terça-feira, 7 de setembro de 2010

Boas notícias

Há algum tempo, a Folha mantinha uma seção perdida entre as suas páginas chamada "Boa Notícia" - ou algo do tipo. Não foi para a frente. O jornal prefere, como os congêneres, destacar a "má" notícia, principalmente depois de 2003, quando assumiu o governo Lula.
De lá para cá, a imprensa vive a noticiar uma sucessão de "escândalos", "denúncias", factóides que duram alguns dias e têm apenas o intuito de atingir a administração petista.
O auge desse antijornalismo foi atingido nestes últimos dias, quando a candidata Dilma Rousseff aparece bem à frente do oposicionista José Serra em todas as pesquisas eleitorais.
Se os jornalões não tivessem se transformado em meros panfletos partidários, talvez eles estivessem com outras matérias mais interessantes em suas páginas. Como as selecionadas abaixo, em uma rápida passagem pelo site da Agência Brasil. São boas notícias, do país real, e não esse de triste ficção que querem impor a todo custo ao povo brasileiro.

Investimento estatal - As empresas estatais federais poderão investir em 2011 o maior valor da história. A proposta de Orçamento Geral da União para o próximo ano, encaminhada ao Congresso na semana passada, reserva R$ 107,5 bilhões para os investimentos das estatais. O montante é 13,3% maior que os R$ 94,9 bilhões previstos para este ano. A maior parte dos recursos corresponde à Petrobras, que sozinha responderá por R$ 91,2 bilhões em investimentos das estatais federais. Desse total, R$ 78,7 bilhões serão aplicados no próprio país e R$ 12,5 bilhões no exterior. Em segundo lugar, estão as empresas do Grupo Eletrobras, com investimentos estimados em R$ 8,16 bilhões.

Telefonia fixa - As empresas de telefonia fixa deverão investir R$ 2,1 bilhões na expansão do sistema para atender a 20 milhões de pessoas, entre elas 13 milhões cadastradas no programa Bolsa Família, além de comunidades indígenas e quilombolas, a partir de 2011, por meio do Plano Geral de Metas e Universalização (PGMU). A obrigação dos investimentos vai até 2025, quanto termina o prazo de concessão dos serviços. A cada cinco anos haverá uma revisão no plano para atualização das metas.

Brasil bate EUA - O Brasil superou os Estados Unidos e ocupa agora o terceiro lugar em um ranking de países prioritários para investimentos estrangeiros no período entre 2010 e 2012. A conclusão é do levantamento Investimentos Diretos Estrangeiros (IDE) elaborado pela Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), órgão da Organização das Nações Unidas (ONU). O Brasil saiu do quarto lugar, em 2009, para o terceiro lugar no ranking. A China se mantém na liderança, seguida pela Índia, que passou da terceira para a segunda posição. Os Estados Unidos caíram para o quarto lugar. No ano passado, quando subiu do quinto para o quarto lugar, o Brasil ultrapassou a Rússia.

Capitalização da Petrobras - O governo deverá iniciar o processo de capitalização da Petrobras no dia 24. A oferta das ações deverá ser feita na Bolsa de Valores de São Paulo. Segundo pedido de oferta pública de distribuição das ações, protocolado na semana passada na Comissão de Valores Mobiliários, serão feitas três ofertas: a prioritária, destinada aos acionistas e na qual serão distribuídas até 80% da quantidade inicial de ações ordinárias e preferenciais; a de varejo - para empregados da Petrobras, que terão preferência na distribuição, e pessoas físicas; e para os investidores institucionais, grupo que inclui pessoas jurídicas, instituições financeiras e clubes de investimento do Brasil e do exterior.

Balança comercial - A balança comercial inciou o mês com superávit de US$ 138 milhões, resultado de exportações de US$ 2,616 bilhões e importações de US$ 2,478 bilhões na primeira semana de setembro. De janeiro à primeira semana deste mês, o superávit comercial é de US$ 11,822 bilhões.

PIB - A projeção dos analistas do mercado financeiro para o crescimento da economia neste ano subiu de 7,09% para 7,34%, segundo o boletim Focus. Para 2011 a expectativa de expansão do Produto Interno Bruto (PIB), soma de todos os bens e serviços produzidos pelo país, foi mantida em 4,5%. Na sexta-feira, o IBGE informou que o PIB teve crescimento recorde de 8,9% no primeiro semestre deste ano em relação ao mesmo período de 2009.

Fundos de cultura - O Ministério da Cultura está promovendo uma reforma no Fundo Nacional de Cultura, por meio da criação de fundos setoriais, cujo lançamento está programado para o dia 15. A informação foi dada pelo secretário de Identidade e Diversidade do ministério, Américo Córdula. “Nós estamos fortalecendo. Nós tivemos sempre uma política de renúncia fiscal como principal instrumento. O Fundo Nacional tinha um valor muito pequeno e era pouco democratizado na distribuição dos recursos”, disse ele. Para reverter esse quadro, o ministério decidiu fortalecer o Fundo Nacional. Foram criados fundos setoriais, entre os quais se destaca o que garante o acesso à diversidade, para atender a todos os segmentos de manifestações culturais do país. Outros fundos são voltados para as artes em suas várias expressões - livro, leitura e literatura, patrimônio cultural e audiovisual, entre outras.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

"Não me acusam, insultam..."


Transcrevo abaixo um dos mais importantes documentos da história do Brasil.
Sua leitura é indispensável a todos que acreditam que a honra e a ética são valores fundamentais para a vida humana.
Para os tantos outros que agem de modo diverso e usam qualquer meio para atingir os seus fins, a leitura da carta-testamento de Getúlio Vargas é absolutamente desnecessária.
É impressionante que, 56 anos depois de sua divulgação, ela continue tão forte e tão atual.
E que suscite tantas reflexões...

Carta-testamento
Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.
Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre.
Não querem que o povo seja independente. Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.
Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.
Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão.
E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.

Rio de Janeiro, 23/8/1954
Getúlio Vargas

domingo, 5 de setembro de 2010

O debate das esquerdas

Praticamente alijados da disputa eleitoral, os partidos mais à esquerda no leque ideológico pretendem reunir seus candidatos presidenciais para debater suas propostas. Segundo informações do site do PCO, o encontro visa enfrentar "o bloqueio imposto pelo monopólio da imprensa burguesa sobre os meios de comunicação e da própria Justiça eleitoral que vêm cerceando o direito democrático dos partidos que não participam da alta roda dos candidatos escolhidos pela burguesia para disputar - e vencer - as eleições".
O debate, "proposto para servir como uma plataforma de denúncia do regime político da burguesia", será mediado pelo jornal Brasil de Fato e deve reunir, pelo menos, os candidatos do PCO, PCB e PSTU. O convite foi estendido também ao candidato do PSOL à Presidência, Plínio de Arruda Sampaio, que, no entanto, não enviou um representante à reunião preparatória.
Nela, Rui Costa Pimenta, candidato a presidente e secretário-geral do PCO, disse esperar que o debate sirva para impulsionar "uma ampla campanha de denúncia das arbitrariedades da burguesia nas eleições".
O debate deverá ter como eixo central "a luta contra a proscrição dos partidos de esquerda nas eleições", contrapondo-se "à campanha feita pela imprensa burguesa em favor das candidaturas do PT e do PSDB".
“Achamos que este debate vai ficar na história da luta revolucionária no Brasil e, pelo menos, criar as condições para que o convívio entre nossos partidos possa melhorar e possamos discutir nossas divergências de forma fraterna, sem escondê-las”, afirmou Ivan Pinheiro, candidato à Presidência pelo PCB.
Ainda não foi definida a data nem o local do debate, que segundo seus organizadores, deverá ser assistido por cerca de 1 milhão de pessoas, através das redes sociais, TVs e rádios comunitárias.

sábado, 4 de setembro de 2010

Agora vai...

O título da notícia do portal Estadão não deixa de ser verdadeiro. Mas é hilário:
"Dilma para de avançar e Serra deixa de cair, indica pesquisa Ibope"
Lembra de outras manchetes fantásticas do jornalão.
Uma delas, na campanha de 1989, quando o diário dos Mesquitas apoiava o "liberal" Guilherme Afif Domingos para a Presidência.
Claro que o peso e a desimportância do candidato não lhe davam nenhuma esperança de vitória, mas o Estadão confiava tanto no seu sucesso - ou torcia por ele - que num belo dia sapecou, em duas linhas, uma manchete que quase mudou os rumos da eleição:
"Afif reage e
chega a 9%"
O outro título histórico do Estadão foi em 1986, quando Antonio Ermírio de Moraes se arriscou na política e se candidatou para o governo paulista, com as bençãos, é claro, do Estadão. No fim, ele levou uma surra de Orestes Quércia, mas poucos dias antes do pleito, o jornal tentou dar alguma esperança ao empresário. E mancheteou:
"Indecisos podem
dar vitória a Ermirio"
Ah, se todos os indecisos, sem exceção, tivessem votado nele...

Impostos e mitos


A Receita Federal fez um interessante estudo que desmascara as informações incessantemente divulgadas pela oposição sobre o peso "sufocante" dos impostos cobrados no país.
Segundo ele, a carga tributária do Brasil é maior do que a de países como o Japão, os Estados Unidos, a Suíça e o Canadá, mas menor do que de muitos outros membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento, a OCDE, clube que reúne os países maos ricos do mundo. Os dados são de 2008.
Enquanto o peso dos impostos no bolso do cidadão chegou, naquele ano, a 34,41% no Brasil, no Japão ficou em 17,6%. A carga também foi menor, por exemplo, no México (20,4%), na Turquia (23,5%), nos Estados Unidos (26,9%), na Irlanda (28,3%), Suíça (29,4%), no Canadá (32,2%) e na Espanha (33%).
Acima do Brasil, ainda na comparação com os países da OCDE, ficam o Reino Unido (35,7%), a Alemanha (36,4%), Portugal (36,5%), Luxemburgo (38,3%), a Hungria (40,1%), Noruega (42,1%), França (43,1%), Itália (43,2%), Bélgica (44,3%), Suécia (47,1%) e Dinamarca (48,3%). Fora da OCDE, o estudo da Receita destaca a Argentina (29,3%).
“A comparação com outros países é importante e serve como referência, só que a carga tributária de um país reflete muito o Estado que se tem. A Constituição brasileira traz obrigações que impõem certos gastos dos quais não há como fugir”, explicou o subsecretário de Tributos e Contenciosos da Receita Federal, Sandro de Vargas Serpa.
Segundo ele, em tese, países mais liberais, que não oferecem certos serviços públicos para a sociedade e não têm a Previdência administrada pelo setor público, por exemplo, têm carga tributária menor. “Países que têm o perfil mais ligado ao atendimento de forte demanda social à população notadamente têm uma carga tributária bruta maior. O Brasil se encontra no meio desse caminho”, afirmou.
No ano passado, a carga tributária caiu para 33,58% do Produto Interno Bruto (PIB). Em 2008 – quando o Brasil começou a sentir mais fortemente os efeitos da crise apenas no último trimestre – a carga tributária alcançava 34,41% do PIB. (Com informações da Agência Brasil)

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Senha para o golpe

As últimas declarações dos próceres tucanos sobre esse caso da quebra de sigilo de dados guardados na Receita Federal vão além da guerra eleitoral: são uma senha para um golpe com o objetivo de impedir a eleição de Dilma Rousseff como legítima sucessora do presidente Lula.
Ao acusar o PT e sua candidata de todos os crimes possíveis, sem nenhuma prova, atropelando e desprezando o processo administrativo e criminal que apura o ocorrido, ao tentar criar um clima de instabilidade no país, ao ofender uma instituição séria e republicana como a Secretaria da Receita Federal, os líderes tucanos e seus satélites agem como os mais baixos e torpes golpistas.
Para concretizar o golpe contam com a ajuda de grande parte da imprensa, que sabota o governo Lula desde o seu início; com a simpatia de setores do Judiciário; com a conivência de militares imersos na ideologia anticomunista dos tempos da Guerra Fria; com a cumplicidade de membros da tal "comunidade de inteligência"; com a colaboração de psicopatas os mais variados.
Os números frios das pesquisas eleitorais que chegam ao público ou apenas são informados aos comandos das campanhas, amplamente favoráveis a Dilma Rousseff, devem ter feito a oposição decidir disparar a tal "bala de prata" que guardava para uma emergência dessas não contra a candidatura governista, mas sim contra a própria democracia.
São pessoas sem escrúpulos, delas tudo pode se esperar.

E.T.: Para refrescar a memória dos mais novos vai abaixo um interessante artigo do site História Viva sobre o incêndio no Reichstag, que precipitou a tomada do poder na Alemanha pelos nazistas. É a história nos dando lições...

O estopim da escalada nazista
O incêndio no edifício do Reichstag, o parlamento alemão, foi um ardil usado por Adolf Hitler para fechar o regime e tomar o poder
Por Hersch Fischler

Cinco dias antes das eleições legislativas de 1933, na noite de 27 de fevereiro, a sala de sessões do Reichstag, o parlamento alemão, inflamava-se como uma tocha.
Ardiam as chamas contra o céu de Berlim. No dia seguinte, a polícia, colocada sob a autoridade de Hermann Goering, ministro do Interior da Prússia, apresentava seu suspeito: um anarco-comunista holandês de 24 anos, o pedreiro Marinus van der Lubbe. Ele tinha sido "pego em flagrante", e "seus cúmplices comunistas, fugido".
No dia seguinte, sob o pretexto de uma ameaça de complô de esquerda, Hitler impunha ao presidente Hindenburg um decreto de emergência abolindo todas as liberdades fundamentais da República. Nos dias que se seguiram, milhares de adversários dos nazistas foram presos. A imprensa socialista e comunista foi proibida. A Gestapo e a tropa diferenciada SS tinham plenos poderes. O incêndio do Reichstag, de alguma forma, foi o ato fundador do III Reich, e escancarou as portas do poder para Hitler. De fato, em 5 de março, os nacionais-socialistas e seus aliados obtiveram 51,8% dos sufrágios.
O processo de Van der Lubbe durou de setembro a dezembro de 1933, na Corte Suprema de Leipzig. A seu lado, no banco dos réus, encontravam-se o líder do grupo comunista do Reichstag, Ernst Torgler, e três correligionários búlgaros, um deles o responsável pelo Komintern, Georgi Dimitroff. No entanto, muitos duvidavam da culpa de Van der Lubbe. E não apenas os socialistas e comunistas. Até entre os que apoiavam Hitler, havia quem pensasse que o Partido Nazista, o NSDAP, estava envolvido na trama. Os autos dos interrogatórios - conduzidos pelo comissário Walter Zirpins sem a presença de intérprete, embora Lubbe falasse mal o alemão - foram assinados pelo acusado, que admitia o crime. O documento ainda aventava a hipótese de que ele agira por instigação dos comunistas - o que ele negara.
Em menos de três meses, o caso de Marinus van der Lubbe foi encerrado. Ele não fez quase nada para se defender. Justamente. A foto tirada quatro dias depois de sua prisão mostrava um jovem forte e de boa saúde. Em contrapartida, durante todo o processo, ele se comportou como um autômato, arrasado, apático, de cabeça baixa, incapaz de enunciar uma única frase, senão para reiterar a culpa. Observadores estrangeiros afirmaram, então, que ele estava drogado. Durante sua prisão no Reichstag, na noite do incêndio, ele já parecia estar em estado alterado. Condenado à morte em 23 de dezembro, Lubbe foi decapitado em 10 de janeiro de 1934. Por falta de provas, Dimitroff e seus colegas búlgaros foram soltos.
Nos anos 50, a tese da culpa dos nazistas e da inocência do jovem holandês voltou a tomar consistência. Mas prova alguma permitia sustentá-la. O historiador Richard Wolff, oficialmente encarregado de esclarecer o caso, não pôde se pronunciar de forma definitiva: segundo ele, os documentos referentes ao processo tinham sido perdidos. Mas, no outono de 1959, houve um fato novo. A revista Der Spiegel, de Hamburgo, publicou uma série de artigos assinados pelo historiador Fritz Tobias, reforçando a tese de que Van der Lubbe era o único incendiário do Reichstag.
Inocentava os nazistas e, extensivamente, os comunistas. No segundo artigo, o dr. Zirpins, que havia interrogado o réu em 1933 e fora promovido à diretoria da polícia judiciária de Hanover em 1951, confirmava essas informações. Rudolf Augstein, diretor da Spiegel, por sua vez, concluía que pouco importava saber quem fora o autor do incêndio. O "cínico golpe de mestre" dos nazistas foi, segundo ele, ter sabido explorar o caso o tempo todo.
Essa tese prevaleceu por muito tempo, embora fosse negada por um grupo de historiadores liderados pelo suíço Walther Hofer e pelo servo-croata Edouard Calic, que publicaram, nos anos 70, documentos vindos de Berlim Oriental questionando a culpa exclusiva de Van der Lubbe. Fritz Tobias, que em 1962 escrevera um livro a partir de seus artigos, acusou-os de utilizar fontes falsificadas, e eles não ousaram inquiri-lo judicialmente. Além disso, Tobias recebeu o aval do historiador Hans Mommsen, em 1964.
Na verdade, ninguém podia restabelecer os fatos, porque os processos da polícia do Reich e da Corte Suprema de Leipzig haviam sido seqüestrados pelos soviéticos em 1945 e levados para Moscou. Imaginava-se que tivessem sido devolvidos à Alemanha Oriental somente nos anos 50. Na verdade, soube-se depois que os soviéticos restituíram esses processos - classificados como "fundos no 551" -, somente em 1982, aos arquivos do Partido Comunista da Alemanha Oriental, onde permaneceram fechados. Depois da reunificação, eles foram repassados à sucursal dos arquivos federais de Potsdam, que os declarou autênticos e os colocou à disposição dos historiadores no início de 1993. Deles se conclui que Marinus van der Lubbe não podia ter sido o incendiário do Reichstag e que o roteiro desse drama foi escrito da primeira à última linha pelos nazistas.
Hofer e Calic já haviam provado que Van der Lubbe não podia ter incendiado sozinho aquele imenso edifício com quatro pequenos acendedores utilizados para fogareiros a carvão. Segundo eles, Van der Lubbe teria sido drogado e conduzido, contra sua vontade, ao Reichstag. Vagando pelos corredores, sufocado pela fumaça e com as roupas pegando fogo, ele admitiu tudo que os policiais queriam fazê-lo confessar. Provavelmente, foi introduzido no prédio pelo portão 2 e impedido de sair. Outro ponto é que as reconstituições provaram que o pretenso culpado não conhecia o prédio nem o local onde se iniciou o incêndio. Há, portanto, indícios de manipulação.
Não se pode, aliás, excluir a hipótese de que Van der Lubbe tenha sido observado bem antes pelos nazistas, que, uma vez preparado o golpe, buscavam um culpado ideal. Na verdade, ele tinha sido designado, pelos anarco-comunistas holandeses, para atuar em um grupo de esquerda berlinense independente de Moscou, a AAU. O que ele não podia imaginar é que essas organizações estavam infiltradas pelos hitleristas, notadamente aquela em que ele se engajou, já que ela abrigava o estudante Wilfried van Oven, que mais tarde viria a ser assessor de imprensa de Goebbels.
Os arquivos soviético-alemães-orientais trouxeram outras revelações: por exemplo, o diário pessoal de Goebbels. O ministro da propaganda de Hitler declarou, diante do tribunal, que havia sido informado do incêndio por um telefonema do chefe da imprensa estrangeira do Partido Nazista, Ernst Hanfstaengl, que morava no palácio do presidente do Reichstag. Goebbels escreveu em seu diário que, a princípio, pensou tratar-se de uma brincadeira de mau gosto e só informou o Führer depois de um segundo telefonema, indicação repetida pelo mesmo Hanfstaengl em sua autobiografia publicada nos anos 50. Na realidade, o porteiro do Reichstag, Paul Adermann, que os juízes não julgaram oportuno citar no tribunal, atestara que Hanfstaengl não morava no palácio do presidente do Reichstag e não estava lá na noite do incêndio. Assim, os nazistas, com Goebbels à frente, não devem ter se surpreendido tanto como aparentavam.
Outro fato confuso: na tarde de 27 de fevereiro, portanto antes do incêndio, o conselheiro Rudolf Diels, a quem Goering confiara a diretoria da polícia, havia implantado um dispositivo que permitia a prisão de líderes políticos socialistas e comunistas alemães. Essas detenções foram apresentadas por Tobias e Zirpins na Spiegel como uma reação ao "atentado". Na realidade, tudo prova que eles estavam preparados havia tempo. Em seu livro Strafrecht leicht gemacht (O direito penal ao alcance de todos), publicado durante o III Reich, Zirpins já se pronunciara favorável às prisões preventivas e aos campos de concentração.
Os arquivos de Berlim Oriental lembram também que dois outros personagens tinham sido presos com Van der Lubbe quando escapavam do Reichstag: Wilhem Heise, operário notoriamente de extrema-direita, e Albrecht, deputado nacional-socialista. Este foi posto imediatamente em liberdade e Heise foi solto às 4h45 da manhã, depois de uma tentativa de suicídio. Outro comparsa dos nazistas também se saiu bem, liberado após um breve interrogatório. Tratava-se de um certo F. C. A. Schoch, também holandês. Seu carro foi reconhecido por testemunhas quando ele estacionava na noite do incêndio perto de um dos portões do Reichstag.
Os historiadores Hofer e Calic formularam a tese de que os incendiários nazistas haviam entrado no edifício por um túnel que chegava até o palácio do presidente do Reichstag - nada mais, nada menos que o próprio Hermann Goering. Nada nos arquivos endossa essa hipótese. Mas faltam páginas nesses documentos. Há quem avente a hipótese de que fossem as páginas remetidas de Berlim Oriental sas. No entanto, não se pode afastar a idéia de que Goering também tenha utilizado o túnel, nem que fosse para confundir as pistas em caso de fracasso da operação. Os verdadeiros incendiários entraram - com grande tranqüilidade pelos portões 2 e 3, como sugerem os documentos - com a cumplicidade do pessoal do Reichstag.
Há também no "fundos no 551" outra informação, dada por um diretor de prisão chamado Brucks em texto escrito, em 22 de abril de 1938, ao procurador do Reich. O remetente admitia ter obtido, na época do processo de 1933, de um homem das SA (as sessões de assalto) encarcerado, um certo Rall, a confissão de que o incêndio fora perpetrado pela seção 17 das SA usando o subterrâneo. Brucks indicava que esse arquivo havia desaparecido. Rall foi assassinado pelas SA e Brucks morreu, em condições não elucidadas, pouco depois de ter escrito essa carta.
Os laudos da polícia confirmavam que o bando de incendiários era composto por nazistas e seus aliados. Von Papen, o líder dessa ação, teria desempenhado um papel muito mais ativo do que se pensava na própria ascensão de Hitler. Seu protegido, e também de Goering, Rudolf Diels, foi promovido em 1933 a primeiro chefe da Gestapo. O famoso Wilfried van Oven, chefe de imprensa de Goebbels até o fim do III Reich, reapareceu depois da guerra com o nome de Wilfred van Oven como correspondente da Spiegel na Argentina. Primeiro, pretendeu-se que ele havia se refugiado ali em 1945. Mas depois se verificou que Rudolf Augstein, diretor da Spiegel, permitira que ele emigrasse legalmente para lá em 1951. Fiel a suas convicções, Oven criara uma revista germano-argentina de extrema-direita: La Plata Ruf (O chamado de La Plata). Também seria encontrado, entre os que cercavam Augstein nos anos 50, Georg Wolff, redator-chefe adjunto da Spiegel.
Tudo isso leva a indagações como: um homem a serviço da segurança do Reich, dirigido por Reinhard Heydrich, seria Wolff aquele que, na entourage de Augstein favorecia os antigos nazistas? E quem abrira as páginas da Spiegel para Fritz Tobias e suas testemunhas nazistas como foi o caso do comissário Zirpins?
Estranho Zirpins. Tornou-se um dos auxiliares de Heydrich e era chefe da polícia criminal de Lodz, onde dezenas de milhares de judeus, encerrados em um gueto, foram liquidados. Em 1942, passou a ensinar na escola dos quadros da polícia de Reinhard Heydrich em Berlim-Charlottenburgo, por onde passaram numerosos homens que, nos anos 50, criaram a BKA, a polícia criminal da Alemanha Ocidental. A maior parte deles carregava milhares de mortos na consciência. Em 1945, ele foi o último chefe nazista da polícia de Hamburgo. E, em 1951, ou seja, seis anos depois da derrota do regime nazista, estava à frente da polícia judicial de Hanover. Em 19 de dezembro de 1951, a Spiegel publicou um longo artigo de Zirpins, dado como excelente policial. Naquele momento, a revista mantinha sua redação em Hanover.
Ele somente se mudou para Hamburgo um ano mais tarde. Pode-se indagar legitimamente sobre as conexões entre todos esses antigos nazistas, a Spiegel e o seu diretor. A revista nunca aceitou retificar sua afirmação sobre a culpa de Marinus van der Lubbe. A Stern, em 1992, desistiu de publicar os documentos sobre esse caso. Vale imaginar se não teria havido pressão, de que tipo e da parte de quem.
Da mesma forma, pode-se perguntar por que os soviéticos, que estavam em posse dos documentos do processo Van der Lubbe, não esclareceram o caso antes. Há quem acredite que, dessa forma, a União Soviética e a RDA conservavam um bom meio de chantagem contra altos funcionários da Alemanha Ocidental comprometidos com o antigo regime nazista.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

O lixo eleitoral


Nesse ponto em que se encontra a disputa presidencial, acho que poucos de bom senso poderão acusar o palhaço Tiririca, legítimo candidato a uma vaga na Câmara dos Deputados, de ter ofendido, de algum modo, a classe política, com o seu bordão "vote em Tiririca: pior que está não fica."
É que chega a ser patética a tentativa do candidato Serra, com a cumplicidade absoluta da mídia, de tumultuar o processo eleitoral, com acusações e denúncias sem nenhuma prova ou fundamento, que atingem a honra não apenas de sua adversária, como também de instituições sérias como a Receita Federal.
Se parasse para pensar por um minuto sequer, Serra talvez compreendesse que agir dessa forma só precipita o seu mergulho rumo ao fundo do poço.
Passada a eleição, o que sobrará da imagem de político sério que tentou construir ao longo de várias décadas? Quem será louco o suficiente para integrar um grupo sob a sua liderança? Com que autoridade moral ele vai se apresentar para comandar qualquer processo político?
Talvez eu esteja enganado e o Serra derrotado que sairá da eleição ainda possa, justamente por ter-se comportado desta maneira ignóbil, arrebanhar um bocado expressivo das forças políticas do país - aquelas alinhadas à direita da direita.
Será então o caso de dar razão à singela expressão popular que encerra qualquer discussão com um peremptório "eles se merecem".