domingo, 7 de agosto de 2011
Os EUA rebaixados
Está aí o resultado de uma política econômica equivocada, que deu privilégios ao "mercado", deixando-o, mais uma vez, fazer o que bem entende, abdicando do poder regulador do Estado: a agência de classificação de risco Standard and Poor's rebaixou a nota da dívida americana de longo prazo de AAA para AA+. Essa foi a primeira vez na história que a agência classificou a dívida dos Estados Unidos abaixo do nível máximo.
A Standard and Poor's considerou que o acordo fechado entre o governo americano e o Congresso para elevar o teto do endividamento do país não foi suficiente para reduzir a preocupação com o futuro da economia dos EUA. "O rebaixamento reflete a nossa opinião de que o plano de consolidação fiscal que o Congresso e o governo recentemente fecharam não atinge o objetivo do que, ao nosso ver, seria necessário para estabilizar a dinâmica da dívida do governo a médio prazo", diz um comunicado da Standard and Poor's.
"De maneira mais ampla, o rebaixamento reflete a nossa visão de que a eficiência, a estabilidade e a previsibilidade da elaboração de políticas americanas e das instituições políticas enfraqueceram em um momento de desafios correntes fiscais e econômicos."
Analistas dizem que o rebaixamento pode corroer ainda mais a confiança dos investidores externos na economia americana, que já enfrenta dificuldades para sair da recessão, com enormes dívidas e uma taxa de desemprego de 9,1%, considerada alta para o país.
Na semana foram registradas quedas em vários mercados em meio a uma crise de confiança sobre a resposta da zona do euro para a crise e a lentidão da recuperação das economias europeias e americana.O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, tentou tranquilizar os mercados globais, dizendo que "as coisas vão melhorar". "Vamos atravessar isso juntos. As coisas vão melhorar", disse ele, que comentou os dados divulgados sexta-feira que mostram que foram criados 117 mil empregos no país, reduzindo o desemprego de 9,2% para 9,1%.
O diário alemão "Financial Times Deutschland" publicou em sua edição de sexta-feira depoimentos de cinco especialistas a respeito das razões da atual crise. Entre as respostas, estão as "decisões insatisfatórias da cúpula da UE há duas semanas" e as "discussões a respeito da dívida pública" na Europa e nos EUA. Esses indicadores e as previsões negativas para as economias ocidentais são, na opinião dos especialistas, os responsáveis pelas quedas nas bolsas.
Andreas Rees, economista-chefe do UniCredit na Alemanha, pelo contrário, está convencido de que os atuais tropeços das bolsas também teriam ocorrido com orçamentos públicos saudáveis tanto nos EUA quanto na Europa. "Mesmo sem a crise das dívidas teríamos tido uma desaceleração da economia mundial", escreve Rees em sua análise, justificando a tendência de queda com "um ritmo mais lento do crescimento econômico nos países emergentes".
Segundo ele, as razões disso estão, entre outros, no aumento dos juros de muitos bancos centrais e nos altos preços dos alimentos. Rees faz conclusões sombrias: embora não conte com uma recessão mundial imediata, ele diz esperar "tempos difíceis" para a economia mundial. "Mesmo que a crise das dívidas não tenha, de fato, desencadeado a situação atual", conclui ele, "ela, neste momento, faz tudo menos ajudar".
Quando o índice da bolsa atinge um nível baixo, o caminho para cima é difícil. Se o valor de uma ação cai, ela começa a ser rejeitada - isso acontece automaticamente, visando minimizar as perdas. E tudo ganha rapidamente a dinâmica de uma avalanche. Para evitar o pior, existe a possibilidade de suspender as negociações, visando dar ao mercado a chance de se recuperar. Nesta semana, as bolsas não chegaram a esse ponto.
Embora alguns observadores falem em "crash da bolsa", há analistas que estão vendo a atual situação como bem menos preocupante. Para Guido Hoymann, responsável pelo mercado de ações no banco Metzler, uma coisa é clara: "Não se trata de um crash". Hoymann acredita que a queda atual das bolsas não passe de uma correção. Segundo suas declarações ao jornal alemão "Handelsblatt", trata-se "de um ajuste à realidade das altas expectativas dos investidores".
É preciso ter cautela na hora de analisar previsões, principalmente quando o assunto é o comércio de ações. Pois num campo de negócios em que a imaginação e as expectativas desempenham um papel tão importante, não se deve olhar com pessimismo para o futuro. Declarações de que a instabilidade dos mercados não seria tão má assim podem estar a serviço de certo otimismo de plantão, sugerido por gente que não quer pôr em risco seus próprios negócios.
Mesmo assim, há analistas notadamente otimistas. Christian Kahler, coordenador de estratégias do DZ Bank, afirmou ao jornal "Handelsblatt" que a queda das bolsas seria apenas uma "correção de curso". Segundo ele, a bolsa "correu um pouco à frente, o que está sendo corrigido agora". Melhor ainda: Kahler espera para o último trimestre de 2011 uma recuperação da economia, com "tendência crescente".
Mas há algo que desperta esperanças de um processo de tranquilização dos mercados: a maioria dos observadores parte do princípio de que as atuais quedas das bolsas, com a lamentável política monetária de Washington e Bruxelas, têm razões políticas. Ou seja, a baixa seria um "fato político". E influências políticas, acredita pelo menos a maioria dos investidores, só exercem efeitos de curto prazo e comparativamente mais suaves sobre o mercado.
"Baixas políticas têm pernas curtas", reza uma das sabedorias populares entre investidores. Se esse for o caso agora, tudo deverá retomar seu curso normal em breve. No momento, aguarda-se com ansiedade o clima das bolsas na segunda-feira, quando elas voltam a ser abertas. Caso as baixas continuem, será justificado usar a palavra "crash". (Com informações da BBC e da Deutsch Welle)
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
O barbudinho e os carrancudos
O Estadão informa que as Forças Armadas receberam com profundo desagrado a escolha de Celso Amorim para substituir o falastrão Nelson Jobim.
Nada mais natural. Indica o que todo o mundo sabe, que os militares brasileiros ainda são dominados pela execrável "doutrina de segurança nacional" dos tempos da ditadura - instituída por eles -, que tanto mal fez ao país e que divide o mundo entre bons e maus - no caso, entre os pró-americanos e os comunistas.
Acontece que desde o tempo em que mandavam e desmandavam no país, o mundo mudou muito, mas os militares brasileiros ainda usam óculos feitos na Guerra Fria.
Os Estados Unidos já não estão com a bola toda, sua economia claudica, beira a recessão. A União Soviética, que representava o comunismo na prática, acabou.
Os nossos militares não gostam de Celso Amorim porque ele esteve à frente do projeto de orientar a diplomacia brasileira para a relação Sul-Sul, ampliando o leque de países com os quais seria possível negociar, para acabar com a dependência dos Estados Unidos. Claro que isso ofendeu aqueles que sempre consideraram o Brasil um simples quintal americano. E as Forças Armadas estão cheias de gente assim, pois afinal, toda a ideologia presente nos quartéis foi produzida por Tio Sam.
A relação entre o barbudinho Amorim e os carrancudos militares não será fácil. Mas o ex-chanceler, com toda a experiência que acumulou no trato com algumas das maiores personalidades mundiais, com toda o conhecimento que adquiriu nos anos de bons serviços prestados à diplomacia brasileira, certamente saberá lidar com esse pessoal de mente estreita, que tem o olhar limitado pela aba de um quepe.
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
O bicão boquirroto
Jobim: depois do bilhete premiado, o bilhete azul Foto: Antonio Cruz/ABr)
Quem não sabia, agora já sabe, graças às suas próprias declarações, que o ministro da Defesa, Nelson Jobim, é um corpo estranho no governo petista. Não se entende muito bem qual o propósito de suas recentes afirmações nada elogiosas à presidente Dilma e sua equipe, mas parece que Jobim claramente está à procura de encrenca. E isso quer dizer confrontação, mesmo sabendo que quem tem a caneta - e o poder de defenestrá-lo - é a sua chefe.
Político formado na escola tucana, Jobim teve uma grande oportunidade em sua vida, que foi servir ao governo mais popular da história, o de Lula. Ficou com o bilhete premiado na mão ao ser escolhido para dar continuidade ao seu trabalho com Dilma, mas parece que, ao ver, por contingências orçamentárias, seus planos de reformulação das Forças Armadas adiados, resolveu revelar em público o que somente poucos, mais íntimos, conheciam, o seu profundo desprezo pelos petistas em geral, e seu extremado amor a alguns tucanos em particular, como FHC e Serra.
O problema todo para Jobim é que ninguém o leva a sério. Isso acontece com todos os boquirrotos, essas pessoas que sofrem de incontinência verbal. Enquanto conseguem ficar de boca fechada podem até iludir alguns incautos, que veem no silêncio indícios de inteligência. O descontrole, porém, acaba por revelar a verdadeira face dessas pessoas, pobres espíritos desesperados em alimentar suas vaidades, seja em busca de holofotes, seja em busca de uma fantasia qualquer - como usar uma farda.
Claro que a presidente Dilma, que até agora procurou ignorar a verborragia, a falta de educação, de espírito de equipe e, principalmente, as evidentes ações de sabotagem promovidas por Jobim, terá de afastar essa célula maligna de seu corpo administrativo. E isso pode acontecer em algumas horas ou alguns dias. Se ela ouvir os bons conselhos, dará o bilhete azul ao fanfarrão o quanto antes.
Tenho certeza de que até muita gente das Forças Armadas ficará contente com essa decisão.
Tenho certeza de que até muita gente das Forças Armadas ficará contente com essa decisão.
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
Universidade para pobres
Uma importante pesquisa sobre os estudantes das universidades federais foi feita pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes). Ela mostra os avanços que a educação superior teve nos últimos anos, especialmente nos dois governos Lula. Como o ministro é o mesmo - Fernando Haddad - e as diretrizes anteriores continuam válidas, espera-se que, no governo Dilma, os avanços na área sejam ainda mais significativos.
Segundo a pesquisa, cerca de 43% dos estudantes das universidades federais são das classes C, D e E. O percentual de alunos de baixa renda é maior nas instituições de ensino das regiões Norte (69%) e Nordeste (52%) e menor no Sul (33%). Para a Andifes, o resultado do estudo, que teve como base 22 mil alunos de cursos presenciais, desmistifica a ideia de que a maioria dos estudantes das federais é de famílias ricas. Os dados mostram, entretanto, que o percentual de alunos das classes mais baixas permaneceu estável em relação a outras pesquisas feitas pela entidade em 1997 e 2003.
Segundo o presidente da Andifes, João Luiz Martins, as políticas afirmativas e a expansão das vagas nas federais mudaram consideravelmente o perfil do estudante. A associação avalia que se não houvesse as políticas afirmativas, o atendimento aos alunos de baixa renda nessas instituições teria diminuído no período.
Martins destaca que se forem considerados os estudantes com renda familiar até cinco salários mínimos (R$ 2.550), o percentual nesse grupo chega a 67%. Esse é o público que deveria ser atendido – em menor ou maior grau – por políticas de assistência estudantil. A entidade defende um aumento dos recursos para garantir a permanência do aluno de baixa renda na universidade. “Em uma família com renda até cinco salários mínimos, com três ou quatro dependentes, a fixação do estudante na universidade é um problema sério”, diz Martins, que é reitor da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop).
O estudo identifica que 2,5% dos alunos moram em residência estudantil. Cerca de 15% são beneficiários de programas que custeiam total ou parcialmente a alimentação e um em cada dez recebe bolsa de permanência.
A inclusão dos estudantes das famílias mais pobres não é a mesma em todos os cursos. Áreas mais concorridas como medicina, direito e as engenharias ainda recebem poucos alunos com esse perfil. Cerca de 12% das matrículas nas federais são trancadas pelos alunos e, para a associação, a evasão está relacionada em grande parte à questão financeira.
“Em outras parte do mundo, a preocupação do reitor é com a qualidade do ensino e com a pesquisa. Mas aqui, além de se preocupar com um bom ensino, ele também tem que se preocupar com a questão social”, compara Álvaro Prata, reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Para 2012, a Andifes reivindicou ao Ministério da Educação (MEC) que dobre os recursos destinados à assistência estudantil. A previsão é que a verba seja ampliada dos atuais R$ 413 milhões para R$ 520 milhões, segundo a entidade. “Com a política de cotas e a expansão da UnB para as cidades satélites, houve um aumento muito grande da necessidade de políticas de assistência estudantil. Mas isso é secundário para o governo e a própria administração da universidade. Muitas vezes, eles acham que têm que trabalhar para ter mais sala de aula e laboratório, mas não há o restaurante universitário”, observa a representante do Diretório Central dos Estudantes da UnB, Mel Gallo.
Apesar de políticas afirmativas direcionadas para a população negra, esse público ainda é minoria nas universidades federais. O estudo da Andifes mostra que 8,72% dos estudantes são negros. Os brancos são 53,9% , os pardos 32% e os indígenas menos de 1%.
Ainda que a participação dos negros nas federais seja pequena, houve um crescimento em relação à pesquisa anterior produzida pela Andifes em 2003, quando menos de 6% dos alunos eram negros. Isso significa um aumento de 47,7% na participação dessa população em universidades federais.
Para o presidente da associação, João Luiz Martins, a evolução é “tímida”. Ele defende a necessidade de políticas afirmativas mais agressivas para garantir a inclusão. “A universidade tem uma dívida enorme em relação a isso [inclusão de negros]. Há necessidade de ampliar essas ações porque o atendimento ainda é muito baixo”, avalia.
A entidade é contra uma legislação ou regra nacional que determine uma política comum para todas as instituições, como o projeto de lei que tramita no Senado e determina reserva de 50% das vagas para egressos de escolas públicas. “Cada um de nós tem uma política afirmativa mais adequada à nossa realidade. No Norte, por exemplo, a universidade precisa de uma política que tenha atenção aos indígenas. No Sul, o perfil já é outro e na Bahia outro”, explica Martins.
O estudo mostra que os alunos egressos de escolas públicas são 44,8% dos estudantes das universidades federais. Mais de 40% cursaram todo o ensino médio em escola privada. O reitor da Universidade Federal do Pará (Ufpa), Carlos Maneschy, explica que na instituição metade das vagas do vestibular é reservada para egressos da rede pública. Desse total, 40% são para estudantes negros. Ele acredita que nos próximos anos a universidade terá 20% de alunos da raça negra. “Antes, nem 5% eram de escola pública”, diz.
Segundo o estudo, cerca de 56% dos alunos das universidades federais utilizam o transporte público para ir à aula. Pouco mais de 18% vão de bicicleta, a pé ou de carona e só 21% usam transporte próprio.
A pesquisa também traz informações sobre o comportamento e o modo de vida dos estudantes. A casa dos pais é a moradia da maioria (55,5%) dos alunos. Quase 10% vivem em repúblicas estudantis e menos de 7% moram sozinhos. O acesso à moradia estudantil na universidade ou custeada pela instituição ainda é restrito: apenas 2,5% conseguem o benefício.
A internet é a principal fonte de informação dos universitários de instituições federais: 70% utilizam a web para ter acesso às notícias. Menos de 3% leem jornal e 20% dizem que se informam pelos telejornais. Apenas um quarto participa com frequência de atividades artísticas e culturais e mais de 60% nunca participaram do movimento estudantil.
Quase 15% fazem uso frequente do álcool e do tabaco e apenas 6% se declararam usuários de drogas ilícitas. Mais de 47% relataram ter vivido “crises emocionais” no período de 12 meses anterior à coleta dos dados da pesquisa, que se referem a 2010. As dificuldades estão relacionadas, em grande parte, à ansiedade, insônia, depressão, timidez excessiva ou a outros problemas que afetam a motivação para o estudo. (Com informações da Agência Brasil)
terça-feira, 2 de agosto de 2011
Uncle Sam passa o chapéu
O site da Deutsche Welle traz uma matéria interessante e bastante didática sobre a crise americana. Vale a pena reproduzí-la na íntegra, pois quem não acompanhou o noticiário dos últimos dias pode ficar com a impressão de que agora o problema todo foi resolvido e o mundo pode respirar enfim tranquilo.
A verdade não é bem essa. O acordo a que chegaram republicanos e democratas é absolutamente transitório, tem data de vencimento, e o desgastante processo a que foram submetidas as lideranças políticas americanas é apenas a ponta do iceberg: a luta pelo poder continua aberta e deve ainda fazer muitas vítimas, a principal delas o presidente Barack Obama.
No fundo, a demonstração de força do Tea Party e da oposição republicana em geral visa tão somente a próxima eleição presidencial. O problema é que cada lado pode dizer que saiu ganhando nesse cabo de guerra, ou, no mínimo declarar que o jogo terminou empatado - Obama e os democratas conseguiram evitar a catástrofe; o Tea Party e os republicanos, a elevação dos impostos dos ricos.
O que todo mundo se esquece de dizer é que o grande perdedor foram os Estados Unidos, que viram toda a sua fragilidade fiscal, todo o seu imenso desequilíbrio econômico serem expostos para o planeta inteiro.
Depois desse episódio, fica cristalino que a decadência do império americano se dá não em passos largos, mas em desabalada corrida.
E a história mostra que, quando esse processo se inicia, não há como interrompê-lo. Principalmente quando o competidor, ou o rival, é alguém tão grande e com tanto apetite quanto a China.
A seguir, a íntegra da matéria da Deustche Welle, "EUA evitam calote, mas enfrentam perda de credibilidade":
Algumas horas farão a diferença entre a salvação e o calote na história dos Estados Unidos. Nesta terça-feira, o Senado deve aprovar o acordo que aumenta o teto da dívida do país para US$ 14,3 trilhões – apenas algumas horas antes de a capacidade de empréstimo do Tesouro se esgotar. A elevação do valor da dívida deve ser suficiente para que os Estados Unidos não estourem a conta pública até novembro de 2012, quando acontecem eleições presidenciais. E assim chega ao fim o debate intenso entre os partidos, que paralisou Washington por semanas e trouxe nervosismos aos mercados financeiros do mundo todo – já tensos devido à fraca economia americana e à crise da dívida pública na Europa.
A votação no Senado deve ser menos dramática do que a sessão na Câmara dos Representantes na segunda-feira. Apesar de todo o protesto prévio, o plano foi aprovado por 269 deputados – eram necessários 216 votos. Outros 161 votaram contra.
Para muitos especialistas, o pior legado desta batalha é a polarização no Congresso americano. A dificuldade em se chegar a um acordo que evitasse o calote, fato que prejudicaria qualquer cidadão do país, independente de sua orientação política e renda, dá indicações de uma grande disfunção.
Um fator de grande significado que influenciou a paralisia do órgão foi um grupo de legisladores republicados na Casa dos Representantes afiliado ao chamado Tea Party, um movimento conservador no tocante a assuntos fiscais.
O grupo se opõe ferozmente a qualquer tipo de aumento de impostos e do orçamento, e também demonstra grande desconfiança nas "normas e tradições, no partido da oposição e seus líderes, nos grandes bancos, nas elites e pessoas que gerenciam o país e a economia", comenta Stu Rothenberg, analista político americano apartidário.
No Congresso, 60 legisladores são associados ao Tea Party, o que corresponde a um nono dos votos da casa. No entanto, eles conseguem parar a discussão política em Washington porque na Câmara dos Representantes são suficientes para bloquear o plano de limite da dívida que incluía aumento de impostos.
O presidente americano Barack Obama pretendia negociar um grande acordo para cortar cerca de US$ 4 trilhões em custos e equilibrar as contas do país – além de acabar com a burocracia, o desperdício e as armas desnecessárias, mas com grande proteção social.
Mas o que saiu não foi bem o que o presidente desejava. Em vez dos US$ 4 trilhões, apenas US$ 1trilhão foram cortados, embora a lei diga que US$ 1,5 trilhão ainda possam ser economizados. Uma comissão foi criada para recomendar outros cortes no orçamento. Mas se esse grupo não encontrar soluções, serão automaticamente diminuídos gastos nas áreas militar e social.
Obama também precisa lidar com a derrota em outro tema: aumento de impostos. O presidente pretendia criar uma lei que obrigasse empresários, gerenciadoras de fundos e a indústria do petróleo a desembolsar mais. Mas a discussão voltou a sair da pauta.
Na China, a opinião é que o débito americano continua uma ameaça à economia global, dizia a manchete do principal jornal oficial, "People´s Daily". Como maior credor dos Estados Unidos, o país asiático pediu repetidamente que Washington protegesse os investimentos em dólares, que correspondem a 70% dos US$ 3,2 trilhões das reservas internacionais chinesas.
Na opinião do jornal, a credibilidade do Tesouro americano está sendo prejudicada desde o início da crise imobiliária, mas outras economias continuam sem opção à dependência do dólar.
Frederick Kempe, presidente do Atlantic Council, "think tank" com base em Washington, tem opinião semelhante. "Apesar de a ameaça de calote ter sido resolvida, muitos danos foram perpetrados. Uma parte da confiança nos Estados Unidos se perdeu, mesmo que as agências de rating não diminuam sua nota, os chineses e outros já o fizeram", comenta.
Para o especialista, os danos ainda serão sentidos a longo prazo, e demonstram uma fragilidade do mundo ocidental: "É uma crise dupla para o Ocidente, quando se considera também a crise na Zona do Euro".
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
A vez das domésticas
O Brasil é um dos países que mais empregam trabalhadores domésticos e também um dos que mais avançaram nos últimos anos na instituição de direitos para a categoria, uma das menos protegidas pelo Estado. Segundo a presidente da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad), Creuza Maria Oliveira, o país poderá ser pioneiro numa questão histórica, como a primeira nação entre as 183 integrantes da Organização Internacional do Trabalho (OIT) a ratificar a Convenção sobre o Trabalho Decente para Trabalhadores Domésticos.
Aprovada em junho, em Genebra – com uma folgada maioria de 396 votos a favor, 16 contrários e 65 abstenções – a convenção objetiva melhorar as condições de trabalho dos 53 milhões de trabalhadores domésticos em todo o mundo.
No Brasil, a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 478/2010 que ampliará os benefícios das demais categorias também para os domésticos já foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados. Agora ela aguarda a criação de uma comissão especial na casa parlamentar para a continuação dos debates. "Está se falando numa aprovação até o fim do ano", disse Creuza. "Mas sabemos que nem todo mundo dentro do Congresso é favorável à convenção, até porque o congresso é formado por patrões e patroas", afirma.
A PEC prevê a revogação do parágrafo único do inciso 34 do artigo 7º da Constituição, estabelecendo os mesmos direitos de trabalhadores urbanos e rurais também a empregados domésticos. Entre as principais mudanças estão o pagamento de hora-extra, adicional noturno, salário-família, o estabelecimento de carga horária de trabalho e FGTS. "Essa mudança vai acabar com a discriminação do trabalhador doméstico, e é isso o que nós queremos", diz a sindicalista, que aos dez anos de idade teve seu primeiro emprego numa casa de família.
A possível aprovação da PEC dentro dos padrões estabelecidos pela OIT, no entanto, vem preocupando os empregadores. "Isso vai gerar desemprego porque muitas pessoas não terão mais condições de pagar o que as novas determinações devem impor", afirma Margareth Galvão Carbinato, presidente do Sindicato dos Empregadores Domésticos de São Paulo - parece piada, mas ele existe. Margareth diz que as peculiaridades do trabalho doméstico no Brasil não estão sendo consideradas pelas mudanças. Diferentemente dos europeus, diz Carbinato, os brasileiros recebem alimentação e transporte dos patrões. E quem contrata, em grande parte, não são classes mais abastadas, e sim a classe média.
"Temos até mesmo muitas empregadas domésticas que são patroas – porque para trabalhar na casa de alguém são obrigadas a contratar pessoas a ficar com seus filhos. Então fica a pergunta: será que essas imposições da OIT também não vão prejudicar a vida dessas pessoas?", pergunta a advogada. Segundo ela, com os benefícios atuais – como previdência social e férias – um empregado doméstico chega a custar o dobro do valor de seus salários finais.
No entanto, nem todos recebem os benefícios já garantidos por lei. Segundo Creuza Oliveira, estima-se que no Brasil existam cerca de 8 milhões de empregados domésticos – mas apenas 25% deles têm carteira assinada. "Trabalhadores domésticos não são nem servos nem parentes", afirma a diretora do programa da OIT sobre Condições de Trabalho, Manuela Tomei, assegurando que esta condição fica bem clara com as novas normas sugeridas pela organização.
O diretor-geral da OIT, Juan Somavia, também enxerga as novas regras como um avanço. "Pela primeira vez nos ocupamos da normalização de um setor informal". Ele espera que a Convenção sobre o Trabalho Decente para Trabalhadores Domésticos possa não apenas melhorar a vida de mulheres desprivilegiadas, mas também ser um reforço na luta contra o trabalho infantil.
Segundo a OIT, nenhuma outra área do mercado internacional emprega tantas mulheres e em poucos setores há tanta exploração, violência e ausência de direitos. Estima-se que elas somam cerca de 700 mil só na Tailândia, 14 milhões na América Latina e a incríveis 20 milhões apenas na China.
A maioria tem baixa escolaridade e vem de famílias pobres. E, não raramente, as condições de trabalho são comparáveis às de um escravo – sobretudo porque estas mulheres na maioria das vezes moram na casa das famílias contratantes, trabalham isoladas e acabam ficando à mercê da vontade de seus patrões.
Para que a convenção de Genebra entre em vigor, é necessário que pelo menos dois países a ratifiquem. A expectativa é de que as mudanças também protejam os direitos dos trabalhadores imigrantes – um problema mais comum na Europa, por conta da contratação de pessoas do Leste Europeu, principalmente da Hungria, Romênia e Bulgária. (Informações da Deutsche Welle)
Mais um gol do Raul
O Raul é incansável. Além de abastecer diariamente seu maravilhoso blog com pérolas cada vez mais raras, ele vem agora com um novo livro, inspirado na trágica história de Barbosa, o mártir da Copa de 50 - "O Goleiro Fantasma" (Lazuli Editora, 173 páginas).
Como muitos outros já lançados, este novo livro do Raul foi escrito para o público infanto-juvenil. Mas o Raul trata tão bem as crianças e adolescentes, narra histórias tão verossímeis e de uma maneira tão sincera e direta, que nenhum adulto vai se sentir diminuído ao lê-las.
Ao contrário, vai se sentir feliz por ter sido, um dia, do mesmo tamanho de seus personagens e ter, como eles, passado por alguma aventura inesquecível.
Neste "O Goleiro Fantasma" Raul nos conta a história de um garoto muito bom de bola, craque mesmo, que vai à luta para se tornar um jogador profissional. O problema todo é que, no meio do caminho há uma figura espectral que pode atrapalhar seus planos...
No fundo, este novo livro do Raul trata mesmo da magia do futebol e de como é possível a gente ir atrás dos nossos sonhos. Por isso tem muito a ver com o seu próprio autor, um apaixonado pelo futebol - pena que é corintiano - que, depois de trabalhar anos no Estadão, burilando textos de todo mundo, pôde, depois que saiu do jornal, se dedicar à sua outra paixão, a literatura. E como ele faz isso bem!
Só um detalhe para terminar esta croniqueta: o Raul é de uma modéstia que chega a ofender todos os que o conhecem. Perto dele as nossas vaidades se desvanecem, as nossas estúpidas ambições se derretem e se transformam em lágrimas de admiração.
Mestre das palavras, Raul Drewnick passeia pela vida com seu talento imensurável como se fosse um Ademir da Guia rodando o campo inteiro com aquelas longas passadas, ditando o ritmo do jogo a seu bel-prazer.
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