quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Ditadura é ditadura

Pinochet: chefe de uma ditadura e não de um regime militar 

Confesso que não sei quem é o autor da famosa frase "a estupidez humana não tem limites". Seja, porém, quem a cunhou, se pudesse observar o caminhar do homem pelo tempo, certamente ficaria orgulhoso por tão bem ter definido essa nossa vocação para, sempre que possível, superarmos nossa ignorância, egoísmo, frustrações e preconceitos com mais ignorância, egoísmo, frustrações e preconceitos.
A notícia que vem do Chile é um exemplo crasso de que o ser humano tem tudo para dar errado e pode, num futuro não tão longínquo quanto se imagina, ser superado pelas formigas ou abelhas, que, a julgar pelas suas ações, têm muito mais bom senso que todos nós. Pois bem, segundo informam as agências noticiosas, o Ministério da Educação do Chile mudou a expressão "ditadura militar" por "regime militar" nos textos escolares para se referir ao período que Augusto Pinochet triturou milhares de pessoas depois do golpe que arriou do poder o presidente legitimamente eleito Salvador Allende.
O titular da pasta da Educação, Haral Bayer, informou que a mudança foi proposta pelo Executivo, comandada pelo empresário Sebástian Piñera, neoliberal cujo governo ostenta índices baixíssimos de aprovação, e aprovada pelo Conselho Nacional de Educação em 9 de dezembro, apesar de ter sido divulgada apenas na quarta-feira à imprensa local.
Haral Bayer, que assumiu o comando do ministério há uma semana como segundo titular dessa pasta em cinco meses, explicou que se buscou usar uma "palavra mais geral" para se referir a esse período da história chilena, entre 1973 e 1990. "Usa-se a palavra mais geral que é 'regime militar'", disse. "As expressões são mais gerais... a de 'regime militar' que a de 'ditadura'", insistiu, explicando que a mudança não foi motivada por razões políticas. "Isso não tem a ver com apoiadores nem detratores, tem a ver com expressões usadas habitualmente nesses currículos em diversas partes do mundo", disse, informando que pessoalmente não tem problema em reconhecer que se tratou de um "regime ditatorial". A mudança se tornará efetiva tanto para os textos de línguas como de história, entre o primeiro e o sexto ano básico.
Pinochet foi um dos mais bárbaros ditadores que já passaram pelo mundo. O Chile, assim se pensava, havia superado seu triste passado recente com a eleição de governos democráticos. Mas essa medida do Ministério da Educação revela que lá, como aqui no Brasil, certos setores da sociedade ainda têm influência marcante no Estado.
Regime militar pode parecer, mas definitivamente, não é o mesmo que ditadura militar.É apenas uma definição que busca suavizar toda a estupidez que os militares chilenos, com o apoio de civis tão ensandecidos quanto eles, foram capazes de fazer.
No Brasil, pelo menos até agora, ainda não se pensou numa medida similar, embora existam muitos que ainda se refiram ao golpe militar de 64 como uma "revolução".
Ah, que inveja das formigas...

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A era Teixeira no fim

Teixeira: "Tudo leva a crer que seja corrupto"  (Foto: Marcello Casal Jr/ABr)

O jornalista alemão Thomas Kistner, especializado em política esportiva do jornal Süddeutsche Zeitung, é autor de diversas obras sobre corrupção no esporte alemão e mundial. Seu próximo livro, previsto para ser lançado no primeiro semestre deste ano, tem como tema a corrupção dentro da Federação Internacional de Futebol (Fifa). Ganhador de vários prêmios, ele é um profundo conhecedor do futebol brasileiro e afirma ser torcedor ferrenho da seleção canarinho.
 Em entrevista à Deutsche Welle, Kistner analisa a situação política esportiva do Brasil, palco da Copa de 2014, e de seu principal personagem, o controvertido presidente da CBF e do Comitê Organizador Local da Copa (COL), Ricardo Teixeira, que sai neste mês de licença de seus cargos, notícia recebida com desconfiança pela imprensa europeia. "Acho que a era Teixeira está no fim", diz, na entrevista transcrita a seguir:
DW: Ricardo Teixeira, é personagem constante em artigos que o senhor escreve sobre corrupção no futebol mundial. Um exemplo é a reportagem intitulada "Inatacável, autoconfiante, corrupto", publicada pelo jornal Süddeutsche Zeitung em meados de agosto passado, do qual o dirigente brasileiro é figura principal. O senhor acredita que o presidente da CBF e do COL da Copa do Mundo de 2014 seja uma pessoa corrupta?
Thomas Kister: No estado atual das coisas, tudo leva a crer. Existem inegáveis transferências milionárias de dinheiro (no caso da falida empresa de marketing esportivo ISL, parceira da Fifa) para empresas atribuídas a Teixeira e até hoje não há esclarecimentos sobre os serviços que essa verba estaria pagando. Essas acusações não são novas, já têm muitos anos, e Teixeira nunca conseguiu se defender delas. E podemos ver o mesmo nas investigações que o Comitê Olímpico Internacional levantou contra João Havelange, ocasião em que houve um esclarecimento, onde se chegou à conclusão de que aqueles pagamentos foram suborno.
DW: Por que o presidente da CBF é repetidamente acusado de corrupção e nada parece acontecer?
Kistner:  Sobre a falta de consequências para Ricardo Teixeira a respeito de acusações que já têm 10 anos ou mais, você tem que perguntar à própria Justiça brasileira. Ela recebeu, digamos, várias indicações de diversos parlamentares nas grandes CPIs contra a CBF, realizadas no Senado e na Câmara brasileiras há 10 anos e nada aconteceu. É evidente que as ligações de Teixeira, uma figura poderosa do futebol no Brasil, foram tão boas que conseguiram evitar consequências. Sobre as investigações na Suíça, deve-se dizer que o grande problema é o país não tem leis que punam dirigentes esportivos corruptos. Na suíça, eles podem encher os bolsos e saírem rindo, que não há problema. Não é coincidência que 80% a 90% de todas as organizações esportivas mundiais têm sede na Suíça. Eles fazem isso porque há grandes vantagens no país, como imposto e as leis mais relaxadas. O governo suíço está tentando mudar isso, planejando para ano que vem um projeto de lei que também prevê corrupção para dirigentes corruptos. Vamos ver se isso realmente será feito.
DW: O senhor acha que essa situação pode perdurar até a Copa do Mundo de 2014?
Kistner: Acho que a era Teixeira está no fim. O presidente da Fifa, Joseph Blatter, anunciou na reunião executiva da Fifa que Teixeira ficaria o mês inteiro de janeiro de licença. Teixeira alegou problemas de saúde. Mas esse me parece o primeiro indício de que Teixeira está saindo de cena lentamente. O licenciamento de um presidente de um presidente de federação e do COL nessa altura do campeonato é uma medida bastante incomum. Não consigo lembrar de isso ter ocorrido nos últimos anos. Na CBF, já existem rumores de que se prepara um sucessor. Há grande pressão internacional atualmente sobre Teixeira e parece que agora é o começo de um lento adeus do dirigente brasileiro. Não posso imaginar a liderança do futebol brasileiro no ano de 2014 ainda esteja nas mãos de Ricardo Teixeira.
DW: O senhor não acredita que Teixeira algum dia venha a ser presidente da Fifa, como o dizem ser a intenção dele?
Kistner: Não posso imaginar que isso aconteça. A Fifa é hoje uma organização que no mundo inteiro tem fama de corrupta, e com razão, é inimaginável a quantidade de casos de corrupção que existiram e ainda existem envolvendo altas personalidades da entidade. Há investigações e processos não somente contra Teixeira, mas também contra outros funcionários. E o homem que é o principal responsável por tudo é o presidente da Fifa, Joseph Blatter, que continua em seu posto. Mas, diferentemente de Teixeira, as acusações contra ele, apesar de palpáveis, não foram provadas, o que só seria possível quando instâncias jurídicas independentes, fora do esporte, realizarem investigações. No caso de Teixeira, vemos que isso está acontecendo. Tanto no processo do caso da ISL, na Suíça, como em investigações no Brasil por suspeita de lavagem de dinheiro e fraude fiscal, pelo menos segundo o que foi divulgado.
DW: Existe uma guerra de poder entre Teixeira e Blatter?
Kistner: É evidente que sim. A partir das informações que temos, Teixeira planejou ser presidente da Fifa em 2015, há declarações dele na mídia brasileira que também comprovam essa avaliação. Seguramente, na época em que João Havelange transferiu seu posto ao sucessor, Blatter, algum tipo de conluio foi feito para que Teixeira fosse nomeado sucessor de Blatter. Conhecemos isso do Blatter, que promete tudo a todo mundo e não cumpre o prometido. E ele certamente não ficou muito contente. Além disso, tudo leva a crer que Teixeira apoiou o adversário de Blatter, Mohammed Bin Hammam, na última votação para presidente da Fifa, em junho. Muita coisa leva a crer que o relacionamento entre os dois se rompeu. São coisas que o Blatter não costuma perdoar. Podemos dizer já agora que ele, com certeza, não será o homem que vai apoiar Teixeira se ele tentar subir ao trono da Fifa, e dentro da Fifa nada acontece sem Blatter.
DW: O senhor sempre cita em seus artigos o papel da Rede Globo no apoio a Teixeira. Qual é o papel da mídia na corrupção no futebol brasileiro?
Kistner: A mídia tem uma situação delicada. De um lado existe a Globo, que tradicionalmente tem uma ligação estreita com Teixeira, sobretudo por causa dos direitos de transmissão de torneios de futebol. A Globo tem medo evidente que Teixeira se contrarie com a empresa e que ofereça seus direitos de transmissão à concorrente, a Rede Record, que tentou várias vezes conseguir esses direitos. Essa briga entre duas emissoras concorrentes em torno de direitos de transmissão de campeonatos de futebol é, naturalmente, bizarra. Traz um desequilíbrio nessa história toda, porque ambos os lados se interessam pela utilização comercial de direitos de futebol e não na verdade e no esclarecimento e punição de possíveis casos de corrupção dos dirigentes. Isso é um complicador adicional que permite que Teixeira sempre tenha uma carta debaixo da manga para agradar a um ou a outro lado. É realmente uma situação lamentável. E acho que tem um pouco de tradição no Brasil.
DW: O senhor, que já foi a várias Copas, tem conhecimento de situações parecidas em outros países nas vésperas de torneio tão importante?
Kistner: Na Alemanha, podemos dizer que a corrupção existe num grau mais profissional, mais elegante e sutil. Não é tão evidente como em países como o Brasil. Um dirigente como o Ricardo Teixeira não seria possível aqui, mas não diria que seria impossível que algo assim aconteça na Alemanha. No momento, temos uma situação de alta corrupção na paisagem do futebol brasileiro. Mas, por outro lado, agora há grandes esforços, e a presidente Dilma Rousseff parece que está fazendo um bom trabalho nesse sentido. Ela parece ter mesmo intenção de organizar a casa, já ouve demissão de meia dúzia de ministros por supostos casos de corrupção num tempo relativamente curto. É uma boa imagem que está sendo transmitida. O governo do Brasil e também a nação brasileira como um todo têm uma chance imensa nos próximos anos de mostrar uma imagem de melhorias e ganhar em credibilidade internacional, caso consiga “limpar a casa”, renovar e melhorar estruturas até a Copa de 2014.
DW: O que o senhor diria aos que dizem que tudo acaba em pizza no Brasil?
Kistner: Acabar em pizza é, com certeza, o que até agora vem acontecendo. E o medo que as coisas não mudem tem uma razão de ser, porque estruturas corruptas não podem ser mudadas da noite para o dia, e existe uma certa aceitação da corrupção dentro da sociedade. Mas agora, existe a chance, porque já houve um começo. E um sinal importante é que Ricardo Teixeira se encontra enfraquecido, não é mais inatingível como há um ano atrás. Se a Justiça brasileira e o governo fizerem seu trabalho, então nada mais acaba em pizza e será dado um passo adiante, tanto política como socialmente.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Os "malfeitos" do lado de lá

Christian Wulff: empréstimo suspeito      (Foto: Wilson Dias/ABr)

Não há a menor dúvida que a corrupção é um dos maiores problemas enfrentados pela jovem democracia brasileira. A prática está entranhada no corpo social de tal modo que é praticamente impossível extirpá-la com a celeridade necessária para que o desenvolvimento da nação se faça de maneira equilibrada.
A luta para vencer esse câncer tem de ser ininterrupta, em todas as frentes, com todas as armas possíveis. E só no dia em que o país perceber que ninguém está acima da lei - como, por exemplo, julgam estar os integrantes do Judiciário e as empresas de comunicação - é que os rumos da batalha serão invertidos.
O problema, porém, não é exclusivo do Brasil ou das sociedades ditas "menos" civilizadas, essas que se situam no hemisfério sul do planeta. A corrupção se dá bem em todo lugar, mesmo naqueles mais improváveis, como na culta Europa.
Reportagem da Deutsch Welle, a agência oficial de informações da Alemanha, disponível em seu site, é ilustrativa de como até mesmo cidadãos acima de qualquer suspeita podem estar contaminados pelo vírus dessa doença maligna, que destrói todos os laços morais e éticos que são o alicerce para qualquer vida em comum sadia.
A mais recente matéria da série, que envolve nada menos que o presidente da República Federal da Alemanha, Christian Wulff, que esteve recentemente no Brasil, vai a seguir na íntegra, para abalar a crença dos que creem que só aqui nesta terra quente e vasta os "malfeitos" proliferam:

Presidente alemão sob pressão por tentar impedir publicação de denúncia 
Há 20 dias enfrentando denúncias de favorecimento ilícito, o presidente da Alemanha, Christian Wulff, agora é acusado de tentar coibir a liberdade de imprensa. Nesta segunda-feira (2/1) o jornal Bild, de maior circulação no país, confirmou que Wulff deixou uma mensagem de voz na caixa eletrônica do celular de seu editor-chefe, Kai Diekmann, ameaçando cortar relações com o periódico, sobre o qual recairiam "ações legais" caso decidisse publicar detalhes sobre um empréstimo recebido de um amigo empresário. 
A informação sobre o "recado" de Wulff ao Bild havia sido divulgada no fim de semana por dois grandes jornais alemães – o Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung e o Süddeutsche Zeitung. "O presidente mostrou-se indignado com a apuração sobre o crédito imobiliário e ameaçou o jornalista responsável, entre outras coisas, com consequências judiciais", publicou o periódico, destacando ainda que Wulff teria dito que o jornal foi longe demais, ultrapassando 'os limites'". 
Ainda segundo o jornal, o chefe de Estado da Alemanha teria tentado a intervenção do presidente do conselho da editora Axel Springer, grupo ao qual pertence o Bild, Mathias Döpfner. No entanto, Döpfner teria dito objetivamente que a editora não intervém no conteúdo do periódico. 
A mensagem no celular de Diekmann teria sido gravada no dia 12 de dezembro, quando Wulff fazia uma visita oficial ao Golfo Pérsico. Dois dias mais tarde, em conversa com o jornalista, o presidente teria lamentado o tom da mensagem. Na edição de 13 de dezembro, o Bild havia publicado que Wulff omitiu um empréstimo no valor de 500 mil euros recebido em 2008 da esposa do amigo e empresário Egon Geerkens.  
Wulff não se manifestou sobre as acusações de ameaça a Diekmann. Ele ainda tenta justificar o empréstimo para a compra de sua casa quando ainda era governador do estado da Baixa Saxônia. Wulff também ainda não respondeu às acusações de que teria sido favorecido por um banco do estado de Baden-Württemberg, que lhe concedeu um empréstimo a juros mais baixos do que os de mercado para pagar o financiamento recebido de Geerkens. Até agora, o gabinete presidencial limitou-se apenas a garantir que Christian Wulff "valoriza a liberdade de imprensa" e que não comenta mensagens ou conversas particulares feitas pelo presidente por telefone.
Com os novos desdobramentos, aumenta a pressão política sobre Wulff. O partido Social-Democrata (SPD), da oposição, exige esclarecimentos da parte do presidente alemão. A tentativa de esconder informações desfavoráveis é "indigna" ao cargo, disse o vice-líder da bancada no Parlamento, Hubertus Heil. "Isso tudo não é bom, e o prejudica como pessoa e também a Presidência", criticou a secretária executiva dos verdes, Steffi Lemke. 
A Associação de Jornalistas da Alemanha mostrou-se indignada com as acusações de ameaça ao Bild. Para o presidente da entidade, Michael Konken, personalidades públicas precisam aceitar que a publicação de informações desfavoráveis a elas faz parte da liberdade de opinião. Já o Conselho de Imprensa alemão classificou o caso Wulff como "inquietante". 
Os principais jornais alemães dão destaque ao tema. O Süddeutsche Zeitung ressaltou que, apesar de o poder de um presidente ser limitado, sua autoridade e credibilidade advêm de seus atos e falas. "Um homem que prega a liberdade de imprensa, mas não a respeita, é um falso presidente". Para o Financial Times Deutschland, um presidente "não precisaria deixar o cargo apenas por ter ocultado a verdade na Assembleia estadual da Baixo Saxônia, ou por ter tirado férias na casa de um amigo empresário, nem mesmo por ter recebido empréstimo imobiliário a juros especialmente baixos". A renúncia também não seria necessária, segundo o jornal, "apenas por suas explicações 'a conta-gotas' sobre as acusações que enfrenta, ou por ter ligado para o editor-chefe do Bild. No entanto, quando se juntam todos os fatos, acaba sendo muito. Sua credibilidade foi afetada pelas escorregadas que deu. Um homem que carrega consigo tudo isso não pode continuar presidente da Alemanha". 
"Foi muito bobo da parte dele deixar ameaças na caixa eletrônica do celular do editor-chefe para evitar a publicação de informações sobre seu nefasto empréstimo. Isso seria até perdoável. Mas a ameaça em si, a tentativa de impedir o trabalho de um jornal por meio de pressão, isso é indesculpável", escreve o jornal Frankfurter Rundschau.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Ricas e poderosas

As "ricas e poderosas" da TV: mundo de fantasia para o brasileiro

A nova atração da TV brasileira, que estreia hoje às 22h20 na Band, é assim descrito no seu site:
"A socialite Narcisa Tamborindeguy, a empresária Val Marchiori, a arquiteta Brunete Fraccaroli, a piloto Débora Rodrigues e a joalheira Lydia Sayeg expõem o dia-a-dia profissional e familiar. Elas são protagonistas de "Mulheres Ricas", o novo programa da Band, produzido pela Eyeworks/Cuatro Cabezas. Um reality show em formato documental traz para a TV o cotidiano de cinco mulheres poderosas e ricas do eixo São Paulo/Rio de Janeiro. Luxo, carros importados, joias caríssimas, viagens internacionais e muito, mas muito mesmo, champanhe. Acostumadas com tudo do bom e do melhor e, mesmo assim, ainda não estão satisfeitas."
Pela descrição dá para ver que o programa é apenas mais um desses "realities shows" que proliferam por todas as televisões comerciais do mundo inteiro, uma praga difícil de ser exterminada.
Os produtores do novo show devem, porém, estar convictos de que a fórmula ainda tem muita lenha para queimar.
Afinal, desde tempos imemoriais uma das diversões da plebe é justamente se render, boquiaberta, ao luxo da existência dos nobres, é justamente assistir, extasiada, às demonstrações de "fair play" das classes superioras diante da vida. E, também, claro, deliciar-se com as pequenas intrigas que preenchem os vazios das horas desses inatingíveis mortais.
E quando os protagonistas são mulheres, melhor ainda.
É que, secular e culturalmente, a elas são destinados, em quase todas as histórias, apenas os papéis de coadjuvantes. Quando muito, são instadas a provocar os acontecimentos que conduzem o enredo dramático.
Às cinco mulheres "poderosas e ricas" do novo show televisivo caberá, então, a difícil tarefa de mudar esse script.
Mas não se espere que a reunião exuberante de luxo e riqueza do programa seja capaz de transmitir à massa ordinária alguma mensagem de esperança, no sentido de que seus integrantes possam, um dia quem sabe, usufruir de tais delícias.
É que esse mundo das "poderosas e ricas" que a televisão vai mostrar existe apenas para ser desejado, nunca para ser alcançado.
Pelo menos não nesta sociedade em que vivemos.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Mais dinheiro no bolso


Apesar do tempo chuvoso e das nuvens na maior parte do país, o trabalhador brasileiro começa 2012 com mais dinheiro no bolso: a partir de hoje o salário mínimo passa de R$ 560 para R$ 622.
Para a economia, o reajuste significa uma injeção de R$ 47 bilhões e uma arrecadação de impostos sobre o consumo de até R$ 22,9 bilhões, segundo estudo do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).
Cada real acrescido no salário mínimo tem impacto de R$ 257 milhões ao ano sobre a folha de benefícios da Previdência Social. O peso na massa de benefícios é 46% das contas da Previdência. Cerca de 68% do total de seus beneficiários terão o reajuste. Aproximadamente 48 milhões de pessoas ainda têm seus ganhos indexados ao salário mínimo.
Desde 1979 o mínimo não tinha tanto poder de compra frente à cesta básica: o valor atual corresponde a 2,25 cestas, que é composta por 13 itens de alimentação, incluindo carne, leite, feijão, arroz e banana.
"Embora o salário mínimo ainda seja insuficiente, inegavelmente houve uma melhora nesse período", diz José Silvestre Prado de Oliveira, do Dieese. O aumento de 14,13% no piso nacional – que, com o desconto da inflação estimada para 2011, equivale a um ganho real de 9,2% – é o segundo maior dos últimos anos. Em 2006 o acréscimo real havia sido recorde, de 13,04%. O Dieese calcula que desde 2002 o salário mínimo teve crescimento nominal de 211%, saltando de R$ 200 para os R$ 622 a partir de hoje. Descontada a inflação do período, o ganho real foi 65,96%. A quantia necessária para suprir todas as necessidades do trabalhador, segundo o Diesse, teria de ser 4,1 vezes maior do que o mínimo vigente. "Há poucos anos, o cálculo mostrava que o piso tinha que ser 6,4 vezes superior", destaca Oliveira.
 Entre os vizinhos da América Latina, o Brasil paga um piso mediano. A Argentina tem o maior salário mínimo da região, de aproximadamente R$ 996. No Paraguai, na Venezuela e no Chile os valores também são mais elevados – R$ 690, R$ 670 e R$ 649, respectivamente. A Bolívia está no menor nível, com R$ 218, segundo dados da Organização Internacional do Trabalho.
Na Europa, há também diferenças consideráveis na política do salário mínimo. Enquanto na Bélgica o trabalhador recebe até 1.424 euros, ou R$ 3.444, em Portugal esse valor é de 485 euros (R$ 1.173).
O censo de 2010 do IBGE mostrou que a maior parte das residências (28,7%) vive com um orçamento de meio a um salário mínimo por pessoa. Apenas 5,1% das residências contam com mais de cinco salários por pessoa. Desde 2007, o piso nacional é corrigido com base na produtividade média da economia e no índice de inflação. Essa regra acordada entre governo e sindicatos vale até 2023. "Se a economia brasileira crescer em torno de 4% e 5% nos próximos anos, o salário mínimo poderia dobrar até 2023 em valores reais", prevê Oliveira. (Com informações da Deutsche Welle e da Agência Brasil)