quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Exército das trevas


Se alguém ainda tinha alguma dúvida sobre o que a candidatura Serra representa, a farta distribuição do panfleto terrorista patrocinado pela notória, porém insignificante TFP (Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade), na reunião de ontem do alto tucanato, certamente encerra o assunto: o ex-governador paulista conseguiu a proeza de atrair para o seu lado todos os reacionários do país.
É uma façanha e tanto. Fazia muito tempo que uma candidatura presidencial não exibia, com tanta desenvoltura, uma constelação de tal brilho.
Há espaço para todos: desde os setores mais conservadores dos católicos, protestantes, evangélicos e que tais, a ruralistas, pefelistas, udenistas, viúvas inconformadas da ditadura militar, os próprios militares de pijama, antipetistas e anticomunistas raivosos, neoliberais de carteirinha, lumpen-proletários, artistas da Globo, jornalistas de resultados, humoristas sem graça, pistoleiros de reputação, ex-torturadores, políticos em fim de carreira, políticos derrotados - uma lista sem fim desse pessoal que transita entre o fascismo explícito e o macarthismo enrustido.
Este segundo turno promete muitas emoções, a julgar pela qualidade dos personagens envolvidos no trabalho de impedir a continuação do projeto que devolveu a auto-estima ao povo brasileiro, retirou milhões da miséria, promoveu a inclusão de outros milhões na sociedade de consumo e faz o país caminhar para ser uma das maiores economias do mundo.

A TV COM UM SÓ PENSAMENTO

Reproduzo abaixo a nota do informativo Jornalistas&Cia sobre as novidades que a TV Cultura reserva para seus telespectadores.
E ainda tem gente que chama a TV Brasil de "TV do Lula"...

"Como J&Cia anunciou na edição 755, Maria Cristina Poli (ex-TV Globo e Bandeirantes) assumiu nesta 2ª.feira (4/10) a bancada do Jornal da Cultura, que vai ao ar de 2ª a sábado, às 21 horas. O telejornal passou a ser a mais analítico e tem agora as participações de debatedores como o sociólogo Demétrio Magnoli, o historiador Marco Antônio Villa e o economista Alexandre Schwartsman. A apresentadora já esteve na Cultura, entre 93 e 98, quando fez reportagens especiais para o Vitrine."

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Carolices


Feita a descoberta de que um tal "voto religioso" tirou a vitória de Dilma Rousseff no primeiro turno da eleição presidencial, só se vai ouvir falar de agora em diante sobre questões secundárias para o desenvolvimento do país. Como o tema do aborto, por exemplo, que deveria ser tratado no âmbito da saúde pública, mas que virou um assunto religioso.
Parece uma competição para ver quem é mais carola, Serra ou Dilma.
E isso ocorre num país cuja Constituição estipula a separação entre Estado e Igreja, uma nação onde a religião deveria estar lá no seu canto, quietinha, sem se misturar com os negócios de governo.
Claro que a gente sabe que isso é impossível no Brasil, pela sua história e cultura. De qualquer forma, não é bom que surja, impulsionada pelos ânimos eleitorais esquentados, uma "onda religiosa" para atrapalhar ainda mais a construção de uma democracia sólida no país.
E antes de encerrar esta microcrônica, uma palavrinha a mais sobre o aborto: acho quem nem o Estado, nem a Igreja, nem ninguém deve decidir sobre a gestação, a não ser a própria mulher.
A função do Estado é de simplesmente prover os meios necessários para atender a pessoa que deseja fazer o aborto - e ponto final.
Quanto à Igreja, seu papel deveria ser apenas o de transmitir a seus fiéis seu ponto de vista sobre o tema.
O mundo seria bem mais simples se cada um soubesse qual é o seu lugar nele.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O Brasil e o mundo

Matéria da repórter Renata Giraldi, da Agência Brasil, sobre o que o futuro presidente terá de fazer na política externa elege dois desafios principais: manter o carisma internacional e o perfil de liderança regional consolidados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A íntegra da continuação da nota segue abaixo. De vez em quando é interessante a gente ler algumas opiniões ponderadas sobre temas importantes:

A lista de desafios do sucessor de Lula se estende ainda à definição nas relações políticas e diplomáticas com os Estados Unidos, uma vez que houve nos últimos anos a aproximação com o Irã, e os latino-americanos.
Há dúvidas, segundo os especialistas, sobre a manutenção da atual estrutura de um ministro de Estado de Relações Exteriores – Celso Amorim – e um assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência – Marco Aurélio Garcia. Na tentativa de evitar embates, ficou definido que Garcia cuida de temas regionais e Amorim do todo. Mas, para muitos, a estrutura ainda é confusa.
As polêmicas em torno das relações do Brasil com o Irã, apoiando o programa de desenvolvimento do urânio iraniano desde que para fins pacíficos, continuará em pauta, de acordo com os especialistas. Para eles, de forma semelhante será mantida a relação com outros líderes políticos, também controversos, como o venezuelano Hugo Chávez, o boliviano Evo Morales e equatoriano Rafael Correa.
Os professores Daniel Aarão Reis, de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF), e Carlos Eduardo Vidigal, de História das Américas da Universidade de Brasília (UnB), advertiram que ao optar pela manutenção de relações diplomáticas com alguns países, o futuro não pode ignorar eventuais ameaças à democracia e denúncias de violação de direitos humanos.
“Penso que o Brasil deveria manter essas relações, favorecendo o diálogo internacional e exercendo pressões para que na área desses Estados não corram riscos os valores democráticos e o respeito aos direitos humanos”, disse Aarão Reis. “Talvez sobre o caso específico do Irã, o futuro presidente pense em rever as relações bilaterais, observando as questões relativas aos direitos humanos”, afirmou Vidigal. “Mas em relação aos países vizinhos, como Equador e Venezuela, não deve haver alteração alguma.”
Para os professores, é fundamental ainda manter os esforços pelo fortalecimento do Mercosul, sem permitir que algumas propostas se tornem apenas desejos distantes da concretização. “O Mercosul é sonho e realidade e deve o Brasil traduzir em propostas concretas, em políticas construtivas, a proposta [global] do Mercosul e da União de Nações Sul-Americanas [Unasul]”, disse Aarão Reis.
Vidigal lembra que havia uma expectativa elevada em relação ao Mercosul, nos últimos dois anos, e que sofreu paralisação em decorrência dos efeitos da crise econômica. “O Mercosul já é uma realidade com uma agenda bastante ampla, mas a crise afetou [vários projetos]. Mas houve um crescimento. O que não ocorreu foi a evolução que se esperava”, disse o professor da UnB.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Abestados


Tiririca talvez seja a síntese do que foi esta eleição.
O palhaço analfabeto que driblou a legislação eleitoral e conquistou uma cadeira na Câmara dos Deputados com mais de 1 milhão de votos resume boa porção da alma brasileira: essa legião de "abestados" folgazões, ignorantes de seu papel de cidadãos, náufragos inconscientes dessa travessia que o país ousa fazer rumo à modernidade.
É sintomático também que o fenômeno Tiririca tenha explodido em São Paulo, a tal locomotiva do progresso do país, cujo lema, o non ducor duco, põe de joelhos todos os outros entes federativos, subjuga pela força bruta quem deveria tratar como igual.
Só que desta vez, o palhaço analfabeto, que zomba do cargo que almeja, que faz troça dos valores republicanos, que ofende seus eleitores, não só revelou os segredos mais íntimos e sujos da tradicional família que o acolheu, como foi recompensado por ela: São Paulo é isso, esse imenso mar de preconceito, de desigualdades, de ódio de classes, de fúria capitalista, bradou Francisco Everardo Oliveira Silva por detrás de sua máscara mal-feita de clown terceiro-mundista.
É isso. Tiririca um dia se olhou no espelho e viu refletida não a sua imagem, mas 1 milhão de pedacinhos coloridos de chita que formavam um rosto, uma face, um sorriso de palhaço.
E aí ele compreendeu que tinha achado seu lugar neste mundo.

domingo, 3 de outubro de 2010

Naus sem rumo

Os principais candidatos presidenciais oposicionistas terminam suas campanhas como começaram: como duas naus sem rumo.
Tanto José Serra como Marina Silva não conseguiram explicar ao eleitorado porque querem presidir o Brasil. O único apelo dos dois foi o traço antipetista das candidaturas - forte em cerca de 30% dos eleitores.
Fora isso, não apresentaram programa de governo, nem ideias novas, sem nada que pudesse acrescentar alguma coisa ao ciclo de desenvolvimento vivido pelo país.
Serra começou como o "amigo" de Lula, teve momentos de cão hidrófobo, prometeu tudo o que podia para todas as audiências, e acabou a campanha de forma melancólica - as profundas olheiras que exibe são a marca mais visível de seu fracasso.
Já Marina tentou se mostrar como a "terceira via", mas nem toda a condescendência da imprensa com o seu discurso absolutamente vazio foi capaz de elevá-la à condição de uma verdadeira aspirante à Presidência.
Seu futuro político, agora que ela não tem mais a proteção da máquina petista e já foi suficientemente usada pela oligarquia para dividir os votos na candidatura governista, está comprometido.
Dilma Rousseff, que antes da campanha era tida como um simples "poste", conseguiu passar para o eleitor a ideia de que representa a continuidade do governo Lula e, mais que isso, que tem luz própria. Não é pouco para uma novata em eleições. Pode ser o suficiente para assegurar o futuro do projeto político iniciado em 2003 pelo presidente Lula.

sábado, 2 de outubro de 2010

Não vi, mas me contaram

Um ex-diretor de redação do Estadão, sujeito tão empolado que era chamado de "senador" pelos seus cupinchas, costumava, quando, nas raras vezes que elogiava algum repórter, dizer, alto para todos ouvirem:
- Não li, mas me contaram...
Claro que fazia isso para mostrar uma espécie de superioridade intelectual em relação ao seu subordinado. Um homem como ele, tão acima dos outros, não tinha tempo a perder com leituras tão frívolas. Como o mundo dá tantas voltas, hoje, longe do poder dos tempos do Estadão, ninguém perde tempo com as bobagens que escreve.
Me lembrei desse sujeito ao ler hoje sobre o debate da Globo, que não assisti. Mas pelo que li, parece que se frustrou a última oportunidade de Serra arranjar os votos necessários para passar ao segundo turno. Não houve nenhuma declaração bombástica, nenhum embate que tenha resultado em mortos e feridos. Foi tudo muito anódino, dizem.
Dizem ainda que entre hoje e domingo alguma baixaria, a tal da bala de prata, pode ser disparada contra a favoritíssima Dilma Rousseff.
Acho isso altamente improvável, mas não impossível.
Afinal, estamos lidando com gente cujos valores éticos e morais estão abaixo da linha da cintura, gente que é capaz de tudo para impedir a vitória governista.
Gente que já instigou, conspirou e finalmente deu um golpe de Estado no já longínquo 1964, que resultou nos anos mais sombrios da história do país.
Esses anos eu vi, não precisei de ninguém para me contar como foram.