quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Ano de trégua

Prefeitos tomam posse em todo o país, com temor de que não possam cumprir as promessas de campanha.

Afinal, vão receber em cheio o impacto da crise econômica global - para os doutos especialistas, o primeiro trimestre de 2009 será de doer.

Alguns pensam em aplicar a fórmula mágica dos neoliberais assentados no PSDB e DEM - cortar gastos, enxugar a máquina, reduzir investimentos.

E aguardar por um milagre.

Mas, no fundo, não há nenhum que não espere a ajuda da União, sempre generosa nesses momentos.

Por isso, agora, não convém a eles irritar o homem.

A operação "Malha Lula" fica adiada, estrategicamente, para 2010.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

O silêncio

O silêncio absoluto do presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, sobre o massacre na Faixa de Gaza dá uma idéia de como ele se comportará no futuro - sobre esse e outros temas.

Infelizmente para a humanidade, está no gene americano enxergar o mundo em branco e preto, dividido entre amigos e inimigos, entre nós e eles.

Obama pode ser diferente de George W. Bush em muitos aspectos. Mas será um presidente igual em vários outros.

Seu silêncio diz tudo.

sábado, 27 de dezembro de 2008

O horror

A explosão de violência na Faixa de Gaza, com a morte de mais de 200 pessoas, vítimas de um devastador ataque aéreo de 60 aeronaves F-16 que lançaram uma centena de mísseis em um local habitado pela miséria, mostra que nenhuma crise econômica é capaz de se sobrepor aos grandes problemas do mundo - e a questão palestina é um deles.

A pergunta que deve ser feita às lideranças globais é até quando esse horror será tolerado.

Não é possível que a raça humana seja isso que se vê nos noticiários.

Não é possível que essa doutrina assassina do "ataque preventivo" seja encarada como uma forma civilizada de ação.

Não é possível que todos sejam cúmplices do martírio de um povo infeliz, seja pela omissão ou pela tibieza dos gestos.

O que fazem, neste momento, os líderes dos poderosos países que se uniram para salvar o planeta da debacle econômica, para dar um basta à essa insanidade?

Eles não vêem que hoje, o maior inimigo do homem é cada vez mais o próprio homem - com a sua estupidez, a sua ignorância, a sua arrogância, o seu ódio pelo semelhante?

Que importa todo o monumental progresso material adquirido com tantos sacrifícios através dos séculos, se o ser humano não consegue se livrar da necessidade de impor sofrimento, dor e morte a todas as criaturas?

Não restará nesta Terra um mínimo de compaixão pelos mais fracos, de tolerância pelos diferentes, de justiça pelos acusados?

É este o mundo que queremos?

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

É tudo culpa do governo

O ex-senador Jorge Bornhausen, aquele mesmo que disse certa vez que queria ver "essa raça" - referindo-se aos militantes do PT - fora do poder por uns 30 anos, pode estar aposentado, mas, como bom brasileiro, ainda se mostra muito ativo em defesa de seu ideário político.

E qual é ele? Ontem, hoje e sempre, fustigar este governo e quem o preside.

Recentemente, teceu considerações sobre o Brasil e a crise econômica global. Não poderia ter sido mais esclarecedor:

"Primeiro, o presidente falou ironicamente em marolinha e depois disse que tinha de falar com o Bush. Mas quando o Lehman Brothers quebrou, afetou todo o sistema financeiro e houve escassez de crédito, a crise chegou ao Brasil e chegou rápido. O BC fez o dever de casa, mas como o governo não fez, teve de manter taxa de juro para compensar a falta de ação. A equipe do Lula e ele não têm competência para gerir crise, que não podia ter sido desconsiderada em momento algum, porque os Estados Unidos são a locomotiva do mundo. Nosso grau de crescimento vai baixar. Se este ano ficou em torno de 6%, no ano que vem vai ficar inferior a 3% - o que é muito pouco para um país como o nosso. Evidente, que teremos um descompasso no crescimento da economia, e isso atinge a parte política."

Não é uma maravilha de pensamento? Concatenado, lógico, despido de qualquer traço de ideologia.

Se não, vejamos: o BC fez a lição de casa, mas manteve os juros altos, enquanto o mundo cortava as taxas para ver se o consumo e os investimentos reagiam; o Brasil vai crescer só 3% no ano que vem, enquanto os países ricos estarão em recessão; o governo não fez a sua parte - e qual seria ela, na visão do estadista Bornhausen? "O governo manteve os concursos públicos e não cortou as emendas das bancadas."

Então, tá. Para o ilustre integrante do PFL, tudo estaria certo se o governo desistisse de fazer os concursos e cortasse as emendas parlamentares. Mas como não tomou essas providências, o futuro é negro, na visão desse grande homem que só almeja o bem do Brasil:

"Nós vamos ter acentuado nível de desemprego por março e abril por falta de visão do governo."

O governo, o governo, sempre o governo!

domingo, 21 de dezembro de 2008

O feliz Natal do Eduzinho

A imagem mais forte que tenho do Natal é a do Eduzinho, contínuo do Estadão há um século, que, numa das muitas conversas que tivemos alguns anos atrás, me falava do maior desejo de seu filho, um gigante com alma de criança:
- A sua maior alegria é ir ao shopping ver o Papai Noel.
O Eduzinho ficou me devendo a foto daquele doce homenzarrão com o Papai Noel. Tudo bem, eu acredito na sua palavra. Afinal, não é preciso estudar as escrituras para saber que os puros de coração são o único motivo para este mundo ser, pelo menos, tolerável.
O fato é que nunca vi o Eduzinho, com todos os seus problemas de saúde e com a constante falta de dinheiro, reclamar da vida.
E parecia que ele gostava realmente do que fazia e das pessoas que conhecia naquela redação.
Talvez por enxergar nele essa sinceridade que falta em tanta gente é que ninguém reclamava quando ele pedia dez reais para comprar "uma mistura" para o almoço.
- Devolvo assim que sair o pagamento - dizia, com ar sério.
Eu fazia cara de quem acreditava na promessa raramente cumprida porque sabia que era isso o que o Eduzinho esperava de todos nós: ser tratado com respeito, sem pena.
Nesta época, quando tantas hiprocrisias se purgam com votos de felicidades da boca para fora e presentes comprados no último instante, fico imaginando como será o Natal na casa do Eduzinho, lá num bairro esquecido da periferia da Zona Leste paulistana.
Sei que a sua casa é muito modesta, sei que ele precisava dar umas facadas no pessoal da redação para completar o orçamento, sei que ele levantava bem cedo e saía tarde do trabalho.
Mas sei principalmente que ele levava todos os anos aquele seu filho já adulto e com deficiência mental para se maravilhar com a roupa vermelha e as longas barbas brancas do Papai Noel do shopping-center.
Só isso já me dá a certeza de que o Natal na casa do Eduzinho é especial, talvez sem enfeites, talvez sem champanhe, mas pleno daquilo que é essencial ao homem: o amor aos desprotegidos, aos pequenos e aos necessitados.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Chantagem no ar

O presidente Lula, apesar de sua afabilidade com os empresários, parece que ainda não está convicto de que eles estejam remando a favor do Brasil.

Sua declaração a respeito das oportunistas propostas de " flexibilização trabalhista" mostra claramente que o sangue do sindicalista ainda não foi inteiramente diluído: "Acho que os empresários deveriam pagar uma parte do seguro-desemprego com os lucros que eles acumularam. O governo não vai deixar de assumir a responsabilidade de cuidar dos trabalhadores, mas nenhum empresário ainda tem motivo para mandar um trabalhador embora", disse.

Para completar seu raciocínio, Lula deveria ter perguntado onde foram parar os R$ 40 bilhões que os empresários deixaram de gastar este ano com a CPMF, já que os preços dos produtos não caíram.

A verdade é que essa turma nunca lucrou tanto no Brasil quanto nesses últimos anos do governo do PT, partido que eles abominam pela sua ideologia. Ocorre que, como se encontram ainda às portas do capitalismo civilizado - se é que isso existe -, eles são movidos não só pelo lucro, mas pela ganância.

Qualquer idiota é capaz de perceber que a retração do mercado não está se dando em todos os setores e que, como em toda crise, alguns são mais prejudicados que outros - e há mesmo os que conseguem se sair bem.

O que foi acumulado nos anos de fartura do governo Lula seria o suficiente para que as empresas atravessassem sem maiores contratempos a turbulência de agora. Bastaria que os nossos badalados executivos tivessem a "consciência social" apregoada em discursos que fazem quando recebem os prêmios instituídos por entidades e publicações suspeitas.

Ao contrário, na prática preferem cobrar a ajuda do Estado que tanto odeiam, utilizando como forma de pressão a chantagem pura e simples - não há outra palavra para definir o que são hoje as demissões e as ameaças feitas nesse sentido.

O capitalista nativo, que gosta tanto de se sentir parte do Primeiro Mundo, deveria, nesta hora, seguir o conselho do presidente Lula, para o seu próprio bem: "O papel do empresário agora não é encontrar um jeito de ficar mantendo o mesmo lucro. O papel do empresário agora é trabalhar de forma muito rápida, junto com o governo, para evitar que a crise chegue à sociedade brasileira", disse ele.

Um mínimo de responsabilidade pode fazer muita diferença.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Conversa fiada

O que várias lideranças empresariais estão fazendo, ao propor mudanças na legislação trabalhista como pretexto para enfrentar as conseqüências da crise econômica mundial, nada mais é do que oportunismo barato. Se realmente tivessem interesse em manter empregos, como dizem, simplesmente usariam as leis em vigor, que permitem todo tipo de "flexibilidade" possível.

O longo governo FHC foi pródigo em modificar a legislação trabalhista. Nele foi criado o banco de horas, foi dada a permissão de trabalho aos domingos, foi permitido o contrato temporário, entre outras liberalidades. Tudo para que, em momentos de dificuldade, os empresários pudessem ter um alívio.

Várias empresas que realmente têm preocupação em manter o emprego de seus funcionários já estão negociando a aplicação dessas medidas. Outras, porém, fazem questão de ignorar a sua existência, para aproveitar o momento e exigir do governo mais facilidades.

Os sindicatos dos trabalhadores devem, nesta hora, exigir que as negociações sejam feitas em cima do que já existe - e que não é pouco.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

What-a-mess!

O vice-presidente americano, Dick Cheney, defendeu, em entrevista à rede de televisão ABC, o uso da tortura contra os inimigos de seu país.

Ou seja, diz que o Estado tem o direito de agir à revelia da lei.

Exatamente o que fazem os terroristas - que não pertencem a nenhum Estado legalmente constituído.

Que bagunça que o senhor fez, hein mr. Cheney?

Respeito é bom

Certos setores da sociedade brasileira que entendem que o país deve funcionar como uma espécie de subsidiária da grande corporação norte-americana devem ter se torcido de raiva ao ler a declaração do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, sobre como ele espera que funcionem, a partir de agora, as relações entre os pobres latinos e os ricos anglo-saxões.

Segundo ficou decidido na cúpula dos países da América Latina e Caribe que se realiza em Salvador, os Estados Unidos devem deixar de ter a palavra final nas decisões da região. As deliberações sobre os temas que mais interessam aos latinos serão de responsabilidade deles próprios, numa inversão da doutrina que aqui se aplicava há mais de um século.

A expectativa é que o novo presidente americano, Barack Obama, compreenda essas mudanças e trate seus vizinhos com o respeito que seus antecessores não tiveram.

Se agirem assim, os Estados Unidos talvez voltem a ser a potência que sempre foram.

domingo, 14 de dezembro de 2008

A morte do João Lemos

Como se sabe, a crise financeira que ameaça o mundo todo foi criada no hemisfério norte. E, embora tenham sido feitas várias tentativas de tropicalização, Papai Noel ainda usa pesadas roupas contra o frio, típicas da parte de cima do planeta, onde se concentra quase toda a riqueza material acumulada pelo homem.

É fato também notório que o Brasil deve ser um dos países nos quais os efeitos da crise deverão ser menos danosos. Talvez não chegue em nossas praias nem a marolinha dos otimistas, nem o tsunami dos catastrofistas, mas alguma onda forte, que, igual a todas, acabará se desfazendo em espumas.

Mesmo assim, apesar de o Brasil ter sido um menino bem comportado este ano (e nos anteriores, é bom lembrar), Papai Noel, o barbudo que tomou a si o papel de ser tanto júri quanto juiz, resolveu presentear o país com algo de valor no mínimo duvidoso: se por um lado essa sua oferta tem um nome que evoca lembranças cristãs, por outro suas aparições despertam outros sentimentos, digamos, mais primitivos.

Pois não é que o Natal de 2008, rondado pelo tal "fantasma da recessão", ficará marcado como o da Madonna - não a suave figura dos quadros renascentistas, mas a agitada deusa pop idolatrada por grandes platéias em todo o mundo? Seja nos jornais, seja no rádio, seja na televisão, só dá Madonna, um dos ícones máximos, na área artística, do garrote globalizador que asfixiou o planeta nas décadas de 80 e 90.

O tipo de "arte" feito por ela se espalhou pelo mundo como uma febre maligna e ainda sobrevive com muita força nos países periféricos, especialmente entre uma classe média que adora macaquear valores culturais importados principalmente dos Estados Unidos, esse império que, pelos seus desatinos, levou todos à beira do precipício.

A tal da madonnamania (Madonna mia!) me fez perguntar a mim mesmo se sou só eu que me incomodo com essas coisas. Mas bastaram apenas alguns minutos e a internet, a maravilha das maravilhas contemporâneas, se encarregou de aliviar meus pesadelos.

É que fiquei sabendo, por meio de alguns cliques no fantástico Google, que um dos maiores defensores da cultura brasileira, Ariano Suassuna, autor dos essenciais Romance d'A Pedra do Reino e O Auto da Compadecida, fez a seguinte pergunta numa de suas famosas aulas-espetáculos: "Por que um país rico em cultura tem de idolatrar esses débeis mentais?", referindo-se aos artistas pops americanos e a quase todo o conteúdo cultural daquele país.

Mestre Ariano, na mesma ocasião, explicou que “se, antes, os Estados Unidos mandavam porta-aviões para dominar um país, hoje basta mandar Michael Jackson ou Madonna”. Citou como exemplo de fusão bizarra a música do pernambucano Chico Science, inventor do “mangue-beat”, mistura de maracatu com rock.


Contou que o músico, o procurou, interessado em fazer parte do Movimento Armorial, criado por Ariano na década de 70:

- Primeiro então perguntei porque ele não se chamava Chico Ciência. Ele me explicou que sua música tinha o intuito de valorizar o maracatu rural, mas que ele misturava com rock senão seria liquidado. Mas como uma coisa ruim pode valorizar uma coisa boa? Eu estava de acordo com a parte Chico dele, mas não com a Science.

Ariano, nessa mesma aula-espetáculo, resumiu assim sua relação com a cultura americana:

-Tem gente que vem perguntar a mim: 'Você é contra a cultura americana?' Deus me livre. Não tenho nada contra a cultura americana, não tenho nada contra a cultura americana verdadeira. Não tenho nada contra Melville, grande escritor, autor de Moby Dick, autor de uma obra-prima da literatura universal. Agora, contra Michael Jackson e Madonna eu tenho, porque querem nivelar por ali. Deus me livre. Os próprios americanos que têm juízo são contra também. Não podem ser a favor de uma porcaria daquela.

Há gente que acha um absurdo o radicalismo com que Ariano Suassuna defende a cultura popular brasileira, desprezando e ironizando tudo o que vem de fora - principalmente em língua inglesa.

Ficou famoso o "causo"que contou a respeito de John Lennon:

- Quando ele morreu, meu filho me avisou, e eu perguntei: quem é John Lennon? Eu não sabia! E meu primo, que é pior do que eu, achou que era um amigo nosso, o João Lemos, que tinha morrido.

Nestes tempos em que Madonna é o grande presente de Papai Noel ao povo brasileiro que luta e sofre no dia-a-dia para consolidar a sua jovem democracia, acho que é bom a gente refletir sobre o que seria de nós se não tivessemos pelo menos um Ariano Suassuna para nos defender.

Porque em certas situações só um bom bofetão é capaz de devolver as pessoas à razão.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Novas experiências

"Ela sempre se viu como uma empresa: contava os clientes que atendia, anotava as características de cada um – num verdadeiro database, como eles haviam chegado até ela, fazia promoções para aumentar e fidelizar a clientela, procurava nichos de mercado, criava serviços diferenciados, enfim, sempre fez o que qualquer guru do marketing recomendaria a um empresário que fosse assistir a uma palestra.
Mas ela é uma ex-garota de programa. Famosa por seu livro O Diário de Marise, com mais de 20 mil cópias vendidas, Vanessa de Oliveira agora apresenta um livro escrito juntamente com um profissional de marketing. “Seduzir Clientes – O que todo profissional pode aprender com uma garota de programa e um homem de marketing” no qual mostra as analogias entre sua ex-profissão e o mercado corporativo."

O trecho acima faz parte do release que promove o tal livro da "ex-garota de programa". A moça parece ser bem esperta. Não pegou apenas a onda da precursora Bruna Surfistinha. Foi além: como mostra seu site, lançou uma linha de lingerie e dá os primeiros passos como palestrante. A primeira foi para um grupo da terceira idade do Sesc de Blumenau. Mas ela topa falar para qualquer público, de adolescentes a empresários.

O co-autor de seu último livro, publicitário Reinaldo Bim Toigo, diz que "o que fizemos juntos foi mostrar como as experiências dela podem ser usadas no dia-a-dia de uma empresa". Ele explica que "são exemplos que motivam, que cabem muito bem para a tomada de decisões de qualquer executivo, gerente, enfim, qualquer pessoa que almeje posições melhores no trabalho, fazer mais e melhores negócios". Porque, conclui, "o que não falta é concorrência para os produtos e serviços e portanto, precisamos saber como seduzir o cliente que está flertando com diversas marcas por aí”.

Nestes tempos bicudos, em que a laboriosa classe empresarial brasileira parece ter se rendido ao desespero, vendo apenas a mão sempre generosa do Estado como a única e definitiva esperança, as lições de Vanessa sobre como seduzir clientes são bem-vindas.

Afinal, o homem de negócios que pretende ser um vencedor neste mundo ultracompetitivo não deve ter preconceitos de experimentar o novo.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

O jabá da Fiesp

Não há jornalista que não tenha recebido, alguma vez, um jabá. É que, tradicionalmente, as empresas, no fim de ano, mandam brindes para as redações.

Alguns são singelos, outros exagerados. No Estadão, certo ano, uma repórter que cobria a área de consumo assustou-se quando um contínuo a avisou que tinham deixado para ela, na portaria, uma máquina de lavar roupa. De maneira polida, ela informou a empresa que aquilo não era um jabá, mas quase um suborno.

Em tempos de crise, as empresas se mostram mais comedidas. Nessa perspectiva, o brinde que a Fiesp, a mais poderosa entidade empresarial do Brasil, deu para os jornalistas que foram ao seu almoço de fim de ano seria normal: eles voltaram às redações com três míseros lápis (com borracha numa das pontas), algo totalmente inútil nestes dias de computador.

Quando a repórter que teve de ouvir as lamentações dos empresários sobre o momento econômico atual e suas previsões catastrofistas para o próximo ano me mostrou o jabá, contive a risada e pouco refleti sobre a questão. Achei apenas que eles poderiam expressar sua insatisfação de um modo menos explícito.

Foi só à noite, ao chegar em casa, que dei a real importância ao jabá da Fiesp. É que vi, na mesinha em que coloco as chaves, dois objetos: uma caixinha de madeira toda decorada e uma embalagem de papelão com uma folhinha dourada de 2009, ofertas do Empório da Léia, excelente estabelecimento comercial que fica a uns 200 metros de onde moro e no qual compro queijos ótimos pela metade do preço que os supermercados cobram.

Antes de dormir, pensei que alguma coisa está bem errada neste país em que ricos capitalistas desejam feliz ano novo dando três lápis de presente aos profissionais que moldam a sua imagem diariamente, e em que a Léia, do modesto empório do bairro, compra bonitas caixinhas de madeira decoradas para presentear seus fregueses.

Talvez fosse uma boa idéia a Léia explicar a esses probos, dignos, responsáveis, eficientes e patriotas capitães de indústrias, como funcionam as coisas no Brasil real - um lugar onde as pessoas não perdem nunca a esperança.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Pintura à têmpera


Conheci o Issis quando o vi trabalhando na Casa do Sal, uma construção quase caindo aos pedaços que ficava no centro de Jundiaí - e que não existe mais, é claro.

Chamou a minha atenção o fato de a casa estar aberta e um pintor ocupá-la. A curiosidade natural do jovem repórter me fez entrar e conversar com aquela figura que parecia o caipira picando fumo retratado por Almeida Junior. O bate-papo valeu uma boa história - e uma amizade que durou anos.

O Issis depois mudou seu ateliê para o brechó de móveis usados que o seu irmão tinha em frente do escritório do dr. Jacyro Martinasso - um dos mais fiéis compradores de seus quadros.

Não estranhava que ele pintasse nos fundos da loja, escondido entre guarda-roupas, armários e camas, com suas tintas e pincéis convivendo pacificamente com serras, martelos e outros objetos meramente utilitários. Além de tudo, aquele lugar era escuro.

Mas isso não tinha importância. As paisagens que o Issis pintava estavam na sua cabeça, assim como aquelas mulheres magérrimas que compunham seu universo de fantasia e sonhos - um mundo irreal que se chocava com os pesados anos da década de 70.

A arte do Issis se compunha de uma devoção e uma sinceridade absolutas. Mas o que mais me impressionava naquele autodidata intuitivo era que ele fugia dos maneirismos do primitivista. Seus quadros não tinham as cores exuberantes dos naifs tropicais. Alguns eram até mesmo sombrios.

Era comovente vê-lo preparando a própria tinta, na tradição dos pintores medievais. Pintava, como se dizia, à têmpera. Não se rendia à facilidade do acrílico e não podia, por causa do fígado em mau estado, usar o óleo.

Além disso, seus quadros tinham relevo, uma textura única - e aí estava o seu grande orgulho, o seu grande segredo. Quando eu perguntava como ele conseguia aquele efeito, ele desconversava. "É uma técnica que inventei", dizia.

Mas o fato é que o Issis demorava para terminar um quadro. Ficava dias escondido no fundo do brechó, pacientemente produzindo as suas belezas, sem pressa, num ritmo que alternava silêncios, conversas, pitadas de um cigarro forte sem filtro, e um cafezinho no bar da esquina da praça.

E assim, devagarinho, com extremo cuidado, com o zelo de um profissional que sabia exatamente o que queria, ele foi doando ao mundo a sua obra - simples, mas original, criativa e autêntica.

Bem, o Issis, ao que saiba, não virou nome de rua, nem de praça, nem de avenida ou escola em Jundiaí ou em qualquer outro lugar. É uma pena.

Isso porque num tempo em que bandidos viram heróis e em que valores são espezinhados, ver o nome Issis Martins Roda numa placa seria um motivo a mais para acreditar que o ser humano um dia ainda vai dar certo.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Esquizofrenia

Pesquisa do Datafolha mostra que a popularidade do presidente Lula atingiu o grau máximo e é recorde em toda a história do instituto: para 70% dos entrevistados o governo é ótimo ou bom.

Enquanto isso, praticamente toda a imprensa brasileira insiste em enfatizar só os aspectos negativos da administração, num claro movimento para influenciar a opinião pública.

O problema é que essa campanha sistemática de desmoralização revela-se totalmente ineficaz.

E, ao naufragar, a tática revela a fraqueza de uma imprensa que é tão incompetente para noticiar quanto para refletir sobre este importante momento da vida nacional.

Dessa forma, age como o esquizofrênico que perde o contato com a realidade e vive num mundo só seu, habitado por fantasmas de todo o tipo.

Seria digna de pena, se essa condição tivesse sido obra do acaso - e não uma escolha, indigna e covarde.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Hora de endurecer

Várias empresas claramente aproveitam o momento para reduzir o quadro de funcionários. Algumas fazem isso porque estão estocadas, outras porque tiveram prejuízos com as operações de derivativos, e há ainda as que demitem porque querem, simplesmente, aumentar os lucros - e a tal crise financeira global é uma ótima desculpa para agirem assim.

Além das demissões imediatas, existem as ameaças - ou chantagens, se preferirem. Setores como os da construção, ou o de máquinas e equipamentos pesados falam abertamente que haverá uma "carnificina" no início do próximo "a menos que...."

É aí que está o que antigamente chamavam de busílis da questão. Nossos empresários nunca se destacaram por terem um mínimo de patriotismo, ou de consciência social, ou de qualquer preocupação com outra coisa que não fosse apenas e tão somente o lucro. Estão, por assim dizer, no estágio do pré-capitalismo.

O Estado brasileiro sempre foi para eles a tábua de salvação quando a água batia no pescoço. Quando estão mal, pedem socorro; quando estão bem, sonegam impostos e dizem que o governo deve diminuir a carga tributária e não interferir com seus negócios.

São movidos pela ganância - e, como se viu, acabam feridos de morte por ela.

Para a sua infelicidade, o país não pode viver sem esses sujeitos. Mas deveria impor a eles regras rígidas para que funcionassem com um mínimo de respeito aos empregados e aos consumidores.

Esta é uma boa hora para abrir uma negociação séria com eles. Se querem ajuda do Estado, devem, em contrapartida, se comprometer a não demitir, nem elevar preços, por exemplo.

A tal crise, afinal, não foi fabricada pelo Estado e sim justamente por esses arautos da livre iniciativa e do livre mercado. Foram eles que, com sua imprudência, com sua ambição desmesurada, jogaram o mundo nesta desgraça.

Têm, portanto, de ajudar a tirar a vaca do brejo.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Uma ótima notícia

De quando em quando, nestes tempos de notícias sombrias, surge algo que ilumina o horizonte, que dá cores à paisagem, que transforma a algaravia cotidiana num cantar de rouxinóis.

"Eu estou fora do jogo há muito tempo. Devo dizer que o governador Aécio e até o governador Serra, também, me pediram em outras ocasiões que eu fosse candidato e eu não quis, porque eu acho que cada um tem que entender o seu momento na história."

Parece incrível, mas quem diz que "cada um tem de entender o seu momento na história" é FHC, um dos homens que mais tem trabalhado para apear o barbudo do poder.

Como FHC parece não ter mudado tanto ao ponto de se poder confiar plenamente em sua palavra - afinal, não foi ele quem pediu para que esquecessem o que escreveu? -, é bom não estourar rojões cedo demais.

Seu anúncio de aposentadoria pode, na verdade, ser apenas um aviso de que, de agora em diante, ele passará a atuar da maneira como mais gosta, nos bastidores, tavestido de cardeal Richelieu, a espalhar intrigas entre os inimigos e os amigos.

Para se ter uma idéia de quem é o FHC político, basta ler o que ele disse, na mesma ocasião em que anunciou estar "fora do jogo", ao se referir aos dois presidenciáveis tucanos:

"Eu sempre que aliso um, aliso o outro, porque acho que os dois (Serra e Aécio) são excelentes e não está na hora ainda de definições. Eu repito e digo sempre: o PSDB tem a vantagem de ter excelentes candidatos. Quem pode negar que o Aécio está fazendo um governo excepcional, com competência, com boa gestão, com harmonia, então, é um excelente candidato. Enfim, eu acho que nós temos boas possibilidades."

Isso é o que ele diz em público, para os microfones e câmeras. Nessas ocasiões, é capaz até de elogiar os inimigos:

"O meu relacionamento com o Lula é ameno. Se você comparar com o que ele dizia a mim a meu respeito, quando eu era governo, você vai ver que eu só faço gentilezas com ele. Além do mais, a minha amizade com ele é anterior a do Aécio. Aqui, uma coisa é pessoal, outra coisa é a política. O relacionamento tem que ser, no plano pessoal, correto, ameno. No plano político, depende das circunstâncias. Agora, não pode haver uma só coisa: é vingança."

No fundo, a gente sabe que a única coisa que FHC gosta de alisar é seu imenso ego. Quanto à vingança, ele já a executou nos oito anos em que foi presidente, punindo, a cada dia de governo, a imensa maioria do povo que o elegeu.