quarta-feira, 1 de junho de 2011

Unhas e calabouços


A vida toda pensei na arte como algo libertador, no artista como um revolucionário, se não aquele que quer mudar o mundo, ao menos aquele ser que vai ao limite em seu ofício, que não se conforma em repetir fórmulas consagradas.
Isso é o que eu achava até ler a notícia sobre uma palestra dada pelo cantor/compositor Lobão num desses festivais literários que - atenção para o palavrão! - abundam por aí.
O trecho a seguir é um copia-e-cola da Folha Online:
"A gente tinha que repensar a ditadura militar. Por que as pessoas acham... Essa Comissão da Verdade que tem agora. Por que que é isso? Que loucura que é isso? Aí tem que ter anistia pros caras de esquerda que sequestraram o embaixador, e pros caras que torturavam, arrancavam umas unhazinhas, não [risos]. Essa foi horrível [risos]. Mas é, é bem isso. Quem é que vai falar isso? Quem é que vai ter o colhão de achar que bunda de pinto não é escovinha? Porque não é. Não é. Então é o seguinte: a gente viveu uma guerra. As pessoas não estavam lutando por uma democracia, as pessoas estavam lutando por uma ditadura de proletariado. As pessoas queriam botar um Cuba no Brasil, ia ser uma merda pra gente. Enquanto os militares foram lá e defenderam nossa soberania."
 E depois:
"Por que ele [Che] é mais humano que um torturador? Essa é uma pergunta que é capciosa, é corrosiva, mas é pertinente. Então os caras que sequestravam fulano, beltrano, então eles eram mais bonzinhos do que o cara que arrancava unha nos calabouços? Vamos fazer essa equação? Empate, cara. Pensa bem. Tem que ser um cara muito escroto pra poder falar sobre isso, mas é a pura verdade."
Bem, acho que o texto é auto-explicativo. Diz mais que qualquer coisa que se escreva ou se fale sobre o sujeito em questão.
Mas é assim mesmo numa democracia: cada um diz o que quer e é responsável pelos seus atos, ninguém vai arrebentar o indivíduo de porrada ou arrancar umas unhazinhas num calabouço escuro e fedido só porque ele resolveu desafinar o coro dos contentes.
Esse é o preço que o país paga por ter lutado contra a ditadura, por ter visto muitos de seus filhos sucumbir à violência e ao ultraje dos poderosos.
Hoje, felizmente, até um Lobão pode vomitar seus pesadelos o quanto quiser no público. Em casos assim, o que geralmente acontece é o porcalhão escorregar na própria sujeira que excretou.

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