quinta-feira, 7 de julho de 2011

A vez dos honestos


Os sempre alertas homens de imprensa críticos do governo federal (só os do PT, claro) esfregam as mãos de contentamento por verem mais um ministro da administração Dilma ser defenestrado, sob acusações de, no mínimo, ser complacente com um esquema de corrupção.
O tal ministro, Alfredo Nascimento, é da cota do PR, partido de centro-direita que faz parte da ampla coalização governamental. O partido não abre mão da pasta. Dilma deve respeitar o acordo que fatiou os cargos administrativos e manter alguém ligado ao PR no Ministério dos Transportes.
O pessoal do contra está feliz porque acredita que o governo Dilma está se desmoralizando rapidamente. Primeiro, o caso Palocci; agora, o caso PR. Em apenas seis meses de administração. É a herança maldita de Lula, gracejam seus expoentes.
Óbvio que nenhum governante gostaria de passar por isso. Mas há um outro lado, que é solenemente ignorado pelos tais analistas (que só veem coisas erradas no PT). Dilma não tem contemporizado, nem sido leniente, nem tampouco parece ter mudado o estilo que a levou a suceder o presidente mais popular da história do país. Foi dura, precisa, justa  e inflexível nos dois casos. Deu a Palocci todas as chances de se defender. Permitiu que Nascimento, que já sabia que órgãos de seu ministério estavam sob suspeita, se mexesse para acabar com a questão. Como em nenhum dos casos teve uma resposta positiva, agiu corretamente.
Se todos os governantes deste imenso país fizessem o que ela fez, este Brasilzão seria outro, muito melhor.
Agora, é bola para frente. E passá-la, de preferência, a um jogador empenhado apenas em jogar um bom jogo. Ou seja, escolher gente que veja o trabalho na administração pública como um meio de servir o Brasil e não de aumentar a sua conta bancária. Pessoas, pelo menos, honestas.
Será que isso é pedir demais?

quarta-feira, 6 de julho de 2011

A professora Dignidade


Poucos homens têm coragem para recusar honrarias. A vaidade é uma praga que atinge a quase todos indistintamente. Até os melhores já se renderam a ela, e, ao cederem à tentação, se rebaixaram, justamente quando pensavam atingir degraus mais elevados em suas vidas.
Quanto aos medíocres, então, nem se fala. Alguns são tão ingênuos que acreditam mesmo ser merecedores da homenagem, da indicação, do prêmio, da comenda, dos salamaleques. Não sei se hoje o comércio desse tipo de medalhas ainda prospera, mas era bem ativo antigamente. Toda pequena comunidade tinha o seu "comendador", geralmente um bobo-alegre que pensava que aquela medalhinha no peito lhe dava o status de um bom sujeito, um tipo especial perante seus pares.
Há alguns casos de personalidades que recusaram honrarias e nem por isso ficaram com a fama de temperamentais, geniosas ou coisas do gênero. Continuaram a brilhar em suas atividades. Passaram à posteridade como expoentes nas suas áreas.
Para elas, porém, fazer isso não deve ter sido tão difícil, pois já eram pessoas famosas: em alguns casos, mais  célebres até que as entidades que pretendiam homenageá-las.
Diante de tudo isso, causa até um choque saber que a professora potiguar Amanda Gurgel, que se tornou figura pública depois de denunciar as condições em que trabalham os professores do Rio Grande do Norte numa audiência da Assembleia Legislativa - o seu vídeo virou hit na internet - recusou um prêmio de uma entidade empresarial.
No seu blog, ela explica os motivos de uma forma tão lúcida quanto o depoimento disseminado na rede. Fosse ela uma arrivista qualquer, certamente teria ido, segunda-feira, à cerimônia dos empresários, teria recebido muitos aplausos, teria sorrido para os fotógrafos, seria abraçada e beijada. Conquistaria seus 15 minutos de fama.
Felizmente, para ela e para todos os brasileiros que desejam um país melhor, a professora não foi receber a comenda dos empresários. O que ganhou com a recusa tem um valor muito maior: a dignidade de uma pessoa não tem preço.
A seguir, a íntegra de sua carta ao PNBE antecedida das explicações que deu leitores de seu blog:

Oi,
Nesta segunda,o Pensamento Nacional de Bases Empresariais (PNBE) vai entregar o prêmio "Brasileiros de Valor 2011". O júri me escolheu, mas, depois de analisar um pouco, decidi recusar o prêmio.
Mandei essa carta aí embaixo para a organização, agradecendo e expondo os motivos pelos quais não iria receber a premiação. Minha luta é outra.
Espero que a carta sirva para debatermos a privatização do ensino e o papel de organizações e campanhas que se dizem "amigas da escola".
Amanda


Natal, 2 de julho de 2011
Prezado júri do 19º Prêmio PNBE,
Recebi comunicado notificando que este júri decidiu conferir-me o prêmio de 2011 na categoria Educador de Valor, “pela relevante posição a favor da dignidade humana e o amor a educação”. A premiação é importante reconhecimento do movimento reivindicativo dos professores, de seu papel central no processo educativo e na vida de nosso país. A dramática situação na qual se encontra hoje a escola brasileira tem acarretado uma inédita desvalorização do trabalho docente. Os salários aviltantes, as péssimas condições de trabalho, as absurdas exigências por parte das secretarias e do Ministério da Educação fazem com que seja cada vez maior o número de professores talentosos que após um curto e angustiante período de exercício da docência exonera-se em busca de melhores condições de vida e trabalho.
Embora exista desde 1994 esta é a primeira vez que esse prêmio é destinado a uma professora comprometida com o movimento reivindicativo de sua categoria. Evidenciando suas prioridades, esse mesmo prêmio foi antes de mim destinado à Fundação Bradesco, à Fundação Victor Civita (editora Abril), ao Canal Futura (mantido pela Rede Globo) e a empresários da educação. Em categorias diferentes também foram agraciadas com ele corporações como Banco Itaú, Embraer, Natura Cosméticos, McDonald's, Brasil Telecon e Casas Bahia, bem como a políticos tradicionais como Fernando Henrique Cardoso, Pedro Simon, Gabriel Chalita e Marina Silva.
A minha luta é muito diferente dessas instituições, empresas e personalidades. Minha luta é igual a de milhares de professores da rede pública. É um combate pelo ensino público, gratuito e de qualidade, pela valorização do trabalho docente e para que 10% do Produto Interno Bruto seja destinado imediatamente para a educação. Os pressupostos dessa luta são diametralmente diferentes daqueles que norteiam o PNBE. Entidade empresarial fundada no final da década de 1980, esta manteve sempre seu compromisso com a economia de mercado. Assim como o movimento dos professores sou contrária à mercantilização do ensino e ao modelo empreendedorista defendido pelo PNBE. A educação não é uma mercadoria, mas um direito inalienável de todo ser humano. Ela não é uma atividade que possa ser gerenciada por meio de um modelo empresarial, mas um bem público que deve ser administrado de modo eficiente e sem perder de vista sua finalidade.
Oponho-me à privatização da educação, às parcerias empresa-escola e às chamadas “organizações da sociedade civil de interesse público” (Oscips), utilizadas para desobrigar o Estado de seu dever para com o ensino público. Defendo que 10% do PIB seja destinado exclusivamente para instituições educacionais estatais e gratuitas. Não quero que nenhum centavo seja dirigido para organizações que se autodenominam amigas ou parceiras da escola, mas que encaram estas apenas como uma oportunidade de marketing ou, simplesmente, de negócios e desoneração fiscal.
Por essa razão, não posso aceitar esse Prêmio. Aceitá-lo significaria renunciar a tudo por que tenho lutado desde 2001, quando ingressei em uma Universidade pública, que era gradativamente privatizada, muito embora somente dez anos depois, por força da internet, a minha voz tenha sido ouvida, ecoando a voz de milhões de trabalhadores e estudantes do Brasil inteiro que hoje compartilham comigo suas angústias históricas. Prefiro, então, recusá-lo e ficar com meus ideais, ao lado de meus companheiros e longe dos empresários da educação.
Saudações,
Professora Amanda Gurgel

terça-feira, 5 de julho de 2011

E o outro lado da corrupção?


Agora há pouco um desses tantos jornalistas especializados em meter o pau no governo (o do PT, claro), dizia, numa emissora de rádio AM paulista, com ares de que havia descoberto uma nova Pedra de Roseta, que a corrupção se torna cada vez mais incontrolável no Brasil.
O gancho para tal afirmação bombástica foi, claro, o Ministério dos Transportes e a turma de negociantes que tomou posse dele. E haja lições de moral, tantas que o tal jornalista se empolgou ao ponto de dizer que os corruptos estão "em todos os níveis da administração pública", citando, literalmente o federal, o estadual e o municipal. Logo, fez um adendo: nas estatais também.
Foi um discurso e tanto. A gente tem de concordar com o veterano jornalista. Mas, passado o impacto da fala, fica um vazio, a impressão que algo estava faltando para dar um tom mais imparcial naquelas fortes palavras. E, pimba!, o óbvio surge em nossa frente com toda a sua força: e o corruptor, como é que fica nessa história?
Pois é assim que essas coisas ocorrem: há o corrupto, que recebe a grana, e o corruptor, que dá a bola a ele. Não existe corrupção sem esses dois elementos. É assim desde quando alguém "paga um cafezinho" para o guarda rodoviário guardar seu talão de multas, até em meio a esses esquemas mais "sofisticados", como na administração pública.
Acho uma tremenda sacanagem esse tipo de "notícia", ou comentário, ou seja lá o que for, que condena às penas mais graves possíveis o corrupto e se "esquece" de quem oferece dinheiro a ele para levar alguma vantagem.
O fato é que se os empresários não topassem entrar no esquema, ele não existiria. Se, indo mais longe, eles denunciassem a existência desses esquemas, seria muito mais fácil combater a corrupção no país.
Mas qual o quê... O que existe no Brasil são empresários talvez mais desonestos que os tão criticados administradores públicos. Gente para a qual o capitalismo não passa de uma selva, sem regras, sem leis, onde a única coisa que vale é aumentar o lucro de qualquer maneira.

Prisão só para crimes graves

A partir de agora, pessoas que cometerem crimes leves, punidos com menos de quatro anos de prisão, e que nunca foram condenadas por outro delito só serão presas em último caso. É o que prevê a Lei nº 12.403/2011, que altera 32 artigos do Código de Processo Penal. Anteriormente, quem se enquadrava nesses casos ou era encaminhado à prisão, caso o juiz entendesse que a pessoa poderia oferecer riscos à sociedade ao longo do andamento do processo, ou era solto.
Com as alterações, nove possibilidades entram em vigor – o pagamento de fiança, que poderá ser estipulada pelo delegado de polícia e não apenas pelo juiz; o monitoramento eletrônico; o recolhimento domiciliar no período noturno; a proibição de viajar, frequentar alguns lugares e de ter contato com determinadas pessoas; e a suspensão do exercício de função pública ou da atividade econômica.
De acordo com a nova lei, a prisão preventiva só poderá ser decretada quando a pessoa já tiver sido condenada; em casos de violência doméstica; e quando houver dúvida sobre a identidade do acusado. As medidas alternativas, entretanto, podem ser suspensas e a prisão decretada se houver descumprimento da pena. O texto determina ainda que se a soma das penas ultrapassar quatro anos, cabe a prisão preventiva.
A legislação brasileira considera leves crimes como o furto simples, porte ilegal de armas e homicídio culposo no trânsito (quando não há intenção de matar), além da formaçãode quadrilha, apropriação indevida, do dano a bem público, contrabando, cárcere privado, da coação de testemunha durante andamento de processo e do falso testemunho, entre outros.
A nova Lei da Prisão Preventiva deve resultar na liberação de milhares de presos que ainda não foram julgados. A população carcerária do país, atalmente, é de cerca de 496 mil pessoas, segundo dados do Ministério da Justiça. Em 37% dos casos – 183 mil presos – ainda não houve julgamento.
A chegada da nova lei que substitui a prisão preventiva por medidas cautelares, no caso de crimes leves, obrigará o Estado a investir em outras formas de controle para garantir que as determinações serão devidamente cumpridas. Especialistas acreditam que ainda há despreparo em alguns pontos, como o monitoramento eletrônico. Entretanto, a expectativa é que os novos métodos se mostrem mais economicos e eficazes a médio prazo.
De acordo com o supervisor do Departamento de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Walter Nunes, a vantagem das medidas cautelares é a facilidade de perceber quando algo foi descumprido. “No caso do monitoramento eletrônico, o acusado pode até tirar [o aparelho], mas aí você vai saber que ele descumpriu. O pior é você pensar que ele está candidamente fazendo suas obrigações enquanto faz novos delitos”, alerta.
Para o procurador Eugênio Pacelli, do Ministério Público Federal no Distrito Federal, o Estado tem que investir no monitoramento eletronônico porque, além de eficaz, a medida se mostra mais barata que manter a pessoa presa. Ele também lembra que há medidas em que a verificação do cumprimento das obrigações não implica gastos. “Uma das medidas determina que a pessoa é obrigada a comparecer mensalmente em juizo. A fiscalização é que, se o cara não aparecer, ele fez a falta. Tem uma cautelar em que é proibir manter contato e, se ele mantiver contato, o outro avisa e fica registrado o não cumprimento.”
A questão da economia proporcionada pelas novas medidas cautelrares também é lembrada pelo secretário de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça, Marivaldo Pereira. "Hoje, a prisão custa em torno de R$ 1,8 mil por mês ao Estado. Entre as nove medidas propostas, a mais cara, que é o monitoramento eletrônico, tem custo entre R$ 600 e R$ 800. Essas medidas são muito mais em conta”, diz.
Para o criminalista Pierpaolo Bottini, ex-secretário da Reforma do Judiciário no governo Lula, o controle não impedirá que acusados liberados cometam delitos graves, mas isso é algo impossível de ser controlado. “É bem provável que uma ou duas das pessoas sejam soltas e cometam um delito grave. A gente não tem como assegurar o que vai acontecer, mas isso faz parte do processo. Todo mundo que acaba de cumprir pena vai ser solto e pode cometer algum crime.”
Bottini também refuta as críticas de que a lei foi apoiada pelo governo apenas para aliviar a superlotação carcerária. “Esse é um projeto que veio do governo Fernando Henrique, foi encampado por Lula e agora por Dilma, é um projeto suprapartidário. Se uma das consequêcias é desencarcerar, é, mas é uma vantagem do processo, não é uma crítica. Ela é uma consequência, não é a causa do projeto.”
A população carcerária do país, hoje, está em torno de 496 mil pessoas, segundo dados do Ministério da Justiça. Em 37% dos casos – ou seja, para 183 mil presos – ainda não houve julgamento e não se pode garantir que sejam culpados. “Quer dizer que esses presos provisórios vão ser soltos na segunda-feira? Não. O que a lei diz é que o advogado pode alegar a aplicação de medidas cautelares para o preso. A regra é: o processo você sempre aguarda em liberdade”, explica o secretário de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça, Marivaldo Pereira
De acordo com o supervisor do Departamento de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Walter Nunes, a lei não vai gerar sensação de impunidade. “Não se pode dizer que a lei vai trazer impunidade, porque prisão preventiva não é para punir. É uma medida excepcional, aplicada antes de uma pessoa ser considerada culpada”.
De acordo com Nunes, hoje é mais benéfico ser condenado por um crime leve do que existir a suspeita de que ele foi cometido. “Desde a Constituição de 1988, uma pessoa condenada a menos de quatro anos dificilmente ficará presa. Serão aplicadas outras medidas restritivas de direitos e o regime aberto”, explica.
O procurador Eugênio Pacelli, que foi relator da comissão responsável pelo projeto de lei do novo Código de Processo Penal, no entanto, teme que a liberação dos acusados cause sensação de insegurança na sociedade. Entretanto, ele acredita que mais inseguro ainda é deixar essas pessoas presas, convivendo com criminosos experientes.
“Há uma ilusão na sociedade: as pessoas acham que a prisão garante o sossego e a segurança de todo mundo, mas, muitas vezes, a prisão é que produz o próximo problema. Você colocar uma pessoa que não tem histórico nenhum presa é algo muito complicado, pois a prisão é um ambiente de violência, e isso afeta as pessoas”, diz Pacelli. O procurador lembra que, com a nova lei, não haverá alteração no tratamento de crimes mais graves, como homicídio ou estupro.
Para o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), a lei veio a corrigir uma generalização da prisão preventiva. Ele ressalta que hoje, em vez de se apurar primeiro para, depois, prender, já com culpa formada, passou-se para um "campo de justiçamento", em que se prende de forma generalizada. "Daí a superlotação das penitenciárias e das cadeias públicas", diz.
Ele também acredita que a nova lei ajudará a evitar que inocentes fiquem presos indevidamente. “Liberdade não é algo que é passível de devolução. Se houve uma prisão indevida, vamos responsabilizar o Estado?”, pergunta. (Agência Brasil)

domingo, 3 de julho de 2011

Música livre

Hermeto: "A nota que eu gosto é a musical"  (Wilson Dias/ABr)

O bom exemplo vem de quem menos se espera. Aos 75 anos recém-feitos, o genial Hermeto Pascoal, que diz que sua missão na vida é “compor a música livre de adjetivos”, liberou toda a sua obra para quem quiser tocá-la ou simplesmente ouví-la. “Meu desejo é, a cada novo dia, fazer mais músicas. Acho que sempre vão faltar coisas para eu fazer, mas não abro mão da qualidade.”
Assim, o grande músico acabou por se associar, mesmo sem muita consciência, ao movimento denominado Cultura Livre, que prega formas de democratizar o acesso à informação e à cultura, furando o bloqueio dos veículos de comunicação de massa a tudo que não seja considerado “rentável” e subvertendo a lógica comercial de gravadoras e rádios.
Em 2009, dez anos após causar polêmica ao declarar em uma entrevista que queria ser “pirateado” para que, assim, sua obra fosse mais bem divulgada no país, Hermeto começou a liberar, para gravações, os direitos sobre 614 músicas já registradas em discos ou CDs. A declaração de licenciamento, hoje disponível no site oficial do artista, é reveladora quanto ao espírito livre do músico: um bilhete escrito a mão e pintado pelo próprio Hermeto, que termina com um “aproveitem bastante”, endereçado aos “músicos do Brasil e do mundo”.
“Minha música é de quem a quer. A ideia é liberar os direitos autorais para dar a quem se interessar a chance de tocar minha obra”, disse o músico, ao ser perguntado sobre o que o levou a tomar tal decisão, estimulado por Aline Morena, a música gaúcha de 32 anos com quem Hermeto vive há dez anos e com quem mantém o duo Chimarrão com Rapadura.
De acordo com Aline, porém, nem tudo é tão simples, pois algumas empresas não têm aceitado o singelo documento disponibilizado por Hermeto. “Elas estão exigindo uma autorização burocrática, específica para cada músico. Queríamos desburocratizar as coisas com um modelo geral de autorização disponível no site, mas cada vez que um músico quer gravar algo, temos que enviar uma autorização específica." Com isso, quem quer regravar uma música e procura a gravadora acaba tendo de pagar pela cessão do direito, enquanto quem recorre diretamente ao artista recebe a permissão de graça.
O argumento para que Hermeto tenha tomado tal decisão é singelo: "Se as gravadoras não levam meu trabalho para as rádios, se ele não toca em nenhum lugar, para que eu faço música? Não tive e nem vou ter nenhum retorno financeiro por minha obra, mas meu prazer, minha alegria, continua sendo tocar. Por isso, as minhas músicas eu quero mais é que sejam pirateadas. Quero mais é que as pessoas toquem, ouçam, a conheçam. E, pra mim, quem reclama da pirataria é quem faz música apenas para vender. Meu valor não são as notas [de dinheiro]. São as notas musicais.”
Segundo Aline, menos de 300 das mais de 4 mil composições de Hermeto já foram gravadas. Da obra total, 700 já estão à disposição de quem queira. São as 366 cujas partituras foram incluídas no livro Calendário do Som e cerca de outras 300 de sua discografia.
Além dessas, o pianista e arranjador Jovino Santos Neto digitalizou a partitura de 41 obras inéditas e as disponibilizou no site de Hermeto. A proposta é de que músicos do mundo todo que queiram homenagear o alagoano toquem uma música de sua escolha. "Pessoas do mundo inteiro deram retorno. Rádios da Alemanha, gente de todas as partes mandou e-mail", contou Aline. “E vamos soltar mais coisas. Além do que, continuo compondo”, completou Hermeto. (Da Agência Brasil)

Zé Mané

No Congresso, prestes a dissolver mais uma rodinha (Renato Araújo/ABr)

Escanteado pelos seus pares, que o acomodaram num órgão inexpressivo na estrutura partidária, José Serra tenta criar factoides diários. Os dois últimos são patéticos: a invasão, por um hacker, de sua conta no Twitter - aquele em que desfila toda a sua genialidade - e a divulgação de uma carta com severas críticas a este e ao governo passado.
O problema é que ninguém deu bola para nada disso. A carta nem foi endossada pelos tucanos de alta plumagem. O episódio do hacker deu a impressão de que foi uma resposta sua aos ataques sofridos pelos sites governamentais: afinal, deve ter pensado o ex-governador, se eles podem, eu também posso.
Tudo junto, resta apenas a tentativa cada vez mais desesperada de sobrevivência de um político que foi perdendo a importância graças aos seus muitos deméritos.
O pior, para ele, é que, dia a dia, a cada foto em que aparece como papagaio de pirata de alguém, a cada ida como bicão a uma solenidade qualquer, a cada discurso que faz sem ter sido convidado, Serra se torna menos um José e cada vez mais um Zé.
Um desses Zés anônimos que vagam por aí, cavoucando um espaço na rodinha do futebol, no bate-papo entre amigos no boteco, no jogo de truco no fim de semana.
Aquele que, quando chega, a turma vai embora, porque ele é simplesmente um Zé Mané, desagradável, chato que dói, pentelho como ele só.

sábado, 2 de julho de 2011

Jornalistas sem aumento


É impressionante: todo ano a coisa se repete. Mais uma vez, os empresários de comunicação de São Paulo mostram, na negociação da data-base da categoria (1º de junho), todo o desprezo que nutrem pelos seus funcionários, aqueles que, pelo menos na teoria, são os responsáveis pelo produto final das empresas, a notícia. Nesta semana, diretores do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo participaram de mais uma rodada de negociação da campanha salarial de jornais e revistas com os empresários da capital. A nova proposta patronal não poderia ser mais desalentadora: reajuste de 6,44%, apenas a variação anual do INPC, para quem ganha até R$ 5 mil, elevando o piso salarial de cinco horas diárias para R$ 2.065. Para quem ganha mais, a oferta patronal foi dar 5,5% a mais para salários até R$ 10 mil e 5% para os que recebem acima disso.
O menosprezo dos patrões com os jornalistas fica mais evidente quando se sabe que, neste ano, como no ano passado, mais de 90% das categorias profissionais têm conseguido aumentos superiores à inflação - em alguns casos, bem superiores. Além disso, muitos trabalhadores, como por exemplo os metalúrgicos, estão recebendo mais que 13 salários anuais, graças ao dinheiro extra da PLR, a Participação nos Lucros e Resultados.
E quanto a lucros, os donos dos jornais e revistas não têm do que reclamar. A menos que toda a propaganda que fazem dos sucessivos aumentos de tiragem e do faturamento publicitário seja uma rematada mentira.
Deixar de repor pelo menos a inflação é simplesmente rebaixar salários. Talvez seja esta, na visão do patronato paulistano, a sua contribuição ao esforço do governo federal para esfriar o crescimento econômico. É possível mesmo que, numa próxima reunião da campanha salarial, os representantes do patronato aleguem isso para manter a proposta de arrocho...
De qualquer forma, é quase certo que, novamente, a negociação vai se estender por meses, já que o sindicato dos jornalistas é um tanto quanto molenga nessas questões e parece que entra em campo sabendo que vai perder o jogo. Se não, como justificar que a principal reivindicação seja um aumento real de meros e ridículos 3%? Quem pede isso no início de uma negociação, sabendo quem está do outro lado, vai, irremediavelmente, se contentar com qualquer coisa que vier, como ocorreu nos anos anteriores.
A nova rodada de negociação está agendada para a próxima semana. O informe do sindicato diz que seus diretores solicitarão a inclusão de pontos como a reutilização de matérias para o impresso e a internet e adicional por trabalho multiplataforma, ou seja, pagamento suplementar quando o trabalho for publicado na internet ou em blogs organizados pela empresa. Diz ainda que os diretores do sindicato estão visitando as redações e estiveram reunidos com jornalistas da Folha, Estadão e Jornal da Tarde para discutir as propostas da campanha salarial.
Pura perda de tempo. Melhor encerrar logo as negociações e levar a disputa para a Justiça do Trabalho. Pior do que está não fica.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

E-mail transparente


Tempos atrás, um colega de trabalho foi assaltado, levaram sua carteira com documentos e com os indefectíveis cartões - do banco e de crédito. Dias depois, já tendo avisado o banco do roubo, foi consultar o saldo e - surpresa! -, viu que faltavam uns 500 mangos. Correu atrás de gerentes e tudo o mais para descobrir que o saque havia sido autorizado por telefone.
Lembrei dessa historinha ao ler a notícia de que um sujeito conseguiu entrar no e-mail do UOL do ex-ministro José Dirceu usando expediente parecido: ligou para a empresa, passou os dados pedidos (que havia conseguido ilegalmente, sabe-se lá como), trocou a senha e ficou de posse de todo o conteúdo da correspondência de Dirceu.
É de espantar a facilidade com que o sujeito conseguiu aplicar o golpe. A operação mostra a vulnerabilidade desses sistemas, a burrice dos que os planejam e operam - não foi preciso nem fornecer a senha antiga para trocar pela nova!
Anos atrás, quando tinha um e-mail, também pago, do Terra, constatei que, ao acessá-lo com a minha senha, ele acabava entrando em outras contas. Em casa e no serviço.
Informei, de todas as formas possíveis, o pessoal do Terra sobre a tremenda falha que havia no serviço, mas qual o quê... Parecia que estava falando com uma porta - eles não entendiam nada, não se preocuparam nem um pouco em tentar, pelo menos, saber como é que aquilo acontecia.
Desencanei. Hoje o Terra faz parte do passado. É mais uma porcaria que a gente paga para não oferecer nada melhor que os tantos outros e-mails gratuitos existentes na web.
O caso UOL/Dirceu é grave porque envolve uma pessoa pública polêmica, que colecionou, em sua longa vida política, uma série de desafetos - se não inimigos. Está claro que o criminoso não fez o que fez para brincar. Seu propósito é outro.
A tentativa do UOL de abafar o caso - a nota que soltou sobre o ocorrido é patética - desnuda ao público o tipo de empresa a que o consumidor brasileiro tem de se submeter: em vez de se desculpar por uma falha capital, ela chega ao cúmulo de dificultar o acesso às informações que poderão levar à descoberta do criminoso.
Para terminar: pensava que um indivíduo com a experiência do Zé Dirceu fosse menos inocente. Usar o e-mail do UOL...