O que mais impressiona no apagão da internet paulista patrocinado pela Telefônica não é a vulnerabilidade do sistema. Essa é a parte mais visível do problema e talvez o de solução mais imediata.
O que realmente deixa qualquer um atônito é a completa ignorância que a empresa tem do produto que vende. A ficha ainda não caiu para a Telefônica: a internet é hoje um serviço essencial, sem o qual dezenas de milhões de pessoas deixam de fazer as coisas mais triviais e necessárias para o dia-a-dia.
Talvez para os executivos da Telefônica a internet residencial não tenha muito importância. Provavelmente eles pensem que os assinantes do serviço Speedy sejam pessoas que percam seu tempo trocando e-mails tolos e mal-escritos ou acessando sites de jogos e pornografia.
No começo era mesmo assim: a internet não passava de um gigantesco parque de diversões, um entretenimento sem compromisso e que trazia novidades cativantes a todo instante.
Mas esse tempo acabou e, parece, a Telefônica não se deu conta de que a internet se transformou numa das mais importantes ferramentas de que dispõe o ser humano para desenvolver seu trabalho, sua educação, sua cultura, seu lazer.
Já se incorporou à vida e, como a energia elétrica, o telefone, a água, as notícias, o trânsito congestionado, o futebol, a televisão, faz parte inseparável do cotidiano. Ou será que os engravatados da Telefônica vivem sem essas coisas?
A proposta da empresa de abater na conta dos assinantes o dobro das horas que ficaram sem o serviço soa quase como uma afronta. É como se a Telefônica dissesse aos seus clientes algo do tipo "olha, vamos dar um descontinho e com isso estamos quites". Como se ela fornecesse gelo para esquimós: ninguém dará mesmo pela falta do produto, tal a sua inutilidade.
Os órgãos de defesa do consumidor e a agência reguladora do setor de telecomunicações deveriam, ao tomar as providências que o caso requer, ficar atentos a esse aspecto da questão: tão importante quanto apurar se a Telefônica tem capacidade técnica para prestar o serviço - e as evidências mostram que ela realmente é incapaz de fazê-lo - é saber se a empresa sabe que tipo de serviço está prestando.
O apagão, as evasivas explicações subseqüentes de sua causa e as ofertas de ressarcimento dos prejuízos indicam que a internet da Telefônica é como um enorme transatlântico pilotado por um mal pago e cansado motorista de ônibus urbano.
É a certeza do naufrágio.
sábado, 5 de julho de 2008
quinta-feira, 3 de julho de 2008
Dois mundos
O número de pessoas satisfeitas e muito satisfeitas com o Brasil caiu, em um ano, de 75% para 67%. Já o das insatisfeitas cresceu de 24% para 32%. A constatação é de uma pesquisa da Vox Populi, cuja íntegra pode ser acessada no site do PT. Já a avaliação do desempenho do presidente Lula teve trajetória inversa: foi de 44% para 59% (ótimo/bom), enquanto os que a definiram como regular negativa caíram de 13% para 8% e os que a vêem como ruim/péssima foram de 17% para 7%.
A pesquisa mostra que a implantação de programas sociais foi a melhor coisa feita pelo governo Lula (34%), seguida de perto pelo programa Bolsa Família (27%). Também merece destaque a política econômica (20%), o controle da inflação, a geração de empregos e os investimentos em educação (6%), o aumento do índice de reajuste salarial (5%) e o pagamento da dívida externa (4%). O Programa de Aceleração do Crescimento, o Bolsa Escola e o combate à corrupção foram lembrados por 3% dos entrevistados como aspectos positivos do governo Lula.
Já 13% dos ouvidos pelo Vox Populi lembraram o não combate à corrupção como a pior coisa que Lula fez em seu governo. Em seguida, como pontos negativos, estão a política econômica (6%), os programas sociais (5%) e o Bolsa Família (4%).
Com seu governo aprovado pela maioria, se Lula pudesse ser candidato em 2010, 43% dos entrevistados votariam nele novamente e 19% disseram que poderiam votar nele. Cerca de um terço (32%) respondeu que não votaria em Lula e 7% estão ainda indecisos.
Um dos aspectos mais interessantes da pesquisa é sobre o recall dos partidos políticos. O PT, com 36% de respostas, foi o partido mais lembrado pelos entrevistados, seguido pelo PMDB, com 22%, e pelo PSDB, com 15%. O DEM teve apenas 4% das menções, mesma porcentagem do PDT. PSB, PTB e PV foram lembrados só por 2% dos entrevistados.
Disseram que têm muita simpatia e alguma simpatia pelo PT 42% dos pesquisados. São indiferentes à legenda, 41%, e mostraram alguma antipatia e muita antipatia, 12% das pessoas. Na percepção dos entrevistados, o PMDB (18%) é o partido que tem idéias mais próximas às do PT e o PSDB (12%) é o que se encontra mais distante. Cinquenta e sete por cento das pessoas acham positiva a atuação do PT na política brasileira, 12% consideram-na negativa e 25% disseram que ela é regular.
Em relação à fidelidade partidária, 47% dos entrevistados são da opinião que os parlamentares devem ser fiéis ao partido que escolheram para se filiar e devem votar seguindo a orientação de seu partido, enquanto 43% disseram que os parlamentares devem ter autonomia para decidir conforme sua própria vontade e votar individualmente, mesmo contra a orientação partidária. Na mesma lógica, 49% acharam que o mandato do parlamentar pertence ao partido e se ele quiser mudar de legenda, deve perder o mandato, enquanto 41% são de opinião oposta.
No geral, as respostas contrariam a percepção que é expressa diuturnamente sobre o Brasil e os atores da cena política pela quase totalidade da mídia. Em alguns casos, a distância entre o país real e o imaginado pelas mentes dessa douta casta não dá nem para ser medida. É, para resumir, uma coisa de louco.
A pesquisa mostra que a implantação de programas sociais foi a melhor coisa feita pelo governo Lula (34%), seguida de perto pelo programa Bolsa Família (27%). Também merece destaque a política econômica (20%), o controle da inflação, a geração de empregos e os investimentos em educação (6%), o aumento do índice de reajuste salarial (5%) e o pagamento da dívida externa (4%). O Programa de Aceleração do Crescimento, o Bolsa Escola e o combate à corrupção foram lembrados por 3% dos entrevistados como aspectos positivos do governo Lula.
Já 13% dos ouvidos pelo Vox Populi lembraram o não combate à corrupção como a pior coisa que Lula fez em seu governo. Em seguida, como pontos negativos, estão a política econômica (6%), os programas sociais (5%) e o Bolsa Família (4%).
Com seu governo aprovado pela maioria, se Lula pudesse ser candidato em 2010, 43% dos entrevistados votariam nele novamente e 19% disseram que poderiam votar nele. Cerca de um terço (32%) respondeu que não votaria em Lula e 7% estão ainda indecisos.
Um dos aspectos mais interessantes da pesquisa é sobre o recall dos partidos políticos. O PT, com 36% de respostas, foi o partido mais lembrado pelos entrevistados, seguido pelo PMDB, com 22%, e pelo PSDB, com 15%. O DEM teve apenas 4% das menções, mesma porcentagem do PDT. PSB, PTB e PV foram lembrados só por 2% dos entrevistados.
Disseram que têm muita simpatia e alguma simpatia pelo PT 42% dos pesquisados. São indiferentes à legenda, 41%, e mostraram alguma antipatia e muita antipatia, 12% das pessoas. Na percepção dos entrevistados, o PMDB (18%) é o partido que tem idéias mais próximas às do PT e o PSDB (12%) é o que se encontra mais distante. Cinquenta e sete por cento das pessoas acham positiva a atuação do PT na política brasileira, 12% consideram-na negativa e 25% disseram que ela é regular.
Em relação à fidelidade partidária, 47% dos entrevistados são da opinião que os parlamentares devem ser fiéis ao partido que escolheram para se filiar e devem votar seguindo a orientação de seu partido, enquanto 43% disseram que os parlamentares devem ter autonomia para decidir conforme sua própria vontade e votar individualmente, mesmo contra a orientação partidária. Na mesma lógica, 49% acharam que o mandato do parlamentar pertence ao partido e se ele quiser mudar de legenda, deve perder o mandato, enquanto 41% são de opinião oposta.
No geral, as respostas contrariam a percepção que é expressa diuturnamente sobre o Brasil e os atores da cena política pela quase totalidade da mídia. Em alguns casos, a distância entre o país real e o imaginado pelas mentes dessa douta casta não dá nem para ser medida. É, para resumir, uma coisa de louco.
quarta-feira, 2 de julho de 2008
Vida em comum
A chiadeira de entidades ligadas ao transporte de cargas e comerciantes, que se sentem prejudicados com a proibição do tráfego de caminhões de dia em grande parte de São Paulo, pode ou não ser justa. Mas é reveladora de que, ainda, muitos não sabem como é a vida numa democracia.
Não é de hoje que a capital paulista está sofrendo com os efeitos econômicos e sociais de seu trânsito caótico. O problema não afeta apenas quem tem carro - se estende a todos, indistintamente, que são obrigados a se locomover diariamente.
Alguma coisa precisava ser feita, urgentemente. A incompetência de governos passados levou o atual a tomar uma atitude. Depois de vários desencontros, chegou-se à conclusão de que uma das medidas imediatas que poderiam ajudar a melhorar a circulação seria tirar os caminhões do horário mais crítico.
A toda ação corresponde uma reação, diz a lógica, parodiando a terceira lei de Newton. Ora, já se esperava que os atingidos pela proibição fossem se manifestar. Mas que fizessem isso com argumento sólidos, em vez de partir, como fizeram, para o simples confronto - ou a mais pura chantagem, ao ameaçar aumentar os preços dos produtos vendidos no comércio.
A atitude foi típica de quem ignora como se convive numa democracia. Nela, deve-se pensar primeiro no bem coletivo. Se todos os que se sentirem afetados negativamente por uma determinada lei resolverem afrontá-la ou boicotá-la, a vida em sociedade perderá todo o sentido.
Os transportadores de cargas e comerciantes, antes de fazerem ameaças, deveriam pensar como podem ajudar a transformar São Paulo numa cidade que ofereça condições mínimas de vida aos seus habitantes.
terça-feira, 1 de julho de 2008
Trem bom
Um dos projetos mais ambiciosos do governo Lula é o do trem de alta velocidade (TAV) ou simplesmente trem-bala, que ligará Campinas ao Rio de Janeiro, passando pelos aeroportos de Viracopos, Guarulhos e Galeão. Ainda neste ano o BNDES deverá divulgar os estudos referentes ao traçado do projeto, de cerca de 550 quilômetros, para que, no início de 2009, seja feita a licitação.
O trem-bala brasileiro já desperta o interesse das empresas que detêm a tecnologia desse meio de transporte - franceses, alemães, japoneses e coreanos. O investimento é alto, de mais de US$ 8 bilhões, mas quem se dispuser a bancar a obra não estará simplesmente construindo um meio de transporte moderno, eficiente e seguro: vai passar à história por ter feito a ponte que irá marcar a ruptura entre o Brasil Terceiro-Mundo, o Brasil atrasado e medroso, e o Brasil moderno, um país entre as maiores potências mundiais.
A construção de um trem-bala entre São Paulo e Rio vem sendo cogitada há pelo menos 30 anos. Desde o tempo da ditadura militar se fala nisso. Até FHC resvalou - de leve - no tema. Mas foi somente no governo Lula que a obra começou a ser levada a sério.
Não há nenhum grande problema de engenharia envolvendo a construção. Ainda hoje restam resquícios da linha férrea que ligava os Estados de São Paulo e do Rio. Um trem de alta velocidade exige apenas um traçado mais plano e reto, nada que alguns túneis não possam resolver.
O que então impediu, nesses anos todos, a adoção desse meio de transporte absolutamente necessário para o desenvolvimento do corredor Rio-São Paulo? Claro que foram muitos fatores, mas o mais determinante foi mesmo a vontade de fazer a obra - e, para isso, o necessário desprendimento do complexo de vira-lata que acomete grande parte da classe política-administrativa do país.
São essas pessoas, que vivem permanentemente com os olhos voltados para o Norte e a repetir a ladainha de que o Brasil nunca dará certo, que impediram até hoje não só a construção de um trem-bala, mas, principalmente, a construção de um país mais digno, justo, rico, igualitário - e feliz.
O trem-bala brasileiro já desperta o interesse das empresas que detêm a tecnologia desse meio de transporte - franceses, alemães, japoneses e coreanos. O investimento é alto, de mais de US$ 8 bilhões, mas quem se dispuser a bancar a obra não estará simplesmente construindo um meio de transporte moderno, eficiente e seguro: vai passar à história por ter feito a ponte que irá marcar a ruptura entre o Brasil Terceiro-Mundo, o Brasil atrasado e medroso, e o Brasil moderno, um país entre as maiores potências mundiais.
A construção de um trem-bala entre São Paulo e Rio vem sendo cogitada há pelo menos 30 anos. Desde o tempo da ditadura militar se fala nisso. Até FHC resvalou - de leve - no tema. Mas foi somente no governo Lula que a obra começou a ser levada a sério.
Não há nenhum grande problema de engenharia envolvendo a construção. Ainda hoje restam resquícios da linha férrea que ligava os Estados de São Paulo e do Rio. Um trem de alta velocidade exige apenas um traçado mais plano e reto, nada que alguns túneis não possam resolver.
O que então impediu, nesses anos todos, a adoção desse meio de transporte absolutamente necessário para o desenvolvimento do corredor Rio-São Paulo? Claro que foram muitos fatores, mas o mais determinante foi mesmo a vontade de fazer a obra - e, para isso, o necessário desprendimento do complexo de vira-lata que acomete grande parte da classe política-administrativa do país.
São essas pessoas, que vivem permanentemente com os olhos voltados para o Norte e a repetir a ladainha de que o Brasil nunca dará certo, que impediram até hoje não só a construção de um trem-bala, mas, principalmente, a construção de um país mais digno, justo, rico, igualitário - e feliz.
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