quarta-feira, 7 de abril de 2010

Farsa no Senado

A atuação dos senadores oposicionistas no debate com o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, a julgar pelas notícias dos jornais, beirou a farsa e mostrou a inutilidade absoluta da existência da Câmara Alta - pelo menos com esses senhores a ocupá-la.
O quarteto formado por Tasso Jereissatti, Arthur Virgilio, Eduardo Azeredo e Heráclito Fortes encenou, da maneira irretocável, o papel que nos anos 30 e 40 a indústria cinematográfica americana destinava aos palhaços criados nos palcos dos teatros de vaudeville. A diferença da performance está no fato de que, naquele passado longínguo, os clowns não disfarçavam sua natureza - e o público ria sem constrangimento.
Já esse quarteto do espeto, que usou uma sessão da Comissão de Relações Exteriores para tentar achincalhar a diplomacia brasileira, representada no momento pelo chanceler Celso Amorim, faz graça do que é sério e dá risadas de valores - independência, altivez, sobriedade, responsabilidade - que deveriam, pelo cargo que ocupam, cultuar, pois são as vigas-mestras de uma nação que pretende ser forte.
Ninguém é obrigado a concordar com nada deste governo. Mas quando os membros desse quarteto de senadores da oposição partem para a fanfarronice, num debate que exige comedimento e bom-senso, eles insultam não apenas os cidadãos que acreditam no regime democrático, mas também desprezam a própria instituição da qual fazem parte.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Pele de cordeiro

Dilma Rousseff, no primeiro pronunciamento depois que se afastou do cargo de ministra do governo Lula, chamou os tucanos para briga: "São lobos em pele de cordeiro, fáceis de identificar. Muitas vezes as mãozinhas de lobo aparecem debaixo da pele. Num dia, dizem que vão continuar o trabalho do presidente Lula; no outro, mostram as patinhas de lobo e aí ameaçam acabar com tudo... Muito antes de eles poderem encenar o enredo do pós-Lula, eles são e sempre foram anti-Lula."
O tom duro das afirmações indica qual será a estratégia do PT nesta eleição presidencial: mostrar que Dilma é a candidata de Lula, a única pessoa que continuará com a política social deste governo e que seu adversário José Serra sempre foi contrário às medidas colocadas em prática desde 2003, por mais que hoje fale em preservar as realizações.
Em 2006, Lula venceu facilmente Geraldo Alckmin quando impôs a ele o rótulo de privatista, o sujeito que passou o quanto pôde do Estado para o setor privado - o que não deixa de ser verdade.
Nesta eleição, Serra terá de fazer malabarismos para provar que será ele - e não Dilma - quem fará o país permanecer na trilha desenvolvimentista traçada pelo governo Lula.
Uma tarefa digna de um Hércules.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Velocidade da luz

O programa Banda Larga nas Escolas completa dois anos bem perto da meta de equipar todas as 64.879 escolas públicas urbanas do país com computadores de acesso rápido à internet. A expectativa é que isso ocorra até o fim deste ano, beneficiando 37 milhões de estudantes, de acordo com os responsáveis pela sua implantação, o Ministério da Educação e a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).
A previsão é baseada no balanço do programa feito pela Anatel no fim do ano passado: 25.331 instituições de ensino público em municípios de quase todo o país foram conectadas à rede mundial de computadores em 2009 e em 2008, ano de lançamento do programa, esse número foi de 17.681 escolas. Ou seja, ao entrar no segundo ano, o programa já alcançava 66% - 45.192 - do total de estabelecimentos de ensino a serem equipados.
Os números da Anatel, na época do balanço, mostravam que os Estados com mais escolas conectadas à internet por meio do Banda Larga nas Escolas eram os de maior densidade demográfica: Minas Gerais (4.962), São Paulo (4.842), Rio de Janeiro (4.080) e Bahia (4.026). Já Roraima (68), Amapá (131) e Acre (187) foram os que tiveram menor número de escolas informatizadas, embora devam estar completamente atendidos até o fim de 2010, quando o programa termina.
O programa se tornou possível graças a um acordo firmado pelo governo com operadoras de telefonia fixa, por meio da Anatel, para a implantação da banda larga nas escolas indicadas pelo Ministério da Educação, sem nenhum custo para os cofres públicos, como contrapartida pelos serviços que elas exploram comercialmente no país.
O interessante é que nem todas as evidências de que a internet caminha rapidamente para se tornar a mais poderosa fonte de comunicação entre os homens sensibiliza os empresários da mídia tradicional. Eles ainda não se deram conta que a nova geração que vive estudando, pesquisando, se distraindo, se informando, conversando, com a ajuda dos computadores, não tem praticamente nada a ver com os modelos estabelecidos - jornais, revistas, rádio e televisão.
A constante queda na circulação dos grandes veículos impressos e a diminuição da audiência de programas consagrados têm uma mesma explicação: os jovens não se identificam mais com meios de comunicação concebidos há séculos, caros e incapazes de interagir com o público.
A nova geração que se forma com os olhos na tela do monitor exige muito mais que eles podem dar. (Com informações da Agência Brasil)

sábado, 3 de abril de 2010

O recado de FHC

FHC volta às páginas dos jornalões em alto estilo, promovendo o terror.
Sem amigos, sem esperanças, sem palanques, sem votos, no ocaso de uma vida pautada pela tibieza, pelo conformismo, pela sujeição, ele quer se impor à opinião pública pela via fácil do mais barato terrorismo, como uma Regina Duarte desvencilhada de seus truques cênicos.
Há pessoas que não conseguem parar. Isso ocorre em todas as áreas, em todas as profissões. Existem as que se comportam dessa forma por não saberem fazer outra coisa, por estarem demais condicionadas à atividade que sempre exerceram. Quem não conhece a história de algum aposentado que, com todo o tempo livre do mundo, entra na depressão mais profunda e irremediável?
Há outros, como este incorrigível FHC, que desprezam este tempo tranquilo do outono e se põem a ladrar, aos desavisados que passam em frente de sua varanda, todo o rancor, a inveja, todo o ódio que acumularam por anos e anos de falsas convicções, frouxas ideologias e imagens mistificadoras.
É como se, com a velhice, viessem à tona os ressentimentos guardados no mais fundo da alma.
É como se uma voz lhe dissesse - e apenas a ele - que a obra de sua vida não estará completa sem que cause quanto mais dor possível em seus inimigos - verdadeiros ou imaginários.
Esta sua última tentativa, patética, de chamar para si os holofotes, com o verniz de uma sabedoria ilusória - pois falhou vergonhosamente quando testada - não merece dos ofendidos uma resposta.
Merece, isso sim, uma reflexão de todos os que se julgam cidadãos comprometidos com os rumos do país: afinal, o que pretende esse senhor?
A seguir, a íntegra do artigo que FHC publica neste fim de semana em vários jornais da chamada grande imprensa. Seu título é "Hora da União". É do quinto parágrafo em diante que ele manda, efetivamente, com todo o cinismo que o caracteriza, seu recado, mentiroso, à oligarquia nacional - uma ofensa à democracia que se constrói no Brasil a duras penas:

A visão de futuro mostra quem é verdadeiramente líder. No auge das lutas pela volta às eleições diretas e pelo fim do autoritarismo, três personagens, cada qual à sua maneira, foram decisivos para que conseguíssemos mudar o rumo do país. Não foram os únicos. Muita gente se empenhou desde a campanha das Diretas Já com o mesmo propósito. Nem se deve esquecer o papel desempenhado pelas grandes greves do ABC e por seus líderes. Mas, a partir da derrota da emenda Dante de Oliveira, quando se colocou a possibilidade de derrotar o candidato do Sistema utilizando-se o próprio Colégio Eleitoral, a condução do processo passou a depender de Ulysses Guimarães, Franco Montoro e Tancredo Neves.
Houve hesitação sobre o que fazer. Fiz um discurso no Senado trocando o lema Diretas Já por Mudanças Já, com a convicção de que poderíamos derrotar os donos do poder. Foi difícil para Ulysses Guimarães tragar a dose e aceitar as eleições indiretas, ele que fora o anticandidato em 1974 e cujo nome se identificava com as eleições diretas. Foi mais difícil ainda, uma vez deslanchado o processo de conquista de votos no Congresso, unir a oposição em torno de um nome.
Ulysses até aquele momento fora o condutor indiscutido das oposições democráticas. Entretanto, pela dureza das posições que assumira na crítica ao regime autoritário, teria dificuldades em granjear votos entre os que, diante do desgaste do poder, da crítica de uma imprensa mais livre, dos movimentos de protesto em massa e das dificuldades econômicas, se predispunham a mudar de posição. Sem o apoio destes, a derrota era garantida. Na época, presidente do MDB de São Paulo e muito próximo a Ulysses Guimarães, disse-lhe com muito pesar, pela enorme admiração e respeito que nutria por ele, que a vez seria de outro.
Roberto Gusmão, chefe da Casa Civil do governo Montoro, havia declarado nas páginas amarelas da Veja que São Paulo se uniria a Tancredo Neves para a conquista da Presidência. Ulysses fez questão de ouvir a decisão da voz do governador de São Paulo. Acompanhei-o ao Palácio dos Bandeirantes em um encontro com o governador Montoro e com Roberto Gusmão. Montoro poderia pretender legitimamente a candidatura à Presidência: ganhara as eleições diretas em São Paulo com votação consagradora. Percebeu, entretanto, que no caso das eleições indiretas Tancredo teria melhores oportunidades. Reafirmou este ponto de vista a Ulysses. Mais do que os méritos e as ambições de cada um, contava o momento histórico. Ou nos uníamos e ampliávamos a frente contra o autoritarismo ou este permaneceria por mais tempo, esmaecido que fosse, com a eleição de Paulo Maluf, candidato da Arena. A visão de futuro e o interesse nacional contavam mais do que as biografias. Tiveram grandeza. São Paulo se uniu a Minas para que o Brasil avançasse e Ulysses chefiou a campanha pela eleição de Tancredo.
Passados 25 anos, nos encontramos frente a circunstâncias históricas que novamente requerem grandeza dos líderes e unidade de todos. Não está em jogo o admirar ou não o presidente Lula, nem mesmo as qualidades de liderança (ou a falta delas) de sua candidata Dilma Rousseff. Por trás das duas candidaturas polares há um embate maior. A tendência que vem marcando os últimos 18 meses do atual governo nos levará, pouco a pouco, para um modelo de sociedade que se baseia na predominância de uma forma de capitalismo na qual governo e algumas grandes corporações, especialmente públicas, unem-se sob a tutela de uma burocracia permeada por interesses corporativos e partidários. Especialmente de um partido cujo programa recente se descola da tradição democrática brasileira, para dizer o mínimo. Cada vez mais nos aproximamos de uma forma de organização política inspirada em um capitalismo com forte influência burocrática e predomínio de um partido. Tudo sob uma liderança habilidosa que ajeita interesses contraditórios e camufla a reorganização política que se está esboçando.
Agora, com as eleições presidenciais se aproximando, as alianças são feitas sem preocupação com a coerência político-ideológica: o que conta é ganhar as eleições. Depois, a força do Executivo se encarregará de diluir eventuais resistências de governadores e parlamentares que se opuserem à marcha do processo em curso, e transformará os aliados em vassalos. Mais recentemente, tem surgido a dúvida: será que a candidata petista, sem ser Lula, terá força para arbitrar entre os interesses do partido, os dos aliados e os da sociedade? Não sei avaliar, mas o resultado será o mesmo: pouco a pouco, o “pensamento único”, agora sim, esmagará os anseios dos que sustentam uma visão aberta da sociedade e se opõem ao capitalismo de Estado controlado por forças partidárias quase únicas infiltradas na burocracia do Estado.
Os líderes oposicionistas atuais terão a visão de grandeza dos que os antecederam e perceberão que está em jogo a própria concepção do que seja democracia? Há quem defenda um outro estilo de sociedade. Há quem acredite que certo autoritarismo burocrático com poder econômico-financeiro pode favorecer o crescimento econômico. A China está aí para demonstrar que isso é possível. Mas é isso o que queremos para nós? A força governista ignora os limites da lei e tudo que decorre dessa atitude, desde a leniência com a corrupção até a arrogância do poder e o abuso publicitário antes do início legal das campanhas. É imperativo, pois, que as oposições se unam. A aliança entre Minas e São Paulo – que se pode dar de forma variada – salvou-nos do autoritarismo no passado. Uma candidatura que fale a todo o país, que represente a união das oposições e busque o consenso na sociedade é o melhor caminho para assegurar a vitória. José Serra e Aécio Neves estiveram ao lado dos que permitiram derrotar o regime autoritário. Cabe-lhes agora conduzir-nos para uma vitória que nos dê esperança de dias melhores. Tenho certeza de que não nos decepcionarão.

Serra estagnado

Mais água na fervura da última pesquisa do Datafolha: o novo levantamento do Vox Populi mostra números bem diferentes: José Serra se mantém na liderança e Dilma Rousseff, do PT, volta a crescer, reduzindo a diferença para apenas três pontos percentuais.
O ex-governador de São Paulo aparece com 34% das intenções de voto, mesmo percentual de janeiro. A ex-ministra da Casa Civil Dilma Rousseff, do PT, subiu quatro pontos percentuais e segue na segunda posição, com 31%. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais, para mais ou para menos.
Ciro Gomes, do PSB, vem em terceiro lugar, com 10%. Marina Silva, do PV, está em quarto lugar com 5% das intenções de voto. Votos nulos e brancos somam 7%, enquanto 13% dos entrevistados não souberam ou não quiseram responder.
Em um cenário sem Ciro Gomes, Serra aparece com 38%. Dilma vem a seguir, com 33% e é seguida por Marina Silva, com 7% das intenções. Os votos brancos e nulos contabilizam 7%, enquanto os que não quiseram ou não souberam responder somam 15%.
Dessa forma, aumentam as desconfianças de que a última pequisa Datafolha foi turbinada em favor do tucano José Serra - ela foi divulgada dias antes de o ex-governador confirmar sua candidatura, num momento chave para as suas pretensões.
Eleições 2010: uma guerra, um vale-tudo sem árbitros, sem regras. Apenas um vale-tudo.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

O Estado totalitário (2)

Aceitar o contraditório é uma das marcas da democracia - assim como o respeito às minorias. Dialogar com quem não concorda com suas ideias deveria ser um dos princípios pétreos dos regimes democráticos. Reconhecer que nem todos pensam da mesma forma - e por isso têm o direito de se manifestar contra ações que os desagradem, ou, de alguma forma, os prejudiquem - teria de ser uma obrigação para todos os que exercem cargos públicos.
O que de fato ocorre, porém, é muito diferente do mundo idealizado por quem pretende viver numa sociedade menos injusta. Tome-se o exemplo de São Paulo, o Estado mais rico da federação brasileira, cantado e louvado como a "locomotiva" do país.
Uma greve de professores transforma-se num espetáculo deprimente de repressão policial - o Estado promove um show de intolerância, uma repetição de cenas habituais do pior período da história brasileira.
Não há nada que justifique uma atitude dessas - infiltrar agentes provocadores entre os manifestantes, criar conflitos que resultem em ações "defensivas", manipular a imprensa e a opinião pública, agredir fisicamente os servidores públicos!
Um governante que faz coisas desse tipo não tem a menor noção do que é viver numa democracia e merece todo o repúdio de quem pretende ajudar na construção de um país em que os direitos básicos dos cidadãos sejam uma garantia e não uma simples concessão do governante de plantão.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Terra arrasada


José Serra deixou o governo de São Paulo sem inaugurar a tão aguardada e necessária linha amarela do metrô, que ligará a Vila Sônia à Luz. Foi nesse trecho que se abriu o hoje quase esquecido buraco que matou sete pessoas - uma tragédia que permanece impune e sobre a qual o ex-governador nunca se referiu.
Serra também fez de conta que inaugurou o trecho sul do Rodoanel. A toque de caixa, milhares de operários passaram noite e dia trabalhando para dar à estrada uma feição de obra acabada, a fim de que fosse fotografada e filmada pelos órgãos de imprensa encarregados da propaganda oficial.
Enquanto dedicava todos os esforços nessas "realizações"- entre elas incluída a construção de mais faixas na irremediável marginal Tietê - ele arrochou salários do funcionalismo público, apertou de maneira quase insuportável os controles tributários, vendeu estatais, quebrou contratos, estimulou a guerra fiscal com outros Estados. E fabricou factóides, como proibir o fumo, a venda de coxinhas nas escolas e de bananas por dúzia.
O ex-governador mostrou-se ainda preocupado em reprimir movimentos reivindicatórios. Teve para isso a cumplicidade da Polícia Militar, que abandonou suas funções primárias para se transformar numa força paramilitar. As cenas do confronto com os policiais militares em greve são, talvez, o exemplo mais bem acabado do desastre que foi a administração Serra no tocante à segurança pública.
O tucano, porém, se esmerou ainda em levar a sua política de terra arrasada para outras áreas, como a saúde e a educação, só para citar algumas mais sensíveis socialmente.
Lá nos longínquos anos 20 do século passado, o presidente Washington Luís declarava que governar é "abrir estradas". O insuspeito ex-governador Paulo Maluf até hoje se orgulha das obras viárias que mandou construir. José Serra, no seu discurso de despedida do cargo, pouco enfatizou as obras materiais que deixou aos cidadãos do seu Estado. Preferiu acentuar que "os governos têm de ter honra", acrescentando que "aqui não se cultivam escândalos, malfeitos ou roubalheiras" e que "nunca incentivamos o silêncio da cumplicidade e da conivência com o malfeito"
A frase tem duplo sentido. Para seus amigos, ele quis dar uma estocada no governo federal. Por mim, prefiro ver nela uma defesa antecipada do julgamento que a história fará dessa sua curta e infeliz passagem pelo Palácio dos Bandeirantes.