quarta-feira, 7 de maio de 2008

Violência oficial

Um dos pontos mais fracos da administração tucana paulista é a sua polícia - civil e militar. Tem permanecido imóvel em sua estrutura medieval e foi incapaz de servir à altura uma sociedade que passou por transformações rápidas e radicais. Pratica os mesmos atos abomináveis do tempo em que era linha auxiliar da ditadura, sem perceber que os tempos são outros. Hoje, como instituição, vê seu nome manchado por sucessivos escândalos e episódios desabonadores.
Um dos mais recentes ocorreu na final do campeonato paulista de futebol, no jogo entre Palmeiras e Ponte Preta, no estádio Palestra Itália. Depoimentos de torcedores contestam as explicações oficiais para todos os incidentes depois da partida - que deixaram muitos feridos e por pouco não se transformaram em mais uma tragédia.
Nessa versão, disseminada pelos jornalões, os PMs foram provocados dentro do estádio por torcidas organizadas e tiveram de reagir e, fora dele, intervieram apenas para impedir que torcedores tresloucados invadissem o Palestra Itália, depois do jorgo terminado e o Palmeiras campeão.
Já os relatos de inúmeros torcedores mostram outra realidade - para eles a PM estava, desde que chegou para o seu trabalho, disposta a provocar os incidentes. Assim, sem nenhuma razão maior, investiu dentro e fora do estádio contra os torcedores. O problema é que, nessa espécie de vingança contra eles, acabaram atingindo, indiscriminadamente, crianças, velhos, mulheres, seja lá quem, por acaso estivesse em seu caminho naquele momento.
Tumultos em praças esportivas são comuns tanto no Brasil quanto no resto do mundo. Infiltração de marginais em torcidas organizadas também. Nem por isso todos os seus integrantes são bandidos ou merecem ser tratados como tal. E nem por isso todos os jogos se transformam em campos de batalha. A polícia é treinada - ou deveria - para intervir apenas em casos extremos, pois qualquer um sabe que o controle de uma multidão é uma operação de alto risco, que pode ter conseqüências explosivas.
Porém, a PM paulista pensa diferente. Para ela, um jogo de uma só torcida, que foi ao estádio apenas para festejar, é uma boa oportunidade para dar exercitar a violência que se esconde atrás de suas fardas.

terça-feira, 6 de maio de 2008

O show da vida

É simbólico que o programa Fantástico, da Rede Globo, tenha sido o escolhido pelo casal acusado de matar sua filha e pelo jogador Ronaldo para se explicarem. Fantástico, "o show da vida", já teve a maior audiência da televisão brasileira, em tempos menos complexos que o atual. A Rede Globo também já foi mais importante do que hoje, quando se mostra incapaz até de derrubar um presidente da República.
Mesmo assim, o casal e o futebolista resolveram passar pelo detector de mentiras televisivo, expondo fraquezas que, para os pais da menina morta poderiam significar a prisão definitiva, e, no caso do atleta quase aposentado, o melancólico adeus aos dias de glória.
Isso porque, dizem os entendidos, o olho eletrônico desnuda de tal maneira quem a ele se submete que é impossível um mentiroso sobreviver ao seu poder. Será verdade?
Não faltaram especialistas para julgar o desempenho dos protagonistas do show da vida. E foram veredictos contraditórios, a revelar que o homem é sempre capaz de superar a sua criação. No caso, de usar o poder televisivo a seu favor.
Porque, no fim das contas, tudo se resumiu a isso: a Globo lutando para levantar sua audiência e os três entrevistados justificando o injustificável.
Terminado o espetáculo, tudo continua como antes. Nenhum aspecto novo foi levantado que pudesse mudar convicções, nada objetivamente se alterou, além do fiapo momentâneo de emoção que se pretendeu introduzir na seleta platéia.
É mesmo fantástico o modo como se comporta a dona dos corações e mentes de milhões de brasileiros.


sexta-feira, 2 de maio de 2008

Novela das oito

A atitude foi surpreendente. Ninguém esperava que o Príncipe colocasse toda a sua admirável energia e capacidade de trabalho a serviço do candidato Geraldo Alckmin. Bem, não foi exatamente assim - FHC apenas declarou que apóia a pretensão de Geraldo ser o candidato tucano à eleição municipal paulistana. Mas partindo de quem partiu é como se as portas do céu tivessem se aberto para o ex-governador. Afinal, todos sabem que o Príncipe, quando disposto, é capaz de tanto influenciar quanto mobilizar seus súditos.
Ungido com tais bençãos, Geraldo fala grosso, exige definições, cobra responsabilidades. Mas no íntimo, sabe que nada mais resta a ele que fincar pé numa posição que se mostra a cada dia mais insustentável. Seu grande rival entre os tucanos, o governador José Serra, vive dias esplendorosos. O afilhado, prefeito Gilberto Kassab, colhe os frutos de uma administração asséptica, bem ao gosto da influenciável e conservadora classe média paulistana. Blindado pela mídia, vai recolhendo pelas ruas que mandou asfaltar nos bairros menos periféricos, os votos antes destinados a Geraldo.
A novela da sucessão em São Paulo deve se estender por mais vários capítulos. É certo que as histórias paralelas não têm os atrativos da narrativa principal. Carecem de personagens mais carismáticos e complexos. São como um filme neo-realista em preto e branco dentro de uma superprodução holywoodiana em technicolor. Decerto guardam algum interesse, mas apenas para telespectadores de faro apurado.
Mesmo assim, não se deve esquecer que podem, numa dessas ironias do destino, sobrepujar os atuais protagonistas.
Neste Brasil que avança aos trancos e barrancos, ainda vale o velho ditado que diz que de barriga de mulher, cabeça de juiz e urna de eleição nunca se sabe o que vai sair.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

País do futuro

Em meio à polêmica criada por alguns setores protecionistas europeus e pelo lobby do petróleo sobre a influência do etanol na alta global de alimentos, o Brasil recebeu a nota de investimento seguro de uma das três agências mundiais de classificação de risco. Falta ainda a certificação das outras duas, mas todos sabem que isso é apenas uma questão de tempo.
O chamado mercado reagiu de imediato à notícia e seus analistas iniciaram prontamente as contas de quanto dinheiro o país deve receber nos próximos anos. É uma montanha, ainda incalculável.
Mas o que os dois fatos têm a ver com o cidadão comum, o brasileiro que vive seu dia a dia driblando as faturas em atraso?
Pode ser que num primeiro momento a sua vida não seja mesmo muito afetada. Mas em um prazo não muito longo, o Brasil vai se constituir numa potência energética, pois o ingresso do biocombustível na matriz combustível é irreversível, assim como o crescimento da produção petrolífera - o suficiente para que grande parte seja exportada. E esse cenário não exclui - pelo contrário - a vocação natural do país de produzir alimentos em gande escala. Há terra, tecnologia e mão-de-obra de sobra para isso.
Já a fortuna que deverá entrar via fundos de investimentos, de uma maneira simplista, irrigará a economia como um todo. Os resultados são positivamente óbvios.
Durante muito tempo se ouviu dizer que o Brasil é o país do futuro. Talvez esse futuro esteja finalmente chegando, apesar da preces em contrário de uma minoria desesperada em manter privilégios conquistados à custa do sofrimento da grande maioria.