quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Sede de cultura

Os novos ricos que o Brasil vem produzindo nesses últimos anos têm em comum uma preocupação: o que fazer com o numerário extra que entra com abundância? Claro que as opções e tentações oferecidas pelo pujante capitalismo brasileiro são várias, mas o novo rico que quiser se sobressair entre seus pares precisa investir em algo que realmente dê a ele mais que as bugigangas descartáveis deste monumental parque de diversões que é o mercado.

Uma das opções mais interessantes é expandir a mente adquirindo conhecimentos. Afinal, é por meio deles que se abrirão mais possibilidades para uma ascensão social e financeira ainda mais rápida. Mas que seja algo que não exija esforço demasiado, porque ninguém é de ferro.

Para isso existe a Casa do Saber, "um centro de debates e disseminação do conhecimento em São Paulo, que oferece acesso à cultura de forma clara e envolvente, porém rigorosa e fiel às obras dos criadores", como explica o seu site. Nele se informa ainda que lá é oferecido em "um ambiente extra-acadêmico", cursos livres, palestras e oficinas de estudo nas áreas de artes plásticas, ciências sociais, cinema, filosofia, história, música e psicologia, reunindo renomados professores e conferencistas". As palestras e os cursos, estes com duração de um a seis meses, "apresentam o diferencial de serem ministrados em pequenos grupos, para promover a troca de idéias e maior interação entre os participantes e os mestres".

O saber que o nosso novo rico poderá usufruir nessa casa é eclético. Aí vão alguns exemplos dos cursos deste segundo semestre:
"O que é hoje um casamento feliz - Encontros e Desencontros à Luz da Psicanálise"; "Lendo canções" - aulas-show com Arthur Nestrovski e José Miguel Wisnik; "Das vanguardas modernas à arte contemporânea (1910/1960)"; "Os Grandes Nomes da Moda"; "A ética protestante e o espírito do capitalismo"; "Assim Falou Zaratustra"; "Nietzsche e a metamorfose do espírito"; "Novas eleições americanas".

Como se vê, uma programação para todos os gostos, mas poucos bolsos: quem quiser ter o prazer de frequentá-los gastará uns R$ 600 reais - facilitados em três vezes. Os mais sedentes de saber podem adquirir o Cartão Paideia Universalis, que garante acesso a todos os cursos, palestras e eventos da Casa.

Uma informação importante: nos cursos, além de toda sabedoria extravasada pelos mestres, os alunos podem ingerir deliciosos e refrescantes vinhos importados.

É, na Casa do Saber, a cultura dá sede.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Pretensão e água benta

Paulo Skaf, que além de presidir a entidade que reúne os mais poderosos empresários do Brasil, está em permanente campanha contra a cobrança de impostos, teve um de seus desejos revelados por Renata Lo Prete, da Folha de S. Paulo. Segundo ela, Skaf pretende se candidatar ao governo de São Paulo em 2010 pela legenda tucana. Disse a políticos que os outros nomes do partido não têm carisma, que está "muito bem articulado" com o empresariado paulista e explicou que sua recente aparição como protagonista da propaganda de televisão do Senai já foi um treino para a campanha que pretende enfrentar.

Paulo Skaf deve pensar que é perfeitamente possível um empresário chegar ao governo do Estado mais rico da federação sem nunca antes ter disputado uma eleição para qualquer cargo público, já que um metalúrgico ganhou o grande prêmio da presidência da República.

Como a pretensão de Skaf esbarra num pequeno obstáculo chamado povo, o morador de São Paulo pode ficar tranqüilo, pois não existe a menor chance de as profícuas idéias desse grande líder empresarial serem postas em prática além das paredes do imponente prédio de número 1.313 da Avenida Paulista.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Almanaque Capivarol

Os jornais e a televisão já começaram a inundar o noticiário com os textos sobre a Olimpíada de Pequim (ou Beijing, como queiram).

Na falta de notícias esportivas, entopem os pobres leitores/telespectadores com informações "culturais", notadamente sobre os hábitos e costumes chineses.

E assim, por meio desta nossa incomparável imprensa, ficamos sabendo que aqueles bárbaros comem insetos e até mesmo, reservadamente, cães, olham desconfiados para os ocidentais, falam - alguns poucos, claro - um inglês incompreensível, que Pequim não é caos imaginado e a poluição de lá é igual a daqui. E, sim, que há muitos, mas muitos mesmo... chineses.

Ah, o que seria de nós se não fossem esses jornalistas?

Vida dura

No mesmo dia em que os ministros da Defesa e da Justiça conversavam animadamente sobre como o Brasil está se transformando num Estado policial que usa algemas para levar à prisão pessoas de destaque na sociedade, a Polícia Federal desbaratava uma quadrilha no presídio de Campo Grande, liderada pelos traficantes Juan Carlos Ramirez Abadía e Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, que lá estavam em gozo de merecidas penas, e, em Duque de Caxias, Baixada Fluminense, a polícia civil fluminense matava dez pessoas, num tiroteio numa favela - tinha de ser uma favela!

Hoje, refeitos do embate que tiveram sobre os apaixonantes temas do uso ou não de algemas, da validade ou não do grampo telefônico numa investigação, do que é ou não abuso de autoridade, o ministros Nelson Jobim e Tarso Genro já podem retomar o contato com o Brasil real, este em que traficantes condenados comandam seus negócios de dentro de uma prisão e no qual policiais têm salvo conduto para matar.

Afinal, nem tudo são flores nesta vida.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Nos trilhos do aerotrem

A TV Bandeirantes fez mal em não ter permitido a participação de Levy Fidelix, do PRTB, no debate dos candidatos à Prefeitura de São Paulo.

Programas desse tipo cada vez mais são aborrecidos e previsíveis. Fidelix, com seu bigode e suas idéias inviáveis, certamente animaria o show.

Autor, em eleições passadas, da proposta de construir um "aerotrem" na capital, o candidato não parou no tempo. Pode, talvez refletindo sobre a insensatez da classe política, aperfeiçoar suas extravagâncias. Seu programa de governo merece ser lido. Se não para ser levado a sério, pelo menos para diminuir o estresse provocado pela virulência do embate político do Brasil atual. Na seqüência vão exemplos da mente criativa do expoente do PRTB:

"Táxis turísticos (azuis) dirigidos por motoristas com inglês e espanhol básicos, tarifas especiais com 30% de acréscimo, uniformizados, recebendo subsídio municipal de 2 salários mínimos mensais."

"Táxis comuns (verdes) terão incentivo mensal de 1 salário mínimo e deverão também usar uniforme e poderão ter ponto de parada livre na capital, especialmente nas estações de monotrens, metrôs, trens e terminais rodoviários."

"Implantação de novas placas (bilíngues) de sinalização, em português e inglês, próximas aos aeroportos, rodoviárias, estações de trens, monotrens, shoppings, grandes avenidas e pontos turísticos."

"Implantação de brigadas de helicópteros instaladas em pontos estratégicos da capital, para apoio logístico dos acidentados no trânsito."

"Remodelação funcional da CET, com a criação das brigadas especiais de guardas municipais, sendo:

orientativas, com guardas uniformizados na cor azul (azulzinho) para orientar os motoristas no trânsito, sinaleiros e faróis, nas principais vias e avenidas do centro e bairros periféricos e as repressivas (amarelinho), com guardas uniformizados e voltados para a atividade repressora, ou seja, multar os infratores."

Fidelix pretende ainda construir uma sede administrativa para a Prefeitura na região da Cracolândia, reuniformizar todo o quadro de funcionários municipais e obrigar todos os servidores a usar uniforme, ampliar o limite de autonomia de gastos das subprefeituras e regiões administrativas, repactuar toda a dívida mobiliária da prefeitura, substituindo o seu perfil para longo prazo, lançando títulos públicos no exterior.

E, a exemplo de Paulo Maluf, quer canalizar os rios Tietê e Pinheiros, para, aproveitando a enorme laje acima da água, construir mais pistas de tráfego de veículos nas marginais. Como jóia da coroa, o aerotrem circularia suspenso sobre os rios, os carros, a metrópole.

Alguém ainda acha que a política é para ser levada a sério?