quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Apetite insaciável


Matéria da Agência Brasil sobre estudo da consultoria Accenture mostra que a formação de um mercado consumidor forte já se tornou irreversível no Brasil. Segundo a pesquisa, os brasileiros lideraram as compras de aparelhos de telefones celulares, televisão de alta definição, de câmeras digitais e netbooks numa lista de oito dos principais países emergentes e industrializados, em 2010.
De acordo com o levantamento anual, chamou a atenção o “apetite insaciável” dos emergentes por produtos eletrônicos em comparação aos mercados mais estáveis dos países ricos.
A consultoria ouviu 8 mil pessoas nos Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Brasil, Rússia, Índia e China. Os brasileiros já são os que mais detêm aparelhos celulares, aparelhos de DVD, televisões normais e netbooks, de acordo com a pesquisa.
Cerca de 55% dos brasileiros ouvidos disseram ter comprado um aparelho de telefone celular em 2010. Aproximadamente 30% dos entrevistados afirmaram ter adquirido um aparelho de televisão de alta definição – mesma proporção de consumidores que compraram uma câmera digital.
Para o ano de 2011, de acordo com a pesquisa, os produtos que lideram a preferência dos consumidores incluem as TVs de alta definição, computadores e smartphones. Entretanto, o estudo percebe uma diferença crucial entre os mercados emergentes e industrializados. Dos entrevistados em países ricos, 40% disseram não ter intenção de comprar eletrônicos em 2011. Já no Brasil, na Rússia, na Índia e na China este percentual foi de apenas 9%.
"Com economias mais estáveis e riqueza crescente entre a classe média desses países, o apetite dos consumidores por tecnologia, especialmente móvel, é insaciável [nesses países]", diz o estudo. Ao contrário disso, nos países industrializados não apenas os mercados são mais maduros, como também o efeito da crise econômica é sentido mais fortemente, o que reduz a disposição para gastos nesse segmento.
O computador e o laptop foram considerados pelos pesquisadores como "os gigantes silenciosos" entre os produtos eletrônicos. "Todo mundo tem um", escreveram os autores do estudo. Cerca de 93% dos entrevistados em todos os países disseram ter um computador. No Brasil, 35% dos entrevistados disseram ter comprado um PC no ano passado, proporção semelhante à da Índia, mas pouco atrás da China.
Os chineses lideraram disparado as compras de smartphones (quase 40% compraram um aparelho no ano passado. No Brasil, foram menos de 20%). O estudo sugeriu que os mercados emergentes estão queimando etapas na aquisição de produtos eletrônicos, em comparação com a trajetória percorrida pelos mercados mais saturados dos países industrializados.
"Contrariando as percepções equivocadas mais comuns, um grande segmento de consumidores nos Bric [grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia e China] está mais interessado nas tecnologias mais novas e inovadoras que em tecnologias mais baratas com menos funcionalidades", observou a pesquisa.
De acordo com o estudo, as tendências indicam que algumas das novas tecnologias podem estar se tornando obsoletas mais rapidamente. Um exemplo é o computador, cujas taxas de crescimento nas vendas tendem a cair nos próximos anos, ao passo que a demanda por tablet PCs deve crescer 160%.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

De volta aos trilhos

Depois de dar declarações conflitantes durante a campanha eleitoral, o governador Geraldo Alckmin afirmou ser  favorável à construção do trem-bala que vai ligar Campinas ao Rio de Janeiro. O projeto está sendo tocado pelo governo federal e tem todo o apoio da presidente Dilma, que foi uma das pessoas que mais brigaram para que a obra finalmente saísse da fase de planejamento.
A mudança de opinião do governador paulista pode ser um indício de que ele já começou a vestir, ao menos publicamente, seu novo figurino de político de centro, à feição do partido que ele e alguns outros tucanos querem reiventar. Nas respostas que deu aos entrevistadores da rádio Bandeirantes, Geraldo foi extremamente cordato com o governo federal - nem parecia um governador da oposição.
Certo é que nessa questão do trem-bala parece que a ficha finalmente caiu: o projeto não tem nada de mirabolante, como dizem alguns de seus críticos. Está mais que na hora de o país ampliar a sua malha ferroviária, tanto de carga como de passageiros - esta inexistente - para desafogar o transporte rodoviário e aéreo.
É só pegar o exemplo da China, país tão grande quanto o Brasil, que tem feito investimentos pesadíssimos nos trens de alta velocidade e está prestes a inaugurar a linha entre Pequim e Xangai, corredor dos mais movimentados do mundo. Lá, o governo pretende que os trens-balas atinjam 90% da população - ou seja, apenas aquelas localidades mais ermas, escondidas, não serão atendidas pelo serviço.
O que não dá para entender, na verdade, é que os governantes brasileiros tenham desistido tão rapidamente do modal ferroviário num passado não tão distante e escolhido o caro e poluente modelo rodoviário para ser o principal num país continental.
Hoje, felizmente, esse erro crasso de planejamento está sendo corrigido, com as obras de várias ferrovias, como a Norte-Sul, a Transnordestina, a Ferrovia da Soja e a Leste-Oeste, em andamento. Isso pode ainda ser pouco para as enormes carências do país, mas é sinal de que o bom-senso voltou a imperar nos nossos governantes.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Imbecis virtuais


As reações de ódio explícito registradas em mensagens no Twitter no dia da posse de Dilma Rousseff, com pedidos para que algum "atirador de elite" matasse a nova presidente, serão investigadas a pedido da Procuradoria-Geral da República. É o mínimo que se espera, diante de tamanho descalabro. Já passou da hora de os inconformados entenderem que o jogo democrático é assim: às vezes se ganha, às vezes se perde, e isso é chamado de alternância do poder.
Há quem diga que essas reações de fúria são apenas arroubos de uma juventude que descobriu na internet uma nova maneira de extravasar o seu inconformismo, a sua rebeldia - ou sei lá o que mais.
Bobagem. Quem torna público o desejo de matar alguém - e neste caso o alguém é simplesmente a presidente da República - no mínimo está incitando outros a fazerem o mesmo, numa corrente que pode terminar numa fatalidade. E incitar o ódio, o preconceito, é crime, nada mais, nada menos que isso, e como tal deve ser tratado.
Fico imaginando se, em vez de Dilma, o alvo desses imbecis fosse, por exemplo, o seu adversário no segundo turno das eleições. Quanta tinta se gastaria em editoriais e artigos, quantas vozes se levantariam para condenar os extremistas de esquerda, terroristas com o único propósito de solapar a democracia...
A questão toda, bem sei, é complexa. Passa pelo desmantelamento da educação - pública e privada - nesses anos todos, pela formação familiar, pelo fortalecimento de uma sociedade de consumo centrada no culto ao capital etc etc.
Mas esse bando de idiotas bem que merecia ser enquadrado pelas devidas "otoridades" policiais. Nem que fosse apenas para que percebessem, com todas as devidas consequências, que o mundo vai além do bate-papo furado dos tuíteres da vida.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Caos terrestre

As estradas paulistas, tão elogiadas pelos governantes tucanos, foram o retrato mais que acabado daquilo que toda imprensa esperava que ocorresse nos aeroportos. Congestionamentos de dezenas de quilômetros, acidentes de todos os tipos, o propalado caos - só que viário, não aéreo.
Nos aeroportos saturados, os atrasos dos voos ficaram na média. Não deu nem para os jornais sapecarem chamadas de primeira página. O Brasil do Terceiro Mundo sobreviveu, galhardamente, a mais um período de festas.
Já o Brasil do Primeiro Mundo...
E sempre é bom lembrar que quase toda a malha rodoviária do Estado é pedagiada, está entregue a uma série de empresas que fazem do sagrado direito de o cidadão ir e vir um dos negócios mais rentáveis do planeta Terra.
E que o novo governador paulista, o nosso conhecido Geraldo, prometeu rever os generosos contratos das concessionárias.
Ah, deixa pra lá. Foi só uma promessa de campanha.

domingo, 2 de janeiro de 2011

"Cuidarei dos mais frágeis, governarei para todos"

O Brasil, sob nova administração: esperança é a palavra
(foto: Fábio Pozzebom/ABr)

Num sábado, primeiro dia de 2011, de fortes emoções em Brasília, com Lula passando a faixa presidencial para Dilma Rousseff, nada mais justo que registrar neste espaço o discurso da nova presidente ao grande público que presenciou a sua posse.
Foi uma fala simples, objetiva, mas forte porque sincera. Marca uma nova etapa da jovem democracia brasileira, cheia de desafios e dificuldades, mas plena de esperanças.
A tarefa da nova presidente é enorme, tão grande quanto parece ser o destino do Brasil.
Seu discurso, na íntegra:

Queridas brasileiras, queridos brasileiros,
Eu e o nosso vice-presidente, Michel Temer, e sua senhora, Marcela, estamos aqui assumindo a Presidência e a Vice-Presidência do Brasil.
Eu estou feliz, como raras vezes estive na minha vida, pela oportunidade que a história me deu de ser a primeira mulher a governar o Brasil. Mas eu estou muito emocionada pelo encerramento do mandato do maior líder popular que este país já teve. Ter a honra do seu apoio, ter o privilégio de sua convivência, ter aprendido com sua imensa sabedoria, são coisas que se guardam para a vida toda.
Conviver todos estes anos com o presidente Lula me deu a dimensão do governante justo e do líder apaixonado por seu país e por sua gente. A alegria que sinto pela minha posse como presidenta se mistura com a emoção da sua despedida. Mas Lula estará conosco. Sei que a distância de um cargo nada significa para um homem de tamanha grandeza e generosidade.
A tarefa de suceder o presidente Lula é desafiadora. Eu saberei honrar este legado e saberei consolidar e avançar nesta obra de transformação do Brasil. A vontade de mudança do nosso povo levou um operário à Presidência do Brasil. Seu esforço, sua dedicação e seu nome já estão gravados no coração do povo, o lugar mais sagrado da nossa nação.
Hoje o presidente Lula deixa o governo depois de oito anos, período em que liderou as mais importantes transformações na vida do país. A força dessas transformações permitiu que vocês, o povo brasileiro, tivessem uma nova ousadia: colocar, pela primeira vez, uma mulher na Presidência do Brasil.
Para além da minha pessoa, a valorização da mulher melhora nossa sociedade e valoriza a nossa democracia.
Quero, neste momento, prestar minha homenagem a outro grande brasileiro, incansável lutador, companheiro que esteve ao nosso lado, ao lado do presidente Lula nesses oito anos. Eu me refiro ao nosso querido vice-presidente José Alencar. Que exemplo de coragem e de amor à vida nos dá este grande homem! E que parceria Zé Alencar e Lula, Lula e Zé Alencar fizeram, pelo Brasil e pelo nosso povo!
Eu e Michel Temer nos sentimos responsáveis por seguir no caminho iniciado por eles. Aprendemos com eles que quando se governa pensando no interesse público e nos mais necessitados, uma imensa força brota do nosso país. Aprendemos que quando se governa amando o Brasil, preservando a sua soberania e desenvolvendo o nosso país para torná-lo do tamanho do sonho de cada brasileira e cada brasileiro, uma força imensa é mobilizada e todos nós avançamos juntos.
Reafirmo aqui outro compromisso: cuidarei com muito carinho dos mais frágeis e mais necessitados. Governarei para todos e todas as brasileiras.
Uma mulher, uma importante líder indiana disse um dia que não se pode trocar um aperto de mão com os punhos fechados. Pois eu digo: minhas mãos vão estar abertas e estendidas para todos, desde os nossos aliados de primeira hora até aqueles que não nos acompanharam neste processo eleitoral.
É com este espírito de união que eu assumo hoje o governo do meu país. Acredito e trabalharei para que estejamos todos unidos pelas mudanças necessárias na educação, na saúde, na segurança e, sobretudo, na luta para acabar com a pobreza, com a miséria.
Não peço a ninguém que abdique de suas convicções. Buscarei o apoio, respeitarei a crítica. É o embate civilizado entre as ideias que move as grandes democracias como a nossa.
Não carrego, hoje, nenhum ressentimento nem nenhuma espécie de rancor. A minha geração veio para a política em busca da liberdade, num tempo de escuridão e medo. Pagamos o preço da nossa ousadia ajudando, entre outros, o país a chegar até aqui. Aos companheiros meus que tombaram nessa caminhada, minha comovida homenagem e minha eterna lembrança.
Queridas brasileiras e queridos brasileiros,
Já fizemos muito nos últimos oito anos, mas ainda há muito por fazer. E foi por acreditar que nós podemos fazer mais e melhor que o povo brasileiro nos trouxe até este momento.
Agora é hora de trabalho. Agora é hora de união. União de todos nós pela educação das crianças e dos jovens. União pela saúde de qualidade para todos. União pela segurança de nossas comunidades. União para o Brasil continuar crescendo, gerando empregos. União para o Brasil continuar crescendo, gerando empregos para as atuais e para as futuras gerações. União, enfim, para criar mais e melhores oportunidades para todos nós.
O meu sonho é o mesmo sonho de qualquer cidadão ou cidadã: o sonho de que uma mãe e um pai possam oferecer aos seus filhos oportunidades melhores do que a que eles tiveram em suas vidas.
Esse é o sonho que constrói um país, uma família, uma nação. Esse é o desafio que ergue um país.
Apresentei há pouco uma mensagem, com meus princípios e compromissos, no Congresso. Ali existem metas e objetivos, mas também existem sonhos.
Acho bom que seja assim. Para governar um país, um país continental do tamanho do Brasil, é também preciso ter sonhos. É preciso ter grandes sonhos e persegui-los.
Foi por não acreditar que havia o impossível que o presidente Lula fez tanto pelo país nesses últimos anos. Sonhar e perseguir os sonhos é exatamente romper o limite do possível.
Para consolidar e avançar as grandes conquistas recentes precisarei muito do apoio de todos vocês.
Quero pedir o apoio de todos, de Leste a Oeste, do Norte ao Sul do nosso país.
Vou estar ao lado dos que trabalham pelo bem do Brasil na solidão do Amazonas, nos rincões do Nordeste, na imensidão do cerrado, na vastidão dos pampas.
Se todos trabalharmos pelo Brasil, o Brasil nos devolverá em dobro o nosso esforço. O Brasil é uma terra generosa. Tudo que for plantado com mãos carinhosas e olhar para o futuro será colhido com abundância e alegria.
Que Deus abençoe o Brasil e o povo brasileiro.
Que todos nós juntos possamos construir um mundo de paz.
Eu quero, neste momento, dizer a vocês que eu darei todo o meu empenho, toda a minha dedicação para fazer com que as transformações que nós começamos nesses últimos oito anos continuem, prossigam e se expandam porque o povo brasileiro e o nosso país têm condições, hoje, de se transformar no maior e no melhor país para se viver.
Um abraço a todos, homens e mulheres do meu Brasil.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Mudança de plumagem

Parece que os oito anos do governo Lula fizeram algum efeito nas mentes e corações tucanas. Em seu discurso de posse ao cargo de governador de São Paulo, Geraldo Alckmin cometeu um ato que, em outros tempos, seria considerado uma heresia pelos seus pares: prometeu trabalhar "pensando no operário que madruga, em pé, nos pontos de ônibus, e que só noite alta volta ao lar, à sua família".
Claro está que não foi de graça que Geraldo deu tal ênfase ao social. O PSDB quer se livrar da pecha de partido elitista, que só pensa nos ricos, e deve, cada vez mais, se aproximar do povo. Note-se outro trecho do discurso: "Vou trabalhar com a mente e o coração voltados à trabalhadora que deixa os filhos em casa - uns cuidando dos outros -, e vai dar duro na fábrica, nos escritórios, nas lojas ou em casas alheias."
Está em pleno processo, então, o que alguns chamam de "refundação" do PSDB, processo que tem Geraldo e seu colega mineiro Aécio Neves como principais entusiastas. Outros partidos, como o DEM, que já foi PFL, tentaram isso e se deram mal. perderam a identidade e os poucos votos que já tinham.
Na cerimônia de posse, FHC, eterno cacique da tribo tucana, e José Serra, aquele que queria ser presidente da República, foram mostrados pela TV Cultura, FHC balançando a cabeça, como se estivesse concordando com tudo o que Geraldo dizia. Serra se comportando como Serra, emburrado como sempre.
É, as coisas dão sinal de vida no ninho desses estranhos pássaros de bico enorme...
...
Depois da cerimônia, Serra disse alguma coisa para os repórteres: que vai ganhar a vida agora dando palestras, aulas e escrevendo. E que continuará na política, pois, afirmou, sempre fez política.
Taí um modo melancólico de se despedir da via pública.