sábado, 7 de junho de 2008

De carne e osso

O escritor belga Georges Simenon ficou conhecido, principalmente, pelo personagem Inspetor Maigret, protagonista de dezenas de livros e filmes para o cinema e televisão. Ao contrário de outros ilustres detetives, Maigret resolve seus casos com base em muito trabalho, ajuda de membros de sua equipe e um agudo senso de observação da personalidade das pessoas.

O método de Maigret procura dissecar a alma dos envolvidos no crime - se Sherlock Holmes olha para fora, Maigret olha para dentro.

A obra de Simenon foi lançada e relançada inúmeras vezes no Brasil, a última das quais pela LP&M, que já publicou 22 títulos em sua coleção de livros de bolso.

Mas a editora concentrou sua atenção exclusivamente no personagem Maigret, que embora primordial para entender o escritor belga, nem de longe é capaz de representá-lo em toda a sua complexidade.

Simenon é injustamente considerado um autor menor, talvez pela fantástica produção de cerca de 350 livros sob seu nome e mais de 170 sob inúmeros pseudônimos, talvez por ter preferido usar o gênero da novela policial para se expressar.

São poucos os enredos que criou sem utilizar um crime para expor a complexidade do ser humano. Mas mesmo nesses casos, como em O Gato - a história de um casal que vive junto e se comunica apenas por bilhetes -, a trama se desenvolve, invariavelmente, em clima de grande tensão e suspense.

A Editora Nova Fronteira, há cerca de 20 anos, publicou várias novelas de Simenon sem a presença de Maigret: O Assassino, Sangue na Neve, O Homem Que Via o Trem Passar, O Presidente, O Testamento Maldito, Ainda Existem as Aveleiras, Os Quatro Dias de um Pobre Homem, Carta a Meu Juiz, Os Fantasmas do Chapeleiro, As Irmãs Inimigas, Os Suicidas, Em Caso de Desgraça, O Quarto Azul, A Janela dos Rouet, e A Casa das Sete Meninas, para o público infanto-juvenil, entre outros.

Como a LP&M não pretende lançar novos titulos este ano, resta garimpar a maravilhosa obra de Simenon nos milhares de sebos espalhados pelo país. Uma dica é o site Estante Virtual, com o acervo de 947 livreiros de 175 cidades. Ele proporciona uma viagem emocionante a um mundo habitado por personagens trágicos, surpreendentes, mas sempre verossímeis - um mundo real, com heróis cheios de falhas e vilões de face humana.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Nova tentativa

Estranho mesmo nessa história da venda da VarigLog é o "timing" da denúncia feita pela ex-diretora da Anac Denise Abreu de que a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, atuou em favor do fundo americano que acabou ficando com a empresa.

Ora, todo mundo já sabia que a tal CPI dos Cartões, criada pela oposição para expor uma suposta farra com o dinheiro público, patrocinada pelos ministros do atual governo - e, quem sabe, até pelo próprio presidente e seus familiares - iria dar em nada. E, praticamente no mesmo dia em que o relatório da CPI dizimava as pretensões oposicionistas, aparece no Estadão, jornal não muito afeito a investigações jornalísticas, mais uma "bomba" contra Dilma, lançada por uma rancorosa senhora que ocupou alguns bons cargos na administração pública - a bem da verdade, iniciada nessa carreira pelo tucano Mário Covas.

Na mesma estratégia das outras vezes, o efeito manada se encarregou de dar corpo à notícia do Estadão e todos os outros grandes órgãos da imprensa passaram a amplificar as ressentidas palavras de Denise Abreu. Mais um "escândalo" foi criado.

Como anteriormente, o trabalho jornalístico prima em favorecer quem acusa e dar pouco caso à versão dos acusados. E Denise Abreu, que antes a imprensa nativa tratava como uma megera sem alma nem coração, praticamente a responsável pelo famoso "caosaéreo" que destruía o país, virou, da noite para o dia, pessoa de ilibada reputação, cujas sentenças são definitivas por si mesmas.

Na seqüência, as mesmas vozes indignadas de sempre vão à tribuna da Câmara e do Senado para exigir apurações e investigações, para intimar autoridades e subalternos, para mostrar uma autoridade moral e ética que, na verdade, não têm. É um roteiro que dá tédio pelo abuso de clichês.

No pano de fundo, desta vez, a derrubada do governo Lula, blindado pela excepcional popularidade que alcançou e pelo momento econômico do país, é apenas um brinde. Mais importante é sepultar a candidatura de Dilma Rousseff à presidência em 2010, com as bençãos do ex-metalúrgico. Para isso valem todos os meios. Sempre foi assim na política brasileira. Os lacerdistas de hoje são tão medíocres que nem nisso inovam.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Debate sobre o caos

Marta Suplicy já escolheu o trânsito como tema de sua campanha à prefeitura de São Paulo. Como foi em seu governo que ocorreram as mudanças mais significativas no setor nas últimas décadas, ela tem autoridade para falar sobre isso. Pretende, parafraseando um de seus adversários nesta eleição, o ex-governador Geraldo Alckmin, dar um "choque de gestão" no caótico trânsito paulistano.

De imediato, propõe retomar a construção dos corredores de ônibus, fazer pequenas obras para aumentar a fluidez do tráfego, repor os milhares de semáforos "inteligentes" quebrados e aumentar o contigente de pessoal da CET nas ruas. Não propôs, como fez outro de seus adversários, o deputado federal Paulo Maluf, soluções mágicas, como construir uma laje sobre os rios Tietê e Pinheiros.

O atual prefeito paulistano, Gilberto Kassab, que concorre à reeleição, desdenhou das sugestões de Marta. Num de seus repentes de machão, nos quais se esforça para incorporar gestos e falas do histrião Jânio Quadros, desafiou a ex-prefeita a comparar suas administrações e procurou desqualificar tudo o que foi feito por ela - inclusive no trânsito.

Assim, caiu na armadilha montada por Marta, que vai, certamente, levar o debate para essa área. Como disse, pretende reconquistar a classe média, já que tem garantida boa parte da votação da periferia da metrópole. Ao atacar o caos terrestre, ela poderá não só propor ações efetivas - que não estão sendo tomadas por Kassab -, mas também impor às administrações passadas a responsabilidade pelo que se vê hoje na cidade.

Cálculo do economista Marcos Cintra, da Fundação Getúlio Vargas, estima em R$ 33,5 bilhões anuais o prejuízo provocado pelos congestionamentos em São Paulo. O custo inclui horas de trabalho perdidas em carros e ônibus e o gasto adicional de combustível. Além disso há prejuízos adicionais para a saúde pública causados pela piora na qualidade do ar e para as empresas, que têm de cuidar de problemas de logística e do transporte de cargas.

É um custo considerável. Mas ainda pequeno, se a ele for somado o dano não aparente e incalculável que um ambiente a tal ponto hostil pode causar ao ser humano.

Se nada for feito por este ou pelo futuro prefeito, em poucos anos o velho bordão "São Paulo não pode parar" virará mais um anacronismo, lembrado por milhões de pessoas imobilizadas em carros, ônibus e caminhões num congestionamento interminável.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Poder absoluto

É cada vez mais forte o rumor de que o Estadão está sendo negociado com a Infoglobo, holding que engloba os jornais (O Globo, Extra, Expresso, Diário de S. Paulo) e a agência de notícias da poderosa Organizações Globo.

Se verdadeira, é uma notícia alarmante. O já estreito mercado da informação no Brasil ficará mais concentrado - e justamente nas mãos de uma empresa hegemônica na mídia eletrônica.

A guerra dos jornais pelo mais rico Estado brasileiro é por enquanto bastante dura. Há a briga entre Folha e Estadão, a concorrência entre os populares Jornal da Tarde (do Estadão), Diário de S. Paulo (Globo) e Agora (Folha) e entre os jornais especializados em economia Valor Econômico (Folha e Globo) e Gazeta Mercantil (da Companhia Brasileira de Multimídia, de Nelson Tanure, também dono do JB).

Com o Estadão indo para as mãos da Infoglobo, será criada uma situação no mínimo estranha: os dois donos (50% cada um) do Valor Econômico passarão a ser concorrentes diretos.

É sabido que o Globo desde há muito tempo cogita entrar no mercado paulista. A compra do Diário Popular, rebatizado como Diário de S. Paulo, não trouxe os frutos pretendidos. O jornal ainda está longe dos líderes Folha e Estadão. A possibilidade de controlar o centenário diário da família Mesquita, que já está há alguns anos afastada da administração da empresa, é uma chance de ouro para quem pretende se firmar em solo paulista. A marca Estadão, apesar de ter envelhecida ao longo do tempo, ainda é muito forte.

O problema todo, se o negócio sair, será o poder conquistado em terra bandeirante por uma só empresa - uma concentração jamais vista anteriormente, englobando emissoras de televisão e rádio líderes do mercado, diversas revistas e jornais importantes.

É algo para os órgãos antitruste do governo federal examinarem com lupa - ou melhor, microscópio.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Mundos opostos

Em Islamabad, Paquistão, um carro-bomba explodiu em frente da embaixada da Dinamarca, provocando oito mortes. O atentado foi mais uma represália contra a publicação, em 2006, em um jornal dinamarquês, de uma charge que os muçulmanos radicais consideraram ofensiva ao profeta Maomé. De lá para cá, mais de 50 pessoas morreram em protestos e manifestações contra a charge.

No Vaticano, o papa Bento 16 anunciou que vai permitir, a partir de 2010, a exposição pública do santo sudário, peça de tecido em que, supostamente, está estampado o rosto de Cristo, mas que testes científicos feitos há 20 anos com carbono 14 dataram entre 1260-1390. Ou seja, provaram que se trata de uma falsificação. A peça está guardada no relicário da capela Guarini, na catedral de Turim. Foi vista pelo público pela última vez em 2000, quando a igreja comemorou seu jubileu.

As duas notícias são do mesmo dia. Mostram a contradição em que vive o mundo, dominado, ao mesmo tempo, pela informação instantânea - que supostamente deveria ajudar o homem a se libertar de dogmas e preconceitos - e pelo fanatismo religioso - uma das expressões mais profundas da intolerância.

É difícil saber que caminho o ser humano vai tomar. De certa forma, as duas posições antagônicas representam não só opostos, mas expressam a eterna luta do homem para se impor em seu planeta - uma longa e dolorosa batalha feita de lentos movimentos e lentas conquistas. Por enquanto, ainda existe um raio de luz a rasgar as trevas. Por enquanto...

domingo, 1 de junho de 2008

Pesadelo interminável

O deputado federal Paulo Maluf (PP-SP) planeja candidatar-se novamente à prefeitura paulistana, que já comandou por duas vezes. Entre os nomes citados é o mais rejeitado nas pesquisas de opinião pública. Mesmo assim, tem cerca de 10% das intenções de voto.
Há cerca de uma década, os eleitores fiéis de Maluf eram bem mais. Fosse qual fosse a eleição majoritária, ele começava com um terço do eleitorado, que naquele tempo era chamado de "malufista".
Sim, haviam os malufistas, como outrora a política brasileira teve os janistas, os ademaristas, os lacerdistas...
Maluf significava, antes de mais nada, um estilo político. Autoritário, populista, com fama de empreendedor, fazia os conservadores delirar. De certo modo, foi o herdeiro de Adhemar de Barros: "Rouba, mas faz", diziam de ambos.
Filho do golpe militar de 64, Maluf deitou e rolou enquanto os generais estiveram no poder. Abandonou os negócios privados e se dedicou à coisa pública. Gostou tanto da mudança e se dedicou com tal zelo à nova profissão que, com a redemocratização do país, viu abater sobre si uma chuva de denúncias de crimes variados, constantes do repertório de certa espécie de políticos.
Com o passar dos anos viu-se que as obras de que tanto gabava não eram assim tão importantes e acabaram beneficiando mais os grandes empreiteiros do que a população. A sucessão interminável de pendengas na Justiça teve como ápice uma embaraçosa e constrangedora temporada na prisão. E o jeito de xerife que o marcava à frente do Executivo acabou ficando fora de moda com a ascensão do modo tucano de governar, aquela esperteza que encanta a classe média paulista pelo seu discurso ambíguo e melífluo.
Apesar de tudo, com o resquício de prestígio que ainda possuía, conseguiu voltar para a Câmara dos Deputados, onde cumpre um apagado mandato.
Na onda da internet, chegou a lançar um blog. A última atualização data do dia 13 de março e traz um breve discurso sobre os juros da economia brasileira. Ele, como outros 180 milhões de pessoas, acha que as taxas são altas.
O blog tem ainda uma pesquisa : "O que você acha da lei do Agnaldo Timóteo de monitorar as cozinhas dos restaurantes?" Confrontado com as opções, um solitário leitor confessou ter dúvidas sobre a palpitante questão.
Mesmo assim, esquecido do noticiário, justamente ele que produziu tantas e tão marcantes manchetes da imprensa nativa, Maluf não desiste. E tenta a volta por cima, esolhendo o trânsito, a maior dor de cabeça do paulistano do momento, como mote para sua campanha.
"Vou construir uma laje sobre os rios Tietê e Pinheiros, com oito pistas para o trânsito. Entrego a obra em quatro anos", prometeu Maluf aos jornalistas. "Em três anos", corrigiu posteriormente.
A proposta, absurda sob todos os aspectos, não é chocante por si só. É preciso lembrar que, entre outras aberrações, Maluf construiu o Minhocão, aquela avenida suspensa que, de tão feia e sinistra que é, ofende a própria dignidade do ser humano. A idéia de tapar os rios, vinda de quem vem, é para se levar a sério. Por isso, mais do que chocar, ela assusta. Ao que tudo indica, o pesadelo malufista ainda não acabou.