sexta-feira, 4 de março de 2011
Carnaval sem música
Um dos maiores blocos de carnaval do Rio, o Cordão do Bola Preta anunciou ter fechado um acordo pelo qual pagará R$ 50 mil para o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), responsável pela cobrança de direitos autorais no país. A agremiação quitará débitos pela exibição públicas de músicas até 2008. De la para cá, o valor está sendo negociado.
O presidente do Bola Preta, Pedro Ernesto, questiona o critério do Ecad de cobrar do bloco uma taxa proporcional ao público que compareceu a festas e desfiles nos dois últimos anos. Ele quer que o órgão mantenha o critério adotado para o carnaval de 2011, de cobrar 10% do custo do desfile. "Pela tabela do Ecad, o Bola Preta não teria condições de desfilar. Aliás, ninguém teria. Pelo público que agrega nos seus desfiles, o bloco teria que pagar ao Ecad cerca de R$ 8 milhões para sair às ruas, com base na nossa estimativa", disse Ernesto. "O Ecad sabe que não há como pagar isso". Na última passada, dia 25 de fevereiro, o Bola Preta arrastou cerca de 100 mil foliões pelas ruas do centro da cidade.
Os critérios que estabelecem as taxas de arrecadação do Ecad sobre os blocos também são questionados por sindicalistas e pela associação Folia Carioca. Eles querem mais transparências na definição das taxas e flexibilização da cobrança .
O carnaval de rua deve atrair cerca de 1,5 milhão de foliões na cidade do Rio, segundo a prefeitura. Além dos desfiles de escolas de samba na Sapucaí, haverá centenas de blocos nas ruas.
O tema direitos autorais tem suscitado uma série de debates nesses últimos dias, principalmente depois que o Ministério da Cultura decidiu tirar a licença do Creative Commons do seu site. Há quem ache que, nesses tempos internéticos, não há mais sentido em se cobrar direitos autorais por obras que se espalham sem controle, à velocidades indescritíveis. E existe aqueles que julgam que o autor tem, sim, toda razão em preservar a sua obra - e ganhar dinheiro com ela.
Confesso que esse é um tema muito complexo para mim. Pelo menos na minha profissão, ele é inteiramente ignorado. O material que os jornalistas produzem para determinado orgão é reproduzido ad infinitum por outras mídias da mesma empresa - e ele não recebe nada por isso. Lembro que, há muito tempo, o Estadão chegava a pagar uma merreca pela reprodução das matérias escritas para o jornal, que eram distribuídas pela Agência Estado para centenas de jornais país afora. Depois, a prática foi abolida e ninguém falou mais no assunto. Soube apenas dos casos de alguns colegas que foram à Justiça trabalhista e reivindicaram o pagamento desses direitos autorais.
Seja como for, o caso do Bola Preto é, além de curioso, emblemático, pois mostra que, realmente, alguma coisa está fora do lugar nessa história. Ou alguém pode imaginar o carnaval sem música, os foliões se requebrando ao som imaginário de uma orquestra inexistente?
Convenhamos, tudo tem limite.
quinta-feira, 3 de março de 2011
Espécies ameaçadas
O puma do oriente, belíssimo animal que constava da lista das espécies ameaçadas desde 1973, não existe mais, disseram especialistas americanos. O Fish and Wildlife Service, órgão do governo responsável pela proteção dos animais, recomendou que a subespécie seja removida da lista de ameaçadas. "Reconhecemos que muitas pessoas têm visto pumas selvagens em algumas regiões. Entretanto, nós acreditamos que não pertencem à mesma subespécie. Nós não encontramos nenhuma informação para apoiar a existência do puma do oriente", disse o chefe do serviço de controle das espécies ameaçadas, Martin Miller.
Estima-se que cerca de 4 bilhões de espécies tenham vivido na Terra. Desse total que evoluiu no planeta nos últimos 3,5 bilhões de anos, nada menos do que 99% deixaram de existir. O número impressiona, mas não envolve nada anormal e demonstra como a extinção de espécies é algo comum e equilibrado pela própria "especiação", o processo evolutivo pelo qual as espécies se formam. Eventualmente, esse balanço deixa de existir quando as taxas de extinção se elevam. Em alguns momentos, cinco para ser exato, as taxas são tão altas que o episódio se caracteriza como uma extinção em massa.
Após as extinções em massa nos períodos Ordoviciano, Devoniano, Permiano, Triássico e Cretáceo – quando os dinossauros, entre outros, foram extintos –, cientistas apontam que a Terra pode estar se aproximando de um novo episódio do tipo.
Em artigo publicado na última edição da revista Nature, um grupo de cientistas de instituições dos Estados Unidos levanta a questão de uma eventual sexta extinção em massa. O artigo tem entre seus autores o brasileiro Tiago Quental, que durante a produção do estudo estava no Museu de Paleontologia da Universidade da Califórnia e desde fevereiro é professor doutor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo.
“Paleontólogos caracterizam como extinções em massa os episódios em que a Terra perde mais de três quartos de suas espécies em um intervalo geológico curto, como ocorreu apenas cinco vezes nos últimos 540 milhões de anos. Biólogos agora sugerem que uma sexta extinção em massa possa estar ocorrendo, por conta das perdas de espécies conhecidas nos últimos séculos e milênios”, disseram os autores.
O estudo analisou como as diferenças entre dados modernos e obtidos a partir de fósseis e a influência de novas informações paleontológicas influenciam o conhecimento a respeito da crise de extinção atual.
“Os resultados confirmam que as taxas de extinção atuais são mais elevadas do que se esperaria a partir [da análise] dos registros fósseis, destacando a importância de medidas efetivas de conservação”, afirmaram. Como exemplo, citam que, nos últimos 500 anos, das 5,5 mil espécies de mamíferos conhecidas pelo menos 80 deixaram de existir.
“Se olharmos para os animais em perigo crítico de extinção – aqueles em que o risco de extinção é de pelo menos 50% em três gerações ou menos – e assumirmos que seu tempo acabará e que eles sumirão em mil anos, por exemplo, isso nos coloca claramente fora do que poderíamos considerar como normal e nos alerta que estamos nos movendo para o domínio da extinção em massa”, disse Anthony Barnosky, curador do Museu de Paleontologia e professor da Universidade da Califórnia em Berkeley, principal autor do estudo.
“Se as espécies atualmente ameaçadas – aquelas classificadas oficialmente como em risco crítico, em risco ou vulneráveis – realmente se extinguirem, e se essa taxa de extinção continuar, a sexta extinção em massa poderá chegar tão cedo quanto de três a 22 séculos”, disse.
Entretanto, segundo os autores do estudo, não é tarde demais para salvar muitas das espécies em risco de modo a que o mundo não ultrapasse o ponto em retorno rumo à nova extinção em massa.
E o homem, como fica nessa história?
Será que o mais perverso dos animais continuará a reinar muito tempo neste planeta que ele ajudou a transformar num oceano de iniquidades? (Com informações da Agência Fapesp)
A festa para Gorbachev
A internet avisa que Mikhail Gorbachev, o homem que acabou com a União Soviética, está celebrando seus 80 anos de vida de maneira discreta: vai receber cerca de 300 amigos e parentes num restaurante moscovita. Em Londres, porém, no dia 30, será homenageado no Royal Albert Hall, que deverá estar repleto de personalidades políticas e artísticas de vários lugares do mundo. Até membros da família real inglesa estão sendo esperados para o grande evento.
Dá para entender porque Gorbachev é mais festejado fora do que em seu próprio país. O processo de desintegração da URSS foi traumático, levou ao colapso vários Estados que se abrigavam sob o guarda-chuva soviético, deixou na penúria milhões de pessoas, tornou alguns poucos milionários, aprofundou as desigualdades.
Há muitos que culpam Gorbachev e suas perestroika e glasnost pela tragédia. Outros acham que ela era inevitável, pois as péssimas condições econômicas do urso soviético já indicavam a sua situação terminal.
Seja como for, o fim da URSS foi também o fim da carreira política de Gorbachev. O aclamado líder, com a ascensão do rival Boris Yeltsin, virou um fantasma a vagar pelo mundo a fazer palestras - esse parece ser o destino de quase todos os ex-presidentes...
Em novembro de 2008 lembrei aqui nestas "Crônicas" uma cena de comédia ocorrida durante uma visita de Gorbachev ao Estadão. A lembrança da breve estada do ex-líder soviético no jornal dos Mesquitas foi motivada por uma declaração que ele havia dado dias antes sobre a eleição de Obama Barack à Presidência dos Estados Unidos. Para quem não leu aquela crônica, aí vai ela abaixo, na íntegra.
Perco o amigo, mas não perco a piada...
Gorbachev e o jornal errado
Algum tempo depois de ter destruído a União Soviética, Mikhail Gorbachev passou a viver, entre outras coisas, de palestras, seguindo o exemplo de vários colegas ocidentais. Corria o mundo a divulgar seu feito, temperando a conversa com alguns conselhos e observações sobre política internacional, que os ouvintes fingiam acreditar ser sérios, para esquecer logo em seguida.
Tantas viagens acabaram trazendo-o ao Brasil, mais precisamente a São Paulo. Num intervalo do interminável oba-oba com que os nativos o presentearam, o líder aposentado foi parar no Estadão para ver como é que funcionava um dos principais baluartes da recém-florida democracia liberal que aqui se instalava.
Quando surgiu na redação, dezenas de curiosos, de contínuos a jornalistas de todos os calibres, o cercaram. Gorbachev parou diante de uma mesa, sorriu o sorriso dos predestinados, sentou-se na cadeira vaga e pegou um dos jornais que ali se achavam amontoados. Ao abrí-lo, o espoucar de flashes parecia fogos de artifício.
E não deu nem tempo de avisá-lo que havia escolhido o jornal errado: Gorbachev posava para a imortalidade do Estadão passando os olhos numa Folha!
A balbúrdia daquele momento foi tamanha que ninguém ligou para a gafe. O fato é que Gorbachev se despediu sob uma calorosa salva de palmas e um princípio de confusão, quando uma veterana integrante daquela equipe de bravos jornalistas agarrou a cadeira que o ex-líder havia usado e determinou, entre categórica e histérica:
- É minha, é minha! Ninguém mais vai sentar nela!
Bem, Gorbachev pode ter dado no Estadão uma aula de como não se faz marketing, mas ultimamente o veterano servidor do capitalismo liberal tem usado todas as lições que aprendeu dessa matéria para voltar à berlinda.
Deve ter imaginado que a crise financeira global é tão séria que até mesmo ele surge como uma opção para os desesperados chefes de Estado que se surpreendem a cada dia com mais novidades sobre os estragos causados pela insensatez de uma doutrina levada aos seus extremos.
Ao comentar a vitória de Barack Obama a jornais de diferentes línguas, Gorbachev aconselhou-o a adotar nos Estados Unidos a sua "perestroika" ("reestruturação"), receita a seu ver infalível para reanimar Estados em grau adiantado de decomposição.
Obama, de sólida formação acadêmica, sabe os efeitos que a perestroika teve na União Soviética e deve dispensar a sugestão.
O novo presidente dos Estados Unidos ainda não leu o jornal errado.
terça-feira, 1 de março de 2011
Um dia, uma esperança
A implicância de Muamar Kadafi em permanecer na Líbia, ao contrário do que fizeram outros ditadores árabes, desconcerta analistas e líderes de países que recentemente se tornaram amigos do coronel. Os Estados Unidos, por exemplo, que viviam uma lua de mel com o regime líbio, por ele ter se comprometido a reprimir qualquer resquício de fundamentalistas do tipo da Al Qaeda em seu território, agora rugem ameaças do tipo "saia já ou o tiraremos nós mesmos daí".
Convenhamos que isso não é coisa que se faça com um amigo, mas os americanos, esteja quem estiver morando na Casa Branca, seguem aquele velho ditado: "Amigos, amigos, negócios à parte." O negócio em questão é o petróleo que lá jorra abundante. E é claro que foram os próprios americanos que inventaram a máxima.
Pois na iminência de Kadafi perder o trono, os pragmáticos americanos já se puseram do lado dos prováveis herdeiros do poder - algum chefe de uma daquelas tribos que comandam parte do território do "país".
É que a Líbia, como toda a África, é uma invenção ocidental, uma herança dos colonizadores europeus, que dividiram o continente em porções que abrigam, em muitos casos, inimigos irreconciliáveis há séculos.
Não há como Kadafi resistir a tanta pressão. Mais hora, menos hora, ele vai cair. Seu substituto, provavelmente, se alinhará inteiramente aos interesses ocidentais. A "democracia" dos moldes do Iraque e do Afeganistão chegará, enfim aos poucos mais de 6 milhões de habitantes da região.
A Líbia, portanto, é um caso praticamente resolvido.
Para os Estados Unidos, porém, há outros problemas à vista. A fúria dos pobres árabes tem poupado, por enquanto, alguns dos mais íntimos amigos da potência, como a milionária Arábia Saudita, que em pleno século XXI é uma monarquia absolutista. Ou o Kuwait, monarquia constitucional, ou o Bahrein, também uma monarquia absolutista, praticamente uma base militar americana na região.
Há muitos motivos para o governo Obama, ou quem sucedê-lo, se preocupar. Décadas e mais décadas de uma política exterior baseada apenas na defesa de seus próprios interesses resultaram neste mundo desigual e injusto, em grande parte governado por ditadores títeres, que prestam conta apenas aos seus empregadores e desprezam os direitos mais elementares de seus servos.
Entre os pontos positivos dessa revolta dos árabes está o fato de que milhões de pessoas que viviam amedrontadas, sufocadas, por regimes cruéis, estão agora contaminadas pelo vírus da liberdade. Pela primeira vez, eles experimentam a sensação de força irresistível que toma conta da massa. Quando essa doença se espalha, ela pode demorar a fazer suas vítimas, mas um dia, certamente, ela vem à tona.
Um dia, uma esperança...
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