quinta-feira, 6 de maio de 2010

Impostos e fraudes

O sociólogo e professor universitário Alberto Carlos Almeida, autor do livro "A Cabeça do Brasileiro", escreve, na coluna semanal que tem no caderno Eu&Fim de Semana, do "Valor", que uma cesta de itens de higiene pessoal comprada nos Estados Unidos tem uma carga de impostos absurdamente menor que outra idêntica adquirida no Brasil.
Feita a constatação, assegura que "sustentamos um governo ineficiente e caro". E na sua condição de intelectual requisitado para conferências e palestras sobre os rumos políticos do país assevera que "os argumentos técnicos não resistem a este exercício prosaico e simples: fazer a mesma compra nos dois países e comparar o preço final da compra com os salários médios da economia".
No fim, não resiste à tentação e compara os dois principais candidatos presidenciais: "Serra disse no discurso que lançou sua candidatura que a carga tributária no Brasil é sideral, faltou completar dizendo que ela precisa ser reduzida. Um é corolário do outro. Dilma precisa acordar para isso. Até agora não se ouviu uma palavra sequer da boca de Dilma acerca de nossa carga tributária. Não creio que ela só faça compras nos EUA."
Quem lê um artigo desses se atendo apenas aos títulos e à qualificação do autor, certamente se impressionará e acabará concordando com ele: puxa vida, como é que os EUA, com impostos tão mais baixos e salários tão maiores, conseguem ter um custo de vida equivalente ao do Brasil? Só pode ser porque nosso governo não presta e o deles é a melhor coisa do mundo.
Mas, se riscarmos um pouco o verniz do suposto cientifismo do escrito, vamos ver que ele é totalmente tolo, infantil e, pior, fraudulento: o autor esqueceu de dizer aos seus queridos leitores que a carga tributária brasileira sustenta um sistema universal de saúde que os EUA estão apenas agora prestes a possuir; um sistema de ensino universitário gratuito, que os EUA não têm; e um sistema de previdência social que garante aposentadorias para todos os trabalhadores - que os EUA nem sequer imaginam como seja.
Também omitiu um dado importante: a reforma tributária ainda não saiu porque nem os prefeitos, nem os governadores, incluindo os da oposição ao atual governo, querem.
No fundo, esse palavrório todo do ilustre sociólogo não passa de uma propaganda disfarçada de uma ideologia totalmente fracassada que prega o "Estado mínimo" para que os empresários possam usufruir do "lucro máximo" sem risco nenhum.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Propaganda mentirosa

Uma nova propaganda do governo de São Paulo para o rádio diz que a educação no Estado melhorou. Entre outras provas da melhora, cita que, agora, os professores são mais valorizados porque ganham mais de acordo com os resultados que obtêm com seus alunos.
Não tenho números sobre a quantas anda a educação paulista. Lembro apenas de alguns resultados decepcionantes que as escolas públicas tiveram nos últimos exames de avaliação. E também da greve de professores, este ano, por melhores salários e condições de trabalho mais dignas. A greve foi tratada como um movimento de marginais pelas autoridades paulistas - os policiais militares chegaram mesmo a espancar vários professores, sem sequer considerar que entre eles poderia estar o responsável pela educação de seus filhos.
Mas é sobre essa história de premiar quem dá mais resultado que eu quero falar. Na teoria, parece até que isso funciona, mas é só na teoria. Porque, na prática, como um modelo desse pode dar certo, se é fato público e notório que as escolas estaduais vivem na penúria, sem condições mínimas de atender nem os alunos, nem os professores? Assim, como exigir que um sujeito que ganha uma miséria e trabalha num lugar sem as mínimas condições tenha um desempenho profissional exemplar?
É um contrassenso brutal, que só uma peça publicitária cínica e mentirosa, como essa que está no rádio, pode disfarçar.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Caça-níquel

Levei meu carro hoje para fazer a tal inspeção veicular.
Foi aprovado com distinção: suas emissões de Co2 estão muito abaixo do limite permitido, diz o laudo da Controlar que me foi entregue. O rapaz que fez a vistoria também olhou o motor e, com um espelho, a parte de baixo do veículo.
Todo o processo demorou, no máximo, cinco minutos. Custou cerca de R$ 57, mais o combustível e o tempo que gastei para ir ao posto de inspeção.
Com uns minutinhos a mais, o funcionário da Controlar poderia ter verificado se as luzes e os freios estavam funcionando e não comprometiam a minha segurança e a dos outros motoristas.
Aí, talvez, a gente pudesse chamar essa patacoada de inspeção veicular.
Do jeito que ela é, não passa de um caça-níquel.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Carta de apresentação

Vale a pena recapitular. Em apenas poucos dias de campanha eleitoral, José Serra já:
1) Disse que o Mercosul é uma farsa;
2) Prometeu, depois, que iria "flexibilizar" essa farsa;
3) Informou que vai rever os contratos firmados com a União;
4) Jogou no fogo do inferno os fumantes, esses seres sem deus.
É um bom começo para quem é somente um simples candidato.

domingo, 2 de maio de 2010

Fé de mais

Pena que a imprensa tenha dedicado tão poucas linhas à passagem do candidato tucano à Presidência, José Serra, por Santa Catarina. Em pleno Dia do Trabalho, o ex-governador paulista preferiu ficar longe das comemorações das centrais sindicais em seu Estado e foi a estrela de um encontro de evangélicos em Camboriú.
Os breves registros de sua passagem por terras catarinenses, porém, são suficientes para mostrar que o homem é mesmo um predestinado. Ou um cara de pau sem tamanho.
Não me refiro ao fato de ele ter começado seu discurso de campanha com o "Que todos estejam com a paz do Senhor", a tradicional saudação dos evangélicos - justamente ele, que foi um dos membros mais ativos da Ação Popular, o braço marxista da Igreja Católica. Mas isso é uma outra história, ou melhor, um fato que ficou perdido numa história longínqua, que o nosso personagem, certamente, prefere não lembrar.
Também não me espanta que ele tenha aproveitado a multidão de fiéis para pedir uma ajuda ao divino - até os ateus mais empedernidos têm seus momentos de dúvida e na dúvida... "Peçam que Ele me dê sabedoria para enfrentar as batalhas daqui por diante. Todas elas voltadas ao progresso do país", solicitou o humilde candidato.
O que me espantou mesmo na performance do tucano foi a sua intimidade com o Deus louvado pelos cristãos. Tendo como mote a sua passagem pelo Ministério da Saúde do saudoso governo FHC, Serra defendeu a lei que fez para proibir que se fume em áreas fechadas e, de quebra, afirmou que os fumantes são, se não a escória do mundo, pelo menos os seres mais indicados para arderem eternamente no fogo do inferno: "A pessoa que fuma sabe que o cigarro vai fazer mal, mas continua assim mesmo. Depois, adoece e mesmo assim continua fumando. Assim é uma pessoa sem Deus. Sabe que Ele está ali, mas não o procura", afirmou o nosso herói.
Pois é, o homem está mesmo impossível. E ainda nem encomendou a mudança para o Palácio do Planalto.