domingo, 6 de abril de 2008

À base de idéias

Político brasileiro não costuma dizer o que pensa. Geralmente, se esquiva de definições mais precisas sobre sua ideologia. Se é de direita, se proclama um liberal ou, num aorrubo de extremismo, um social-democrata. Não importa o nome de seu partido. Até o PFL com seus notórios defensores da ditadura militar instaurada em 1964 mudou o nome para Democratas - um acinte a qualquer democracia.
São raros os políticos no país que, além de assumir suas posições ideológicas, se dispõem a discutí-las publicamente.
Não fazem porque não querem. A internet é um excelente meio para que seus eleitores fiquem sabendo o que eles acham disso ou daquilo ou, simplesmente, de que lado estão no jogo do poder.
O deputado federal José Genoíno é uma dessas exceções. Até assumir o cargo de presidente do PT foi um parlamentar elogiado por companheiros e adversários. Com a ascensão do partido à presidência, viveu a experiência de estar sob os holofotes pelo que fez, pelo que deixou de fazer e pelo que não fez.
A história do tal mensalão poderia ter arruinado sua carreira política. Foi preciso que entendesse que a sedução dos altos cargos é ilusória para que lhe fosse dada uma nova chance no Parlamento. Oportunidade que, parece, está sendo bem aproveitada.
Genoíno, ao contrário da maioria dos colegas, que usa a internet apenas como uma placa de publicidade estática, montou um site dinâmico e interativo, no qual se tem uma noção clara de seu pensamento político.
O caminho que percorreu desde os tempos em que era solicitado pela fina flor da imprensa conservadora - foi articulista do Estadão e figura freqüente do noticiário da Globo - até o linchamento público por parte dos mesmos veículos, de 2005 em diante, já foi relatado no livro "Entre o Sonho e o Poder", de Denise Paraná.
Mas quem quiser uma versão abreviada da carreira política e do que pensa e faz hoje o deputado José Genoíno pode ficar com a entrevista que deu à revista "Fale!", de Fortaleza, republicada em seu site. É uma boa amostra de que política se faz, fundamentalmente, com base em idéias - e é do seu debate que surge a luz.
Vai, a seguir, um trecho da entrevista. Cachaça da boa antes do almoço:
"Eu sou militante de esquerda, me baseio nos valores do socialismo democrático. Eu acho que a esquerda brasileira tem que recolocar a idéia da utopia, do sonho e do seu projeto de disputa política na sociedade. Nós vivemos numa era em que a barbárie, a 'coisificação', a quebra das utopias, as decepções e frustrações, devem ser enfrentadas pela esquerda. Nem é o socialismo autoritário, nem o deus do mercado. Eu acho que devemos buscar o resgate do caminho da cidadania, dos direitos coletivos e individuais e de uma idéia de uma sociedade justa. A esquerda deve partir da busca da igualdade social nos marcos da radicalização da democracia. Tanto o PT, como o PCdoB, como o PSB, como o PDT, e as personalidades que giram em torno do ideário de esquerda, deveriam fazer um debate de mérito. O debate político brasileiro está rebaixado."
Quem discorda dele pode mudar facilmente de opinião com a cobertura dos jornalões e assemelhados sobre o eletrizante caso dos cartões corporativos. Aja estômago!

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Artilharia pesada

Nossos parlamentares vivem mesmo no melhor dos mundos, a perfeição panglosiana.
Pois em que país um senador, que prefere ser chamado pelo ridículo apelido de Mão Santa, pode se referir a uma ministra de Estado como "galinha carcarejante" e ter apenas de enfrentar alguns protestos chochos de colegas da ala feminina?
E onde um outro senador, cabelos pintados, boquirroto e verborrágico, pode repassar à imprensa marrom informações sigilosas da Presidência da República e ainda ser quase elevado às alturas de um notável patriota?
Todos sabem que o país se encontra em meio a um pesadíssimo jogo de poder, no qual o vale-tudo parece ser a regra. Mas mesmo as guerras costumam ter seu código de ética, embora sua razão seja aniquilar o inimigo.
Contra tal espécie de adversário, a melhor tática talvez seja deixar de lado a velha escola militar francesa, de fogo pontual e calculado, e adotar de vez os conceitos americanos, de se impor no campo de batalha por meio da artilharia pesada.
Gasta-se muita munição, mas os resultados são mais seguros.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Espinho no bolso

Como prometeu, o PT apresentou na Câmara dos Deputados projeto para criar um imposto sobre as grandes fortunas. Pelo texto, quem tem patrimônio superior a R$ 10,98 milhões será taxado com alíquotas que variam de 0,5% a 1%.
Segundo o líder do PT na Câmara, Maurício Rands (PE), a estimativa é de que 10 mil famílias paguem o tributo - o que corresponde a 0,04% do total de contribuintes que declaram IR no país. A arrecadação estimada é de R$ 5 bilhões por ano e seria usada para custear a seguridade social (saúde, previdência e programas assistenciais, como o Bolsa Família). "Vamos chamar os ricos para contribuir com uma parte ínfima do seu patrimônio para reduzir a desigualdade do país'', disse.
A oposição não cansa de reclamar da carga tributária. Mas, por enquanto, ninguém se arriscou a bombardear radicalmente o projeto. Será difícil para demos e tucanos se colocarem inteiramente contra a proposta. Assumir tal posição em momento eleitoral traria prejuízos. Afinal, ser contra impostos que atingem pobres, classe média e empresas é uma coisa. Se colocar contra tributos que pegam os milionários é outra, bem diferente.
A primeira iniciativa parlamentar para taxar as grandes fortunas partiu do então senador Fernando Henrique Cardoso. Hoje, FHC não se mostra tão entusiasta da idéia. Mais uma vez ele pede para que esqueçam o que escreveu. O líder tucano na Câmara, José Aníbal, diz que o projeto petista tem "DNA" do PSDB. Mas também admite que dificilmente FHC apresentaria a proposta hoje: "Ele não teria o ímpeto que teve lá atrás.''
A discussão sobre o projeto deve ser intensa. Para nossos parlamentares o tema é polêmico. Na verdade, é espinhoso.
Eles terão de decidir entre assumir uma posição que será aplaudida pela maioria da opinião pública e dos eleitores ou entre outra que não afetará nem seus bolsos ou de seus patrocinadores.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Abobrinhas à moda da casa

Sempre disposto a criticar o governo Lula, o cientista político Leôncio Martins Rodrigues salvou mais uma pauta do Estadão. Bastou o vice-presidente, José Alencar, falar que acredita que o povo quer Lula mais tempo no poder para Rodrigues voltar ao seu tema favorito: o terceiro mandato presidencial.
Para ele, a manifestação de Alencar é mais uma prova de que sua tese é verdadeira: Lula não só ambiciona, mas trabalha dia e noite pela continuidade no poder.
Se o presidente viaja, diz Rodrigues, é porque ele está em campanha. Se ele reiteradamente nega qualquer intenção de ganhar um novo mandato, é porque "o grande líder político deve saber despistar e esconder seus verdadeiros objetivos".
Entre as provas "indutivas" que lista inclui uma pergunta: "Para onde irão os ex-sindicalistas se o PT perder o governo federal? Para suas antigas ocupações é que não." E acrescenta um elemento factual para tornar sua teoria ainda mais plausível: "Lembro-me que o presidente, quando ascendia como grande líder sindical, declarou diversas vezes que nunca seria candidato a nada porque não tinha jeito para política..."
Uma entrevista notável, sob vários pontos de vista. E didática.
Mostra, por exemplo, como é fácil fazer esse tipo de "jornalismo" que prolifera nas páginas dos jornalões e na internet. A agenda de telefones dos setoristas está cheia de nomes de "especialistas" dispostos a falar, a qualquer hora, a qualquer dia, sobre seus temas prediletos.
Não faz mal que o repórter já saiba de antemão o que o entrevistado vai responder ou que a conversa seja desprovida de qualquer conteúdo mais profundo. Basta identificar quem fala com um título qualquer (cientista social é bom; filósofo, melhor ainda; professor já serve) e depois de meia hora de bate-papo, extrair algumas frases que dêem um título aceitável.
O prato está pronto para ser servido. Não importa que seja só de abobrinhas.