
Um dos argumentos mais usados para desqualificar a votação obtida por Dilma Rousseff é que grande parte de seus eleitores nordestinos, principalmente, estaria trocando seus votos pelos benefícios recebidos pelo programa Bolsa Família. Esse seria, então, um "voto oportunista", que não pode ser comparado com o dado ao tucano José Serra, concentrado na região Sul/Sudeste, mais rica, e, por consequência, com menos influência do assistencialismo governamental.
Não é preciso nem levar em consideração o fato de que o Brasil - e todas as nações ditas civilizadas - adota o conceito do sufrágio universal, que parte da ideia de que todos os adultos, seja lá sua condição social, têm direito de votar, para demolir essa argumentação, preconceituosa na raiz.
Basta aplicar esse mesmo raciocínio, de que o voto "oportunista" vale menos que o "ideológico", para os eleitores de Serra.
Quem votou majoritariamente nele foram as pessoas do estrato social mais elevado, os mais ricos, que escolheram Serra porque, em sua opinião, era ele o mais capacitado para manter os seus privilégios - os ricos, como se sabe, usam os mais diversos artifícios para pagar menos imposto, exploram comumente a mão de obra, vivem em guetos, desprezam a mobilidade social, e vêem no rentismo a perfeita expressão do capitalismo moderno.
Por que, então, diferenciar o voto que foi dado a Dilma pelo miserável que se alimenta com o dinheiro do Bolsa Família do voto que foi dado a Serra pelo burguês que vê no governo Lula uma ameaça ao seu patrimônio?
Os dois não estão, simplesmente, olhando seus próprios interesses?
Por que o interesse de um vale mais que o interesse do outro?
São hipocrisias desse tipo que precisam acabar no Brasil para que a discussão política ganhe um nível mais elevado, acima dos meros chavões e dos preconceitos.




