terça-feira, 7 de junho de 2011

Gato por lebre


O IPCA de maio caiu para 0,47%, mostrando que a inflação não é o bicho papão que aparece diariamente nos jornalões. A taxa ainda é alta, mas mostra uma tendência declinante.
Em São Paulo, os preços também subiram menos nos últimos dias, mas nem por isso diminuiu a sensação do paulistano de que é assaltado em todo o canto que vai.
Outro dia um estudo da empresa Mercer classificou São Paulo como a cidade mais cara das Américas, acima até de Nova York.
Os preços dos mais diversos itens são mesmo exorbitantes, coisa de louco. O problema todo é que tem muita gente que não liga em ser explorada, que tem prazer em ostentar sua riqueza, pagando qualquer preço pelos produtos e serviços que consome.
O portal IG fez um interessante levantamento de preços na capital e chegou à conclusão que eles variam até 400% de um bairro para outro. Um corte de cabelo feminino, que custa, em média, R$ 25 na Vila Zatt, sobe para R$ 80 no Itaim Bibi, o bairro mais caro da cidade. A diária num estacionamento de Itaquera custa R$ 4,99 e R$ 25 no Itaim Bibi. É muita diferença para um mesmo serviço!
Um argumento para explicar tal disparidade é o de que o comerciante de um bairro chique precisa gastar mais para manter o seu negócio, entre taxas diversas e despesas com o imóvel. Pode até gastar, mas se a sua clientela fizesse alguma coisa em relação ao preço exorbitante, ele teria de cobrar menos. Já que isso não ocorre, pois grande parte da classe média, que poderia ser o fator de equilíbrio dos preços dos serviços, consome nos mesmos locais dos ricos, o comerciante aproveita para enfiar a faca sem dó nem piedade.
Uma das leis pétreas do varejo é vender qualquer coisa pelo menos 100% acima do preço de atacado, já que isso evita um monte de contas complicadas para calcular uma margem de lucro razoável. Pelo visto, tal prática foi abolida faz tempo em São Paulo. Na capital, a norma é vender latão como se fosse ouro, pedra como se fosse diamante, sardinha como se fosse bacalhau, já que quem compra está mesmo preocupado é com a embalagem e não com o conteúdo do produto.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Direita, esquerda


Num Portugal mergulhado em profunda crise econômica, os eleitores que se dispuseram a votar - grande parte  da população ignorou o pleito - puseram no poder os conservadores do PSD, que devem radicalizar a receita do FMI na tentativa de evitar o colapso do país.
Já aqui ao lado, no Peru, cuja economia cresce a ritmo chinês, foi eleito o esquerdista Ollanta Humala, que terá como missão principal diminuir a desigualdade e a pobreza que marcam a história da nação.
Nos dois casos, a maioria dos eleitores usou o pragmatismo como argumento para seus votos.
O governo socialista português foi incapaz de ao menos atenuar a crise econômica global, a exemplo de outros países periféricos da Europa, como Grécia, Irlanda e Islândia. Por isso, foi punido nas urnas.
No Peru, Humala foi eleito com os votos dos miseráveis que formam a maior parcela do povo, desde sempre excluídos de qualquer processo de desenvolvimento econômico. A cosmopolita Lima, por exemplo, escolheu a conservadora Keiko Fujimori, herdeira do neoliberalismo desenfreado do pai Alberto.
O futuro, porém, deverá mostrar que nem o liberal Pedro Passos Coelho, nem o socialista Humala farão governos presos a doutrinas ideológicas inflexíveis.
O mundo mudou muito nesses últimos anos - e o Brasil contribuiu bastante para isso. E nesse novo espaço é impossível ver as coisas apenas em preto e branco. Felizmente, elas estão ganhando cores, algumas fortes, outras pálidas, mas nem por isso indefinidas.

Textos truncados


Muito já se escreveu sobre o empobrecimento dos textos jornalísticos. Hoje, parece que escrever é a tarefa menos importante do ofício do jornalista. Basta que ele consiga alinhavar uma série de frases curtas, dominar um vocabulário de duas centenas de palavras e soltar, de tempo em tempo, alguns chavões, para que o "texto" esteja pronto para ser oferecido ao distinto público.
Se esse processo de pauperização da língua portuguesa já parecia irremediável nos jornais e revistas, depois de ser rapidamente absorvido pelo rádio e televisão, foi com a chegada da internet que o caldo entornou de vez.
Pressionados pela necessidade de pôr no ar as notícias o mais rapidamente possível, os editores simplesmente abandonaram os seus deveres básicos - e o resultado é esse festival de besteiras que os portais mais importantes, sem exceção, oferecem aos leitores.
Nada escapa. O massacre linguístico atinge desde a mais desimportante nota sobre um obscuro ex-BBB qualquer até notícias sobre macroeconomia, passando, é claro, pelo escândalo político do dia.
O espancamento não se restringe apenas à gramática ou à ortografia. A própria lógica acaba recebendo as suas bordoadas e sobrevive - quando sobrevive - remendada, fatiada e bastante machucada.
E para quem acha que estou sendo duro demais com os prezados coleguinhas que cometem tais barbaridades, ofereço como exemplo um pequeno texto publicado pela Folha Online, este ícone da internet brasileira. É uma notícia sobre o jogo Palmeiras e Atlético Paranaense, ontem à noite, que foi colocado no ar minutos depois de terminada a peleja. Os textos em negrito são meus, simples observações sobre a obra, que deveriam ter sido feitas pelo editor, antes antes que a tragédia se consumasse:

Mesmo fora de casa, o Atlético-PR tentou pressionar o Palmeiras nos primeiros minutos. A equipe paranaense não havia somado nenhum ponto nas duas rodadas anteriores.
Porém, a tentativa não durou nem cinco minutos. O clube alviverde, através das faltas batidas por Marcos Assunção e das jogadas pelas laterais, começou a dominar a partida, mas a falta de criatividade atrapalhava as pretensões paulistas. (É muita falta para um só período)
No lance de maior lucidez do ataque palmeirense, o atacante Kleber fez uma jogada individual (se ele é um só, pode apenas fazer uma jogada individual) pela esquerda e a bola sobrou (como assim, "sobrou"? A bola escapou dele?) para Gabriel Silva, dentro da área. Livre, o lateral chutou por cima do gol de Márcio.
Em outra jogada do atleta, ele invadiu a área, sofreu a carga (O que será que isso significa?), caiu e pediu pênalti (Mas foi ou não foi pênalti? Ou é o leitor quem decide?). O árbitro Péricles Bassols nada marcou.
O Atlético-PR tentava o contra-ataque, mas não teve competência para explorá-lo.
A primeira etapa, truncada (O que houve para ela ser truncada? Acabou a luz, torcedores invadiram o campo? Ou será que o redator quis dizer, por meio de seu texto truncado, que o jogo teve muitas faltas?), acabou com o marcador zerado ("Zerado", segundo o Aulete, significa "que se reduziu a zero"; "liquidado"; "saldado". O que houve, de fato, é que o placar não saiu do zero a zero inicial).
Na segunda etapa, o jogo continuou na mesma toada. Faltoso e pouco criativo.
Em uma das faltas, Rômulo, lateral direito do Atlético-PR, recebeu o segundo amarelo e foi expulso, aos 12min.
O Palmeiras não conseguia aproveitar a vantagem numérica de jogadores e continuava apelando para as bolas paradas de Marcos Assunção. ("Bolas paradas", no jargão de nossa imprensa esportiva quer dizer cobrança de falta ou escanteio. Como é o árbitro quem marca tais ocorrências, seria impossível para o Palmeiras "apelar" para as tais "bolas paradas". O time apenas cumpria a determinação do árbitro - e cobrava as faltas ou escanteios)
Aos 29min, ele cobrou um escanteio na primeira trave (A bola bateu na trave mais próxima de onde o escanteio foi cobrado, é isso o que está escrito). O volante Chico desviou de cabeça (Mas a bola não havia batido na trave?) e não deu chances de defesa para Marcio. Palmeiras 1 a 0. (Foi gol? Mas o escanteio não havia sido cobrado na "primeira trave"?)
No restante da partida, o Palmeiras tentava ampliar, mas esbarrava nas finalizações precárias. (O Aulete define "precária" como "rogo", "serviço que se pede". E "precário" como "que é pouco", "escasso"; "que não é estável"; "que é frágil, débil"; "que se encontra em más condições"; "que não tem sustentação". O redator talvez quisesse ter escrito "finalizações imprecisas", mas isso é apenas uma suposição).


É um texto notável, exemplar mesmo. Tão pequeno, carrega todos os pecados que deveriam ser combatidos no trabalho do dia a dia da nossa imprensa: imprecisão, preguiça, descuido com a linguagem, uso de chavões...
Mas no fundo, quem, além de uns poucos ranzinzas profissionais, se preocupa com isso?

sábado, 4 de junho de 2011

Lobato e a Academia

Lobato: imortal sem ter sido acadêmico

No ano de 1944, um grupo de acadêmicos convidou Monteiro Lobato a aceitar a indicação para ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Lobato havia se inscrito candidato à ABL em 1925, teve apenas 14 votos, inscreveu-se de novo depois, mas se arrependeu e caiu fora da disputa..
Foi pego de surpresa pela iniciativa dos acadêmicos que o indicaram anos após sua primeira aventura: Olegário Mariano, Menotti del Picchia, Viriato Correia, Manuel Bandeira, Alceu Amoroso Lima, Cassiano Ricardo, Múcio Leão, Oliveira Viana, Barbosa Lima Sobrinho e Clementino Fraga. E escreveu a Múcio Leão, então presidente da ABL, uma carta que ficou famosa, na qual recusava a indicação. Em certo trecho dizia:
"De forma nenhuma esta recusa significa desapreço à Academia, pequenino demais que sou para menosprezar tão alta instituição...Não é modéstia, pois não sou modesto; não é menosprezo, pois na Academia tenho grandes amigos e nela vejo a fina flor da nossa intelectualidade.
"É apenas coerência; lealdade para comigo mesmo e para com os próprios signatários; reconhecimento público de que rebelde nasci e rebelde pretendo morrer. Pouco social que sou, a simples ideia de me ter feito acadêmico por agência minha me desassossegaria, me perturbaria o doce nirvanismo ledo e cego em que caí e me é o clima favorável à idade."
É isso. Monteiro Lobato preferiu o sossego de sua idade ao sossego do chá da tarde nos ricos e finos salões da ABL. 
Pena que tantos outros não tenham tomado a mesma decisão do imodesto Lobato. 
O Nirvana em que vivem os nossos acadêmicos certamente estaria ainda mais doce.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Plano e contraplano

"Retirantes", do genial  Cândido Portinari

Nem só de fofocas, intrigas, suspeitas e briga por cargos vive o governo Dilma. Hoje, a presidenta lança seu programa mais ambicioso, o Plano Brasil sem Miséria, que tem como uma das principais metas retirar 16 milhões de pessoas da extrema pobreza até 2014. A elevação da renda familiar per capita das famílias que vivem com até R$ 70 por mês, a ampliação do acesso aos serviços públicos, às ações de cidadania e às oportunidades geradas por políticas e projetos públicos são outros objetivos.
Nas últimas semanas, a ministra do Desenvolvimento Social, Tereza Campello, promoveu encontros com governadores de diversos Estados e representantes de movimentos sociais para discutir as ações do plano. Na última reunião, feita ontem (dia 1º), o programa foi apresentado aos parlamentares da base aliada.
O Plano Brasil sem Miséria terá como foco capacitar as pessoas para que possam ter seu próprio sustento.
O governo nega que o programa tenha a finalidade de corrigir falhas no Bolsa Família, maior programa de transferência de renda governamental, iniciado na gestão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O Cadastro Único, que contém as informações sobre 20 milhões de famílias brasileiras beneficiadas por programas sociais, será a principal ferramenta do plano. De acordo com a ministra, o cadastro único não é apenas do Programa Bolsa Família: com o aprimoramento do sistema, ele tornou-se uma ferramenta de planejamento do governo federal para um conjunto de ações.
Em todo o Brasil, 16,2 milhões de pessoas vivem na miséria, o equivalente a 8,5 % da população. A maioria dos brasileiros em situação de extrema pobreza é negra ou parda. Além disso, o Maranhão, o Piauí e Alagoas são os estados com os maiores percentuais de pessoas em situação de extrema pobreza.
Na Região Nordeste estão quase 60% dos extremamente pobres (9,61 milhões de pessoas). Em seguida, vem o Sudeste, com 2,7 milhões. O Norte tem 2,65 milhões de miseráveis, enquanto o Sul registra 715 mil. O Centro-Oeste contabiliza 557 mil pessoas em situação de extrema pobreza.
Entre os extremamente pobres, 46,7% vivem no campo, que responde por apenas 15,6% da população brasileira. De cada quatro moradores da zona rural, um encontra-se na miséria. As cidades, onde moram 84,4% da população total, concentram 53,3% dos miseráveis.
A miséria atinge mulheres e homens da mesma forma: 50,5% contra 49,5% respectivamente. No entanto, na área urbana, a presença de mulheres que vivem em condições extremas de pobreza é maior, enquanto os homens são maioria no campo.
Além da renda baixa, a parcela da população em extrema pobreza não tem acesso a serviços públicos, como água encanada, coleta de esgoto e energia elétrica. Estima-se, por exemplo, que mais de 300 mil casas não estão ligadas à rede de energia elétrica.
O lançamento do programa integra o pacote de ações governamentais que visa criar uma "agenda positiva" para o país. É possível que isso seja capaz de romper o noticiário negativo que cerca o governo desde que a Folha publicou matéria sobre o enriquecimento do ministro-chefe da Casa Civil, Antonio Palocci.
Para que isso ocorra, porém, é preciso que o ministro dê uma forcinha e enfrente as acusações, veladas, de prática de tráfico de influência enquanto era deputado federal e participava do comando da campanha presidencial de Dilma. Afinal, quem não deve não teme - não é o que dizem por aí?
Só mais uma coisa: se o programa der certo, como se espera, a passagem de Dilma pela Presidência já terá valido a pena. Acabar com o sofrimento e elevar milhões de pessoas à condição de seres humanos é muito, mas muito mais importante que qualquer outra coisa que um governante possa fazer. (Com informações da Agência Brasil)

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Unhas e calabouços


A vida toda pensei na arte como algo libertador, no artista como um revolucionário, se não aquele que quer mudar o mundo, ao menos aquele ser que vai ao limite em seu ofício, que não se conforma em repetir fórmulas consagradas.
Isso é o que eu achava até ler a notícia sobre uma palestra dada pelo cantor/compositor Lobão num desses festivais literários que - atenção para o palavrão! - abundam por aí.
O trecho a seguir é um copia-e-cola da Folha Online:
"A gente tinha que repensar a ditadura militar. Por que as pessoas acham... Essa Comissão da Verdade que tem agora. Por que que é isso? Que loucura que é isso? Aí tem que ter anistia pros caras de esquerda que sequestraram o embaixador, e pros caras que torturavam, arrancavam umas unhazinhas, não [risos]. Essa foi horrível [risos]. Mas é, é bem isso. Quem é que vai falar isso? Quem é que vai ter o colhão de achar que bunda de pinto não é escovinha? Porque não é. Não é. Então é o seguinte: a gente viveu uma guerra. As pessoas não estavam lutando por uma democracia, as pessoas estavam lutando por uma ditadura de proletariado. As pessoas queriam botar um Cuba no Brasil, ia ser uma merda pra gente. Enquanto os militares foram lá e defenderam nossa soberania."
 E depois:
"Por que ele [Che] é mais humano que um torturador? Essa é uma pergunta que é capciosa, é corrosiva, mas é pertinente. Então os caras que sequestravam fulano, beltrano, então eles eram mais bonzinhos do que o cara que arrancava unha nos calabouços? Vamos fazer essa equação? Empate, cara. Pensa bem. Tem que ser um cara muito escroto pra poder falar sobre isso, mas é a pura verdade."
Bem, acho que o texto é auto-explicativo. Diz mais que qualquer coisa que se escreva ou se fale sobre o sujeito em questão.
Mas é assim mesmo numa democracia: cada um diz o que quer e é responsável pelos seus atos, ninguém vai arrebentar o indivíduo de porrada ou arrancar umas unhazinhas num calabouço escuro e fedido só porque ele resolveu desafinar o coro dos contentes.
Esse é o preço que o país paga por ter lutado contra a ditadura, por ter visto muitos de seus filhos sucumbir à violência e ao ultraje dos poderosos.
Hoje, felizmente, até um Lobão pode vomitar seus pesadelos o quanto quiser no público. Em casos assim, o que geralmente acontece é o porcalhão escorregar na própria sujeira que excretou.