quarta-feira, 29 de junho de 2011

Lei da selva


A briga entre o empresário Abílio Diniz e o grupo francês Casino, motivada pela intenção do brasileiro em se juntar ao Carrefour, mostra uma face do capitalismo que geralmente é ocultada do público: a lei do vale-tudo se sobrepõe a todas as outras que deveriam regular as relações comerciais.
A cada revelação dos detalhes do negócio que o ex-dono do Pão de Açúcar - Diniz, para não falir, teve de virar sócio dos franceses do Casino - quer fazer, fica mais claro que ele pretende atropelar qualquer princípio ético que porventura possa existir no mundo dos negócios. Isso sem contar com a ilegalidade que é descumprir o contrato firmado com os franceses.
Os adeptos do capitalismo como a forma social perfeita devem argumentar que Abílio não faz nada de errado, que simplesmente pratica o que todos os verdadeiros capitalistas deveriam perseguir, ou seja, caçar a oportunidade de um bom negócio com a tenacidade de um predador. Afinal, argumentam, não foi assim que esta nossa civilização humana foi à frente e superou todas as adversidades?
Com argumentos assim, formaram-se as grandes corporações, as multinacionais que vivem a farejar o lucro em todo canto da Terra, sem se preocupar com nada mais além de satisfazer o que denominam de seus "acionistas", essa espécie de seres consagrados pela luz divina.
E o mundo deu no que deu. Milhões de pessoas passando fome, vivendo em condições indignas, sem nenhuma perspectiva de ter uma existência que sequer os distingua do mais inferior dos animais; desigualdades e injustiças que marcam todas as culturas, todos os países; desprezo incontido pelos mais fracos e pelas próprias convenções determinadas por organismos internacionais.
Nessa óptica, até que empresários como Abílio Diniz podem ser considerados bonzinhos. Afinal, com suas manobras ele busca simplesmente se manter à frente do negócio que herdou do paí - no ano que vem seu sócio francês pode assumir de vez o comando do Pão de Açúcar.
 A gente não deve se esquecer, porém, que se a fusão com o Carrefour de fato ocorrer, estará formado o maior grupo privado do setor no país - com todas as consequências inevitáveis que a falta de concorrência acarreta. É fato notório que no Brasil, seja em que área for, esse tipo de empresa gigante está muito mais preocupada com seus "acionistas" do que com o consumidor, que passa a ser visto como um simples caixa de onde pode ser sacado a qualquer momento o dinheiro necessário para encher os cofres da companhia.
É para evitar esse tipo de concentração deletéria que existem órgãos antitruste. Mas não sei se, nesse caso específico, eles serão de alguma valia. Li que até o BNDES pretende ajudar a aventura de Abílio Diniz, como parte de uma estratégia para criar grandes grupos empresariais brasileiros. Se isso for mesmo verdade, fica um cheiro estranho no ar.
Afinal, qual a lógica de um banco estatal, cujos fundos vêm do povo brasileiro, ajudar um negócio que não vai criar empregos, não vai baixar os preços das mercadorias, não vai estimular a produção, nem o desenvolvimento científico e tecnológico do país?
Sei lá. Sei somente que, no capitalismo, pelo menos nesse que a gente vê por aí, impera a lei de Gerson, aquela que diz que o importante é levar vantagem em tudo.
Tô fora...

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