quinta-feira, 7 de maio de 2009

Pânico midiático

É difícil entender a cobertura da imprensa sobre o que insiste em chamar de "gripe suína". O tom das matérias é do mais puro alarmismo, como se o fim do mundo fosse iminente. 
Raros textos esclarecem pontos que, de fato, interessam ao leitor: o que é a tal gripe, como se originou, como se transmite, qual a diferença em relação à gripe comum (a influenza), quais os cuidados que se deve ter para evitar o contágio, qual a sua letalidade etc etc.
Filtrando todas as informações, chega-se à conclusão que a mais nova vedete do noticiário não é tão feia como se pretende mostrar. 
O número de infectados, por enquanto, é baixíssimo, o grau de letalidade é o mesmo da influenza comum, há remédios suficientes em caso de uma pandemia, em poucos meses estará pronta a vacina - enfim, nada que justifique o tom apocalíptico do noticiário.
No meio de toda essa imensa rede de desinformação o troféu Microfone de Lata vai para o governador José Serra pela sua tentativa de tranquilizar as pessoas.
Seu pedido para que elas fiquem longe dos "porquinhos" transmissores da doença só não é uma obra prima da comédia porque revela toda a tragédia que é ter um político com tal grau de ignorância, irresponsabilidade e arrogância prestes a ser o novo presidente da República.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

A conta do mentiroso

A cada divulgação de dados macroeconômicos, praticamente a totalidade da chamada grande imprensa e a maioria dos intitulados "analistas" olha os números do ângulo que lhes convêm. Ou seja, para mostrar que a crise econômica ainda exerce efeitos devastadores sobre o país. 
A intenção é clara: enfraquecer a posição, até agora, confortável, do governo do presidente Lula perante a opinião pública. É a antecipação da eleição presidencial de 2010 - imprensa e essa parcela dos tais "analistas" têm candidaturas definidas - e não é a escolhida por Lula.
Até aí, tudo bem. Cada um é dono de seu nariz e de suas ações. Faz o que quer e ouve o que não quer.
É preciso, porém, que do lado de lá do balcão alguém venha explicar às pessoas que as coisas não são bem assim como se lhes apresentam.
Pois, na verdade, os efeitos da crise já são bem menores, a economia brasileira está se recuperando do tombo que levou, a vida está se normalizando e, muito em breve, tudo voltará ao normal. 
Se não houve a marolinha apregoada pelo presidente Lula, nenhum tsunami, também, destruiu o país. 
Inisistir numa mentira às vezes dá resultado. Outras, como neste caso, não só se revela uma tática ineficaz, pois a realidade contradiz o discurso do mentiroso, como pode resultar em efeito contrário. 
Cada vez mais a "grande imprensa" e os personagens escalados por ela para espalhar sua propaganda eleitoral caem no descrédito generalizado. 
Efeito destes novos tempos em que a informação, graças principalmente à internet, é realmente livre.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

O jeito mais fácil

A Virada Cultural promovida pelos governos estadual e municipal de São Paulo, dizem os organizadores, foi um sucesso absoluto, com recorde de público e de atrações. 
Têm razão, se forem olhados apenas os números.
Mas, como política cultural, qual a importância do evento? Qual o real benefício para a população essa maratona em que se misturam, sem nenhum critério, num apertado limite de tempo, tantas e tão diversas manifestações artísticas?
E o que falar então do impacto dessa massiva concentração de pessoas sobre a frágil estrutura urbana da cidade?
O fato é que, durante pelo menos uma semana, a Virada Cultural não sai do noticiário - que procura ressaltar apenas seus pontos positivos.
Neste ano, foram feitas algumas críticas mais contundentes, principalmente sobre as condições de higiene das ruas do Centro, depois que o esquema de sanitários químicos entrou em colapso, sobre o uso abusivo de bebidas alcoólicas, e sobre falhas no transporte público.
Essas críticas, porém, ocuparam menos espaço do que as inúmeras referências elogiosas ao comparecimento popular e à qualidade dos espetáculos. 
É o que basta para os governantes de São Paulo. 
Uma Virada Cultural por ano é, para eles, mais que o suficiente, muito mais importante do que desenvolver um trabalho sério e consequente na área cultural. 
Pois afinal o que importa é sair bem na foto.

sábado, 2 de maio de 2009

Visão distorcida

O presidente Lula simplificou perigosamente a discussão sobre o uso de dinheiro público ao dizer que vê como "hipocrisia" a repercussão das notícias de que parlamentares usam a cota de passagens aéreas para patrocinar viagens de familiares e amigos.
"Estou vendo agora a hipocrisia do salário na Câmara. Parece um escândalo: faça um levantamento da história da Câmara e veja se algum dia foi diferente? Sempre foi assim, não sei por que as pessoas não têm coragem de assumir as coisas como elas são", disse ele.
"Não acho correto, mas não acho um crime um deputado dar uma passagem para um dirigente sindical ir a Brasília. Eu, quando era deputado, muitas vezes convoquei dirigentes da CUT, dirigentes de outras centrais para se reunirem com passagem do meu gabinete. Graças a Deus, nunca levei nenhum filho meu para viajar para a Europa com passagem", completou.
Ainda bem, para que a sua declaração não soasse inteiramente infeliz, que ele fez uma distinção entre usar a cota para o transporte de, por exemplo, um sindicalista participar de uma reunião, e levar um familiar para fazer turismo. 
Há, realmente, uma distância enorme entre os dois casos. Como há uma distância abissal entre o senso ético que deve prevalecer no trato da coisa pública e a sua prática no Brasil.
O fato de nossos parlamentares - e, como se viu, o próprio presidente da República - não saberem distinguir entre o que é deles, ou o que foi dado a eles para que façam seu trabalho da melhor maneira, e o uso do dinheiro público para fins particulares, mostra como a democracia brasileira ainda tem um longo caminho a percorrer.
Não se indignar com isso, achar que o desvio ético deve ser tolerado porque ele sempre existiu, é estar do lado do infrator. É assim, bancando a avestruz, jogando a sujeira para debaixo do tapete, que se pretende construir um país?

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Orgulho paulista

Se de um lado o Supremo Tribunal Federal dá a sua contribuição para que as já tensas relações sociais fiquem ainda mais esgarçadas, ao permitir que agora caluniadores, injuriadores e difamadores de toda a espécie pratiquem a seu bel prazer aquilo que a sua natureza lhes impõe - com o fim da Lei de Imprensa, como ficará o direito de resposta que era assegurado às vítimas de tais ofensas? - o governo tucano de São Paulo completa um cenário de barbárie.
Notícias insuspeitas - a fonte é a própria Secretaria de Segurança - dão conta que a criminalidade aumentou nos três primeiros meses do ano em todo o Estado. Houve crescimento significativo dos casos de roubo, estupro e latrocínio (roubo seguido de morte).
Os homicídios, que até setembro do ano passado seguiam tendência de queda, voltaram a aumentar. "Não estamos nos nossos melhores momentos", disse o sociólogo Túlio Kahn, coordenador da Coordenadoria de Análise e Planejamento, da Secretaria da Segurança, e porta-voz do governo José Serra para a divulgação desses tristes números.
Segundo ele, o crescimento da violência é decorrente de "uma série de fatores", entre eles o aumento da circulação de armas de fogo e a crise econômica.
Explicação pobre e tola. Por trás de toda essa desgraça está uma administração que perpetua uma ideologia sem nenhuma preocupação com a redistribuição de renda ou com a justiça social. Anos e mais anos sob o peso de tal deformação só podem mesmo resultar em uma sociedade cheia de graves problemas. 
São Paulo pode ser o mais rico Estado da federação, mas está longe de ser o melhor.

Portas abertas para o crime

Com a sua decisão de extinguir a Lei de Imprensa, o Supremo Tribunal Federal conseguiu a façanha de piorar o que já era ruim.
É que se antes as empresas jornalísticas pouco ligavam para o direito de resposta (artigo 29 da falecida Lei 5.250: "Toda pessoa natural ou jurídica, órgão ou entidade pública, que fôr acusado ou ofendido em publicação feita em jornal ou periódico, ou em transmissão de radiodifusão, ou a cujo respeito os meios de informação e divulgação veicularem fato inverídico ou, errôneo, tem direito a resposta ou retificação."), agora simplesmente devem ignorar o assunto.
Portanto, está aberta a porta para que caluniadores, injuriadores, difamadores e todos os que fazem parte dessa notável espécie de meliantes, se sintam inteiramente à vontade para fazer o que mais gostam. 
Num país em que a Justiça tem um só um olho, gordo e bem nutrido, alguém duvida das consequências dessa decisão do STF?