Muita gente pergunta como é que o governador José Serra conseguiu a enorme influência que tem sobre os barões da comunicação de São Paulo.
Como nós, os simples mortais, nunca iremos saber inteiramente o que se passa nas altas esferas de nosso mundo, resta apenas dar asas à imaginação.
De qualquer forma, Serra deve possuir, para quem o conhece mais intimamente, qualidades ignoradas pela massa. Pode ser, até mesmo, que seja um bom sujeito. Ou então que tais empresários vejam as coisas com outros olhos. Afinal, são herdeiros de homens que construíram impérios empresariais nada desprezíveis.
A divagação me lembra um episódio ocorrido, se não me engano, em 1987, no Estadão de tantas histórias, que mostra como esse pessoal tem mesmo o raro dom de ver mais que o normal.
O filho do patrão, naquele tempo, freqüentava a redação, talvez para matar o tédio, talvez para pegar gosto pela profissão. Um belo dia, se aproximou de alguns empregados e puxou prosa. Contou que tinha ido, em viagem de negócios, ao Chile, e que ficara encantado com o país.
- Comi num restaurante com garfo e faca de prata - disse. Serviço sem igual.
As ruas eram limpíssimas, bem diferentes da imundície de São Paulo, relatou. As pessoas, ordeiras e educadas. Outro mundo.
Mas o que realmente o impressionara na viagem havia acontecido durante a cerimônia principal do evento de que participara. Um senhor evento, que contara com a presença, vejam só, do general Pinochet, na época ainda o manda-chuva do Chile.
- Nunca vi coisa igual. Que homem! Ficou sentado na mesa principal, mais de meia hora ouvindo um discurso, sem mover um músculo. E o seu olhar, então! Impressionante! Duro, fixo num ponto da sala, sem se desviar um instante!
E arrematou, pouco antes de um telefonema o chamar para a sua sala, longe do barulho da redação:
- Vocês sabiam que ele tem olhos azuis?
É isso. Quem possui a capacidade de notar que o ditador tem olhos azuis é mesmo especial.
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
O Coelho e o fim das coisas
A revista Reader's Digest traz até hoje uma seção chamada Meu Tipo Inesquecível. O título é auto-explicativo: as pessoas lembram de outras que as marcaram pelo resto da vida.
Não sei se todos tiveram o privilégio de encontrar um tipo inesquecível. Afortunado, posso dizer que lá pelos anos 70, na então pacata Jundiaí, topei com uma dessas pessoas que não se esquecem facilmente, pela simples razão de que são, de alguma maneira, diferentes das outras.
Quem conheceu o sociólogo Antonio Geraldo de Campos Coelho certamente sabe que ele era uma desses tipos. Maluco, diziam alguns; apenas excêntrico, diziam outros. Certo é que ninguém que conversasse com ele, por poucos minutos que fosse, sairia indiferente da prosa.
O Coelho tinha uma erudição total para temas que o fascinavam, como a sociologia política, e era absolutamente analfabeto para outros, mais triviais, como o futebol - ou o ludopédio, como se referia ao esporte preferido dos brasileiros.
Era cheio de manias. Não admitia, por exemplo, que o chamassem de professor - embora, em certa época da vida tivesse dado aulas. Para ele, o "epíteto" soava degradante, pois o igualava ao instrutor de capoeira, que, para o senso comum, também era professor.
Também apelidava amigos e inimigos. Entre nós havia o Chocolate, o Estilingue, o Peixe-Galo, o Menino Lobo, o Homem de Palha. Não sei porque, fiquei fora da lista.
Mas o que distinguia mesmo o Coelho dos outros mortais era o fato de que ele se dedicava, com uma paixão cega, a combater o marxismo. E, como em várias outras coisas, fazia isso de um modo peculiar: procurava vencer o inimigo por meio de argumentos, numa época em que as armas usadas em tal batalha eram outras, mais dolorosas e letais.
O Coelho escrevia, sempre contra o marxismo, para os jornais da cidade. Seus artigos eram longos, tediosos e incompreensíveis para as pessoas comuns, ou seja, quase todos os leitores. Fenomenologia era a palavra mais simples que usava.
Na verdade, não eram bem artigos: eram esboços de teses, dissertações abastecidas de notas de rodapés e citações de filósofos e pensadores de antanho, com argumentos que julgava sólidos para demolir a notável arquitetura do pensamento marxista. Como ninguém o contestava, é impossível saber se ele estava ou não com a razão.
O tempo passou, o muro de Berlim caiu, o socialismo real da União Soviética se desmanchou, e o Coelho e seu antimarxismo radical passaram apenas a fazer parte de minhas lembranças quase esquecidas dessa época de sonhos.
As poucas notícias que tive desse tempo era que ele havia abandonado seus artigos político-sociológicos e passado a falar sobre o amor platônico. Achei a opção natural. Ele apenas trocava o alvo de suas preocupações. Se não havia mais o perigo de o comunismo triunfar, que o amor fosse então vitorioso.
Há poucos anos, fiquei sabendo que o Coelho havia morrido. Antes disso, porém, talvez vendo que já estava perto da viagem final, combinou com os poderes constituídos trocar a sua biblioteca por um túmulo no cemitério que mais apreciava, por ter sido feito num morro e ser bastante amplo.
E lá ele descansa. E estaria ainda num lado de minha memória não fossem essas últimas notícias, vindas de todas as partes, dando conta de que também o capitalismo - ou pelo menos seu lado mais radical - não deu certo e a nação mais poderosa do mundo, ícone supremo da livre iniciativa, elegeu seu primeiro presidente negro para consertar a lambança feita pelo antecessor branco, de extrema-direita, cristão fundamentalista, um verdadeiro horror.
Gostaria que o Coelho estivesse por aqui para me explicar algumas coisas que eu não consigo entender muito bem.
Não sei se todos tiveram o privilégio de encontrar um tipo inesquecível. Afortunado, posso dizer que lá pelos anos 70, na então pacata Jundiaí, topei com uma dessas pessoas que não se esquecem facilmente, pela simples razão de que são, de alguma maneira, diferentes das outras.
Quem conheceu o sociólogo Antonio Geraldo de Campos Coelho certamente sabe que ele era uma desses tipos. Maluco, diziam alguns; apenas excêntrico, diziam outros. Certo é que ninguém que conversasse com ele, por poucos minutos que fosse, sairia indiferente da prosa.
O Coelho tinha uma erudição total para temas que o fascinavam, como a sociologia política, e era absolutamente analfabeto para outros, mais triviais, como o futebol - ou o ludopédio, como se referia ao esporte preferido dos brasileiros.
Era cheio de manias. Não admitia, por exemplo, que o chamassem de professor - embora, em certa época da vida tivesse dado aulas. Para ele, o "epíteto" soava degradante, pois o igualava ao instrutor de capoeira, que, para o senso comum, também era professor.
Também apelidava amigos e inimigos. Entre nós havia o Chocolate, o Estilingue, o Peixe-Galo, o Menino Lobo, o Homem de Palha. Não sei porque, fiquei fora da lista.
Mas o que distinguia mesmo o Coelho dos outros mortais era o fato de que ele se dedicava, com uma paixão cega, a combater o marxismo. E, como em várias outras coisas, fazia isso de um modo peculiar: procurava vencer o inimigo por meio de argumentos, numa época em que as armas usadas em tal batalha eram outras, mais dolorosas e letais.
O Coelho escrevia, sempre contra o marxismo, para os jornais da cidade. Seus artigos eram longos, tediosos e incompreensíveis para as pessoas comuns, ou seja, quase todos os leitores. Fenomenologia era a palavra mais simples que usava.
Na verdade, não eram bem artigos: eram esboços de teses, dissertações abastecidas de notas de rodapés e citações de filósofos e pensadores de antanho, com argumentos que julgava sólidos para demolir a notável arquitetura do pensamento marxista. Como ninguém o contestava, é impossível saber se ele estava ou não com a razão.
O tempo passou, o muro de Berlim caiu, o socialismo real da União Soviética se desmanchou, e o Coelho e seu antimarxismo radical passaram apenas a fazer parte de minhas lembranças quase esquecidas dessa época de sonhos.
As poucas notícias que tive desse tempo era que ele havia abandonado seus artigos político-sociológicos e passado a falar sobre o amor platônico. Achei a opção natural. Ele apenas trocava o alvo de suas preocupações. Se não havia mais o perigo de o comunismo triunfar, que o amor fosse então vitorioso.
Há poucos anos, fiquei sabendo que o Coelho havia morrido. Antes disso, porém, talvez vendo que já estava perto da viagem final, combinou com os poderes constituídos trocar a sua biblioteca por um túmulo no cemitério que mais apreciava, por ter sido feito num morro e ser bastante amplo.
E lá ele descansa. E estaria ainda num lado de minha memória não fossem essas últimas notícias, vindas de todas as partes, dando conta de que também o capitalismo - ou pelo menos seu lado mais radical - não deu certo e a nação mais poderosa do mundo, ícone supremo da livre iniciativa, elegeu seu primeiro presidente negro para consertar a lambança feita pelo antecessor branco, de extrema-direita, cristão fundamentalista, um verdadeiro horror.
Gostaria que o Coelho estivesse por aqui para me explicar algumas coisas que eu não consigo entender muito bem.
terça-feira, 4 de novembro de 2008
Vida depois da morte
No momento em que o mundo começa a entrar numa fase sombria, em que poucos se atrevem a arriscar vaticínios sobre quando as coisas retomarão seu ritmo normal, o chefe de todos os católicos, papa Bento 16, andou proclamando as belezas da morte.
Em sua homilia no dia de finados, ele perguntou ao público que o assistia se "os homens e as mulheres de nossa época desejam a vida eterna ou se a existência terrena se converteu em seu único horizonte", para depois falar sobre a beleza desse mundo do além, descrito por ele como uma "imersão no oceano do amor infinito no qual o tempo, o passado e o futuro não existem".
Bento 16 não é um simplório e não pode ser descrito como um homem desapegado aos confortos da vida material - ou terrena. Nenhum papa o foi na verdade. A própria condição de chefe da Igreja Católica impõe o cotidiano exercício de uma série de rituais de muita pompa e circunstância.
Nenhum papa foi uma pessoa comum, como, por exemplo, vários santos católicos, descritos por Bento 16 como homens "pobres de espírito, doídos pelos pecados, ávidos, famintos e sedentos de Justiça, misericordiosos, puros de coração e portadores de paz".
Antes de ter mostrado para seus fiéis a glória da vida eterna, o papa fez uma pequena observação sobre a passagem do ser humano pela Terra, dizendo que nela o homem procura ser feliz. Foi apenas uma constatação, sem nenhum juízo de valor: "A felicidade é uma esperança universal, de todos os homens de todos os tempos e em todos os lugares."
Bento 16 poderia ter sido mais contundente ao se referir às vicissitudes de nosso trânsito pela vida terrena. Poderia, por exemplo, ter dito que poucos, muito poucos, conseguem atingir a felicidade. E, se fosse um cínico, poderia dizer que para a Igreja Católica isso não tem importância, pois o que vale mesmo é a atemporalidade e a beleza da vida na eternidade.
Mas não, o papa preferiu exercer o pragmatismo de um chefe de Estado, que escolhe suas palavras pesando-as numa balança preparada para iludir o comprador. Segundo afirmou, as superstições e a secularização ameaçam a fé dos cristãos no além. "É necessário hoje evangelizar a realidade da morte e da vida eterna, realidade especialmente sujeita a crenças supersticiosas e a sincretismos, para que a verdade cristã não corra o perigo de se misturar com mitologias de vários gêneros", disse.
Bento 16, ao que parece, acredita realmente que a vida depois da morte é um prêmio e não um castigo. Pena que seus seguidores, a julgar pelo estado atual do rebanho, ainda não tenham atingido tal grau de certeza - ou de fé. Para eles, o céu ainda é apenas um longínquo desejo, quase impossível de ser realizado. Afinal, com tantas provações a se passar neste vale de lágrimas, é quase impossível sobrar alguma disposição para sair à compra desse bilhete premiado.
Em sua homilia no dia de finados, ele perguntou ao público que o assistia se "os homens e as mulheres de nossa época desejam a vida eterna ou se a existência terrena se converteu em seu único horizonte", para depois falar sobre a beleza desse mundo do além, descrito por ele como uma "imersão no oceano do amor infinito no qual o tempo, o passado e o futuro não existem".
Bento 16 não é um simplório e não pode ser descrito como um homem desapegado aos confortos da vida material - ou terrena. Nenhum papa o foi na verdade. A própria condição de chefe da Igreja Católica impõe o cotidiano exercício de uma série de rituais de muita pompa e circunstância.
Nenhum papa foi uma pessoa comum, como, por exemplo, vários santos católicos, descritos por Bento 16 como homens "pobres de espírito, doídos pelos pecados, ávidos, famintos e sedentos de Justiça, misericordiosos, puros de coração e portadores de paz".
Antes de ter mostrado para seus fiéis a glória da vida eterna, o papa fez uma pequena observação sobre a passagem do ser humano pela Terra, dizendo que nela o homem procura ser feliz. Foi apenas uma constatação, sem nenhum juízo de valor: "A felicidade é uma esperança universal, de todos os homens de todos os tempos e em todos os lugares."
Bento 16 poderia ter sido mais contundente ao se referir às vicissitudes de nosso trânsito pela vida terrena. Poderia, por exemplo, ter dito que poucos, muito poucos, conseguem atingir a felicidade. E, se fosse um cínico, poderia dizer que para a Igreja Católica isso não tem importância, pois o que vale mesmo é a atemporalidade e a beleza da vida na eternidade.
Mas não, o papa preferiu exercer o pragmatismo de um chefe de Estado, que escolhe suas palavras pesando-as numa balança preparada para iludir o comprador. Segundo afirmou, as superstições e a secularização ameaçam a fé dos cristãos no além. "É necessário hoje evangelizar a realidade da morte e da vida eterna, realidade especialmente sujeita a crenças supersticiosas e a sincretismos, para que a verdade cristã não corra o perigo de se misturar com mitologias de vários gêneros", disse.
Bento 16, ao que parece, acredita realmente que a vida depois da morte é um prêmio e não um castigo. Pena que seus seguidores, a julgar pelo estado atual do rebanho, ainda não tenham atingido tal grau de certeza - ou de fé. Para eles, o céu ainda é apenas um longínquo desejo, quase impossível de ser realizado. Afinal, com tantas provações a se passar neste vale de lágrimas, é quase impossível sobrar alguma disposição para sair à compra desse bilhete premiado.
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