Ted Boy, vivo até hoje, foi, na época, década de 70, um dos "artistas" mais conhecidos do país - assim como o telecatch, que rivalizava com o futebol na preferência popular.
O release da Matrix divulga o livro "Telecatch - Almanaque da Luta Livre", de Drago, também autor do "Livro da Traição Feminina", publicado pela mesma editora. Nele, além de Fantomas e Ted Boy, estão personagens que se perderam no tempo e na memória: Aquiles, Hércules, Tigre Paraguaio, Homem Montanha, Gran Caruso, Cangaceiro, Tony Videla, Marinheiro, Ursus... Os nomes, assim como as fantasias, variavam imensamente, mas havia entre todos esses personagens algo imutável: o bem e o mal.
O lutador ou pertencia à turma dos "mocinhos" ou à turma dos "bandidos", pertencia aos "limpos" ou aos "sujos". O mundo da luta livre de mentirinha era assim bem simples: preto no branco, sem meios tons, direto, objetivo, facil de entender - e talvez isso, mais do que qualquer outra coisa, explique o sucesso dos programas.
Esse maniqueísmo tinha a ajuda de "árbitros" que igualmente se dividiam entre os dois grupos, aqueles que seguiam estritamente as regras do espetáculo e os que torciam e ajudavam os vilões, em flagrantes atos de injustiça que revoltavam todos que viam as exibições. Não poucas vezes, senhores e senhoras mais exaltados brindavam tais meliantes -Índio Saltense e Isidoro de Cária foram os mais notórios - com uma chuva de boas e bem dadas guarda-chuvadas.
Esse universo tinha, porém, uma exceção: o gigante mascarado que entrava no ringue com os braços estendidos, arrastando uma perna, como se fosse um monstro ou um carrasco - e que fazia pudim de todos que ousassem cruzar o seu caminho, não importa se da turma do bem ou da turma do mal.
Fantomas era diferente. Não pertencia a nenhum dos dois grupos. Batia indiscriminadamente no adversário, qual uma máquina implacável, um profissional frio, sem sentimentos, que estava ali apenas para fazer o seu trabalho da melhor maneira possível.
O público, que idolatrava os bons e odiava os maus na mesma proporção, quando chegava a vez de Fantomas, se dividia: aplaudia quando massacrava um Aquiles - o mais execrado de todos - e o cobria de vaias quando, depois de arremessar algum desavisado integrante da turma do bem nas cordas, concluía o serviço com um inevitável golpe de caratê na testa do coitado. Nocaute na certa.
É uma pena que Fantomas e seus adversários tenham desaparecido da TV. Além da diversão garantida, davam, semanalmente, aulas inteiramente grátis de moral e ética para o telespectador, que reconhecia facilmente quem, entre eles, prestava ou não, quem usava truques sujos para vencer, e quem vencia apenas por seus méritos.
Naqueles tempos era moleza torcer para o mocinho, pois todos sabiam quem eram os mocinhos e os bandidos. Só Fantomas complicava as coisas e deixava o povo indeciso sobre essa história de dividir tudo entre bem e mal.
Mas ele podia fazer isso: afinal, era o Justiceiro Mascarado. Com ele, nem os árbitros desonestos tinham vez. Suas pancadas, desferidas estritamente dentro das regras, não admitiam contestação.
Hoje é diferente. A marmelada saiu dos ringues e virou coisa comum entre quem, supostamente, deveria zelar por todas as conquistas adquiridas com tanto esforço por gerações de brasileiros. Quem a pratica trocou os "macaquinhos" coloridos, as fantasias ingênuas, as máscaras toscas dos lutadores de telecatch por sisudos ternos, gravatas - e negras togas.
Ao contrário do que ocorre atualmente, o mundo de faz-de-conta de Fantomas e companheiros provocava somente boas e saudáveis risadas.