. A alienação é geral e ilimitada, por conta de um monte de fatores mas em especial da inação dos nossos governantes,

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