sábado, 6 de dezembro de 2008

Pintura à têmpera


Conheci o Issis quando o vi trabalhando na Casa do Sal, uma construção quase caindo aos pedaços que ficava no centro de Jundiaí - e que não existe mais, é claro.

Chamou a minha atenção o fato de a casa estar aberta e um pintor ocupá-la. A curiosidade natural do jovem repórter me fez entrar e conversar com aquela figura que parecia o caipira picando fumo retratado por Almeida Junior. O bate-papo valeu uma boa história - e uma amizade que durou anos.

O Issis depois mudou seu ateliê para o brechó de móveis usados que o seu irmão tinha em frente do escritório do dr. Jacyro Martinasso - um dos mais fiéis compradores de seus quadros.

Não estranhava que ele pintasse nos fundos da loja, escondido entre guarda-roupas, armários e camas, com suas tintas e pincéis convivendo pacificamente com serras, martelos e outros objetos meramente utilitários. Além de tudo, aquele lugar era escuro.

Mas isso não tinha importância. As paisagens que o Issis pintava estavam na sua cabeça, assim como aquelas mulheres magérrimas que compunham seu universo de fantasia e sonhos - um mundo irreal que se chocava com os pesados anos da década de 70.

A arte do Issis se compunha de uma devoção e uma sinceridade absolutas. Mas o que mais me impressionava naquele autodidata intuitivo era que ele fugia dos maneirismos do primitivista. Seus quadros não tinham as cores exuberantes dos naifs tropicais. Alguns eram até mesmo sombrios.

Era comovente vê-lo preparando a própria tinta, na tradição dos pintores medievais. Pintava, como se dizia, à têmpera. Não se rendia à facilidade do acrílico e não podia, por causa do fígado em mau estado, usar o óleo.

Além disso, seus quadros tinham relevo, uma textura única - e aí estava o seu grande orgulho, o seu grande segredo. Quando eu perguntava como ele conseguia aquele efeito, ele desconversava. "É uma técnica que inventei", dizia.

Mas o fato é que o Issis demorava para terminar um quadro. Ficava dias escondido no fundo do brechó, pacientemente produzindo as suas belezas, sem pressa, num ritmo que alternava silêncios, conversas, pitadas de um cigarro forte sem filtro, e um cafezinho no bar da esquina da praça.

E assim, devagarinho, com extremo cuidado, com o zelo de um profissional que sabia exatamente o que queria, ele foi doando ao mundo a sua obra - simples, mas original, criativa e autêntica.

Bem, o Issis, ao que saiba, não virou nome de rua, nem de praça, nem de avenida ou escola em Jundiaí ou em qualquer outro lugar. É uma pena.

Isso porque num tempo em que bandidos viram heróis e em que valores são espezinhados, ver o nome Issis Martins Roda numa placa seria um motivo a mais para acreditar que o ser humano um dia ainda vai dar certo.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Esquizofrenia

Pesquisa do Datafolha mostra que a popularidade do presidente Lula atingiu o grau máximo e é recorde em toda a história do instituto: para 70% dos entrevistados o governo é ótimo ou bom.

Enquanto isso, praticamente toda a imprensa brasileira insiste em enfatizar só os aspectos negativos da administração, num claro movimento para influenciar a opinião pública.

O problema é que essa campanha sistemática de desmoralização revela-se totalmente ineficaz.

E, ao naufragar, a tática revela a fraqueza de uma imprensa que é tão incompetente para noticiar quanto para refletir sobre este importante momento da vida nacional.

Dessa forma, age como o esquizofrênico que perde o contato com a realidade e vive num mundo só seu, habitado por fantasmas de todo o tipo.

Seria digna de pena, se essa condição tivesse sido obra do acaso - e não uma escolha, indigna e covarde.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Hora de endurecer

Várias empresas claramente aproveitam o momento para reduzir o quadro de funcionários. Algumas fazem isso porque estão estocadas, outras porque tiveram prejuízos com as operações de derivativos, e há ainda as que demitem porque querem, simplesmente, aumentar os lucros - e a tal crise financeira global é uma ótima desculpa para agirem assim.

Além das demissões imediatas, existem as ameaças - ou chantagens, se preferirem. Setores como os da construção, ou o de máquinas e equipamentos pesados falam abertamente que haverá uma "carnificina" no início do próximo "a menos que...."

É aí que está o que antigamente chamavam de busílis da questão. Nossos empresários nunca se destacaram por terem um mínimo de patriotismo, ou de consciência social, ou de qualquer preocupação com outra coisa que não fosse apenas e tão somente o lucro. Estão, por assim dizer, no estágio do pré-capitalismo.

O Estado brasileiro sempre foi para eles a tábua de salvação quando a água batia no pescoço. Quando estão mal, pedem socorro; quando estão bem, sonegam impostos e dizem que o governo deve diminuir a carga tributária e não interferir com seus negócios.

São movidos pela ganância - e, como se viu, acabam feridos de morte por ela.

Para a sua infelicidade, o país não pode viver sem esses sujeitos. Mas deveria impor a eles regras rígidas para que funcionassem com um mínimo de respeito aos empregados e aos consumidores.

Esta é uma boa hora para abrir uma negociação séria com eles. Se querem ajuda do Estado, devem, em contrapartida, se comprometer a não demitir, nem elevar preços, por exemplo.

A tal crise, afinal, não foi fabricada pelo Estado e sim justamente por esses arautos da livre iniciativa e do livre mercado. Foram eles que, com sua imprudência, com sua ambição desmesurada, jogaram o mundo nesta desgraça.

Têm, portanto, de ajudar a tirar a vaca do brejo.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Uma ótima notícia

De quando em quando, nestes tempos de notícias sombrias, surge algo que ilumina o horizonte, que dá cores à paisagem, que transforma a algaravia cotidiana num cantar de rouxinóis.

"Eu estou fora do jogo há muito tempo. Devo dizer que o governador Aécio e até o governador Serra, também, me pediram em outras ocasiões que eu fosse candidato e eu não quis, porque eu acho que cada um tem que entender o seu momento na história."

Parece incrível, mas quem diz que "cada um tem de entender o seu momento na história" é FHC, um dos homens que mais tem trabalhado para apear o barbudo do poder.

Como FHC parece não ter mudado tanto ao ponto de se poder confiar plenamente em sua palavra - afinal, não foi ele quem pediu para que esquecessem o que escreveu? -, é bom não estourar rojões cedo demais.

Seu anúncio de aposentadoria pode, na verdade, ser apenas um aviso de que, de agora em diante, ele passará a atuar da maneira como mais gosta, nos bastidores, tavestido de cardeal Richelieu, a espalhar intrigas entre os inimigos e os amigos.

Para se ter uma idéia de quem é o FHC político, basta ler o que ele disse, na mesma ocasião em que anunciou estar "fora do jogo", ao se referir aos dois presidenciáveis tucanos:

"Eu sempre que aliso um, aliso o outro, porque acho que os dois (Serra e Aécio) são excelentes e não está na hora ainda de definições. Eu repito e digo sempre: o PSDB tem a vantagem de ter excelentes candidatos. Quem pode negar que o Aécio está fazendo um governo excepcional, com competência, com boa gestão, com harmonia, então, é um excelente candidato. Enfim, eu acho que nós temos boas possibilidades."

Isso é o que ele diz em público, para os microfones e câmeras. Nessas ocasiões, é capaz até de elogiar os inimigos:

"O meu relacionamento com o Lula é ameno. Se você comparar com o que ele dizia a mim a meu respeito, quando eu era governo, você vai ver que eu só faço gentilezas com ele. Além do mais, a minha amizade com ele é anterior a do Aécio. Aqui, uma coisa é pessoal, outra coisa é a política. O relacionamento tem que ser, no plano pessoal, correto, ameno. No plano político, depende das circunstâncias. Agora, não pode haver uma só coisa: é vingança."

No fundo, a gente sabe que a única coisa que FHC gosta de alisar é seu imenso ego. Quanto à vingança, ele já a executou nos oito anos em que foi presidente, punindo, a cada dia de governo, a imensa maioria do povo que o elegeu.