
Conheci o Issis quando o vi trabalhando na Casa do Sal, uma construção quase caindo aos pedaços que ficava no centro de Jundiaí - e que não existe mais, é claro.
Chamou a minha atenção o fato de a casa estar aberta e um pintor ocupá-la. A curiosidade natural do jovem repórter me fez entrar e conversar com aquela figura que parecia o caipira picando fumo retratado por Almeida Junior. O bate-papo valeu uma boa história - e uma amizade que durou anos.
O Issis depois mudou seu ateliê para o brechó de móveis usados que o seu irmão tinha em frente do escritório do dr. Jacyro Martinasso - um dos mais fiéis compradores de seus quadros.
Não estranhava que ele pintasse nos fundos da loja, escondido entre guarda-roupas, armários e camas, com suas tintas e pincéis convivendo pacificamente com serras, martelos e outros objetos meramente utilitários. Além de tudo, aquele lugar era escuro.
Mas isso não tinha importância. As paisagens que o Issis pintava estavam na sua cabeça, assim como aquelas mulheres magérrimas que compunham seu universo de fantasia e sonhos - um mundo irreal que se chocava com os pesados anos da década de 70.
A arte do Issis se compunha de uma devoção e uma sinceridade absolutas. Mas o que mais me impressionava naquele autodidata intuitivo era que ele fugia dos maneirismos do primitivista. Seus quadros não tinham as cores exuberantes dos naifs tropicais. Alguns eram até mesmo sombrios.
Era comovente vê-lo preparando a própria tinta, na tradição dos pintores medievais. Pintava, como se dizia, à têmpera. Não se rendia à facilidade do acrílico e não podia, por causa do fígado em mau estado, usar o óleo.
Além disso, seus quadros tinham relevo, uma textura única - e aí estava o seu grande orgulho, o seu grande segredo. Quando eu perguntava como ele conseguia aquele efeito, ele desconversava. "É uma técnica que inventei", dizia.
Mas o fato é que o Issis demorava para terminar um quadro. Ficava dias escondido no fundo do brechó, pacientemente produzindo as suas belezas, sem pressa, num ritmo que alternava silêncios, conversas, pitadas de um cigarro forte sem filtro, e um cafezinho no bar da esquina da praça.
E assim, devagarinho, com extremo cuidado, com o zelo de um profissional que sabia exatamente o que queria, ele foi doando ao mundo a sua obra - simples, mas original, criativa e autêntica.
Bem, o Issis, ao que saiba, não virou nome de rua, nem de praça, nem de avenida ou escola em Jundiaí ou em qualquer outro lugar. É uma pena.
Isso porque num tempo em que bandidos viram heróis e em que valores são espezinhados, ver o nome Issis Martins Roda numa placa seria um motivo a mais para acreditar que o ser humano um dia ainda vai dar certo.