segunda-feira, 6 de julho de 2009

Observações curriculares

Para quem disse não estar ainda convicto de que sairá candidato à presidência no ano que vem, o governador José Serra até que anda bem animado.
"São apartamentos decentes. Não é como se dizia no meu tempo: quarto, penico e fogareiro", afirmou, ao elogiar o imóvel de 53,23 metros quadrados, parte de um conjunto de 372 apartamentos que inaugurou no Jardim Pantanal, na Zona Leste de São Paulo.
Antes, o espirituoso governador já havia posado para fotos com um time de futebol e até mesmo arriscado alguns chutes a gol.
Claro que a imprensa adorou esta nova face populista de Serra, um político na maior parte das vezes rabugento e mal educado.
Na verdade, a imprensa gosta tanto dele que, ao contrário do que tem feito com a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff - com quem provavelmente ele vai se confrontar na corrida presidencial -, em nenhum momento de sua longa trajetória política chegou a duvidar das suas credenciais acadêmicas.
Serra é tratado por todos como um eminente economista, autor de obras essenciais para a compreensão dos mais profundos problemas do ser humano em sua luta cotidiana pela sobreviência. Embora tais títulos sejam segredos guardados a sete chaves e existam mil e uma versões diferentes sobre a formação profissional do capo paulista.
Mas para a nossa imprensa, isso é ninharia. Pois Serra, a julgar a deferência com que a mídia o trata, afigura-se um portento intelectual, daqueles que bastam abrir a boca para que a audiência - um grupo de privilegiados - bata palmas e peça bis.
O autêntico gênio da raça.
Com Dilma é diferente. Uma informação enviezada em seu currículo foi o suficiente para que vetustos diários abrissem manchetes mordazes, títulos sarcásticos e textos definitivos na condenação do que julgam um embuste.
Pobre Dilma! Mal sabe o que a espera.
E a campanha ainda nem começou...

domingo, 5 de julho de 2009

Passaralho à vista

Com a mesma desculpa usada por outras categorias profissionais, que aproveitaram a crise econômica global para demitir e depois recontratar trabalhadores por salários mais baixos, os empresários de comunicação de São Paulo apresentaram uma contraproposta ridícula aos jornalistas do Estado, na primeira rodada de negociações, cuja data-base é 1 de junho: reajuste em duas parcelas – 3% em junho para quem ganha até R$ 4.000,00 por mês e mais 2,38% em dezembro para quem ganha até R$ 4 mil e duas parcelas fixas, uma em junho, de R$ 120,00 e outra de R$ 98,06, em dezembro para quem ganha acima disso.
Com os índices apresentados, o piso da jornada de cinco horas passaria para R$ 1.790,40, com data base em junho, e para R$ 1.833,01 em dezembro.
Só para ter uma ideia do ridículo da proposta patronal: o sindicato dos jornalistas reivindica reajuste de 12,83%, sem parcelamento, que daria um piso de R$ 1.962,00 para jornada de cinco horas e R$ 3.139,20 para sete horas.
A realidade das empresas, apesar do que dizem os patrões, não é de crise. Houve aumento médio do faturamento em publicidade de 12,83% no período em negociação. Fora isso, são os próprios jornais que noticiam que o Brasil está entre os países menos afetados pelas turbulências da economia mundial.
O endurecimento das negociações já era esperado por grande parte da categoria depois que o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubou a obrigatoriedade do diploma de jornalismo para o exercício da profissão.
A iniciativa coroou anos e anos de intenso lobby patronal, iniciado pela Folha de S. Paulo e seguido por todos os outros órgãos de imprensa do país, com as bençãos da Associação Nacional dos Jornais, que representa o interesse patronal.
A análise de jornalistas experientes é que, se vingar a intenção do presidente do STF, Gilmar Mendes, de desregulamentar o execício do jornalismo - e, na esteira, de outras profissões -, estará aberto o caminho para a barbárie - fim das negociações salariais, extinção dos sindicatos de trabalhadores, vigência absoluta da lei da selva, pela qual os mais fortes mandam e os mais fracos se calam e simplesmente obedecem.
O interessante da história é que aqueles que, por ideologia, por oportunismo, ou apenas por ingenuidade, têm defendido a absurda decisão do STF, estão no mesmo barco dos jornalistas diplomados.
Isso porque o passaralho é uma ave de rapina, e como todo predador prefere atacar quem está mais perto, quem é mais vulnerável, aquele mais fraco.

Bola de couro, bola de ouro

Notas de colunistas especializados dão conta que o técnico Muricy Ramalho recebeu proposta de cerca de R$ 400 mil mensais para dirigir o Palmeiras no lugar de Wanderley Luxemburgo, que, segundo as mesmas fontes, tinha salário entre R$ 500 mil e R$ 600 mil por mês.
Desde o início deste ano o Palmeiras é presidido por Luiz Gonzaga Belluzzo, que, entre outras coisas, é assessor informal de economia do presidente Lula. Um dos objetivos de sua administração é modernizar o clube e equilibrar as suas finanças, conforme ele mesmo afirmou em inúmeras entrevistas.
Porém, a se dar crédito às informações dos tais cronistas esportivos, o que Belluzzo pensa em fazer no Palmeiras, contratando um profissional que custa R$ 4,8 milhões por ano, contraria toda a sua brilhante carreira acadêmica e de eminente economista.
Está certo que o futebol é algo único, principalmente no Brasil. Mexe com a mais profunda emoção de dezenas de milhões de pessoas, iguala intelectuais a operários, patrões a empregados na desmedida paixão que provoca.
Mesmo assim, caberia aos dirigentes baixar a adrenalina que os jogos proporcionam e, em vez de agir como torcedores, procurar injetar um mínimo de racionalidade em seus negócios.
Daqui a cinco anos, se tudo der certo, o Brasil será a sede do evento esportivo mais visto no planeta, a Copa do Mundo de futebol.
A expectativa de que consiga organizar a competição como os países do Primeiro Mundo, em edições recentes, é enorme.
Para isso, todavia, é necessário que essa nova geração de cartolas, com o próprio professor Belluzzo à frente, mude os paradigmas, transforme os conceitos e revolucione as práticas.
A bola está com eles - e tem de ser aquela tradicional, de couro, e não qualquer imitação mais cara de ouro.

sábado, 4 de julho de 2009

O poder de uma boa edição

O achincalhe cada vez aumenta mais.
Depois de serem nivelados a cozinheiros pelo presidente da mais alta corte judiciária do país, os jornalistas agora são humilhados em plena praça pública. Na bela Ouro Preto, dia desses, um rábula de porta de cadeia brigou com alguns repórteres, aos quais se referiu, no calor da refrega, como "vagabundos" e "despreparados", para, num xingamento final e definitivo, proclamar em alto e bom som: "Vocês sequer têm diploma."
Está certo que a imprensa brasileira faz o possível para merecer, de qualquer pessoa com médio senso de observação, grandes reparos. Este último caso de linchamento moral a que submete o presidente do Senado, José Sarney, por exemplo, é apenas mais um episódio na longa série de desvios em sua trajetória, iniciados especialmente no governo Lula.
É fato notório que Sarney representa tudo o que de pior exibe a política tupiniquim. Mas atribuir a ele todos os males de uma instituição viciada desde há muito é demais. Ou melhor: mostra cabalmente que a imprensa pode ser tanto um instrumento essencial para o aperfeiçoamento democrático como o oposto - um reles mecanismo de manipulação ideológica.
Nestes últimos tempos tem sido assim: nossa mídia, infelizmente, está a serviço de uma oligarquia que odeia o atual ocupante do Palácio do Planalto e tudo faz para tirá-lo de lá. Nem que para isso tenha de usar todos os mais sujo truques de seu repertório.
Muito se criticou o diretor de redação do Estadão quando ele afirmou, a propósito da transparência do blog da Petrobras, que a edição é necessária e vital no bom jornalismo. Mas ele está certo. Faltou apenas dizer a quem serve esse bom jornalismo a que se referiu. No seu próprio caso, não há nada a acrescentar: o Estadão seria incapaz de não editar numa notícia, pois seu público exige que ela saia com todos os elementos que a fazem sempre uma obra de louvor aos bons princípios neoliberais, de amor extremado ao mercado e a tudo o que ele representa.
E tem sido com esse tipo de jornalismo editado, enviezado - errado, enfim -, que a sociedade brasileira tem se relacionado nos últimos tempos.
Talvez por estar tão acostumado com tais procedimentos é que o presidente do Supremo tenha opinião tão pouco lisonjeiro dos jornalistas. Ele certamente deve pensar, ao ler os jornais e revistas, assistir à televisão, ouvir rádio e passear pela internet, que jornalismo é isso mesmo: reflexo de um mundo com vilões e heróis perfeitamente definidos, bons e maus sempre de lado opostos, o branco nunca se misturando com o preto.
É que ele não sabe o poder que tem uma boa edição.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Divagações em um dia chuvoso

Mais evidências de que o pior da crise passou e que, no Brasil, se não foi a marolinha prevista pelo presidente Lula, tampouco se afigurou o tsunami que a oposição inteira desejava e muitos dos tais analistas - aqueles que dizem exatamente o que seus patrões querem ouvir - profetizavam: a produção industrial cresceu 1,3% em maio na comparação com abril segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Foi a quinta alta mensal consecutiva do indicador, que acumula expansão de 7,8% nesse período.
A indústria tem sido o calcanhar de aquiles da recuperação econômica no Brasil. Setores como o automobilístico, de eletrodomésticos e de materiais de construção, por exemplo, têm respondido bem às medidas de incentivo da União, mas os exportadores vêm sendo castigados pela recessão mundial. Para eles, a luz no fim do túnel vai demorar ainda para chegar.
Quando uma boa notícia como essa aparece, a oposição perde mais um pouco a esperança fazer o sucessor de Lula. Isso porque as coisas estão umbilicalmente ligadas: sucesso na economia significa um presidente quase imbatível, capaz de transferir ao seu candidato - seja lá qual for - grande parte dos votos que seriam destinados a ele.
Por outro lado, um país arrasado, com desemprego em massa, salários em queda, significa mais votos para tucanos-pefelistas, para os quais, hoje, resta apenas a produção - com inteira cumplicidade de uma mídia partidarizada - de "escândalos" que sejam capazes de imobilizar o trabalho do Legislativo e do Executivo - o outro poder, o Judiciário, já está, há muitos anos, completamente desmoralizado e incapaz de responder aos desafios da jovem democracia brasileira.
O governador José Serra, tido como o candidato da oligarquia, afirmou, recentemente, que ainda aguarda a definição do quadro eleitoral para, só no próximo ano, decidir seu destino político. Claro que falou da boca para fora. Sua obsessão é ser presidente - e só não competirá se algo extraordinário ocorrer.
Entre essas variáveis encontra-se a sua posição nas pesquisas eleitorais. Hoje, ele é o primeiro, disparado até porque a campanha não começou explicitamente. Mas já há quem o compare aos famosos cavalos paraguaios, aqueles que perdem o fôlego no meio da corrida e, invariavelmente, terminam o páreo entre os últimos.
Para quem só se lembra do Serra vitorioso, é preciso não esquecer que, mais de uma vez, ele foi reprovado nas urnas - e isso aconteceu em seus próprios domínios. E, como se sabe, uma campanha presidencial abrange territórios distantes, rincões perdidos, cidadãos esquecidos - para os quais São Paulo é apenas uma utopia e os seus políticos não passam de miragens.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

A realidade de FHC

Quem ouviu o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em entrevista que deu à rádio Bandeirantes ficou com a impressão que o seu foi o governo mais bem sucedido de toda a história brasileira.
FHC, sem pudor, disse ter feito de tudo. Do real - idealizado por Itamar Franco - aos programas sociais, passando pela reforma agrária.
FHC é um caso típico da pessoa obcecada em apagar o seu passado - ou em reescrevê-lo. Existem muitos casos similares.
O problema com FHC é que ainda há gente que leva a sério as bobagens e os disparates que diz, com a maior cara de pau.
Jornalistas, por exemplo, que insistem em fazer a ele perguntas sobre temas completamente fora de sua competência - como a situação atual do país.
Os coleguinhas deveriam saber que a realidade vivida por FHC é outra - bem diferente da nossa.