sábado, 7 de novembro de 2009

Mistura de Vargas e JK

Maria da Conceição Tavares, 80 anos, 55 de Brasil, mestra de um sem número de economistas famosos ou nem tanto, ex-deputada federal pelo PT do Rio, personalidade exuberante, sempre atenta ao mundo que não para de girar.
Sua última entrevista foi à repórter Vera Durão, do "Valor". O trecho abaixo é um diagnóstico sucinto do governo Lula e serve ainda como resposta aos últimos ataques de uma oposição sem rumo, desesperada, agônica:

Valor: Obama disse que o cara é o Lula...
Conceição: É. O Lula, um gênio político, mistura de Vargas e JK, uma liderança do povo brasileiro que tem uma sorte danada, ademais de ser muito competente. Tem que ter competência e sorte. As coisas têm que estar a favor.
Valor: Como é sua avaliação do governo Lula?
Conceição: Muito boa. Esta é a minha avaliação e de 70% da população. Na verdade, só a classe média dita ilustrada e a grande imprensa são contra. Contra também não sei o quê. Caiu a inflação. Portanto, mantiveram a política econômica dura que diziam que não iam manter, mas mantiveram. Contra meu ponto de vista. Perdi a parada, mas fico contente que tenha perdido, porque naquela altura ia ser complicado. Como estava tudo fora do lugar, era muito ousado fazer uma política alternativa no início do primeiro mandato. Do ponto de vista da política macro, eles começaram a fazer coisas no segundo mandato. Mas não creio que vão terminar. Fizeram o correto na infraestrutura, contemplando obras nas regiões Norte e Nordeste, como a ferrovia Transnordestina, a Norte-Sul, a transposição do rio São Francisco e portos. O PAC é uma seleção de projetos muito pesada e muito boa, de que não convém desviar. Também acertaram na política social, com o Bolsa Família. O governo Lula está tocando três coisas importantes: crescimento, distribuição de renda e incorporação social. E ainda por cima fez uma política externa independente. Por que acha que ganhamos a Olimpíada? [a escolha do Rio de Janeiro para sede dos jogos, em 2016]. Porque passamos a ter prestígio de fato lá fora.

É isso. Sem mais nada a acrescentar.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Palavras e mais palavras


Caetano Veloso vive de música e de palavras. Quando está meio esquecido, lá vem ele com alguma polêmica. Gosta de usar os jornalões para isso - a Folha é sua preferida, mas vale também o Globo, o Estadão, o que estiver mais à mão.
A última dele, todos sabem, foi chamar o presidente Lula de analfabeto, cafona e grosseiro. Claro que a declaração teve todo tipo de reação. Muitos se indignaram com tamanha falta de educação, tamanha exibição de preconceito. Outros, que odeiam o presidente, bateram palmas e elegeram Caetano o ídolo do momento.
Como a internet é implacável, foi fácil recolher algumas jóias do pensamento velosiano. Por elas se percebe claramente que o baiano é um boquirroto incontrolável e seu cérebro sempre foi um tanto, digamos, confuso. Sei lá, pode ser coisa de artista.
Vamos então à pequena, mas esclarecedora coletânea:

"Não sou modesto, sou leonino, mas sempre que pude melhorei."

"Sou um subintelectual de miolo mole."

"Não sou branco. Nem sou homem."

"Agora, é votar no Lula."

"Eu votaria no Lula, no Ciro, votaria no Serra."

"Não acredito em Deus nem em vida após a morte."

"Eu tinha medo de eles quererem fazer de eleição revolução. Sou muito ignorante em política, mas tinha medo. Eu era igual à Regina Duarte. Mas votei no Lula. E vi que não. O momento era Lula, o Brasil tinha de ser isso."

“Fizeram uma espécie de festival Woody Allen no Telecine Cult. Vi por acaso: passavam os filmes nas horas em que vou me deitar. Gostei de todos: dos que revi e dos que nunca tinha visto. Mas sei que ter saído de casa para ir ao cinema era um pouco demais para filmes tão estreitos. A TV é o perfeito veículo para Allen.O primeiro filme dele que vi foi Boris Gruschenko e achei que parecia um programa de TV meio malfeito. Depois, ele melhorou a estrutura dos roteiros e o uso da câmera. Passou a fazer filmes melhores. Mas sempre muito anti-sixties,um tanto reacionário. Muito hétero, muito reverente com os amantes de ópera que vivem no Upper East Side, muito chegado a uma decoração creme por trás de roupa bege. Careta até não poder.”

"Gosto mais de pretos que de mulheres."

"Meu negócio agora é sexo e amizade. Acho esse negócio de amor uma coisa muito chata."

"Lula é a Madonna. Ele se coloca bem para manter o sucesso de ter chegado à Presidência. A sensação que a gente tem até hoje é que ainda estamos na festa da posse do Lula."

"Sou modesto no que diz respeito à criação e não o sou pessoalmente. Me acho melhor do que Chico, Milton e Gil juntos."

"Nunca entendi desse negócio de dinheiro. Nem sei quanto eu ganho."

"Estou muito feliz com a atuação do Gil, porque ele se sente tão bem. Ele está feliz, estou feliz também. Uma coisa é certa: ele trouxe uma visibilidade e um peso para o Minc que ele nunca teve antes."

"O nome da solução do problema Brasil é São Paulo feliz."

"Vivemos com medo e isso nos leva a apoiar os líderes mais inaceitáveis."

"Tenho canções legais. Não são grandes canções, mas se vinculam com a história brasileira. Tiveram graça no momento e no modo em que apareceram. Talvez algumas sejam até bonitas em si."

"Eu dizia sobre os arranha-céus de Nova York que, olhando para eles, tinha a impressão de que já haviam sido destruídos há muito tempo."

"Osama Bin Laden é um homem bonito e se parece com algumas pessoas da minha família."

"Sou contra a reserva de mercado. Tem mais é que abrir as portas para a Madonna abrir as pernas".

"Eu sou um preguiçoso que trabalha muito."

"Desde pequeno eu achava que seria célebre."

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

As bicadas dos falcões


Vários desses analistas políticos que enriquecem com seu panfletarismo dissimulado as páginas dos jornalões estão, neste momento, implorando para que a oposição deixe de ser complacente com o governo Lula e faça o seu papel, que é, para tais incendiários, defenestrar o ex-metalúrgico.
Os pedidos são explícitos. Na visão dessa turma, tucanos, pefelistas e todos os outros parlamentares que gravitam ao redor dessas agremiações, mostram-se intimidados com a extraordinária popularidade de Lula e, por isso, são incapazes de partir para o embate direto.
Eles acham que, o sucesso do governo inibe os ataques - e, dessa forma, é bastante provável que o "poste" escolhido pelo presidente para sucedê-lo possa derrotar o escolhido pelos céus, ou seja, o governador paulista José Serra, para continuar a grande onda de privataria iniciada pelo inesquecível FHC. Bons tempos aqueles!
As bicadas desses falcões são doídas. Eles acusam Lula de estar se apropriando das mentes e corações de milhões de brasileiros em troca de um superficial bem-estar que se traduz em mais salário, mais emprego, mais consumo, mais educação, essas coisas supérfluas que só servem para atrapalhar o dia a dia de nossos cidadãos.
E vão além na indignação. Para tais arautos da moralidade pública é inconcebível que tanto Lula quanto o seu partido tenham, como dizem, "aparelhado" o Estado com sindicalistas, essa gentinha que veio lá de baixo para tomar o lugar de dedicados servidores que haviam sido escolhido com zelo exemplar pelos dirigentes passados.
É o país caminhando célere para se tornar a mais nefanda república obrera da história do mundo. Um horror.
Não param aí as denúncias. O maquiavélico barbudo, mostrando-se uma pessoa sem nenhum escrúpulo, é ainda capaz de se aliar com o que de pior existe na política para levar seus planos avante.
Como se vê, alertam esse valentes escribas, o perigo é real e iminente. Por isso a conclamação para que os oposicionistas assumam desde já uma posição mais incisiva, frontalmente contrária a tudo que ocorre no país neste momento.
O problema todo é que a parte mais interessada, o povo, está gostando do que vê e vive. E aí fica difícil, quase impossível, fazer o que essa meia dúzia de iluminados planeja com tanto zelo em seus escritórios refrigerados.
Mas não custa continuar tentando.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Insegurança pública

A notícia não ganhou manchetes estrondosas nos jornais paulistas, mas o registro foi feito: a violência no Estado cresce sem parar.
A Folha escreveu o seguinte sobre o assunto:
Dados divulgados na noite de ontem (segunda-feira) pela Secretaria da Segurança Pública da gestão José Serra (PSDB) apontam o aumento em praticamente todos os tipos de crime.
A comparação do 3º trimestre de 2008 com o mesmo período deste ano revela que subiram os crimes de sequestro, homicídio doloso (intencional), estupro, roubo, furto, roubo e furto de veículos e também o roubo de cargas e de bancos.
Em todo o Estado, foram assassinadas 1.119 pessoas nos meses de julho a setembro deste ano -um aumento de 3% em relação a 2008. Na cidade de São Paulo, porém, houve queda de 8,2% -de 317 para 291, mais de três assassinatos por dia.
A variação mais alta foi contabilizada nos crimes de sequestro: 136% -11 casos em 2008 e 26 agora. O total de pessoas mortas em latrocínios (roubo seguido de morte) subiu 14% -74 para 82 vítimas.
Principal bandeira do atual secretário da Segurança Pública, Antonio Ferreira Pinto, que assumiu a pasta em março com a promessa de combater os crimes contra o patrimônio, roubos e furtos tiveram alta de 18% e 6%, respectivamente.
Em maio, quando os números referentes ao 1º trimestre do ano já apontavam para o aumento da criminalidade no Estado, o governo atribuiu o problema à crise econômica.
Com 64.399 roubos registrados, o 3º trimestre deste ano entrou para a história como o período em que mais crimes desse tipo ocorreram em todo o Estado. A marca negativa anterior (63.729) havia sido registrada no 2º trimestre deste ano. Na comparação com o 3º trimestre do ano passado, os roubos aumentaram 18% agora.
O total de roubos (64.399) não inclui os casos de roubo de veículos, a bancos e de cargas.
O furto, delito que historicamente sempre foi o mais registrado nas estatísticas da criminalidade, subiu 6%.
No caso de crimes de estupro, houve aumento de 52% (de 863 para 1.311), mas a variação, segundo nota oficial da Segurança Pública, ocorreu por causa da mudança na lei, que passou a considerar estupro também casos de 'atos libidinosos' e 'atentados violentos ao pudor'.
A nota se encerra dizendo que, "logo após a divulgação dos dados da violência na noite de ontem, na página da pasta, o porta-voz da Secretaria da Segurança Pública, Enio Lucciola Lopes Gonçalves, disse à Folha que ninguém do órgão iria se manifestar sobre os dados 'por causa do horário'.
Segundo Gonçalves, parte das explicações foi dada em uma 'nota explicativa' no site www.ssp.sp.gov.br/estatisticas. Mas, na própria nota, há divergências. Pelo texto, foram 62.308 roubos no Estado. No quadro abaixo da informação, porém, o total que aparece é de 64.399."
Então é isso: o Estado mais rico da federação, governado há mais de uma década por representantes de um mesmo partido, não consegue diminuir os índices de violência, mostra-se incapaz de apresentar uma política de segurança pública que sequer impeça o aumento da criminalidade.
É uma tragédia, ainda mais quando se sabe que muitas ocorrências não são registradas pelas vítimas por absoluta descrença no trabalho policial.
O tema segurança pública, aliás, poderia servir de mote para a campanha presidencial dos defensores do Estado mínimo, esses que fazem oposição renhida ao governo Lula. O que têm a propor o governador José Serra e seus aliados ao Brasil? O modelo paulista de gestão, cujos resultados são esses aí publicados pela insuspeita Folha?

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Seleção natural

Foi um sucesso o convescote da juventude demista que terminou ontem, dia de Finados, em Blumenau.
A notícia sobre o encontro foi extraída do site do partido:
"No sábado, segundo dia do Encontro Nacional da Juventude, foi lançado pelo presidente Rodrigo Maia o Torne-se Deputado: um projeto para estimular e apoiar o jovem com até 30 anos que queira se lançar na política. O Democratas quer animar candidaturas, com orientações, assessoria técnica e até patrocínio legal.
O processo de seleção se dará através do site do partido. Para se inscrever basta responder através de texto ou hotsite à pergunta: Por que quero ser deputado. Os nomes dos selecionados serão anunciados até 15 de março de 2010."
O deputado Rodrigo Maia explicou a iniciativa pioneira:
"Procura-se representantes dos jovens, a quem se oferece ajuda para conquistar mandatos. E nenhum grupo social tem hoje mais densidade, nem extensa agenda política e econômica do que os jovens, a quem o partido quer, não apenas atrair, mas integrar aos quadros, transferindo posições de liderança que lhes cabem."
Desse jeito, vai longe esse DEM.

domingo, 1 de novembro de 2009

Lições de política e humanismo

Duas obras-primas do cinema da década de 50, os filmes dirigidos por Julien Duvivier com base nos contos de Giovannino Guareschi, "Don Camillo" e "O Retorno de Don Camillo", foram lançadas recentemente no mercado brasileiro em DVD.
Além das magníficas interpretações de Fernandel e Gino Cervi, como Don Camillo e sua contraparte, o prefeito comunista Peppone, os filmes sintetizam de modo admirável a obra de Guareschi, sincera, divertida, transbordante de humanismo - e de certa maneira, totalmente política.
O mundo de Don Camillo, cheio de nuances, de meios tons, onde nenhum personagem é inteiramente bom ou mau, inclusive o próprio padre que procura ocultar os seus pecadilhos do Jesus crucificado de sua igreja (para quem não sabe, Don Camillo conversa frequentemente com a estátua - ou seria a sua consciência?), na verdade não se circunscreve à região da aldeia de Reggio, na Emilia Romagna. Sintetiza todas as pequenas e grandes aldeias da Terra, onde os homens, basicamente, procuram viver da melhor maneira que podem.
No constante embate que travam, Don Camillo e Peppone alternam derrotas e vitórias. Defendem de todas as maneiras seus ideais - o padre, os valores religiosos, a ordem conservadora, a estabilidade; o prefeito comunista, a transformação social, a "revolução", como diz, o trabalho coletivo, a disciplina partidária. Nem por isso se odeiam, pois veem na amizade que têm há longo tempo algo mais poderoso que as desavenças políticas. E, acima de tudo, pensam, cada qual a seu modo, no bem-estar da comunidade.
Don Camillo e Peppone, aparentemente contrários em tudo, brigam pelas mesmas coisas, são como irmãos siameses que dependem um do outro para sobreviver.
Claro que seria pedir demais a certas figuras públicas do Brasil a compreensão da luta política que Don Camillo e Peppone têm.
Primeiro, porque ambos são frutos da imaginação exuberante de Giovannini Guareschi, um católico que compreendeu que nem tudo do Partido Comunista Italiano do pós-guerra estava errado e nem tudo da Democracia Cristã estava certo. Um país estilhaçado pela derrota na guerra não poderia se dar ao luxo de não absorver a riqueza de todas as experiências sociais dos seus homens da direita e da esquerda. Tampouco fazer pouco caso de sua longa e profícua tradição humanista, neste caso representada pela própria obra de Guareschi.
Outro fator que limita esses tais homens públicos nativos que desdenham dos principais fundamentos da política é justamente o fato de que, ao contrário de Don Camillo e Peppone, eles absolutamente não se sentem ligados à sua terra ou ao seu povo. E assim, agem em interesse próprio, descompromissados de tudo o que não renda algum benefício - a si mesmos e aos de sua classe.

E.T.: FHC, aquele ex-presidente que não aceita a aposentadoria e tampouco o êxito de seu sucessor, escreveu um artigo que foi publicado neste domingo nos principais jornais da direita brasileira. Nele, fica claro que o autor, um esnobe e pretensioso "intelectual", nunca foi leitor de Guareschi. E, se foi, não deu a ele a menor importância. Afinal, seu mundo é outro.