sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Perda de tempo


Debate de político na televisão não dá, nem tira mais voto de ninguém. Antigamente, quando os debatedores eram outros, as regras dos programas eram mais flexíveis, o debate funcionava, para o bem ou para o mal - principalmente quando o Jornal Nacional caprichava na edição a favor do seu preferido.
Agora, sinceramente, debate na Band? Na hora em que jogavam Internacional e São Paulo?
Se a Band já é, normalmente, a quarta ou quinta em audiência, o que dizer às 22 horas, concorrendo com uma semifinal da Libertadores?
O resultado não podia ser outro: 3 pontos no Ibope, um quase traço...
Pelo andar da carruagem, esta eleição presidencial já está definida.
Para a preferida Dilma Rousseff, participar de debates como esses, chatíssimos, amarrados, não é negócio.
Para Serra ainda resta a ilusão de que algo vai mudar a sua trajetória descendente.
Mas que está difícil, isso está.
Principalmente se ele apostar no seu "charme" televisivo.
Cruz credo, assombração!

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Dinheiro, pra que dinheiro?


Um dos truques usados hoje pela mídia para interferir no resultado das eleições é editar matérias aparentemente jornalísticas, mas que, no fundo, não passam de um editorial contra o governo.
A TV Bandeirantes fez isso outro dia. Sem nenhum gancho, colocou no ar em seu principal jornal da noite uma "reportagem" sobre a carga tributária brasileira, aquele blá-blá-blá sobre o excesso de impostos que o cidadão paga, sem nenhuma contrapartida. O pessoal da Associação Comercial de São Paulo não teria feito coisa melhor.
De qualquer forma, o tema é importante para o debate eleitoral. Sinceramente, gostaria que o candidato da oposição o levantasse num desses vários debates que estão marcados. Seria uma chance de ouro para que a candidata governista explicasse, de forma didática, a importância de um país ter um sistema arrecadatório eficiente e, principalmente, para que servem os impostos.
Porque, parece incrível, mas a maioria da população não tem a mínima ideia disso. Soterrada por uma propaganda mentirosa, muitos acham o fim do mundo ter de pagar imposto.
Sem informação, as pessoas julgam que estão sendo exploradas pelo governo, que as mercadorias que compram poderiam ser mais baratas se não fosse a ganância dos governantes, e que essa parcela embutida nos preços, ou retirada do rendimento, serve apenas para pagar o salário de um bando de vagabundos pendurados em imensos cabides de empregos.
Gostaria mesmo que Serra levantasse essa questão. Dilma teria então a oportunidade de dizer que o Estado idealizado pelos neoliberais não existe na prática em nenhum lugar do chamado mundo civilizado, que é uma mentira elevada à nonagésima potência essa história de que, no poder, essa turma que mantém o tal "impostômetro" vai conseguir fazer um governo decente abrindo mão de um centavo do que é hoje arrecadado.
E se Serra argumentasse então que o problema não é a arrecadação, mas o destino do dinheiro que entra nos cofres do governo, aí então eu ia morrer de rir quando a sua adversária explicasse que um Estado para funcionar tem de manter uma burocracia competente e bem paga para que os serviços sob sua atribuição - saúde, educação, previdência, programas sociais etc e etc - funcionem minimamente.
Nesse debate hipotético, Serra poderia então responder dizendo que no Brasil os impostos têm um baixo retorno para a população, e que o seu governo economizaria nas despesas da máquina (despedindo milhares de funcionários e terceirizando, ou "privatizando" os serviços) para atender melhor o povo.
A essa altura, Dilma teria a chance de dar o xeque-mate. Afinal, esse modelo preconizado pelos tucanos/pefelistas naufragou em todos os locais onde foi posto em prática. Até os invejados Estados Unidos, por exemplo, reveem seu sistema de saúde. Há pouco tempo, São Paulo amargou uma experiência catastrófica na mesma área, sob o comando de Paulo Maluf. Isso porque tal sistema coloca sob as "leis de mercado" áreas que devem ser totalmente isoladas da ganância que move o capitalismo.
O debate sobre a carga tributária do Brasil é muito importante para o aperfeiçoamento da democracia. Mas para que tenha resultado prático, seus protagonistas devem entrar nele despidos da hipocrisia que contamina todo o seu discurso de mudança.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Serra, apenas Serra


Os locutores esportivos de antigamente costumavam dar apelidos a quase todo jogador de destaque. Assim, no meu tempo de garoto, Vavá era o "Peito de Aço", Servílio, o "Bailarino", e Ademir da Guia, o "Divino", só para citar três exemplos do meu querido Palestra.
Com o tempo, o talento dos locutores e dos jogadores foi decaindo. Hoje, são raros os boleiros que têm o privilégio desse segundo nome, que às vezes os identifica mais que aqueles que fazem parte das escalações do time.
Sobreviveram os que realmente são - ou foram - craques, como o Ronaldo "Fenômeno", que, infelizmente para o verdadeiro futebol, trava uma luta perdida contra o tempo - e também contra alguns quilos a mais.
Até mesmo cartolas mereceram a honra desse segundo nome. Quem não sabe que Paulo Machado de Carvalho era o "Marechal da Vitória"?
Nesta campanha eleitoral nota-se um esforço do presidente Lula para colar em sua candidata, Dilma Rousseff, um desses apelidos. Lembrando de um de seus ídolos, Getúlio Vargas, que era chamado de "Pai dos Pobres", em vários comícios e atos de campanha, Lula se referiu a Dilma como a "Mãe do PAC".
Como essa, porém, é a primeira eleição de que participa, provavelmente seja ainda muito cedo para que a ex-ministra da Casa Civil fique conhecida por meio de outro nome que não o seu.
Risco maior corre seu opositor, o ex-governador paulista José Serra, que, embora esteja na vida pública há bastante tempo, apenas recentemente, com o advento da internet, é que tem sido brindado com uma série de apelidos.
Se não me engano, o primeiro foi dado por Paulo Henrique Amorim, em seu site Conversa Afiada - Zé Pedágio, por razões óbvias. O mesmo jornalista arriscou algumas variantes: Zé Alagão e Serrágio, entre outros. O mais recente é "Jênio", com "J" mesmo.
Ainda é cedo para saber como Serra ficará conhecido no futuro. Nenhum desses apelidos pode pegar. A experiência mostra que, para merecer ser chamado de algo além de seu nome, a pessoa tem de ter alguma característica marcante, alguma coisa especial.
É caso, por exemplo, do pai espiritual de Serra, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, alcunhado de "Príncipe dos Sociólogos", ou simplesmente "Príncipe" - a redução do epíteto, no seu caso, é menos para expressar intimidade do que para marcar o seu caráter esnobe.
Já Serra, com toda a sua sensaboria, com aquele mau humor constante, a falta de ideias recorrente, a palidez da face e do pensamento, tudo indica, será sempre apenas Serra, assim sem mais nada, assim solitária e tristemente.

Na boca do povo


A Folha noticia que o PT, por ser o partido mais popular do país, preferido por 25% dos eleitores brasileiros, segundo pesquisa do Datafolha, pode dobrar a sua bancada no Congresso.
Da mesma forma que ocorre com o levantamento para a eleição presidencial, os dados do Datafolha em relação à preferência partidária dos eleitores não batem com os de outros institutos.
O Ibope, por exemplo, na mesma pesquisa em que deu Dilma à frente de Serra por cinco pontos percentuais - enquanto o Datafolha apontava a liderança do tucano por um ponto de diferença - mostra que o PT é o partido preferido por 29% dos brasileiros, bem distante do segundo colocado, o PSDB, que tem 7% das preferências, e do terceiro, o PMDB, com 6%. O PV é o mais querido por 2% dos eleitores, enquanto PDT, PSB, PTB e DEM ficam com apenas 1% das preferências.
Segundo o Ibope, o maior número de apoiadores do PT está na região Nordeste (33%). Nas regiões Sudeste, Norte e Centro Oeste o partido é o preferido de 29% dos eleitores, enquanto o Sul é onde a agremiação tem o menor número de aficionados (18%).
Os tucanos são em maior número no Sudeste (10%) e no Centro-Oeste/Norte (7%), e têm a mesma preferência do eleitorado do Sul e do Nordeste (5%).
O levantamento mostra ainda que 45% dos brasileiros não têm preferência por nenhum partido, enquanto 3% não souberam ou não quiseram responder a pesquisa.
Embora o PT seja o partido que detém o poder desde 2002, é, certamente, a agremiação política que mais sofre críticas da imprensa, em época de eleição ou não. Já foi acusado de quase tudo: corrupção, incompetência, peculato, ignorância, despotismo, nepotismo, assassinato, invasões de terras, narcotráfico, terrorismo, guerrilha, unha encravada e frieira.
Mesmo assim, por estranho que seja, um terço dos eleitores do país acham que ele é o que melhor representa seu ideal político, a sua ideologia, os seus anseios de vida.
Por estranho que seja, aqueles que são vendidos pela mídia como intransigentes defensores do homem comum se identificam apenas com uma parcela mínima da população, essa elite econômica que tenta, de todas as formas, não perder seus privilégios centenários.

domingo, 1 de agosto de 2010

O juízo final


A candidata do PV à Presidência, Marina Silva, sem querer, levantou uma questão importante para o debate eleitoral. Numa entrevista a uma rádio do Nordeste, disse que tem sofrido preconceito por ser cristã evangélica. "Mas eu não sou uma cristã envergonhada, eu digo a minha fé", afirmou, certamente mirando a adversária Dilma Rousseff, que tem sido dúbia sobre se professa ou não alguma fé religiosa.
Os candidatos à Presidência geralmente abordam pouco a questão do papel da religião no Estado. Mesmo Marina Silva se esconde do tema. Nessas horas, ser lacônico é a melhor tática: uma declaração qualquer pode agradar um lado e desagradar o outro, pode render votos entre evangélicos e tirar dos católicos.
Sim, porque apesar de o Brasil ser um Estado laico, a presença da religião é muito forte no dia a dia - a sua presença e todas as implicações que ela tem, no tocante à alta carga de intolerância contida em seus cultos, mensagens e ações.
Quando Marina Silva se disse vítima do preconceito, ela se esqueceu de informar que a sua própria igreja é fonte permanente de discriminação. Evangélicos estão lá no topo de uma hipotética escala de fanatismo.
Outro detalhe que passou despercebido pela candidata verde é que qualquer um de nós que não acredita em fadas e duendes, ou espíritos benignos e malignos, tem o direito de achar que uma pessoa que passa boa parte de sua vida a ouvir sermões sobre o quanto é insignificante perante o intangível, é, no mínimo, esquisita.
Isso só pode soar como preconceito aos ouvidos de quem crê estar de posse de uma verdade absoluta, acima de tudo e de todos - e da própria razão.
Na mesma entrevista, Marina lembrou que "estamos elegendo o presidente da República, e não o pastor da igreja" e que não fará "a satanização dos outros candidatos". Por pouco não conseguiu descer ao nível dos comuns e normais, pois se a primeira afirmação soou óbvia, a segunda pareceu mais uma ameaça.