terça-feira, 7 de abril de 2009

A mãe fica de fora

FHC não perde a viagem.
Mesmo longe do Brasil, parece ter como única preocupação espinafrar o ex-metalúrgico. Dessa vez foi em Washington:
"O presidente Lula, com todo o carisma que tem, eu ganhei dele no primeiro turno, duas vezes", disse.
O comportamento do líder tucano começa a preocupar.
Se antes tais declarações eram vistas como simples inveja, a popular dor de cotovelo, algo sem muita importância, com a aproximação das eleições de 2010 elas vão se tornando cada vez mais agressivas e despropositadas.
Alguém precisa, urgentemente, acalmar o Príncipe.
Ou, pelo menos, falar para ele que até o vale-tudo tem regras: não pode morder, chutar a genitália ou enfiar o dedo no olho do adversário.
Nem xingar a mãe. 

segunda-feira, 6 de abril de 2009

A marca de Serra

Os jornais noticiam que o governador José Serra está exportando para outros Estados seus principais projetos de governo. Pretende que São Paulo se torne, aos olhos dos colegas e correligionários, um modelo de gestão.
Mas qual tem sido mesmo a marca administrativa de Serra?
Será, por exemplo,
1) a crise permanente na educação;
2) a crise permanente na segurança pública;
3) o buraco do Metrô;
4) a batalha campal entre Polícia Civil e Militar na porta do Palácio dos Bandeirantes;
5) a quebra de contratos;
6) a propaganda da Sabesp;
7) o caos no trânsito da capital;
8) as tarifas de pedágio nas rodovias;
9) a privatização do Rodoanel;
10) o incêndio no Hospital das Clínicas;
11) a venda da Nossa Caixa ao Banco do Brasil;
12) a determinação de lutar contra a crise econômica global;
13) sua política social;
14) seu discurso a favor dos pobres e desprotegidos;
15) sua simpatia;
16) seu carisma;
17) tudo isso e mais um pouco, pois afinal ele é o candidato à presidência da República favorito de 10 entre 10 eleitores das laboriosas classes A, A/B e B de São Paulo (por enquanto, até que  a missão apostólica tucana paulista quatrocentona espalhe a sua verdade para todo este imenso país). 
Serra, para eles, é "o cara".

sábado, 4 de abril de 2009

Marmelada no ringue Brasil

Release da Editora Matrix informa que no dia 28 de março morreu Guerino Cicon. Durante muitos anos ele encarnou o lutador de telecatch Fantomas na TV e nos ginásios de esporte pelo país afora.
Quem tem menos de 40 anos quase nada deve saber a respeito da luta livre - não o esporte, mas o entretenimento - no Brasil. Talvez alguns ainda se lembrem de Ted Boy Marino, que depois de encerrado o programa que fazia com outros mestres da marmelada sobre o ringue, foi aproveitado na Globo principalmente na trupe dos Trapalhões liderada por Renato Aragão. 
Ted Boy, vivo até hoje, foi, na época, década de 70, um dos "artistas" mais conhecidos do país - assim como o telecatch, que rivalizava com o futebol na preferência popular.
O release da Matrix divulga o livro "Telecatch - Almanaque da Luta Livre", de Drago, também autor do "Livro da Traição Feminina", publicado pela mesma editora. Nele, além de Fantomas e Ted Boy, estão personagens que se perderam no tempo e na memória: Aquiles, Hércules, Tigre Paraguaio, Homem Montanha, Gran Caruso, Cangaceiro, Tony Videla, Marinheiro, Ursus... Os nomes, assim como as fantasias, variavam imensamente, mas havia entre todos esses personagens algo imutável: o bem e o mal.
O lutador ou pertencia à turma dos "mocinhos" ou à turma dos "bandidos", pertencia aos "limpos" ou aos "sujos". O mundo da luta livre de mentirinha era assim bem simples: preto no branco, sem meios tons, direto, objetivo, facil de entender - e talvez isso, mais do que qualquer outra coisa, explique o sucesso dos programas.
Esse maniqueísmo tinha a ajuda de "árbitros" que igualmente se dividiam entre os dois grupos, aqueles que seguiam estritamente as regras do espetáculo e os que torciam e ajudavam os vilões, em flagrantes atos de injustiça que revoltavam todos que viam as exibições. Não poucas vezes, senhores e senhoras mais exaltados brindavam tais  meliantes -Índio Saltense e Isidoro de Cária foram os mais notórios - com uma chuva de boas e bem dadas guarda-chuvadas.
Esse universo tinha, porém, uma exceção: o gigante mascarado que entrava no ringue com os braços estendidos, arrastando uma perna, como se fosse um monstro ou um carrasco - e que fazia pudim de todos que ousassem cruzar o seu caminho, não importa se da turma do bem ou da turma do mal.
Fantomas era diferente. Não pertencia a nenhum dos dois grupos. Batia indiscriminadamente no adversário, qual uma máquina implacável, um profissional frio, sem sentimentos, que estava ali apenas para fazer o seu trabalho da melhor maneira possível. 
O público, que idolatrava os bons e odiava os maus na mesma proporção, quando chegava a vez de Fantomas, se dividia: aplaudia quando massacrava um Aquiles - o mais execrado de todos - e o cobria de vaias quando, depois de arremessar algum desavisado integrante da turma do bem nas cordas, concluía o serviço com um inevitável golpe de caratê na testa do coitado. Nocaute na certa.
É uma pena que Fantomas e seus adversários tenham desaparecido da TV. Além da diversão garantida, davam, semanalmente, aulas inteiramente grátis de moral e ética para o telespectador, que reconhecia facilmente quem, entre eles, prestava ou não, quem usava truques sujos para vencer, e quem vencia apenas por seus méritos. 
Naqueles tempos era moleza torcer para o mocinho, pois todos sabiam quem eram os mocinhos e os bandidos. Só Fantomas complicava as coisas e deixava o povo indeciso sobre essa história de dividir tudo entre bem e mal. 
Mas ele podia fazer isso: afinal, era o Justiceiro Mascarado. Com ele, nem os árbitros desonestos tinham vez. Suas pancadas, desferidas estritamente dentro das regras, não admitiam contestação. 
Hoje é diferente. A marmelada saiu dos ringues e virou coisa comum entre quem, supostamente, deveria zelar por todas as conquistas adquiridas com tanto esforço por gerações de brasileiros. Quem a pratica trocou os "macaquinhos" coloridos, as fantasias ingênuas, as máscaras toscas dos lutadores de telecatch por sisudos ternos, gravatas - e negras togas. 
Ao contrário do que ocorre atualmente, o mundo de faz-de-conta de Fantomas e companheiros provocava somente boas e saudáveis risadas. 

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Cabra da peste

Não bastou o ex-metalúrgico posar ao lado da rainha na foto do G-20. O novo presidente da nação mais poderosa do planeta teve de chamá-lo de "político mais popular do mundo" antes de dizer, meio sério, meio brincando: "Ele é o homem."
Claro que o orgulho nacionalista se enche quando uma coisa dessas acontece. Para quem realmente gosta deste país, isso é algo como ganhar da Argentina por uma goleada de, digamos, 6 a 1 - mas quem deu as punhaladas no coração de Armando Diego Maradona, infelizmente, foi a pequeninina Bolívia de Evo Morales.
O sucesso de uns, porém, causa inveja em outros. Principalmente naqueles que tiveram todas as oportunidades na vida para crescer como seres humanos, mas, por questões diversas, continuam pequenos, de caráter, de ideias e de propósitos.
“As declarações de Obama ratificam a tese de que Lula já entrou no tema do anedotário internacional”, bradou, furioso, na Câmara dos Deputados o líder do PFL, Ronaldo Caiado, para quem o comentário do presidente americano sobre o colega brasileiro “é algo preocupante porque o líder quando não se comporta de acordo com a liturgia do cargo perde a respeitabilidade dos demais”.
Todos sabem quem é Caiado - e o que ele representa.
Uma virtude, porém, deve lhe ser atribuída: ele pelo menos tem coragem de falar o que pensa, ao contrário de muitos outros políticos que escondem seus preconceitos, seu ódio de classe, sua intolerância, seu racismo - sem contar as contas bancárias e os bens - em fachadas que vão desde a simples mediocridade até o mais celebrado cinismo.
Mas é assim mesmo a política nativa: um microcosmo da sociedade, com suas virtudes e defeitos.
A reação ao episódio do ex-presidente do Senado Garibaldo Alves, um típico representante da classe política nordestina, por exemplo, reflete talvez o pensamento do brasileiro médio, esse ser que é capaz de se surpreender tanto com as desgraças quanto com as coisas boas da vida: "Isso é extraordinário, mostra que santo de casa também faz milagre. Quem diria que o presidente Lula teria tanto êxito no plano internacional. Agora temos que levar a sério a história da marolinha", disse com seu inconfundível sotaque.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Uma foto com a rainha

Na foto oficial do encontro entre a rainha Elizabeth II com os mandatários do G-20, o grupo das maiores economias mundiais, ela está ladeada pelo primeiro-ministro britânico, Gordon Brawn, e por Lula, o ex-metalúrgico que virou presidente do Brasil. Obama Barack, chefe do Executivo da maior potência mundial, está uma fileira atrás. 
Sabe-se lá porque isso ocorreu. Não importa. A foto é emblemática. 
Mostra que o Brasil é hoje protagonista e não mais coadjuvante.
Mostra que a política econômica brasileira desenvolvida pelo governo Lula deu resultados. 
Mostra que o esforço do Itamaraty em desenvolver relações mais estreitas com os países do hemisfério sul e abrir frentes que diminuíssem a dependência dos países desenvolvidos funcionou. 
Mostra que os pronunciamentos enfáticos do monoglota Lula em suas viagens aos confins do planeta em prol de um mundo mais justo, mais igualitário, menos protecionista em suas relações comerciais, no qual os países pobres tenham os mesmos direitos que os ricos, deu frutos.
Estranho é que esse reconhecimento de que o Brasil é hoje um país sério se dê lá fora. Internamente, ainda se faz um esforço tremendo para o povo acreditar que esta ainda é uma república de bananas governada por um incompetente, semi-alfabetizado (quando não, "apedeuta"), corrupto e bêbado, um sujeito que só chegou onde chegou por pura sorte - e com a ajuda de um eleitorado igualmente ignorante.
Esse pessoal, que dissemina essas ideias como se fosse a sua razão de vida, se tivesse a oportunidade, se ajoelharia em frente da rainha Elizabeth II apenas para demonstrar toda a sua oportunista vassalagem aos poderosos.
Se pudesse, beijaria as mãos, os pés e colocaria a sua vida à disposição da soberana.
Mas mesmo assim essa turma ficaria de fora da foto.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Galos, fumo e biquinis

A Assembleia Legislativa de São Paulo discute projeto do governador José Serra que proíbe totalmente o fumo em espaços coletivos, sejam públicos ou privados.
A tal Lei Antifumo, como está sendo chamada, tem defensores e críticos.
Quem está do seu lado diz que é boa para a saúde pública.
Quem está contra alega que fará cair o movimento de bares e restaurantes, além de violar, em vários pontos, os direitos individuais.
Ninguém reparou, porém, no alcance da proposta. 
Com ela, Serra antecipa parte de seu grande programa de governo presidencial.
É bom voltar no tempo para ver como fizeram sucesso - e foram boas para o país - as proibições do uso do biquini nas praias e da briga de galo, decretadas por Jânio Quadros.
Como Serra, Jânio sabia expressar os sentimentos de uma certa classe média hipócrita, acrítica e abobalhada.
Tem futuro o moço.