quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Decifrando o tucanês


Quase sempre os políticos falam uma coisa e dizem outra. É que seus discursos estão sempre cheios de subentendidos, de figuras de linguagem que necessitam ser traduzidas para o público que não está acostumado com tal prática.
Um exemplo disso é a carta que José Serra entregou à Comissão Executiva do PSDB, na qual exprime seu desejo de ser pré-candidato para a eleição municipal paulistana.
Como está em tucanês, língua quase morta, pouco falada no país, é obscura em grandes trechos. Mas depois de muito esforço, consegui entender o que ele quis dizer de verdade.
Vamos à carta e aos esclarecimentos, em grifo:

"Depois da eleição presidencial de 2010, em que saímos vitoriosos em 11 Estados, com o voto e o apoio de 44 milhões de eleitores  (que foram insuficientes para que vencesse a adversária, Dilma Rousseff),  manifestei publicamente a disposição de concentrar meu trabalho político, minha atenção e minhas reflexões nas questões nacionais (escrever artigos nos jornalões). Foi o que fiz nos últimos meses, expondo ideias e defendendo teses em artigos, palestras, seminários, entrevistas e propostas de ação política encaminhadas ao PSDB, a partidos aliados e vários setores organizados da sociedade (em muitos eventos, como simples penetra).
Nas últimas semanas, ocorreram várias manifestações de integrantes do PSDB – e mesmo de outros partidos, nossos aliados -  no sentido de que eu me apresentasse como pré-candidato a prefeito de São Paulo nas eleições deste ano (pudera, com os pré-candidatos que os tucanos tinham, a derrota era certa). Para mim, a política não é uma atividade privada, objeto apenas da vontade e do desejo pessoal, ou fruto de ambição íntima (trecho que revela a índole cínica ou cômica do missivista). Encaro a política como atividade pública e coletiva, com propósitos determinados (quais seriam?), destinada à promoção do bem comum (para que grupos?) e à melhoria das condições de vida de toda a coletividade (então, por que não fez isso ao longo de toda a sua vida pública?).
 Aprendi, ao longo da vida, que a ação e os movimentos políticos são, também, subordinados às circunstâncias, à conjuntura, ao momento ( justificativa por ter traído a promessa de que cumpriria todo o mandato de prefeito paulistano). Aprendi a reconhecer que o interesse coletivo se sobrepõe, sempre, aos planos pessoais daqueles que abraçaram de fato a causa pública (o "coletivo", no seu caso, está circunscrito a uma meia dúzia de pessoas). Por isso tudo, ouvi bem os argumentos dos meus interlocutores: eleitores, amigos (bem poucos), parlamentares, dirigentes de diferentes partidos, o prefeito Gilberto Kassab e o governador Geraldo Alckmin.
Refleti intensamente sobre a situação do país, os dissabores que o processo democrático tem enfrentado diante do avanço da hegemonia de uma força política (claro que se refere ao PT; a "hegemonia" vem por conta da preferência da maioria do eleitor pelo partido e à sua competência na administração pública), o peso e a importância de São Paulo nesse processo.
São Paulo é a maior cidade do país. E é aqui, neste ano, que se travará uma disputa importante para o futuro do município, do Estado e do país (ou seja, a eleição municipal é uma bobagem, o que importa é ganhar em 2014) . Uma disputa entre duas visões distintas de Brasil, duas visões distintas de administração dos bens coletivos, duas visões de democracia, duas visões distintas de respeito aos valores republicanos (maniqueísmo puro: eu sou do bem, eles são do mal).
Não fujo à luta nem fujo às minhas responsabilidades (só quando isso for conveniente...). Com humildade (essa doeu!), ofereço meu nome ao PSDB, não apenas à sua direção, mas também aos militantes, simpatizantes, apoiadores e eleitores, como pré-candidato à eleição de prefeito. Ao me apresentar para a disputa, vou ao encontro de um chamamento de minha própria consciência (enfim, um pouco de sinceridade): quero ser prefeito de São Paulo (a sinceridade durou pouco; ele quer mesmo é ser presidente da República) porque acho que esta imensa cidade cobra o que de melhor o nosso partido e os nossos parceiros têm a lhe dar nesta jornada: experiência (em privatizar o bem público, principalmente), capacidade para inovar (dependendo do quê, é bem verdade), fazer acontecer (o que será isso?), unindo os esforços da prefeitura e do governo do Estado.
Agradeço às milhares de manifestações de apoio e apreço que recebi nestes três últimos dias (o desespero entre os tucanos aumentava). Respeitamos, como sempre, os nossos adversários (essa doeu!), mas temos clareza de que o nosso partido e os nossos aliados representam o melhor para esta cidade (uma opinião que não resiste aos fatos).
Fui favorável e sempre estimulei as prévias para a escolha do nosso candidato (ai, ai!) e a elas me submeto se o partido considerar tempestiva a minha inscrição. E, se escolhido, tenham certeza, saberei honrar a indicação e, posteriormente, o mandato (da outra vez até registrou a promessa de ficar até o fim em cartório...), fazendo uma administração municipal digna dos nossos sonhos (ainda bem que explicitou: dos sonhos deles, que são bem diferentes dos nossos), dos nossos valores (estamos perdidos!), dos nossos antecedentes (o livro "Privataria Tucana" diz bem quais são)  e daquilo que os paulistanos esperam (a maioria, com certeza, quer ele bem longe da Prefeitura).
Contem comigo. Saudações tucanas, José Serra"

Espremendo todas as orações, traduzindo todas as entrelinhas, o conteúdo da carta é bem simples: se perdermos São Paulo, estamos f....!

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Quem manipula quem?



É interessante essa relação entre Serra e Kassab, o criador e a criatura, o artista e a marionete.
Ela me intriga, principalmente porque, quando todo mundo esperava que o boneco tivesse criado vida própria, eis que ele parece ter uma recaída que o faz voltar a se mover apenas sob o comando de seu mestre, aquele demiurgo de feições tristonhas, olheiras profundas, calvície pronunciada e palidez incriminadora.
Mas tudo pode ser apenas um jogo de espelhos.
O mamulengo desengonçado - quem não se lembra do Kassabão que nos espreitava pelas esquinas da metrópole? - mostrou que seus passos podem, quando querem, levá-lo em direção ao pote de ouro, não o intangível que fica no fim do arco-íris, mas aquele negociado nas mais finas mercearias.
É difícil, muito difícil mesmo, saber quem controla quem, qual fio invisível se presta a mexer os lábios de um ou a boca do outro, as mãos delicadas do alcaide ou as sempre higiênicas do eterno candidato a tudo que se preza.
Triste missão para os nossos estudiosos e sapientes cientistas políticos que abundam nas páginas dos jornalões, nos horários nobres ou nem tanto das televisões abertas e fechadas que fazem a festa da informação - livre! - deste glorioso país.
E como tristeza não paga imposto, como muita água há de rolar sob a frágil pinguela que liga as margens  direita e esquerda do caudaloso rio da democracia, nada melhor que buscar na sabedoria popular algo que encerre essa questão, profunda e inescrutável, envolvendo manipuladores e títeres.
Só uma boa anedota para esclarecer de vez esse dilema. Pinçada na maior fonte, inesgotável fonte, de conhecimento - para o bem ou para o mal - que existe, esta nossa internet.
Na íntegra, via Google, para aqueles que já conhecem relembrá-la, e para o deleite dos marinheiros de primeira viagem, eis aí a imbatível piada da
A loira e o ventríloquo
Durante uma apresentação, um ventríloquo estava contando todo o seu repertório de piadas de loiras com o seu marionete Zequinha. 
De repente uma loiraça se levantou e começou a discursar:
 - Já ouvi o suficiente das suas piadas denegrindo as loiras, seu idiota. O que o faz pensar que pode estereotipar as mulheres desse jeito? O que tem a ver os atributos físicos de uma pessoa com o seu valor como ser humano? São caras como você que impedem que mulheres como eu sejam respeitadas no trabalho e na comunidade, que nos impedem de alcançar o nosso pleno potencial como pessoa. Por sua causa e por causa das pessoas da sua laia, perpetua-se a discriminação, não só contra as loiras, mas contra as mulheres em geral...tudo em nome desse pseudo-humor! 
Perplexo e envergonhado, o ventríloquo começou a se desculpar: 
 - Minha senhora, não foi essa a minha intenção... 
 E a loira, em tom raivoso, interrompe: 
 - Fique fora disso, meu senhor! Eu estou falando com esse rapazinho desprezível que está sentado no seu colo!

Só uma brincadeira


O secretário de Cultura do Estado de São Paulo, Andrea Matarazzo, filiado ao PSDB, certa vez quis ser prefeito da capital. Justo direito. Certamente achou que tinha todas as condições de governar os paulistanos. Para tanto, começou a trabalhar a sua pré-candidatura, a visitar os simpatizantes, a arranjar cabos eleitorais, montou até um blog para mostrar as suas ideias, os apoios que vinha recebendo, essas coisas todas.
Seu partido, o PSDB, como outros três políticos também mostraram a disposição de concorrer ao cargo, resolveu que a indicação do candidato seria por meio de uma prévia, uma eleição na qual os filiados seriam os eleitores.
Tudo certo, tudo democrático.
Mas tudo de mentirinha.
Andrea, o sobrinho-neto do conde Francesco Matarazzo, estava só fingindo, brincando num jogo de faz-de-conta cujo único objetivo era preparar o lugar para a entrada triunfal de seu chefe em cena.
"Serra foi o melhor prefeito que São Paulo teve", disse Andrea, o sobrinho-neto, ao justificar a retirada de sua pré-candidatura e o apoio incondicional ao chefe.
O melhor prefeito...
Serra ficou menos de dois anos no cargo, depois de jurar, de assinar declaração registrada em cartório, que terminaria o mandato.
Sua administração tem um única obra de destaque: Gilberto Kassab, que era o seu vice e recebeu a prefeitura no colo.
Kassab, que disputa com Celso Pitta o título de prefeito mais impopular da história de São Paulo.
O deputado Bruno Covas, também sobrinho de outra figura pública, o ex-governador Mário Covas, também quis ser prefeito de São Paulo, e como Andrea, desistiu assim que Serra anunciou que vai ser candidato.
Mesmo com essas duas desistências, a tal prévia está mantida. Pode ser feita neste domingo, dia 4, ou em qualquer outro dia.
Tanto faz.
Como a pré-candidatura de Andrea e de Bruno, é só de brincadeira, só para sair nos jornais.
As únicas pessoas que a levam a sério são os outros dois pré-candidatos, Ricardo Tripoli e José Aníbal.
Dois tolos, incapazes de ver que o PSDB escancara agora o que já é faz algum tempo: uma reunião de meia dúzia de caciques emplumados, cujo único objetivo é obter mais plumas para dividir entre si.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Guerras e mais guerras


Ainda há alguma esperança para a raça humana, mas não há dúvida de que os homens estão fazendo o que podem para pôr fim aos seus dias neste minúsculo planeta. Está lá no site da Deutsch Welle, o serviço de informação da Alemanha: especialistas em pesquisa de conflitos fizeram um balanço dos conflitos mais violentos no mundo, com um resultado alarmante: no espaço de um ano, o número de guerras mais que triplicou.
Segundo informou Natalie Hoffmann, do Instituto de Pesquisa Internacional de Conflitos de Heidelberg (HIIK, na sigla em alemão), é impossível detectar uma tendência em direção a um mundo mais pacífico.
Em vez disso, os números do ano passado mostram justamente o oposto: foram os mais altos desde 1945. Os pesquisadores detectaram 20 guerras e 166 "conflitos desenvolvidos de forma violenta" no mundo. Além disso, o instituto alemão projeta um acréscimo nos próximos meses. Em 2010, haviam sido registradas seis guerras e 161 conflitos violentos.
Desde 1991, o HIIK divulga o "barômetro mundial de conflitos", com o fim de fornecer uma noção total das crises, conflitos e guerras em curso. Entre as hostilidades que resultaram em guerra, no ano passado, os pesquisadores incluem a situação no Iêmen, Líbia e na Síria.
Seguem classificados como "guerra", as ofensivas das Forças Armadas paquistanesas contra os talibãs, os embates entre o governo afegão e os talibãs e a violência no Iraque. Em todos esses casos, houve milhares de vítimas fatais. O instituto também considerou como guerra a luta entre o governo do México e os cartéis das drogas. Tratam-se, em sua maioria, de conflitos internos, cujos principais palcos são o Oriente Médio e a África, observou o presidente do HIIK, Christoph Trinn. Ele acrescentou que sua equipe verifica "um grande potencial para uma escalada" na violência.
Três novas guerras relacionadas com a chamada "Primavera Árabe" se estabeleceram rapidamente em 2011: no Iêmen, na Síria e na Líbia. Houve ainda um acirramento dos conflitos já existentes na Nigéria e no Sudão. Segundo a estimativa do instituto alemão, o maior celeiro de violência na Europa é a região do Cáucaso. Lá, foram detectados 19 conflitos e uma "guerra delimitada". Como único conflito binacional do continente, registrou-se o que se desenrola entre a Armênia e o Azerbaijão.
Em meio a tudo isso, há as notícias alarmantes de que Israel está prestes a promover um ataque contra o Irã, o que poderia elevar de forma imprevisivel  a temperatura naquela região problemática.
E ainda há quem critique o governo brasileiro por manter, há anos, a posição de que a única forma de resolver os conflitos é a negociação.
Nestes tempos em que as potências sofrem as consequências de uma profunda crise econômica, em que o radicalismo religioso ganha corpo e, sobretudo, em que as principais lideranças titubeiam em dar uma resposta efetiva aos graves problemas que se abatem sobre o mundo, é ótimo saber que ainda existem vozes, como a do Brasil, que apelam para a razão.

Velho comunista

Aloysio: Pinheirinho é coisa de comunista    (José Cruz/ABr)

É admirável o empenho do senador tucano Aloysio Nunes Ferreira em defender o seu partido, o governador paulista e todos os envolvidos na destruição do bairro do Pinheirinho, em São José dos Campos, sob a desculpa de se promover no local uma desocupação ordenada pela Justiça.
O episódio ganhou repercussão internacional não só pela violência com que a ordem judicial foi cumprida, mas também pela crueldade da determinação: afinal, milhares de pessoas foram expulsas de suas casas humildes sem que os responsáveis pela medida tivessem a menor noção do que iriam fazer depois com elas.
Sob qualquer aspecto, Pinheirinho é um absurdo, uma barbaridade.
O senador Aloysio, porém, a julgar pela sua atuação na Comissão de Direitos Humanos do Senado, está mais preocupado com um provável uso político do episódio contra o seu partido do que com o destino das vidas dos milhares de ex-moradores do Pinheirinho e das iniquidades a que foram submetidos pela Polícia Militar e seus comparsas.
Para ele, a culpa de todas aquelas cenas de destruição e desespero foi de "militantes" de partidos radicais que tentaram, na suas palavras, promover ali uma "pseudorrevolução".
O senador Aloysio, hoje um incansável defensor da ordem e da propriedade, há anos atendia pelo nome de "Mateus", codinome com que participou das atividades, na ditadura militar, da Aliança Libertadora Nacional, a ALN, organização guerrilheira, ao lado de Carlos Marighella e Joaquim Câmara Ferreira. Em 1968 até ajudou nos assaltos a um trem e a um carro-forte. Fora do Brasil, fez carreira na ALN até voltar ao Brasil, anistiado, para recomeçar sua carreira política, dessa vez sem armas na mão, em organizações bem menos radicais, como o PMDB de Franco Montoro ou o PSDB de José Serra.
Não se sabe se o senador Aloysio ainda guarda em seu íntimo a chama revolucionária.
Pelo visto no embate verbal que teve com o senador Eduardo Suplicy na Comissão de Direitos Humanos é mais provável que ele tenha, infelizmente, seguido o caminho de tantos outros jovens que, de tão inconformados com as injustiças do mundo, simplesmente resolvem parar de lutar contra elas.
No seu caso, além disso, parece que o desencanto de fazer parte dessa batalha perdida foi tão grande que ele não só desertou de sua tropa como se passou para o inimigo.
Mas esse pode ter sido apenas um movimento tático, uma manobra para despistar os adversários.
É que esses velhos comunistas são capazes de tudo.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Tratamento preferencial


Se alguém tinha alguma dúvida sobre como a polícia e a justiça tratam pobres e ricos no Brasil, o caso da garotinha de 3 anos morta depois de ser atingida por um jet ski na praia de Guaratuba, no sábado, esclarece muita coisa.
O suspeito de matar a menina, um adolescente de 13 anos, é de família de posses, e ele estava hospedado na mansão do tio, empresário e político de Suzano. Embora todos saibam o nome e endereço dos envolvidos, seis dias depois do atropelamento, o moleque ainda não foi ouvido pela polícia, assim como seus pais, seus tios, o dono do jet ski, todos enfim, que podem ajudar a esclarecer o que ocorreu.
"Não há nenhuma intenção da defesa de criar qualquer embaraço à apuração da verdade. Vamos trazer o garoto para ser ouvido, mas exijo o respeito que a lei dá ao menor. Esse assédio em submeter o garoto de 13 a uma situação constrangedora é absolutamente inviável", disse o advogado do adolescente, Maurimar Bosco Chiasso.
Ele tem razão em parte. Claro que a imprensa vai cair em cima do menino, claro que é preciso respeitar o Estatuto da Criança e do Adolescente, claro que ninguém quer que ele seja apontado como culpado a priori.
Mas por que esse privilégio de prestar depoimento quando quiser? Por que ele e todos os outros envolvidos não são simplesmente intimados a depor quando as autoridades acharem mais conveniente?
Por essas e por outras é que, a cada dia, polícia e justiça mais se desmoralizam no país.
É sempre assim: se o suspeito for rico, ou poderoso, ou influente, ele terá todas as facilidades do mundo, o tempo vai  se arrastar, ele será tratado com uma deferência que deveria ser estendida a todos, chamado de doutor e coisa e tal. Mas se for um pé de chinelo, coitado, cairá sobre ele todo o peso da justiça...
Esse caso da menininha é revoltante também porque revela ainda como o ser humano pode ser a mais desprezível das criaturas: depois do acidente, não só o garoto fugiu, mas, segundo dizem, toda a família que o hospedava foi embora da mansão num helicóptero! Ninguém ficou para prestar ajuda à garotinha ou aos seus familiares! Não só não fizeram nada para ajudar aqueles pobres coitados que viram o fim de semana se transformar na maior tragédia de suas vidas, como fugiram do local, numa tentativa canhestra de resolver o problema, fingir que nada havia acontecido.
Agora, resta apenas esperar o adolescente e seus pais se dignarem a depor no inquérito.
Fico só imaginando as coisas que eles vão contar ao delegado - certamente um sujeito muito educado, todo ouvidos, inteiramente dedicado ao seu serviço.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O dilema de Serra

Serra e Alckmin: numa sinuca de bico (José Cruz/ABr)

É um paradoxo: José Serra pode vencer a eleição paulistana e mesmo assim sair dela enfraquecido.
O ex-governador tucano, uma das figuras de proa da direita tupiniquim, deve estar vivendo momentos de grande angústia pessoal. O sai não sai candidato desses últimos dias tem mesmo jeito de não ser um mero jogo de cena para atrair os holofotes para si: Serra está mesmo na posição que o populacho chama de "sinuca de bico".
A explicação para o seu dilema é simples: se decidir não sair candidato para continuar seu trabalho de bastidor para concorrer, em 2014, novamente à Presidência, que é o que mais deseja, corre o sério risco de ficar esquecido pelos eleitores; se escolher disputar a prefeitura e perder, será o desastre absoluto; e se ganhar, não poderá, por motivos óbvios, abandonar o barco, como fez recentemente - o eleitor é capaz de perdoar uma traição, mas duas...
Se o problema de Serra já é suficiente para que ele perca o pouco de cabelo que lhe restou, nem se fala então do PSDB paulista.
O partido, teoricamente controlado pelo governador Geraldo Alckmin, enfrenta uma crise seríssima de falta de rumos, de quadros, e até de convicções, pois sabe apenas quem é o seu adversário, seu inimigo, mas não tem a menor ideia de quem sejam os seus amigos - o DEM minguou para a mais completa inexpressividade no Estado, o recém-fundado PDS visita variados balcões em busca da melhor oferta.
O vexame só não é mais completo porque a imprensa insiste em embrulhar as notícias do campo tucano com os papéis mais coloridos e vistosos que existem, para disfarçar um conteúdo ordinário e sem valor.
No lado de lá, petistas e peemedebistas observam o movimento ainda perplexos, quase paralisados de surpresa. Certamente, não esperavam por tanta confusão, aguardavam um cenário mais tranquilo.
Lula, com sua intuição política, tentou uma jogada arriscada, que foi aproximar o PT do PSD, para repetir a fórmula de uma coalisão com a centro-direita que o levou duas vezes à Presidência. Mas tudo indica que sua jogada falhou. Seu plano B é convencer o presidente nacional do PMDB, Michel Temer, vice-presidente da República, a formar uma aliança com o PT nessas eleições. Lula acha que, se Serra sair, a eleição ficará polarizada entre PT e PSDB, sem chances para o PMDB.
Temer pode até topar, o difícil será dobrar o candidato do partido, o deputado federal Gabriel Chalita, que realmente acredita que tem chance de se tornar o próximo prefeito paulistano.
O quadro sucessório de São Paulo será definido dentro de pouco tempo. E a partir daí começará uma campanha que tem todos os ingredientes para se tornar uma das batalhas mais renhidas dos últimos tempos, pois marcará, no lado tucano, a própria sobrevivência do partido como peça relevante da política nacional, e no campo petista, um capítulo importante no seu desejo de expandir e prorrogar seu projeto de poder.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O que o povo gosta na TV


Em busca de pagamento em dia e salário maior, o programa Pânico na TV migrou da Rede TV!, que passa por sérias dificuldades financeiras, para a Band.
Com a aquisição, a emissora reforça a sua programação humorística, que já contava com o notório CQC e com o reality show Mulheres Ricas.
Não é pouco.
Os diretores da Band devem ter se esforçado muito para reunir tantos talentos. Têm motivos para estar exultantes.
Como se sabe, a televisão brasileira - aberta ou fechada -, a pretexto de conseguir somar pontos no Ibope, se esmera em oferecer ao público toda sorte de porcarias que meia dúzia de gênios acredita ser o que o povo gosta.
É uma competição feroz em busca não do melhor, mas do pior.
Nesse sentido, o tal Pânico tem tudo para se destacar.
É grosseiro e ofensivo, seu humor lembra uma criança mal comportada, seus personagens parecem ter a idade mental de pré-adolescentes.
A seu favor está apenas a sua audiência, que sustentou durante vários anos a Rede TV!
Mas se pensarmos bem, o número de pessoas que o ignora é dezenas de vezes maior que aquele que o assiste.
Não que as alternativas sejam lá muito melhores.
O fato é, porém, um indicativo de que nem tudo está perdido e que o público, majoritariamente, rejeita a baixaria.
Algum dia os gênios da nossa TV vão perceber isso.
E oferecer ao distinto telespectador algo mais que as bobagens repetitivas desses programas "que o povo gosta".

domingo, 19 de fevereiro de 2012

A fúria do João


Acabo de ler a biografia de um grande brasileiro, "João Saldanha - Uma Vida em Jogo", de André Iki Siqueira (Companhia Editora Nacional, 551 páginas), que ganhei de amigos. Saldanha, para os mais novos que talvez não o conheçam, foi jornalista esportivo, treinador do Botafogo e da seleção brasileira, e um tenaz e obediente militante comunista - essa talvez seja a sua faceta menos conhecida.
Era, segundo o relato de seus inúmeros amigos, um contador de casos extraordinário. Muitas vezes acrescentava detalhes que só havia vivido em sua imaginação.
Era, também, um comunicador, seja no rádio ou televisão, brilhante, parecia que tinha nascido para aquilo. Seus comentários de futebol - lembro de alguns na transmissão por TV da Copa de 70 - iam direto ao ponto, tinham a concisão e a objetividade pouco vistas nos profissionais de hoje.
Saldanha discutia o jogo com a maior naturalidade possível. Podia fazer isso, pois entendia do negócio. A seleção tricampeã de 70, dirigida pelo amigo Zagallo, foi montada quase toda por ele, que a levou a uma classificação memorável, depois do fracasso nos campos da Inglaterra, em 66. Eram as "feras" do Saldanha, um contraponto aos "canarinhos" de até então.
Polemista por natureza, acho que Saldanha teria se dado muito bem se estivesse vivo nestes tempos de internet. Bateria com folga esses sujeitos que acham que debater é xingar o oponente, que trocam a defesa de pontos de vista por acusações vagas, que, sem argumentos, sabem apenas caluniar e injuriar o adversário.
Comunista de carteirinha, Saldanha teve em Nelson Rodrigues, seu oposto ideológico, um de seus maiores amigos, quase um irmão.
É comovente a crônica "João Sem Medo", que Rodrigues escreveu no "Globo" para saudar a boa campanha que o amigo fazia no comando da seleção:
"Amigos, não acreditem, pelo amor de Deus, que as qualidades influem no amor. Influem pouquíssimo ou nada.
Por exemplo: o meu caro João Saldanha. Tenho-lhe um afeto de irmão..Quebrei minhas lanças para que a CBD o escolhesse. João Havelange e Antônio do Passo tiveram um momento de lucidez ou mesmo de gênio, e o chamaram. Ao ler a notícia, berrei: 'É o técnico ideal!' Um amigo meu, bem-pensante insuportável, veio-me perguntar: 'Você acha que o João tem as qualidades necessárias?' Respondi: 'Não sei se tem as qualidades. Mas afirmo que tem os defeitos necessários.' E, realmente, o querido Saldanha possui defeitos luminosíssimos."
Pois é, Nelson Rodrigues, outro brasileiro genial, enxergava os "defeitos" de Saldanha como virtudes. "É um furioso", escreveu nessa sua crônica famosa.
Nada mais certo que ver na fúria com que Saldanha investia contra a corrupção, contra as injustiças, contra as safadezas das autoridades, contra as mazelas do capitalismo, algo bom, depurador, libertador.
O episódio em que mandou um recado ao ditador da época se tornou inesquecível. Médici queria que Dario, o Dadá Maravilha, fosse convocado para a seleção. Médici podia tudo, menos dobrar o João Sem Medo: "O senhor organiza o seu ministério, e eu organizo o meu time", foi a sua resposta ao mais sinistro chefe de Estado que o Brasil já teve.
Hoje, com tais "defeitos", Saldanha seria imbatível nas duas áreas em que atuou.
Como jornalista, seria um exemplo de que a profissão é muito mais do que a transcrição de falas de autoridades ou a defesa incondicional da oligarquia.
Como militante político, estou certo que traria lucidez a um embate que, muitas vezes, se esquece de incluir o ser humano como elemento primordial de qualquer ação.
O João Sem Medo que sai da biografia escrita por André Iki Siqueira é mais que um mito, é um homem de carne e osso, um cidadão, acima de tudo. E é isso que o faz grande.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Em defesa do jornalismo


Se existe um jornalista brasileiro independente, ele se chama Lúcio Flávio Pinto, que aparece na foto acima.
Paraense, vive em sua terra, onde edita há vários anos, com muita dificuldade, o Jornal Pessoal, uma pedra no sapato dos poderosos, das pessoas que atentam contra a sua amada Amazônia.
Pois Lúcio Flávio tem esse defeito: pratica o jornalismo. E por isso sofre as consequências de revelar ao público as verdades que muitos tentam esconder a todo custo.
Lúcio Flávio, depois de incontáveis batalhas, agora está pedindo ajuda aos seus amigos e admiradores - me incluo nessa última categoria.
Não é nada demais, apenas divulgar uma nota que escreveu contando um de seus inumeráveis embates contra os poderosos. Infelizmente, neste caso, com um triste fim para ele e para todos os que acreditam que haja Justiça neste país.
Aí vai então a mensagem de Lúcio Flávio, um grito contra a prepotência e a injustiça:

O Grileiro vencerá?


Em 1999 escrevi uma matéria no meu Jornal Pessoal denunciando a grilagem de terras praticada pelo empresário Cecílio do Rego Almeida, dono da Construtora C. R. Almeida, uma das maiores empreiteiras do país, com sede em Curitiba, no Paraná.
Sem qualquer inibição, ele recorreu a vários ardis para se apropriar de quase cinco milhões de hectares de terras no rico vale do rio Xingu, no Pará, onde ainda subsiste a maior floresta nativa do Estado, na margem direita do rio Amazonas, além de minérios e outros recursos naturais. Onde também está sendo construída a hidrelétrica de Belo Monte, para ser a maior do país e a terceira do mundo.
Os 5 milhões de hectares já constituem território bastante para abrigar um país, mas a ambição podia levar o empresário a se apossar de área ainda maior, de 7 milhões de hectares, o equivalente a 8% de todo o Pará, o segundo maior Estado da federação brasileira. Se fosse um Estado, a "Ceciliolândia" seria o 21º maior do Brasil.
Em 1996, na condição de cidadão, ajudei a preparar uma ação de anulação e cancelamento dos registros das terras usurpadas por C. R. Almeida, com a cumplicidade da titular do cartório de registro de imóveis de Altamira e a ajuda de advogados inescrupulosos. A ação foi recebida e todos advertidos de que aquelas terras não podiam ser comercializadas, por estarem sub-judice, passíveis de nulidade.
Os herdeiros do grileiro podem continuar na posse e no usufruto da pilhagem, apesar dessa decisão, porque a grilagem recebeu decisão favorável de dois desembargadores do Tribunal de Justiça do Estado. Deve-se salientar que essas foram as únicas decisões favoráveis ao grileiro.
Com o acúmulo de informações sobre o estelionato fundiário, os órgãos públicos ligados à questão foram se manifestando e tomando iniciativas contra o golpe. O próprio poder judiciário estadual interveio no cartório de Altamira e demitiu todos os serventuários que ali trabalhavam, inclusive a escrivã titular, por justa causa.
Todos os que o empresário processou na comarca de São Paulo foram absolvidos. O juiz observou que essas pessoas, ao invés de serem punidas, mereciam era homenagens por estarem defendendo o patrimônio público.
A justiça de São Paulo foi muito mais atenta à defesa da verdade e da integridade de um bem público ameaçada por um autêntico "pirata fundiário", do que a justiça do Pará, com jurisdição sobre o território esbulhado. C. R. Almeida considerou ofensiva à sua dignidade moral a expressão, "pirata fundiário",  e as duas instâncias da justiça paraense sacramentaram a sua vontade.
Mesmo tendo provado tudo que afirmei fui condenado. A cabulosa sentença de 1º grau foi confirmada pelo tribunal, embora a ação tenha sido abandonada desde que Cecílio do Rego Almeida morreu, em 2008.
Depois de enfrentar todas as dificuldades possíveis, meus recursos finalmente subiram a Brasília em dezembro do ano passado. O recurso especial seguiu para o presidente do Superior Tribunal de Justiça, ministro Ari Pargendler, graças ao agravo de instrumento que impetrei (o Tribunal do Pará rejeitou o primeiro agravo; sobre o segundo já nada mais podia fazer).
Mas o presidente do STJ, em despacho do último dia 7, negou seguimento ao recurso especial. Alegou erros formais na formação do agravo: "falta cópia do inteiro teor do acórdão recorrido, do inteiro teor do acórdão proferido nos embargos de declaração e do comprovante do pagamento das custas do recurso especial e do porte de retorno e remessa dos autos".
A falta de todos os documentos apontada pelo presidente do STJ me causou enorme surpresa. Vou tentar esclarecer a situação, sabendo das minhas limitações. Não tenho dinheiro para sustentar uma representação desse porte. Muito menos para arcar com a indenização.
Desde 1992 já fui processado 33 vezes. Nenhum dos autores exerceu o legítimo direito de defesa. O Jornal Pessoal reproduz todas as cartas que recebe, mesmo as ofensivas, na íntegra. Todos foram diretamente à justiça, certos de contarem com a cumplicidade daquele tipo de toga que a valente ministra Eliana Calmon, Corregedora Nacional de Justiça, disse esconder bandidos, para me atar a essa rocha de suplícios, que, às vezes, me faz sentir no papel de um Prometeu amazônico.
Apesar de todas essas ações e do martírio que elas criaram na minha vida nestes últimos 20 anos, mantenho meu compromisso com a verdade, com o interesse público e com uma melhor sorte para a Amazônia, onde nasci. Não gostaria que meus filhos e netos (e todos os filhos e netos do Brasil) se deparassem com espetáculos tão degradantes, como o que vi: milhares de toras de madeira de lei, incluindo o mogno, ameaçado de ser extinto nas florestas nativas amazônicas, nas quais era abundante, sendo arrastadas em jangadas pelos rios por piratas fundiários, como o extinto Cecílio do Rego Almeida.
Depois de ter sofrido todo tipo de violência, inclusive a agressão física, sei o que me espera. Mas não desistirei de fazer aquilo que me compete: jornalismo. Algo que os poderes, sobretudo o judiciário do Pará, querem ver extinto, se não puder ser domesticado conforme os interesses dos donos da voz pública.
Decidi escrever esta nota não para pressionar alguém. Não quero extrapolar dos meus direitos. Decisão judicial cumpre-se ou dela se recorre. Se tantos erros formais foram realmente cometidos no preparo do agravo, o que me surpreendeu e causou perplexidade, paciência: vou pagar por um erro que impedirá o julgador de apreciar todo meu extenso e profundo direito, demonstrado à exaustão nas centenas de páginas dos autos do processo.
Terei que ir atrás da solidariedade dos meus leitores e dos que me apoiam para enfrentar mais um momento difícil na minha carreira de jornalista, com quase meio século de duração. Espero contar com a atenção das pessoas que ainda não desistiram de se empenhar por um país decente.


Belém (PA), 11 de fevereiro de 2012


LÚCIO FLÁVIO PINTO
Editor do Jornal Pessoal

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Com estádios, sem seleção


Os estádios estão sendo construídos, as obras da chamada "mobilidade urbana", embora mais atrasadas, vão sair, os aeroportos serão reformados a tempo - ninguém mais duvida que o país estará pronto em 2014 para receber os visitantes e as seleções da Copa do Mundo de futebol.
O nosso problema é outro.
Não temos time. Nem técnico.
Está certo que o próximo adversário, a Bósnia Herzegovina, não dá medo em ninguém, mas os nomes da lista de convocados para o jogo mostram que alguma coisa anda muito errada com o futebol brasileiro.
Não me lembro de uma seleção com tantos jogadores medíocres.
Claro que é impossível reunir hoje um time só de craques, mas que coleção de "mais ou menos" o sr. Mano Menezes reuniu!
Fico imaginando como será penoso para o torcedor brasileiro assistir aos jogos na Copa com um time desses. Com sorte, com a ajuda dos árbitros, com o apoio da torcida, é possível que essa seleção chegue até as quartas-de-final, quando muito.
Dizem que Ricardo Teixeira está com os dias contados à frente da Confederação Brasileira de Futebol. Se isso for verdade, se o cartola realmente deixar o comando da CBF, pode ser que seu sucessor, seja lá quem for, enxergue o óbvio, ou seja, que uma comissão técnica que convoca jogadores como Elias, Fernandinho, Sandro e Jonas sofre de algum problema sério.
Se neste país tivéssemos uma imprensa esportiva e não torcedores travestidos de jornalistas talvez fosse possível mostrar às pessoas que do jeito que as coisas estão, o fracasso será inevitável.
Mas o "se" não existe no futebol.
O jeito então é esperar que o espírito de um Didi baixe no Ganso, que Hernanes tenha um dia de Gerson, que Ronaldinho Gaúcho volte no tempo e seja novamente o melhor do mundo.
Se isso acontecer, teremos uma seleção de verdade.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Rebanho global


É difícil entender por que um país tão poderoso como os Estados Unidos ainda têm de fazer tudo o que fazem para aumentar ainda mais o seu poder.
Os Estados Unidos são, de longe, a nação mais influente de todo o mundo. E não estou falando da força de sua diplomacia ou de seu exército ou mesmo de suas empresas e bancos.
Foi só uma cantora popular, aliás uma grande cantora, morrer misteriosamente num hotel luxuoso, para que ela virasse matéria de capa em todos os jornais da Terra.
É sempre assim que acontece, pois os Estados Unidos dominam a informação mundial, dão as cartas na indústria de entretenimento, impõem a sua cultura e arte, sem dó nem piedade, para quem quer que seja.
Nem precisam de armas para dominar o mundo.
Mesmo assim, eles insistem na violência. Parece que ela faz parte do american way of life, que não podem viver sem jogar umas bombas nos outros, sem dar uns tiros nuns pobres coitados, como se ainda estivessem no tempo do faroeste.
O caso da Síria, por exemplo, ilustra bem isso - como o do Iraque, do Afeganistão, de Cuba, da Líbia, entre tantos outros.
Ninguém nega que a Síria seja um Estado policial, controlado por mão de ferro por Bashar al-Assad e seu partido Baaz. Mas é muita inocência ou canalhice apresentar à opinião pública, como os meios de informação ocidentais vêm fazendo há meses, o que se passa naquele país como um "massacre" que as forças governamentais promovem contra uns coitadinhos da oposição.
As notícias que aparecem por aqui têm apenas uma fonte - a oposição. Só isso seria suficiente para desacreditar as informações. Mesmo assim, de vez em quando a gente lê que as vítimas também são do outro lado, do malvado governo, e que volta e meia explode um carro-bomba de algum terrorista, matando dezenas de civis inocentes.
O roteiro traçado pelos Estados Unidos para a Síria é igualzinho a vários tantos outros anteriores. Não basta desestabilizar o regime, financiando com dinheiro e armas a oposição, é preciso demonizá-lo. E aí entra em cena o fabuloso arsenal de propaganda, maquiado de informação, que os americanos espalharam por todo o mundo.
É impressionante como essa máquina de fabricar mentiras funciona bem!
Saddam Hussein, que era amigo da América, virou um perigosíssimo facínora em questão de meses.
O Irã, com toda a sua cultura milenar, não passa de um território habitado por fanáticos religiosos.
Cuba é uma ilha-presídio controlada pelas mãos sangrentas de dois cruéis irmãos.
A Venezuela se desviou da plena democracia para ficar sob o tacão de um ditador mitônamo.
A Líbia finalmente se livrou de um bufão sanguinário e ruma célere ao regime de plena liberdade.
A Arábia Saudita é um paraíso.
E por aí vai.
Até mesmo quem está vacinado contra essa epidemia de falsidades às vezes vê algumas fissuras em sua couraça de imunidade.
Por essa e por outras é que a internet é a coisa mais importante que já apareceu no mundo contemporâneo. Ela pode libertar o mundo desse controle que os americanos exercem sobre tudo, pode realmente democratizar a informação e fazer as pessoas, se não todas, mas uma grande parte delas, pensar por si mesmas, e não agir como se fizessem parte de um grande rebanho de descerebrados.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Haddad e Chalita: quem é quem?


Nesse andar da carruagem é bem provável que a disputa pela prefeitura paulistana se polarize entre PT e PMDB. Será uma batalha interessante, entre dois candidatos que vieram da área da educação, um ex-ministro dos governos Lula e Dilma, e o outro, ex-secretário de Geraldo Alckmin.
As coincidências entre Fernando Haddad e Gabriel Chalita, se for relevada a pouca idade de ambos, param, porém, por aí.
Ideologicamente os dois são bem diferentes.
Haddad é um socialista, sempre atuou à esquerda do espectro político; Chalita é um conservador que a vida toda se escudou na igreja católica e em suas ligações afetivas com gente da elite para ascender profissionalmente.
Haddad promoveu uma revolução no ensino brasileiro, com o Enem, o Prouni e o SiSu, e por isso foi bombardeado pela imprensa e empresários do setor; Chalita gastou seu tempo à frente dos negócios da educação viajando por São Paulo para dar palestras e distribuir livros de sua autoria aos professores, a bordo de aviões e helicópteros pagos pelo contribuinte - sem licitação.
Chalita leva uma grande vantagem sobre Haddad no campo da experiência parlamentar. Foi vereador em São Paulo e é deputado federal. Entrou e saiu de várias agremiações - PDT, PSDB, PSB e agora PMDB -, numa prova de que dá pouca importância a programas partidários. Procura estar de bem com todos - seu único desafeto público é José Serra, que hoje é personagem irrelevante na política brasileira. Está agora sob a tutela de Michel Temer, vice-presidente da República e homem forte do PMDB nacional.
Haddad, pode-se dizer, é uma criação de Lula. Sua candidatura a prefeito paulistano foi idealizada e construída pelo ex-presidente, que afastou a senadora e ex-prefeita Marta Suplicy da disputa. Ressentida, ela ainda não se dispôs, publicamente, a trabalhar pela candidatura do ex-ministro. Marta, porém, já há algum tempo atua praticamente sozinha no PT paulista, e sua ausência deve alterar pouco os rumos da campanha de Haddad. O verdadeiro cabo eleitoral é mesmo Lula.
No perfil biográfico de Haddad e Chalita há outro fato que chama a atenção: os dois se dedicam às letras.
Haddad é um acadêmico, suas obras são pouco divulgadas, pouco comentadas.
Chalita, porém, é um fenômeno: aos 48 anos de idade, escreveu mais de 60 livros, o primeiro com 12 anos! Ele discorre sobre tudo: filosofia, religião, política, sociologia, psicologia... E das mais variadas formas: ensaios, ficção, cartas, diálogos, peças teatrais...
Uma produção tão abundante tem chamado a atenção de todo o mundo. Como é possível uma pessoa com tantos afazeres - além de deputado, Chalita é professor universitário, doutor em filosofia e direito - encontrar tempo livre para produzir essa quantidade de livros?
Na sua imensa modéstia, Chalita explicou que muitos dos seus livros são destinados ao público infantil, com pouco texto e muitas ilustrações, os quais, disse, foram escritos nuns "quinze minutos". Houve até mesmo o caso de um que foi feito durante uma viagem na ponte-aérea Rio-São Paulo. Coisas de gênio.
Se Haddad e Chalita, por uma dessas ironias do destino, passarem para o segundo turno, será a primeira vez que o eleitor paulistano terá a oportunidade de se ver diante de dois candidatos tão iguais na forma quanto diferentes no conteúdo.
Vai ser uma confusão só.
Alguém vai ter de explicar às pessoas quem é quem, quem representa o quê, quem é o novo e quem é o velho, quem é autêntico e quem é uma fraude, quem é honesto e quem é picareta.
Isso vai dar um trabalho danado para os tais marqueteiros.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Privatização e liquidação

Aeroporto de Brasília: concessão, não liquidação (Foto: Elza Fiúza/ABr)
Essa conversa toda sobre privatização que veio à tona depois do leilão que concedeu os aeroportos de Viracopos, Guarulhos e Brasília a grupos empresariais, não passa de mais uma tentativa bem fraquinha de fustigar o governo do PT. Uma bobagem sem sentido, pois o governo Lula já havia feito a mesma coisa com várias rodovias federais.
Esse pessoal que está agora criticando o governo, que diz que o PT traiu os seus princípios, tem mesmo é uma baita de uma inveja do sucesso que foi a licitação dos aeroportos.
Claro que o PT que governa o país desde 2003 não é mesmo de sua fundação em 1980. O partido mudou porque o mundo mudou, o Brasil mudou, porque ganhou a eleição presidencial e ficou com a responsabilidade de criar um verdadeiro mercado de consumo no país, fortalecendo o emprego e a renda de milhões de pessoas, tirando outros milhões da miséria, reconstruindo a infraestrutura abandonada por anos e anos de desgovernos, modernizando a gestão pública e colocando a nação entre as mais importantes do mundo - e não apenas um quintal americano, como nos tempos fabulosos dos tucanos.
O PT é um partido socialista? Claro que não. É hoje, quando muito, um partido social-democrata que abriga, sob um imenso guarda-chuva ideológico, várias correntes, entre elas as mais radicais, ainda cheias de um entusiasmo juvenil pela revolução que tirará os meios de produção da burguesia, até outras que simplesmente preconizam um capitalismo moderno, menos cruel e mais democrático do que esse que se vê em todo o mundo.
A questão da privatização é saber se ela faz bem ao país e ao povo. Em alguns casos, isso é possível, em outros, não.
O que os tucanos fizeram com o Brasil não foi uma privatização, foi um ato de entreguismo nunca antes visto em nossa história, uma liquidação geral, ampla e irrestrita das principais riquezas do país para beneficiar uma meia dúzia de oligarcas e aventureiros.
Os reflexos do crime são sentidos até hoje: ineficiência e tarifas altíssimas nos serviços de energia elétrica e de telefonia são alguns dos mais evidentes; o preço dos pedágios das estradas paulistas, outro escândalo.
Em última instância, o sucesso de uma privatização deve ser julgado pelo povo, pois é ele que usufrui dos bens e serviços que trocam de mãos.
No caso dos aeroportos, alguns dos maiores críticos da licitação que se fez são justamente aqueles que, até outro dia atrás, falavam cobras e lagartos sobre o estado em que eles se encontravam e desancavam a administração da Infraero.
No fundo o que essa turma quer mesmo é tumultuar, é criar confusão, pois não consegue fazer uma oposição com um mínimo de consistência política.
São ruins de voto porque são péssimos de discurso. Acabam se enredando na própria confusão que tentam criar. Vivem em outro mundo.
Agem como esquizofrênicos, dissociam a realidade da ilusão.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Horror cotidiano


No meio da barbárie que inunda diariamente o noticiário, eis que surge um vídeo que mostra o dentista Paulo de Tarso Nascimento Pinto ser assassinado num posto de gasolina em São José dos Campos no instante seguinte ao que dá seu dinheiro para um tipo magrelo que lhe apontava uma arma. O facínora dá um tiro no peito do dentista, assim sem mais nem menos, vira de costas e sobe num carro para fugir.
Neste momento em que policiais militares se amotinam, em que muitos outros, no Brasil inteiro, ameaçam entrar em greve, surge a necessidade de um amplo debate no país sobre a segurança pública, tema sempre muito sensível a todos - autoridades, políticos e população em geral.
De nada adianta o país progredir economicamente, obter bons resultados na luta pela diminuição da pobreza e da desigualdade social, melhorar seus índices de saúde e educação, ver as empresas aumentar seus lucros e os trabalhadores ganhar mais, se ainda coisas como esse assassinato cruel do dentista e essa mobilização dos PMs em busca de salários maiores ainda existem.
De nada adianta as prisões estarem superlotadas ou as forças policiais matarem indiscriminadamente jovens nas periferias das grandes cidades - isso não resolve, e parece que até piora, o quadro da violência no Brasil.
Tento imaginar o que há na cabeça do rapaz que assassinou o dentista a sangue frio, o que ele pensa da vida, como foi criado, quais são suas expectativas, como passa o seu dia a dia, se sonha ou tem pesadelos, se chora ou ri, se sente o mínimo remorso pela atrocidade que cometeu, ou se não tem nenhuma emoção, se age por instinto como um animal irracional.
Da mesma forma fico pensando em como é a vida desses policiais que se julgam acima do bem e do mal, que fazem as suas próprias leis e executam com fria determinação as sentenças que condenam à morte muitos inocentes.
Será que eles têm direito de entrar em greve por salários maiores?
Será que têm, sequer, noção do papel que lhes cabe na sociedade?
Não sei as respostas.
Sei apenas a dor que deve estar passando neste momento a família do dentista.
E a dor de tantas outras pessoas que perdem familiares e amigos vítimas de uma violência que se espalha em nós como uma chaga imunda, uma doença maldita que precisa ser, no mínimo, controlada.
Não sei nenhuma resposta, mas tenho milhões de perguntas que me afligem como ser humano e cidadão.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Piada de mau gosto


Os alunos da rede municipal de ensino da cidade de São Paulo começaram as aulas sem o material escolar que é fornecido pela prefeitura. Um vexame, ainda mais se tratando do município mais rico do país, uma das maiores metrópoles do mundo.
O seu prefeito, Gilberto Kassab, porém, acha que frustrar as crianças no primeiro dia de aula é algo positivo. Segundo a Folha, disse o seguinte: "Não é bom entregar nos primeiros dias. Nos primeiros dias, as crianças estão se adaptando, os professores estão conhecendo as crianças. É importante que a distribuição seja feita com critérios bastante rigorosos." E continuou: "Os alunos não podem chegar no primeiro dia com seus materiais entregues, comprados, porque não são os pais que compram. É o poder público, a prefeitura, que compra e transfere esse material para os alunos."
Para reforçar seus argumentos, disse ainda que os pais precisam acompanhar a distribuição do material "para que não haja o desvio involuntário por parte das crianças".
Outro dia, Kassab havia jurado que a implosão de um prédio na região da Cracolândia, por ordem da Prefeitura, tinha sido um sucesso. O detalhe era que o prédio, depois de dinamitado, teimava em ficar de pé. Teve de ser destruído a marretada mesmo.
Esse é o prefeito paulistano, recordista em impopularidade, gestor incompetente, frasista inconsequente...
Apesar de tudo, diz o noticiário, ele tenta aproximar seu grupelho político do PT, de olho na eleição municipal. E o mais incrível é que parece que há gente que defende tal absurdo. Entre elas o ex-presidente Lula, que pretenderia reeditar na disputa paroquial o sucesso que teve na corrida ao Planalto com a aliança que fez com partidos conservadores.
Lula pode ser acusado de muita coisa, mas de política ele deve entender.
Unir o PT com essa coisa que Kassab montou juntando restos de agremiações inexpressivas só pode ser uma piada de mau gosto.
Melhor perder a eleição com dignidade do que ganhá-la de mãos dadas com o inimigo.
Política pode ser a arte de conciliar extremos, mas há limites para tudo.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A internet fica adulta


Um dos maiores problemas para o crescimento da internet como mídia sempre foi o baixo faturamento publicitário. Com o tempo, isso parece resolvido. As empresas descobriram que a rede deixou de ser apenas um veículo alternativo e se consolidou como um produto de grande, fiel e crescente audiência.
Já é possível dizer que, em poucos anos, a internet estará acessível à maioria da população mundial, coroando uma revolução iniciada outro dia desses.
E tudo indica que vão conviver, lado a lado, espaços corporativos e pessoais, democratizando como nunca antes a informação. As empresas de comunicação finalmente perceberam a importância da internet e muitas já veem nela seu principal produto.
De outro lado, cidadãos comuns, artistas, profissionais dos mais diversos setores, intelectuais, enriquecem a web com suas opiniões, comentam as notícias mais importantes, difundem as suas obras, passam aos internautas lições de vida, noticiam o que a imprensa corporativa não acha importante e dão o contraponto a informações parciais ou distorcidas. E o fenômeno das redes sociais amplia esse laço global de ideias e riqueza cultural.
No site da BBC Brasil, uma reportagem sobre o avanço da publicidade na internet mostra a rapidez com que as mudanças estão se dando.
A seguir, a íntegra da matéria, que dá destaque ao desempenho do Brasil:

A publicidade na internet brasileira deve superar os gastos com anúncios em jornais e revistas até 2015, seguindo fenômeno já observado nas economias mais desenvolvidas, segundo a Wark International Ad Forecast, serviço que analisa o segmento.
Pesquisa divulgada pela empresa nesta semana mostra que os mercados emergentes vão garantir o crescimento da publicidade em 2012. Entre os 13 países pesquisados pela Wark, o Brasil deverá apresentar o quarto maior avanço, 8,5%, atrás de Rússia (16,5%), Índia (14%) e China (11,5%).
No ano passado, o setor de publicidade brasileiro ocupou a mesma posição, com avanço de 7,1%, em um período marcado por decréscimos em algumas das principais economias. 
De acordo com o estudo, a internet puxa o crescimento dos anúncios globalmente, com variação positiva nos países pesquisados de 12,6%, seguida por TV (5,3%), Outdoors (5,1%), Cinema (3,8%) e Rádio (2,9%). Já revistas e jornais deverão apresentar queda em 2012, de 1,2% e 2%, respectivamente, prevê a Wark. No caso do Brasil, o aumento da publicidade online deverá ser de 23,8%, informa a pesquisa. Já jornais e revistas devem avançar 3,6% e 6%, respectivamente.
"É importante lembrar que, embora tenha apenas 6% dos gastos em publicidade no Brasil, a internet cresce muito rápido, de 20% a 50% todo ano desde que iniciamos a pesquisa. Todas as outras mídias estão perdendo participação para o online, principalmente impressos e rádio, embora a TV ainda seja dominante. Imagino que a internet passará os jornais e será a segunda maior mídia em publicidade até 2015", avalia Suzy Young, editora de Informação da Wark. S
Embora os gastos com publicidade online nos países pesquisados devam crescer menos em 2012 do que em 2011, quando o aumento foi de 16,6%, o segmento deverá responder por 20% do total investido em anúncios até o fim do ano, informa a Wark. 
Entre as chamadas economias desenvolvidas, Alemanha (-0,8%), França (-0,9%) e Itália (-2,3%) apresentarão em 2012 o pior desempenho de sua história na comparação com o ano anterior. "Com os receios sobre dívida afetando mercados mais maduros e o otimismo de investidores e consumidores, não é surpresa que o crescimento do setor em 2012 venha dos países emergentes", avalia Young. 
Ela lembra que as eleições nos Estados Unidos e eventos esportivos como os Jogos Olímpicos evitaram cenário ainda pior. Young observa ainda que, embora afetado pela recessão na Europa, o Brasil manteve o crescimento da publicidade, o que ocorre há dez anos. Os gastos no setor no país terão passado de R$ 11 bilhões, em 2003, para R$ 30,1 bi, em 2012, já descontado o impacto da inflação nestes números. "O investimento estrangeiro na indústria brasileira de comunicação tem impulsionado o crescimento de gastos em publicidade. E vai continuar", prevê.
A participação do Brasil no total aplicado nos 13 países examinados também vem aumentando: de 3,1%, em 2003, para estimados 4,5%, em 2012. Os Estados Unidos, cuja fatia passou de 50,4% para 41,6% nos últimos dez anos, vem perdendo espaço para emergentes. Já a participação da China terá passado de 6,5%, em 2003, para 12,2% em 2012, segundo as séries históricas da Wark.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A farda em farrapos



A Polícia Militar é hoje uma das maiores ameaças à democracia que existem no país. Resquício da ditadura, atua como guarda pretoriana das elites mais retrógradas, agindo não para proteger a sociedade, mas de modo a preservar uma ordem que privilegia os ricos e poderosos.
Seus membros, formados na concepção de que o mundo se divide entre quem manda e quem obedece, entre os homens de bem e seus inimigos, ocupam o lugar que já foi, em tempos idos, daqueles jagunços abrutalhados que seguiam as ordens dos coronéis enfurnados em seus longínquos e inexpugnáveis feudos. Hoje, em lugar do rude gibão usam fardas vistosas, às quais são adicionados coletes à prova de balas, cassetetes high tech, sprays irritantes, pistolas e munição poderosas, rádios potentes e viaturas velozes. Impõem, numa população indefesa, não o respeito, mas o medo - o sentimento mais primitivo que habita o ser humano.
Aqui, no Estado mais rico da federação, a cada dia que passa a corporação se desmoraliza mais, se afunda mais em atos de brutalidade gratuita, em atentados violentos contra a dignidade e os direitos humanos.
A defesa para essa sucessão de infâmias cometidas nos últimos tempos é sempre o cumprimento de uma ordem superior. Um argumento sem nenhum sentido, já que existem muitas maneiras de se cumprir tais obrigações, várias delas perfeitamente capazes de zelar pela integridade física e psíquica das pessoas.
Agora, a sociedade se informa, estarrecida, dos acontecimentos na Bahia, onde os PMs não fazem uma greve, mas se sublevam, se amotinam contra as autoridades constituídas, instauram o caos e a destruição.
Tal episódio não pode ser tolerado. Tem de se constituir em exemplo para que, no futuro, os aventureiros, fardados ou não, pensem muitas vezes antes de agir.
Deve, ainda, servir para que as pessoas que detêm o poder neste país entendam que uma força policial não pode, em hipótese nenhuma, se julgar acima das leis pelo fato de ser treinada e armada para matar, e deem um jeito de mudar esse status quo, antes que seja tarde demais.
Policiais, civis e militares, são apenas servidores públicos, tem uma função específica, estão sujeitos a normas e regulamentos, a códigos de conduta, como quaisquer outros funcionários da máquina estatal.
São nossos empregados, seus salários saem dos impostos que pagamos com tantos sacrifícios. Uma farda é apenas um uniforme, não um passaporte para o arbítrio e a impunidade.
Por fim, uma pergunta ingênua: por que, na cidade de São Paulo, 29 das 30 subprefeituras são comandadas por coronéis reformados da PM?

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Samba para emocionar


Diz a lenda que certa feita o grande poeta Vinícius de Morais, figura de proa da música popular, se referiu a São Paulo como sendo o "cemitério do samba". Se disse mesmo isso, a frase foi um dos maiores enganos de alguém que tinha muita intimidade com as palavras e com o samba. O tempo acabou por provar que o samba paulista tem identidade, força e criatividade, se renova sempre e sempre surpreende. Não se resume apenas às obras marcantes, essenciais, de Adoniram Barbosa e Paulo Vanzolini, que já fazem parte do panteão dos craques da tal MPB.
Existem dezenas de outros grandes artistas que se dedicam ao gênero. E numa lista enorme, há um que vem fazendo, há décadas, sem alarde, um trabalho que hoje já o coloca ao lado de Adoniram e Vanzolini, tal a coerência, quantidade e qualidade de suas canções, tal o número de gravações que elas tiveram, e, principalmente, pela sua atemporalidade: quem não conhece, por exemplo, "E lá se Vão Meus Anéis", lançada no longínquo ano de 1970 pelos Originais do Samba?
Seu compositor, Eduardo Gudin, tinha na época, 20 anos, mas aos 16 anos já estava metido no meio artístico, convidado que fora para participar do antológico Fino da Bossa, programa da TV Record apresentado por Elis Regina e Jair Rodrigues, que fazia jus ao nome: a mediocridade passava longe dele.
De lá para cá Gudin fez muita coisa, teve muitos parceiros do primeiro time (Paulo César Pinheiro, Paulinho da Viola, Vanzolini, Elton Medeiros, Aldir Blanc, Sérgio Natureza, Costa Neto, Arrigo Barnabé, entre outros), gravou muitos discos, cantou suas músicas em dezenas de shows, e as viu serem cantadas por vários intérpretes.
Arranjou ainda tempo de formar, em 1995, o grupo Notícias Dum Brasil, que teve, desde então, três formações que aparecem em três CDs. Entre outros, participaram dele Fabiana Cozza e Mônica Salmaso.
No ano passado, Gudin reuniu as formações do Notícias e, com direção de Fernando Faro, amigo de longa data, montou o show 3 Tempos. E, para sorte de todos nós, o espetáculo virou um DVD, que o Sesc acaba de lançar. É uma espécie de resumo da obra maiúscula de Gudin, maravilhosamente interpretada.
Tem desde clássicos como "Verde", "Paulista", "Velho Ateu", "Mordaça" (que integrava o show "O Importante é que Nossa Emoção Sobreviva", com Paulo César Pinheiro e Márcia, no auge da ditadura), "E lá se Vão Meus Anéis", "Chorei" e "Maior é Deus", como outras menos conhecidas, mas também irretocáveis, como "Praça 14 Bis", "Lenda", "Violão Gentil", "Estrela", "Mente", "Ainda Mais", "Por que Razão?", "Quem Chega Atrasado", "Som Conquistador", "Obrigado", "Luzes da Mesma Luz", "Tambor", "Samba de Verdade", além de duas inéditas, "Elegância Antiga" e "Três Tempos", composta especialmente para o show.
O DVD está à venda na loja online do Sesc. Custa só R$ 40. Vale cada real. É um grande investimento para a alma, garantia de momentos mais que agradáveis, inesquecíveis.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

O indefeso consumidor



"Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência? Por quanto tempo ainda há-de zombar de nós essa tua loucura? A que extremos se há-de precipitar a tua audácia sem freio? (...) Não vês que a tua conspiração a têm já dominada todos estes que a conhecem? (...) Oh tempos, oh costumes!"
(Cícero, "Catilinárias")

O Procon paulista soltou uma nota para esclarecer os consumidores sobre essa confusão toda causada pelos supermercados, que resolveram não embalar mais os produtos que vendem, e assim aumentar seus lucros, com o pretexto de "salvar" o mundo.
Diz a nota, depois de um blá-blá-blá sobre consumo "sustentável e consciente", que "no caso da campanha realizada nos supermercados, que visa a substituição de sacolas plásticas comuns por biodegradáveis, o Procon-SP esclarece que a par da informação prévia e adequada acerca de eventual cobrança e, ainda, do devido e contínuo esclarecimento e conscientização da população quanto a tais procedimentos, os estabelecimentos devem oferecer uma alternativa gratuita para que os consumidores possam finalizar sua compra de forma adequada, devendo essa medida ser adotada pelo tempo necessário à desagregação natural do hábito de consumo".
E continua: "É importante destacar que, na ausência de opção gratuita para que o consumidor possa concluir sua compra, fruindo de maneira adequada o serviço, o estabelecimento deverá fornecer gratuitamente a sacola biodegradável, respeitando assim os ditames do Código de Defesa do Consumidor (CDC)."
Parece incrível, mas é verdade: um órgão que deveria defender o consumidor, num caso flagrante de abuso aos seus direitos, fica no muro. Ora, a tal "alternativa gratuita" às sacolinhas de plástico, todos sabem, nada mais é que aquelas caixas de papelão imundas que embalam as mercadorias que os supermercados compram e que antes eram jogadas fora.
Com essa saída, o Procon acha que agradou tanto aos consumidores quanto aos supermercados. Agiu, isso sim, de forma a atender aos desejos dos empresários, que nunca estiveram, não estão, e nunca estarão preocupados com "consumo sustentável e consciente", com direitos do consumidor ou qualquer outra coisa que prejudique o seu faturamento.
É como a conhecida a fábula do escorpião e do sapo: o escorpião ferroa o sapo que lhe dava carona para atravessar o rio, selando a sorte de ambos, com a justificativa de que não podia deixar de fazer aquilo porque aquela era a sua natureza. Com os supermercados ocorre o mesmo: eles não vão nunca deixar de levar vantagem sobre o consumidor porque isso está no seu DNA.
E assim, sem amparo de ninguém, bombardeado por uma propaganda incessante, o cidadão comum vai se acostumando a ser cada vez mais espoliado, mais explorado, mais feito de trouxa.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Traço ideológico


Segundo informa o newsletter Jornalistas&Cia, a TV Cultura vai, novamente, mudar a sua grade e desta vez incluirá entre seus programas o "Folha na TV" ou "Folha na Cultura" - o nome não está definido -, em parceria com a Folha de S. Paulo.
Nada contra o fato de a Folha querer expandir suas atividades ou contra a nova tentativa da Cultura de sair do limbo em que se encontra.
Acho, porém, que uma TV pública não pode misturar as coisas.
A Folha de S. Paulo é uma empresa comercial que se dedica a vender notícias. Seu principal produto é o jornal que edita e que tanto sucesso faz entre uma camada do público paulista.
Por mais que seu marketing venda uma imagem de independência, é claro que, como toda empresa, a Folha tem muitos interesses, pois vive, essencialmente, da propaganda, dos anúncios, da verba publicitária.
Já uma TV pública é outra coisa - ou deveria ser. Não pode se atrelar a empresas, nem a grupos políticos/partidários ou quaisquer outros tipos de negócios.
Existe para ser um contraponto à televisão comercial que infesta os lares brasileiros de porcarias, sempre em busca da audiência que possa proporcionar mais publicidade, mais lucro.
A finalidade da TV pública é outra, é levar ao público algo diverso dos BBBs e novelas e Anas Marias Bragas ou Faustões que poluem a telinha, é manter uma programação educativa, e nunca pensar em lucro ou audiência.
O caso da TV Cultura é sério. Ela simplesmente, por culpa exclusiva dos governos tucanos que se sucederam em São Paulo, desvirtuou-se de seus propósitos e virou tão somente uma ferramenta para ser usada pelos donos do poder.
Ao mesmo tempo em que isso ocorria, passou por um processo de asfixia econômica, recebendo cada vez menos recursos de quem tem obrigação de mantê-la - ou à fundação da qual faz parte -, ou seja, o governo paulista.
Sem dinheiro, teve de recorrer às empresas privadas para subsistir. E deu no que deu: sem uma programação de qualidade, sem investir em sua parte técnica, sem criatividade, acabou na vala comum em que se encontram as outras emissoras.
Tornou-se irrelevante sob qualquer aspecto - cultural, educativo ou comercial.
E assim, de tentativa em tentativa, de erro em erro, a Cultura segue sua trajetória rumo à irrelevância.
Depois de levar a Folha para sua grade de programação, quem sabe não pode chamar o "missionário" R.R. Soares para conversar sobre um programa evangélico?
Se o problema da Cultura é dinheiro, ele seria resolvido facilmente.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A força faz o homem


"Volta e manda a sua presidenta falar comigo", disse o policial militar ao secretário nacional de Articulação nacional, Paulo Maldos, em meio ao conflito de Pinheirinho.
Maldos já havia se identificado e queria apenas conversar com os chefes da tropa, a fim de evitar coisa pior do que estava acontecendo.
Em vez disso, foi alvejado na perna por uma bala de borracha, que não mata, mas fere e dói.
E viu o PM desrespeitar a autoridade máxima da nação, a quem Maldos representava naquele momento.
"Volta e manda a sua presidente falar comigo", disse, com toda a sua arrogância, toda a sua prepotência e cinismo aquele meganha aspirante a milico que não tem a menor ideia do que é uma democracia, do que é viver com um mínimo de civilidade.
"Volta e manda a sua presidente falar comigo."
A frase resume tudo o que pensam esses indivíduos, que estão acima das leis, que fazem as suas próprias leis, que se servem da força bruta para impor a sua "ordem".
A repercussão do episódio pode estar rendendo ao autor da frase, neste instante, cumprimentos entusiasmados de seus colegas.
"Volta e manda a sua presidente falar comigo."
Fora de seu círculo de companheiros de caserna ela é só motivo de vergonha e tristeza para todos nós, simples e desamparados cidadãos.