quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Lições de humanidade

A rede francesa internacional de televisão TV5 exibiu outro dia o filme "Le Vieil Homme et L'Énfant" ("O Velho e a Criança"), dirigido por Claude Berri, com o magnífico Michel Simon e o garoto Alain Cohen nos papéis principais. A produção é de 1968, em branco e preto, com roteiro do próprio Berri e Gérard Brach. Conta a história de Claude, de 9 anos, que é levado pelos pais para viver numa fazenda com um casal de idosos. A ação se passa na França ocupada pelos nazistas em 1944. A família do menino vivia sob constante perigo de ser identificada: são judeus, algo que a criança não compreende muito bem.
Na fazenda, o garoto começa a desbrochar para a vida, e o velho, Pepe, graças à sua companhia, volta a se sentir vivo. A relação dos dois é transbordante de afeição - e de lições de racismo. Acontece que Pepe é daqueles antisemitas que odeiam os judeus por razões atávicas. Ele explica a Claude que a raiz de todos os problemas da França (detalhe: Pepe admira o marechal Pétain na mesma proporção que odeia os "bolchevistas") tem como origem esses seres conhecidos por seus narizes curvos como ganchos, por cheirarem mal e por seus pés chatos. "Reconheço um judeu de longe", diz Pepe a um Claude fascinado pela sua conversa.
O filme mostra o relacionamento entre as pessoas com tanta sutileza que deixa no ar inúmeros pontos de reflexão. O principal, porém, é mesmo a desimportância do conceito de raça. 
Os seres humanos, diz Berri em sua obra, são um só e podem se entender apesar das diferenças religiosas (Claude, para não mostrar que é judeu aprende a rezar o "Pai Nosso"), culturais (para agradar ao velho, vegetariano, ele recusa o pato temperado com mostarda servido no almoço), de idade, sexo, cor ("ontem foram os alemães, hoje são os negros americanos que estão na França", diz o velho, ao ver seu vilarejo festejar a liberação). 
Não estou certo, mas parece que o filme é autobiográfico. Se não, pelo menos foi inspirado por um fato real. E isso o torna mais ainda mais importante, porque nos faz ter a esperança de que aquilo que ocorre hoje na inóspita e miserável Faixa de Gaza, envolvendo judeus e palestinos, seja apenas um ato de loucura, conduzido por lideranças desvairadas. 

sábado, 3 de janeiro de 2009

De acordo em acordo

Acho que todos já devem (ou deveriam) ter ouvido falar de Monteiro Lobato. O gênio literário, autor da obra infantil mais completa da língua portuguesa e excepcional contista, era também um homem irrequieto, idealista, e, como todo sonhador, muito além de seu tempo. 
Mais: Lobato era um revolucionário que atuou em várias frentes, desde a edição de livros até a pregação radical em prol da industrialização do país.
Um exemplo desse espírito libertário foi a singular gramática que adotou lá pelos anos 20 do século passado. Isso antes que os acadêmicos resolvessem "atualizar" o português - daquela vez, como agora, mexeram nos acentos, e resolveram também eliminar algumas letras dobradas, absolutamente desnecessárias às palavras. Lobato simplesmente mandou as regras oficiais às favas e passou a escrever seus deliciosos textos à sua moda. 
Hoje, quando se discute inutilmente sobre mais um acordo ortográfico, que pretende unificar a língua portuguesa falada e escrita em diferentes partes do mundo, a "Ligeira nota sobre a ortografia de Monteiro Lobato (Entrevista com os Editores)", que precede vários de seus livros (Urupês, Negrinha e Cidades Mortas, para citar alguns), é de uma atualidade impressionante.
Vale a pena reproduzir alguns trechos dessa obra-prima de lucidez:
"Monteiro Lobato pensa em tudo por si próprio. Muito antes de oficializada a atual ortografia, já ele tinha reagido contra a etimologia - e agora reage contra os acentos. Em tudo quanto escreve, e nas traduções, não usa acentos, afora os antigos. Qual a razão dessa ojeriza? Interpelamo-lo e a sua resposta merece menção.
- Não é ojeriza. É o horror que eu tenho à imbecilidade humana sob qualquer forma que se apresente. Há uma lei natural que orienta a evolução de todas as línguas: a lei do menor esforço. Se eu posso dizer isto com o esforço de um quilogrâmetro, por que dizê-lo com o esforço de dois? Essa lei norteia a evolução da língua e foi o que fez com que caíssem as letras dobradas, os hh mudos etc. A reforma ortográfica veio apenas apressar um processo em curso (....) Essa grande lei do menor esforço conduz à sinplificação da ortografia e jamais à complicação - e os tais acentos a torto e a direito que os reformadores oficiais impuseram à nova ortografia vêm complicar, vêm contrariar a lei da evolução! São, pois, uma coisa incientífica, tola, imbecil, cretinizante e que deve ser violentamente repelida por todas as pessoas decentes (...) Que é a língua dum país? É a mais bela obra coletiva desse país (...)
- Nega então a utilidade do acento?
- Está claro, homem! Pois não vê que a maior das línguas modernas, a mais rica em número de palavras, a mais falada de todas, a de mais opulenta literatura - a língua inglesa - não tem um só acento? E isto teve a sua parte na vitória dos povos de língua inglesa no mundo, do mesmo modo que a excessiva acentuação da língua francesa foi parte de vulto na decadência e queda final da França. O tempo que os franceses gastaram em acentuar palavras foi tempo perdido - que o inglês aproveitou para empolgar o mundo."
Como se observa, a acentuação desta "crônica" não é a de Lobato nem a do novo acordo ortográfico, uma vez que o cronista ainda não se despojou de antigos hábitos. Afinal, toda mudança é traumática, principalmente aquelas que são feitas contra a nossa vontade.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

No lugar errado

Eleito vereador em grande parte pela torcida do São Paulo, clube no qual exerce o cargo de superintendente de Futebol, Marco Aurélio Cunha foi explítico em sua primeira entrevista na nova função, à rádio Bandeirantes. Deixou claro que a sua atuação terá como foco os interesses da classe média, que, segundo disse, "paga os impostos, não usufrui dos serviços públicos e é a mais desamparada".
Ele fez uma exaltada defesa dos políticos, reclamando que são, muitas vezes cobrados injustamente, pois nem sempre podem fazer tudo o que lhes pedem. Também não se conforma quando ouve falar que os vereadores paulistanos ganham muito - para ele, os mais de R$ 9 mil recebidos pelos edis são pouca coisa. "Ninguém questiona o salário do treinador de futebol", comparou.
Segundo explicou, a remuneração dos integrantes do Legislativo municipal deveria ser bem maior, pois eles são, como definiu, "executivos a serviço da cidade".
Num súbito ataque de modéstia, Marco Aurélio Cunha confessou que tem muito a aprender sobre o funcionamento da Câmara Municipal e sobre o trabalho do vereador.
Já refeito, terminou a entrevista dizendo que espera ser chamado mais tarde pelo prefeito Gilberto Kassab para integrar a sua administração. "Afinal, somos do mesmo partido, temos idéias parecidas", lembrou. O partido em questão é o DEM, que nunca deixou de ser o PFL.
Marco Aurélio Cunha é um homem acostumado aos microfones. Na verdade, tem feito uso bastante amplo deles para se mostrar um aspirante à cartola (ele ainda é funcionário e não diretor do clube) atrevido, sem papas na língua, que gosta de lançar bravatas e insolências aos adversários.
Isso pode funcionar no mundo do futebol, onde a fantasia faz parte intrínseca do cotidiano. Na política, porém, as coisas são diferentes. Nela, não se costuma torcer para um só time e o jogo é mais previsível.
Ganha quem geralmente soma - e não divide.