terça-feira, 7 de agosto de 2012

O sono dos justos


Quando uma imagem vale mais que mil palavras: ministros Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa no terceiro dia do julgamento do processo do tal mensalão pelo Supremo Tribunal Federal, em que começaram a ser ouvidos os advogados de defesa dos 38 réus.
Detalhe: Barbosa é o relator do processo; Mendes, todos sabem quem é.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Porteira onde passa um boi...


O maior perigo para o país no caso do tal mensalão é o Supremo Tribunal Federal condenar os réus apenas porque a imprensa, voz da oposição política, assim deseja - e não o contrário, ou seja, inocentá-los por absoluta existência de provas concretas.
Diz a voz popular que "porteira onde passa um boi passa uma boiada". 
Sob essa lógica, e já que as suposições estão em alta, não custa nada pensar no que seria da sociedade brasileira se a mais alta corte de Justiça se dobrasse aos interesses de uma determinada corrente política, que, legitimamente, por três vezes, foi rejeitada pelo voto popular, foi afastada do poder. 
Todos nós, simples mortais, sabemos o quanto o Judiciário é desacreditado, o quanto, nas conversas de bar, nas rodinhas de café, se ouve dizer que a Justiça nesta terra de Pindorama tem preço, é mercadoria que se compra e se vende como qualquer outra, é mais dura ou menos severa de acordo com o bolso do freguês - ou do réu. 
Não por acaso a corregedora nacional do Conselho Nacional de Justiça, Eliana Calmon, se referiu, indignada, aos "bandidos de toga" que conspurcam a imagem e o trabalho do Judiciário.
Transformar o julgamento do tal mensalão num simples espetáculo midiático, num caso "exemplar" de combate à corrupção, como vários "analistas" nem um pouco isentos pretendem, seria, neste momento em que o Brasil está muito perto de se equiparar às democracias ocidentais mais avançadas, um retrocesso institucional enorme, seria como se o país voltasse ao tempo em que tribunais militares avocavam para si o poder para julgar, sumariamente, e condenar, sem exceções, quem se indignava contra a ditadura militar e lutava contra ela.
Esses homens feitos, já maduros e vividos, que estão por aí, neste momento, babando de ódio e incitando o linchamento dos réus do tal mensalão, conclamando o Supremo a abandonar qualquer olhada mais atenta nos autos dos processos, deveriam, até por simples instinto de sobrevivência, repensar os seus atos. Amanhã, podem eles ser os alvos da indignação popular.
"Porteira onde passa um boi, passa uma boiada" diz a voz popular. 
O Supremo, pelas suas prerrogativas, por ser a última instância do Judiciário, a esperança derradeira de Justiça, não tem o direito de errar - e muito menos de errar deliberadamente.
Se condenar sem provas substanciais, se ouvir o clamor da opinião "publicada" - não a pública -, se curvar-se aos desígnios de políticos que foram derrotados nas urnas e tramam incessantemente uma vingança, se render-se aos interesses poderosos e ocultos que desejam manter o país sob seu jugo, o Supremo se desmoralizará, virará tema banal do papo de botequim, do falatório do populacho, das conversas das comadres e das piadas dos bêbados.
O Supremo, aqueles homens e mulheres que falam uma língua de outro planeta, que tratam uns aos outros de excelência, que usam aquelas capinhas pretas sobre as roupas - e que fingem distribuir Justiça...
Tenha dó, o Supremo...

domingo, 5 de agosto de 2012

O maestro do Brasil


Mais preocupada em promover o linchamento de algumas figuras políticas do PT e aliados no caso que impropriamente denominou de "mensalão", a imprensa nativa tem cometido imperdoáveis equívocos nesses últimos dias - um pouco além da conta habitual.
Um deles foi praticamente omitir a morte de um dos gigantes da música popular brasileira, o maestro, compositor e clarinetista Severino Araújo, fundador e líder da Orquestra Tabajara, um monumento artístico como poucos que já surgiram por estas terras.
Severino se foi, aos 95 anos de vida, incomparável em talento e dedicação à arte musical.
A Tabajara permanece, firme e forte, sob a batuta do irmão Jaime, que há cinco anos já assumira a regência da usina mágica de sons que vem encantando gerações de brasileiros desde a longínqua década de 30.
Claro que existem pessoas muito mais qualificadas para falar da importância de Severino Araújo e da Tabajara para a música brasileira que este humilde cronista.
Não poderia, porém, deixar de registrar o acontecimento, por mais triste que ele seja, como sinal de respeito e agradecimento por tantos momentos únicos que seus arranjos e composições me proporcionaram, por todo o deleite causado pela explosão de ritmo e melodias dos metais dos músicos que conduzia.
Severino, genial, provou como nenhum outro que é possível elevar a arte feita no Brasil à condição de universal. Sob a sua regência, os choros, frevos e sambas assumiram dimensão única e linguagem capaz de empolgar qualquer habitante da Terra, desde um esquimó a um beduíno.
Música para dançar, para cantar, para o cérebro e o corpo.
Jamelão e Elizeth, Zé Bodega e K-Ximbinho, Espinha de Bacalhau e Rhapsody in Blue, trompetes, saxofones, trombones e percussão.
À frente, o corpo todo se balançando e dançando como uma batuta viva, o clarinete como uma voz poderosa, um instrumento feito para surpreender, enternecer, tocar os céus, Severino, o maestro do Brasil.

A piada do Gurgel

Gurgel: que lógica é essa?       (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr)
E então, eis que meus olhos cansados se deparam com o seguinte parágrafo em uma notícia da Agência Brasil:
"Gurgel concordou que há provas pouco robustas contra quem chamou de 'principal figura de tudo que apuramos' e 'o grande protagonista' do mensalão, mas atribuiu o fato ao papel de liderança que Dirceu exercia. 'Como quase sempre ocorre com chefes de quadrilha, o acusado não aparece nos atos de execução do esquema', justificou."
Só para esclarecer: Gurgel é o procurador-geral da República, Roberto Gurgel; Dirceu é José Dirceu, ex-ministro-chefe da Casa Civil do governo Lula.
Posto isso, o distinto público há de reparar que existe uma certa semelhança física entre o nosso Gurgel e o apresentador de televisão Jô Soares, que já foi, muito tempo atrás, um celebrado comediante.
Está certo, também, que o julgamento do tal mensalão pelo Supremo Tribunal Federal está mais para um show televisivo do que para uma sessão tradicional da mais alta corte judiciária do país.
Nem por isso, creio, o nosso distinto Gurgel deveria, como se diz, "entrar no clima", e tentar transformar algo que se supõe sério numa pantomina descarada.
Uma coisa é parecer com Jô Soares; outra, bem diversa, é agir como ele.
Pois não há como não encarar como uma piada o seu argumento de que ele, procurador-geral, acusador-mór, não conseguiu reunir provas robustas contra quem denomina "principal figura de tudo que apuramos" e "grande protagonista" do tal mensalão pelo simples fato de que tal personagem é o "chefe da quadrilha".
Se uma lógica dessas, fico pensando, fosse aplicada pelos tantos procuradores que existem por aí, as prisões estariam vazias.
Afinal, como na piada de Gurgel, seria impossível reunir provas contra os chefões do crimes porque eles não gostam de se expor publicamente, preferem o anonimato, não vivem dando entrevistas sobre as suas atividades, não andam por aí distribuindo cartões de visita com seus nomes e funções no bando destacados em letras gravadas a ouro.
Pela lógica do nosso Gurgel, só é possível reunir provas contra os chefões do crime se eles não forem os chefões.
É de morrer de rir.
Conta outra, Gurgel.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Mensalão, traço de audiência


Fazia tempo que eu não via tanta gente reunida para ver televisão. Foi no lugar onde trabalho, ontem à tarde. As pessoas levantavam de suas cadeiras, e iam, apressadas para a frente de um dos dois pequenos aparelhos colocados displicentemente sobre mesas. Escondiam o nervosismo fazendo piadas, rindo, até que, em certo momento, depois de vários "vai, vai, vai" de incentivo, se dispersaram e voltaram ao trabalho, decepcionadas.
Não, não foi o início do julgamento do tal mensalão pelo Supremo Tribunal Federal, acontecimento mais noticiado em toda a história recente do país, que levou o pessoal em frente à pequena e velha TV de 14 polegadas, mas sim a prova de 200 metros medley dos jogos olímpicos de Londres, na qual o brasileiro Thiago Pereira concorria, com boas chances de beliscar uma medalha. Se na piscina seu desempenho não foi satisfatório - ele ficou em quarto lugar -, pelo menos lá onde eu passo meus dias na labuta, durante intermináveis segundos ele foi imbatível, soberano, único.
Na televisãozinha ao lado daquela onde Thiago frustrou nossa ambição por medalhas olímpicas, os ministros do Supremo davam seu show tão aguardado por uma certa parcela da sociedade brasileira, discutiam picuinhas naquela língua inacessível aos pobres mortais, se tratavam por "excelência", tentavam, com todo o esforço, brilhar para as câmeras e se tornar astros de um episódio que passará para a história menos por sua importância ética, moral ou jurídica, mas muito mais por mostrar que a hipocrisia é um dos componentes mais fortes da personalidade humana.
Não creio que o lugar onde trabalho seja o mais representativo do universo brasileiro. Há poucos pobres e negros ali, há muitos brancos de classe média, quase todos de nível universitário. Apesar disso, 99,9% deles ignoraram o show do tal mensalão. Na verdade, só o assistiu quem, por absoluta necessidade, precisava saber o que ocorria naquele mundo paralelo do Supremo Tribunal Federal.
Para quem não sabe, sou jornalista, passo meus dias numa redação.
Por isso, porque meu olhar poderia estar contaminado pelo comportamento de uma parcela insignificante da sociedade, sou obrigado a recorrer ao depoimento de quem esteve nas ruas ontem à tarde e pôde observar a reação das pessoas ao inicio do retumbante espetáculo do tal mensalão, há tantos anos aguardado e tão anunciado nesses últimos dias.
Vamos ler, então, um trecho da reportagem do "Valor", de Vandson Lima, que saiu para ver se a metrópole havia parado na quinta-feira à tarde:
Na fachada das lojas populares de eletrodomésticos do centro de São Paulo, grandes televisores, cuja compra pode ser parcelada em até 24 vezes, dividiam-se na programação do dia. A animação Monstros S.A. e a transmissão dos jogos olímpicos em Londres ocupavam com grande vantagem as telas, com exceções dedicadas a programas de culinária e uma apresentação da banda americana Bon Jovi. Nenhuma mostrava o primeiro dia do histórico julgamento da Ação Penal nº 470, vulgo mensalão.
Seguindo pelo Vale do Anhangabaú, palco de manifestações que reuniram milhões na reivindicação por eleições presidenciais diretas e pelo impeachment do ex-presidente Fernando Collor, nenhum sinal, cartaz ou manifestação sinalizava que se iniciara o julgamento da década. Na lanchonete anexa ao Centro Acadêmico "XI de Agosto", representação estudantil da Faculdade de Direito do Largo São Francisco (USP), um telão exibia a derrota da seleção brasileira de vôlei para os Estados Unidos por 3 sets a 1. Mas os futuros bachareis se mantinham ligados via internet no embate que corria no Supremo. Quatro dos atuais ministros passaram pela instituição. ... 
No Twitter, o termo #mensalao foi bastante utilizado por repórteres e sites noticiosos. Ao fim do dia, entretanto, sequer aparecia entre os tópicos mais citados. 
Nas tevês instaladas no metrô, as notícias eram sobre a primeira rodada da Copa Sul-Americana de futebol, na qual Palmeiras e São Paulo venceram seu jogos. Mas ganhou a atenção dos passageiros a pesquisa que apontou que 7% dos brasileiros acima dos 18 anos já experimentou maconha. Em 15 minutos de trajeto, nenhuma notícia de mensalão. A Olimpíada também dominou os televisores nas lanchonetes das faculdades Politécnica, de Economia e Administração, na Escola de Comunicação e Artes e na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.
Na mesma edição do jornal, outra notícia, de Sergio Ruck Bueno, atestava o fracasso dessa hercúlea tentativa da oposição de defenestrar do Palácio do Planalto o PT e aliados:
Apesar da ampla divulgação que o caso já ganhou e continuará recebendo nos meios de comunicação, o julgamento do mensalão terá pouca influência no desempenho do PT na eleição municipal deste ano. Com a possível exceção de São Paulo, onde o partido pode sofrer maiores prejuízos por conta do antipetismo local mais forte e da polarização com o PSDB, os eleitores votarão com pragmatismo, mais interessados na preservação das condições econômicas pessoais e menos preocupados com questões éticas. A avaliação é da professora de ciência política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Helcimara de Souza Telles, e da diretora-presidente do Ibope Inteligência, Márcia Cavallari Nunes.
Para Márcia, o grande estrago que o mensalão poderia causar para o PT já aconteceu em 2005, logo depois do estouro do escândalo. "Naquele momento ele [o PT] perdeu o diferencial de ética que tinha em relação aos outros partidos e se igualou aos demais. Hoje estão todos no mesmo barco", entende. "Se [na eleição de 2012] tiver algum efeito, será em São Paulo, e só."
Além disso, o próprio eleitor é "cúmplice'"da corrupção quando, por exemplo, compra produtos piratas ou tenta subornar agentes de trânsito para não ser multado. Some-se isto ao nivelamento por baixo da imagem dos partidos em questão de moralidade e o discurso ético já "não cola" tanto, acredita a pesquisadora...
"O mensalão vai resvalar como discurso de campanha apenas em algumas capitais, mas não terá efeito em todas justamente por causa do cinismo e do consumismo das pessoas" diz Helcimara. "Como diz um aluno meu, são eleitores que preferem o "voto geladeira": votam naquele que dá condições de pagar o carnê da geladeira." Ela também vê uma possível exceção em São Paulo, por conta da predisposição antipetista mais forte na cidade.
Bem, é isso, acho que já falamos demais de um programa de televisão que deu traço de audiência, que faz companhia a tantas outras produções tão pretensiosas quanto impopulares que ninguém sabe por que existem.
Como deu para perceber, o povo gosta de se distrair vendo outras coisas. Ficção por ficção, novela por novela, ele prefere atores profissionais, mesmo os mais canastrões, os mais mequetrefes.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O tal mensalão


O tal mensalão deverá ocupar todo o tempo e espaço possíveis do noticiário da chamada "grande imprensa" de agora em diante - e sabe-se lá até quando.
É apresentando a todos como "o maior escândalo da história", como se referiu a ele o procurador-geral da República.
Bobagem.
Quem o analisa sem vestir o terno partidário da oposição vê que ele, da maneira como é apresentado, tem furos enormes, de fazer o maior transatlântico naufragar em questão de minutos.
Mensalão, como quis dizer o sujeito que cunhou o termo e deflagrou o episódio, o notório Roberto Jefferson, pressupõe o pagamento mensal a alguém que, supostamente, prestou determinado serviço. No caso, a mesada, oferecida pelo partido que estava - e está - no poder, seria para manter a fidelidade de sua base parlamentar de apoio.
Coisa estranha essa - pagar para quem já é aliado não é mesmo uma ideia inteligente.
Especialmente quando, todos sabem, os aliados, pelo simples fato de serem aliados, fazem parte do poder, dividem a responsabilidade do poder, seus ônus e seus bônus.
A outra explicação, muito mais plausível, é a de que o tal mensalão seria dinheiro proveniente de caixa 2, o famoso "por fora", usado pelo PT para ajudar os amigos que estavam em dificuldade para fechar as contas da campanha eleitoral.
Nos dois casos, os 38 réus teriam cometido crimes, uns mais graves, outros nem tanto.
Ao Supremo Tribunal Federal caberá a dificílima tarefa de julgar, sem ouvir o famoso "clamor da opinião pública", ironicamente formado pela mesma imprensa que já condenou os acusados, qual das duas hipóteses  é a verdadeira, com base nos autos do processo, nas provas e testemunhos apresentados.
Seja qual for, porém, o resultado do julgamento, ele não mudará absolutamente nada nos usos e costumes desta república.
A corrupção, patrocinada pelo poder público e pelos empresários, não acabará com o fim do julgamento do mensalão e toda a lenga-lenga moralista que se escreverá nesse futuro próximo, tampouco a prática contumaz do uso do caixa 2 no financiamento de campanhas eleitorais.
Para que tudo isso termine é preciso bem mais que julgar o tal mensalão.
É necessário, antes de mais nada, que os principais acusadores dos 38 réus - imprensa e políticos oposicionistas - também mudem os seus hábitos e costumes.
Algo que certamente não farão, já que estão impregnados de uma hipocrisia que repele qualquer intenção de começar a fazer as coisas certas.